O espelho de Arret
2 Capítulo 1
Notas iniciais
— O quê? — Eu podia ver a fúria gélida nos olhos de meu pai.
Minha mãe bateu as mãos contra a mesa de madeira, levantando-se. Eu nunca os havia visto tão irritados. Como era habitual de nossa espécie, eles sempre estavam controlados, com seus sentimentos reprimidos nas palavras baixas e calmas.
Mesmo quando estávamos em período de guerra, ou quando nossos suprimentos eram saqueados por Anões, eles não perdiam a compostura; e eu acabara de conseguir fazê-los explodir em fúria.
— Você já quebrou as regras quando usou seu Espelho como um brinquedo, Analu! Agora querer se revelar para o Espelho de outro é como nos forçar a uma sentença de morte para nossa própria filha!
Eu revirei os olhos por dentro. Se fizesse isso realmente, minha mãe colocaria nossa casa abaixo, já que sempre destacava ser coisa de humanos e que isso a fazia se lembrar que eu passava tempo demais no mundo deles.
O mundo dos humanos era uma dimensão paralela à nossa. Todos do nosso mundo tinham correspondentes no mundo deles, que chamávamos de Espelho, uma espécie de doppelganger1. Eu havia descoberto sobre eles enquanto dormia, quando liberei meu poder acidentalmente e acabei abrindo meu cordão — uma corrente de prata com um pingente de um livro com tranca, que todos da nossa espécie possuíam.
Quando acordei, estava em um mundo completamente diferente, com uma voz idêntica à minha gritando coisas em minha cabeça como se estivesse em pânico. Luana, minha Espelho, não passava de uma consciência presa a um corpo que era controlado por mim. Nos conhecemos e nos tornamos amigas quando eu finalmente consegui acalmá-la e a convencer de que não estava sonhando.
Luana tinha uma vida clichê. Era de uma família rica, estudava numa escola reconhecida nacionalmente e fazia vários cursos durante seu tempo livre. Mas (e como todo clichê tem o “mas”), com as lembranças que compartilhava comigo, pude ver que era muito solitária — eu não poderia ter me surpreendido com essa nossa semelhança. Como se não bastasse o fato de que nunca via os pais, era tão tímida que não se aproximava de ninguém que pudesse ser seu amigo.
Acabei ajudando-a sem perceber. No começo, eu apenas não me importava: estava em outro mundo e nada que eu pudesse fazer de errado, qualquer rejeição que recebesse ou coisa do tipo, não me afetaria, então acabei fazendo um grupo de amigos. Luana me mostrava suas memórias e eu as utilizava como necessário, era como um banco de dados que eu podia acessar a qualquer momento.
Não sabia como voltar, então dormi por dias em Arret, presa à Luana; por esse motivo, nosso povo desconfiou que eu estivesse no Espelho de Arret. O argumento de meus pais para que eu não fosse severamente punida pela lei era que eu havia feito tudo isso dormindo. Funcionou, e eles foram obrigados a contratar um mestre para que me fosse ensinado o controle daquele poder, a fim de não quebrar as leis por acidente mais uma vez.
Foi quando comecei a quebrar a lei por vontade própria. Se os Espelhos existiam e podíamos entrar em contato com eles, se todos possuíam os cordões que eram o portal para o mundo humano, por que seria errado fazer o que eu estava fazendo?
Comecei a passar mais tempo no mundo humano que no meu próprio. Era um lugar com comidas boas, tecnologia, e pessoas divertidas e relaxadas. Um mundo no qual as pessoas viviam pelos sonhos.
Assim, meus pais não demoraram a descobrir. Por medo do que pudesse acontecer comigo, e percebendo que não conseguiam me impedir, também fingiram não saber de nada. Quando vez ou outra eu discutia com o pai, ele dizia que aquilo era um teste: nós tínhamos o poder de viver outra vida, controlar um outro ser completamente inocente; e deveríamos conseguir não ceder à tentação. Ele parecia um fanático religioso, como falavam no Espelho de Arret. Só que eu não podia acreditar naquilo quando nosso povo estava deixando toda a tradição de lado e parando de adorar a Árvore da Vida, que deveria ser o nosso deus, nosso protetor.
Talvez meus pais deixassem eu fazer o que quiser porque também já não acreditavam mais na Árvore.
Naquele dia em que tirei meus pais do sério, eu havia pedido para perguntar a um humano se ele mantinha contato com seu correspondente elfo — o nome no mundo humano dado a uma raça fictícia que mais se assemelhava à nós, os Seres da Natureza. Entretanto, aquela ideia para meus pais aparentemente era o fim do mundo.
Há meses eu conhecera Lucas. Ele era novato na cidade de Luana e então incluí ele nos meus amigos rapidamente. Ela — e eu também — achava que era algo legal de se fazer depois de ter passado tanto tempo sozinha.
Em questão de semanas Lucas havia se tornado meu melhor amigo. Aliás, o melhor amigo de Luana. Eu nunca havia visto em meu mundo algo como aquilo que estava sentindo, e sabia que não podia me relacionar com um humano. Até podia, mas a verdade é que seria Luana quem estaria com ele; na Terra, eu era só uma existência incorpórea. Além do fato de que, obviamente, Luana também estava apaixonada por ele, e eu achava que já havia chegado a hora de deixar ela continuar a vida sem a minha ajuda.
Eu só voltaria mais uma vez, para descobrir pelo menos qual era o nome de Lucas em Arret. Qualquer pista sobre como encontrá-lo. Mas meus pais não deixariam, a não ser que...
— Pedirei a permissão pessoalmente à Árvore da Vida. Sei que vocês provavelmente não acreditam mais nela, mas pelo menos ainda obedecem suas regras.
Outra lei infringida, ops. Só podíamos nos aproximar da Árvore nos festivais. Algo sobre sermos consumidos por seu grandioso poder se não seguíssemos os rituais. Eu sei que era apenas uma rebelde sem causa nesse exato ponto da história, mas não julguem com tanta severidade, todos estamos suscetíveis a fazer loucuras por amor e logo o cenário seria completamente modificado.
— Ela está petulante e desobediente como os humanos, Urbe. Deveríamos tê-la punido enquanto ainda era uma de nós — argumentou minha mãe.
— Não podemos voltar atrás agora, mas também não permitiremos que caminhe para a morte. A Árvore está mais instável do que nunca.
— Mamãe, papai, eu não estava pedindo permissão.
Abri um sorriso divertido, mostrando meus dentes ligeiramente afiados; concentrei a Energia crescente na sola de meus pés e disparei a correr. Ainda ouvi meus pais gritarem meu nome acima do rugido do vento em meus ouvidos.
Antes de sair, estendi minha mão para a aljava pendurada na parede ao lado da porta e então saltei para o nada. Soltei uma gargalhada enquanto sentia a adrenalina me preencher e a sensação de que eu cairia infinitamente. Podia sentir olhares em minha direção, era sempre assim que reagiam. Há décadas nosso povo não sabia o que era sorrir. Eu tinha pena deles. Endireitei o corpo segundos antes de cair na água fria, minha risada se espalhando como se houvessem milhares de crianças soltando gargalhadas.
Nosso vilarejo era um dos lugares mais bonitos do meu mundo. Ou pelo menos era isso o que me diziam. Do grande lago de água cristalina emergiam grossos troncos de árvores tão altos que quase alcançavam as nuvens. Em certo ponto, eles se abriam em galhos compridos e retorcidos, que então se fechavam mais uma vez um pouco mais acima, formando uma espécie de bolha de madeira. Aí era onde entalhávamos nossas casas.
Da janela do meu quarto eu assistia o sol se pôr no horizonte, colorindo até os peixes sob a água de tons de laranja e rosa.
Com minha audição aguçada, já podia ouvir a movimentação do vento enquanto meus pais vinham atrás de mim em alta velocidade. Pendurei a aljava em minhas costas e dessa vez concentrei Energia nos braços também, nadando em direção à terra firme; eu tinha a vantagem de ser extremamente habilidosa para minha idade, mas em nosso povo os mais velhos tinham mais poder e meus pais, sendo o rei e a rainha dos Seres da Natureza, eram especialmente ágeis.
Enquanto corria, chamei Arco, esperando que ele me alcançasse antes que eu chegasse às casas terrestres, onde deveriam ter guardiões da Árvore já armados por um aviso telepático de minha mãe.
Na velocidade de minha corrida, meu cabelo secou rapidamente e esvoaçava alegremente ao redor do meu rosto. Havia isso também. Os Seres da Natureza sempre mantinham seus cabelos longos, de forma que eles caíam lisos e pesados por suas costas, então meu pai surtou quando cortei os meus na altura do queixo. Luana havia me deixado adquirir o novo visual no mundo humano e eu quis fazer no meu também; não era possível que a Árvore realmente se importasse com algo tão banal, tampouco éramos Sansão e sua força capilar.
Soltei uma risada, ultimamente eu até pensava como os humanos. Meu pai me mataria se tivesse acesso aos meus pensamentos, mas, para o bem e felicidade de todos, eu era especialista em bloqueio telepático.
Quando ouvi o zumbido familiar, estendi a mão direita e Arco chegou até ela em alta velocidade. A maioria de nós sabia controlar a aceleração de seu arco para que ele estivesse parado quando chegasse de encontro às nossas mãos, mas eu tive que me acostumar a não perder o equilíbrio quando o meu vinha como se estivesse numa maratona de superpoderes; aparentemente, Arco era tão descontrolado quanto a dona.
Nossos arcos tinham vida e consciência própria. Não falavam ou coisa do tipo, mas tomavam decisões para a proteção de seus donos. Quanto mais habilidoso o dono, mais sábios os arcos eram.
Quando completávamos o treinamento inicial — que fazíamos com pedaços de madeira bobos e sem vida —, passávamos o Festival de Outono fazendo nossos próprios arcos ao redor da Árvore da Vida com madeira fornecida de seu coração. No último dia do festival, meu pai mergulhava, durante uma cerimônia, cada um deles em um icor prateado também vindo da Árvore; nós estendíamos os braços e chamávamos os arcos pela primeira vez, dando-lhes seus nomes.
Os arcos geralmente tinham nomes com significado, em alguma língua diferente ou qualquer coisa assim. Mas eu nomeei o meu simplesmente de Arco. Eu não sei se o comportamento dele inicial foi por raiva ou divertimento, mas ele veio tão rápido até mim, que fui a única a cair de bunda no chão durante a cerimônia.
Sempre tive uma ótima imagem como princesa.
Arco era meu único amigo, mas tinha uma personalidade terrível. Se soubesse falar, garanto que só saberia gritar comigo. Com esse pensamento, ele zumbiu em minha mão numa espécie de gargalhada.
Quando avistei os guardiões, parei de uma só vez, controlando meu corpo para que não fosse lançado para frente. Eles já estavam em uma batalha. Para dizer a verdade, eram cinco contra um, e haviam cinco outros amarrados e desmaiados no chão.
Alfud virou os olhos na minha direção apenas por um instante e então desviou de uma flecha que foi atirada contra seu arco. O elfo era amigo de meu pai há séculos, e vê-lo quase ser atingido me fez tomar a decisão.
Puxei uma flecha da aljava e apoiei no Arco.
— Vamos lá, Arco, sei que estamos longe, mas conseguimos. E, por favor, tente não matar ninguém.
Arco zumbiu em resposta. Era sério quando se tratava de atirar.
Alfud! Gritei mentalmente. O guardião respondeu ao meu chamado e investiu contra o invasor, que se movimentou em resposta, ficando exatamente na minha mira. Respirei com calma, endireitei os ombros e o peito, e atirei.
A flecha voou com força e velocidade, atingindo a capa do estranho e o prendendo contra a cerca alta que separava a árvore das casas terrestres. Alfud lançou mais duas flechas, prendendo também seus braços.
Esquecendo-me completamente do porquê de estar ali, corri até lá e observei se havia feridos. Para minha surpresa, o invasor não havia machucado ninguém, pois todos pareciam apenas adormecidos. Magia, aquilo era coisa dos Anões.
Arco tremia violentamente, e consegui apenas estender a mão livre no último segundo antes do arco negro do invasor se encaixar a ela. Uma sensação quente subiu por meu braço e franzi o cenho. O arco era familiar, a forma era familiar, até o cheiro que eu sentia vindo dele era familiar.
Levantei os olhos no mesmo instante que Alfud derrubou o capuz do estranho. E dei de cara com Lucas.
Nós nos olhamos por segundos. O garoto era ainda mais charmoso com as orelhas pontudas e o cabelo negro comprido. Embora no mundo humano ele tivesse simples olhos castanhos, ali eu via lascas esverdeadas e avermelhadas que recortavam suas íris como se fossem pedaços de vidro, eram os olhos élficos mais lindos que já tinha visto.
Eu pude sentir meus pais emergindo da floresta atrás de mim quando Lucas desviou o olhar, fitando o chão por um instante. Eu pude sentir a Energia que ele acumulava antes de vê-lo se movimentar. Em alta velocidade, livrou-se da capa e se pôs atrás de mim, levando uma lâmina anã até meu pescoço.
— Irei até a fronteira do Vilarejo sem que ninguém me siga, ou a princesa de vocês morre.
Eu queria dizer que era a princesa dele também, mas isso seria irrelevante. Meu coração estava disparado, e eu não sabia se porque ele estava ameaçando minha vida ou porque seu tórax se aconchegava às minhas costas.
Quando os caras usavam as pessoas de refém, realmente ficavam tão próximos? Lucas — ou seja lá qual era o nome dele no meu mundo — me mantinha encaixada contra seu corpo quase protetoramente. Podia sentir a Energia concentrada em sua mão, como se ele tomasse o cuidado de não me acertar acidentalmente.
Por que você quer ir para a Árvore? Indaguei mentalmente, abrindo espaço em meu bloqueio para que só ele pudesse me ouvir e me responder.
Não houve resposta. Tentei entrar em sua cabeça, mas a sensação que eu tinha era a de imergir em um muco pegajoso e escuro. Tudo que conseguia captar eram clarões, como se ele estivesse se esforçando para se concentrar.
A tensão era evidente. Meus pais deviam estar calculando o que deveriam fazer. Todos deviam. Lucas foi o primeiro a se movimentar, puxando-me junto com ele pela cintura.
Eu vi o desespero contido nos olhos de minha mãe enquanto era afastada. Ninguém nem mesmo respirou enquanto saíamos de suas vistas.
Minha mãe era a maior telepata da espécie, de forma que sua habilidade alcançava toda a região do Vilarejo. Eu sabia que esperava que eu abrisse a mente para que ela nos vigiasse até que Lucas se fosse, mas eu queria ficar sozinha com ele, literalmente.
Enquanto andávamos, via sentinelas adormecidos para todos os lados. Era assustador que Lucas sozinho tivesse lutado contra tantos, usado tanta magia, e nem sequer aparentasse fadiga. Eu queria saber como ele suportava causar tanta dor a si mesmo para não ter que matar todos aqueles Seres da Natureza. Me peguei admirando-o.
Chegamos até a estrada de pedras e então paramos antes de atravessar o arco de entrada. O Vilarejo era completamente rodeado pelas raízes da Árvore da Vida, de forma que dentro dos limites estávamos protegidos contra a morte. Provavelmente por esse motivo nosso povo deveria estar entrando em pânico: se outro protegido pela Árvore atentasse contra nós, o que aconteceria?
Mas Lucas me manteve dentro dos limites, o que me fez pensar se havia algum perigo lá fora. Ele abaixou a lâmina e me virou de frente para si, colocando a mão sobre minha testa.
Senti seus braços me amparando quando meus joelhos cederam e ele me deitou gentilmente contra uma árvore. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas seu sorriso foi como uma canção de ninar antes que eu caísse completamente no sono.
*Doppelganger: criatura fantástica de uma lenda germânica que tem a capacidade de tornar-se o clone idêntico de alguém, física e psicologicamente.
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