O espelho de Arret
3 Capítulo 2
Notas iniciais
O susto colocou-me sentada repentinamente. Sabia que estava no mundo humano por causa do peso e do vazio em meu corpo, mas via apenas uma iluminação fraca e avermelhada vinda de algum ponto do chão.
Luana ainda estava apagada no fundo de minha mente, e achei melhor não acordá-la para contar as novidades.
Demorei a perceber que não estávamos em casa. Meu cenho se franziu automaticamente enquanto eu observava o lugar à meia-luz. Não precisei ver o espelho no teto para reconhecer um motel.
Minha cabeça latejava de tal forma que parecia que havia levado uma martelada de Anão, e meu estômago estava meio estranho.
— O que aconteceu, Luana? Eu passei dois dias fora — sussurrei.
Não havia mais ninguém ali. Joguei as pernas para fora da cama para levantar e observei um bilhete pousado ali. Puxei-o para mim.
As letras se embaralharam à minha frente antes que eu conseguisse realmente ler: a noite foi maneira, gata. Quem sabe a gente não se diverte assim de novo outro dia?
O que eu havia perdido? Não fazia sentido. Luana também estava apaixonada por Lucas, não estava? Mas nada daquilo parecia compactuar com ele. E "gata"? Quão idiota podia ser uma pessoa que falava assim?
"Ana?" Ouvi a garota me chamar meio entorpecida.
"O que aconteceu?" Ela soltou uma risada abafada, eu podia ver que se sentia eufórica.
"Lucas me mostrou umas coisas, tipo, muito legais. Nós fomos à Mystic ontem e..."
"Mystic?" Eu estava exasperada. "Naquela boate onde a maconha está no ar e a heroína na veia?"
"Ah, sim, sim. Mas foi divertido, nós tomamos alguns drinks e dançamos juntos, e descobri que, além de tudo, Lucas também sabe ser muito maneiro. Daí nós meio que nos empolgamos por causa do álcool e eu chamei ele pra vir pra cá, porque eu sempre ouvi falar super bem daqui — sabia que tem até um balanço aqui na suíte de luxo?! Embora eu não saiba para quê —, e daí nós meio que... você sabe."
Eu sabia que ela era suscetível a ideias, não sabia que era tanto.
"Eu ouço o que você pensa, sabe? Estou tomando minhas próprias decisões, Analu. Você pode quebrar as regras no seu mundo, mas no meu mundo quer que eu faça tudo do jeito que a sociedade julga ‘certo’. Lucas ontem pareceu alguém completamente diferente, e quer saber, eu curti, talvez eu só gostasse do jeito dele antes por sua causa. O que me preocupa é se ele ficou daquele jeito porque estava com alguém da sua espécie no corpo, então seria como se estivéssemos nos mundos errados, não acha? Quanta..."
Fui puxada bruscamente para Arret naquele exato instante. Fiquei olhando o teto e ignorei o suspiro pesado de meu pai. Estava meio perdida, em parte por não entender ainda o que havia acontecido no mundo humano e em outra por saber que tudo que Luana falara não havia passado de verdades, eu não tinha o direito de questionar quaisquer ações dela naquele momento. Ela não havia feito nada de errado, também. Provavelmente era apenas um incômodo por ela ter feito algo sem mim. Ou um pouco de inveja, talvez?
— Analu? — A voz de minha mãe estava tão amaciada e gentil que virei a cabeça em sua direção, enrugando as sobrancelhas.
Ela nem reclamou que aquilo era hábito humano, apenas se sentou ao meu lado na cama e segurou minhas mãos.
— O que aconteceu? — indagou, preocupada.
— Nada. Lu... O intruso me colocou para dormir e eu fui parar no mundo humano. Imagino que meu pai tenha me trago de volta.
Ela acariciou meus dedos gentilmente, era uma sensação estranha. Suas mãos eram geladas e ossudas contra as minhas.
— Não sabíamos o que tinha acontecido, então te mandamos para o outro lado rapidamente enquanto procurávamos feridas físicas.
Eu queria dizer que aquilo não fazia sentido, mas a próxima pergunta saiu antes que eu pudesse me segurar.
— Por que eu não senti dor? Aquele garoto usou magia em mim, não foi? Então por quê?
Os lábios de minha mãe se repuxaram para baixo nos cantos. Eu quase resolvi ignorar o que ela diria, já sabendo que seria uma enxurrada de mentiras.
— Ele não usou magia de sono. Apenas concentrou a Energia dos corpos de vocês para matá-los. Sua sorte foi que chegamos a tempo. Todos os outros que ele tocou, morreram.
Eu pisquei algumas vezes. Minha boca ficou aberta numa frase não dita. Mortos? Os pensamentos se emaranharam em minha cabeça. O que minha mãe havia dito era, com toda certeza, uma mentira, ela tinha aquele maldito cacoete imperceptível quando o fazia. Mas então o que era mentira? Não havia como mentir sobre a morte de Seres da Natureza, afinal eu os veria no Vilarejo. Só podia ser a parte sobre magia, mas por quê?
— Eu... — Meus pais pareciam ansiosos, havia algo extremamente errado com eles. Desviei o olhar de um para o outro. — Eu vou dar um mergulho. Estou com um pouco de dor de cabeça, vai ser bom. Quando é a cerimônia dos corpos?
— Hoje à noite. — Foi meu pai quem respondeu.
~~~
Respirei fundo e imergi na água. Nadei até o fundo e observei os corais coloridos e brilhantes. Então concentrei Energia até boiar, fechando os olhos enquanto os últimos raios de sol do dia esquentavam minha pele.
Os funerais seriam à meia noite, de forma que eu ainda tinha tempo. Comecei com os questionamentos.
Quem era o “elfo-Lucas”? O que ele queria com a Árvore da Vida? Por que havia matado os outros e não à mim? Por que seu arco reagira à mim? Por que havia ido até o mundo humano e se relacionado daquela forma com Luana? Como podia haver Seres da Natureza fora do Vilarejo? E por que minha mãe estava mentindo sobre a magia?
O último pensamento, e o mais decisivo de todos, foi a percepção de que deveria ser impossível um de nós ser assassinado dentro dos limites do Vilarejo.
Acabei afundando quando perdi a concentração. Eram muitos por ques para poucas respostas. Já estava nadando em direção à terra firme antes que tivesse tomado totalmente a decisão.
Arco me alcançou sem que eu o chamasse assim que saí da trilha e adentrei a parte mais escura da floresta. Era um ponto em que as raízes grossas se amontoavam de tal forma que precisávamos viajar pelos galhos altos.
A Energia foi direcionada para os saltos e segui meu caminho pelo cheiro. Eu nunca o havia visto. Diziam que ele odiava a presença dos outros Seres da Natureza desde que havia se isolado. Mas ele era o único que tinha idade suficiente dentre nós para me dar respostas além de meus pais. Na última batalha, os anciãos haviam se sacrificado para salvar as crianças.
Duas janelas brilhavam como se fossem um par de olhos fantasmagóricos em meio à escuridão. Saltei para a varanda de madeira e fiquei ali sem saber bem o que fazer. Era a primeira vez que via uma casa voadora fora das águas.
Antes que eu pudesse pensar no que fazer a seguir, a porta se abriu, e um enorme, gigante, extraordinariamente alto Ser da Natureza saiu da casa. Eu era considerada de estatura baixa entre meu povo com 1,95m; mas aquele cara parecia ter quase 3 metros, e isso era muito, mesmo para nós. Senti meus joelhos tremerem. Com a falta de luz, tudo o que eu via era uma longa barba e pequenos olhos arroxeados como os meus que me fitavam de cima.
Um clique e tudo se iluminou. Meu queixo caiu. Para começo de conversa, o homem gigante sorria largamente na minha direção. Depois disso, notei que as duas janelas de sua casa — coincidentemente ou não — formavam o contorno de um grande coração de madeira. Então veio o cheiro. Era o cheiro de cookies. E aquilo só devia existir no mundo humano.
— Estava realmente começando a achar que iria morrer antes de ver a minha netinha crescida. Gostei do corte de cabelo, Analu. — Um de seus olhos brilhantes piscou para mim antes que ele entrasse novamente na casa, fazendo um gesto para que eu o seguisse.
Demorei um pouco para absorver o lugar no qual entramos. Era uma biblioteca, com quase tantos pergaminhos quanto a biblioteca da nossa academia. Tochas parecendo bem perigosas perto de tantos papeis se espalhavam pelo local e forneciam luz e calor. Dois sofás individuais estavam lado a lado em um canto, e meu avô sentou-se em um deles, mais uma vez me ordenando com gestos para que sentasse no outro.
Dei um passo antes de ficar paralisada. Uma cabeça peluda se levantou e me fitou com olhos negros. O focinho farejava o ar, eu não sabia se com curiosidade ou fome.
Dei um salto quando o velho deu batidinhas carinhosas na cabeça do lobo albino e soltou uma gargalhada.
— Você se lembra dela, não é, amigo?
Eu não sabia o que aquilo significava, mas não me deixava menos tensa.
O lobo levantou e sacudiu o pelo. Veio lentamente até mim e, antes que eu pudesse sair correndo, abaixou a cabeça sobre meus pés, me observando com olhos quase carinhosos.
— Mas o que...?! — soltei.
— Você não se lembra, Analu? — indagou meu avô.
Balanceia a cabeça negativamente, estendendo a mão de forma receosa até tocar o pelo macio.
— Quando era criança, você fugiu de seus pais e atravessou os limites do Vilarejo. Você dizia que queria ser uma maga, imagine só, seus pais ficaram loucos. — Ele gargalhou. — Então voltou logo em seguida com um filhote de lobo machucado nos braços. Você disse que cuidaria dele de qualquer jeito. Devia ser a Criança da Natureza mais barulhenta existente. Eu falei a seus pais que ficaria com o filhote, e com todo aquele medo não sei de quê, o casal disse que me exilaria se eu fizesse isso. Obviamente eu vim morar aqui, falei com eles que esse povo arrogante e rabugento não é digno de ser chamado de Seres da Natureza, mas são dois cabeças-dura.
Ele alisou a barba por um instante.
— Gard, o lobo, ainda se lembra de você. Ele entendeu cada palavra que você disse aos seus pais para que pudesse ficar com ele, e há décadas esperou que viesse até aqui.
Me abaixei para acariciar o lobo com mais coragem. Cocei atrás de sua orelha esquerda, notando que ele só tinha parte dela — o fato me parecia familiar. Ele fechou os olhos e permaneceu quieto. Tudo no lugar era acolhedor, e me sentia mais confortável do que nunca. O mundo parecia estar ao contrário.
— Exilado? — Foi só o que consegui dizer.
— Ah, parece que seus pais resolveram me usar como história para assustar crianças. Mas volta e meia alguns de vocês ainda aparecem por aqui.
— Mas ninguém volta para o Vilarejo depois de vir até aqui — sussurrei.
— Isso mesmo, isso mesmo. Nós tomamos café, comemos cookies, conversamos, alguns lêem um pouco, e depois eles resolvem viajar pelo mundo. Por que ficar com um povo limitado como o nosso? Já fomos grandiosos, mas agora não passamos de seres decrépitos que nem crêem mais nas próprias tradições.
— Então existem Seres da Natureza lá fora? — indaguei com certa euforia.
— Apenas três. Se tornaram nômades e são proibidos de voltar ao Vilarejo. Mas eles não formam família, não têm amigos. Tudo o que lhes resta é a curiosidade. Não é isso que quero para você, minha criança.
— Então o que quer? — perguntei, olhando para o lobo e começando a puxar bem fundo na minha memória a sensação de segurar uma criatura minúscula e peluda nos braços.
Meu avô sorriu gentilmente e se inclinou para frente na cadeira.
— Quero que você salve o nosso povo.
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