O espelho de Arret
4 Capítulo 3
Notas iniciais
— Repita, por favor, acho que não entendi.
Alleph, ajoelhado aos meus pés, permaneceu me fitando com a mesma expressão. Em sua mão repousava um anel de noivado, que em nosso Vilarejo eram feitos do mesmo material prateado de nossos arcos.
— C-c-c-cas-se co-co-m...
— Ah, cale a boca — resmunguei. — Meus pais pediram a pessoa errada para fazer isso. Você sabe porquê eles te escolheram, certo? Te controlar é mais fácil que controlar um arco (embora essa seja uma péssima comparação em relação ao Arco), então o Rei e Rainha continuariam a governar o Vilarejo e à mim eternamente.
— Ninguém está me manipulando. Eu quero me tornar Rei, mesmo que tenha que aturar uma criatura mimada e que se envolve com humanos como você.
Arqueei as sobrancelhas. Na hora de me responder ele não gaguejava. Tive vontade de levar as mãos até seu rosto e amassar aquela expressão paralisada. Era ridículo expressar raiva sem mover um músculo do rosto e mantendo o tom de voz como se conversássemos casualmente sobre o tempo. Ele estava me estressando.
— Que seja, não vou me casar, gagueje o quanto quiser.
O garoto engoliu em seco.
— Relaxe, meus pais não vão te culpar, eles deviam saber desde o começo que isso não daria certo. — Me virei para o guarda-roupa entalhado na parede. — Vai ficar parado aí me olhando trocar de roupa feito um pervertido?
— Pervertido? — indagou sem entender.
— Só saia daqui — ordenei.
Depois que ele se foi, se atrapalhando com a aliança rejeitada, coloquei minhas vestes de luto. Ao contrário das roupas frescas e maleáveis de couro, para a despedida de companheiros da espécie utilizávamos vestes longas e prateadas, feitas de um tecido pesado. Elas cobriam todo o nosso corpo, e possuíam um capuz para esconder também nossos rostos. Devíamos recolher nosso corpo físico e sentir a dor da perda com nosso espírito, pois todos os Seres da Natureza eram conectados como um só com a Árvore da Vida.
Minha mãe veio ao meu quarto quando era quase hora de irmos para a margem do rio cristalino. Cuidadosamente ela trançou meu cabelo na delicada coroa de platina que me identificava como princesa. Era extremamente leve, quase como se não houvesse nada sobre minha cabeça, e uma joia prateada em forma de losango se apoiava no meio da minha testa. As mãos de minha mãe estavam firmes como sempre, mas havia algo de errado com ela; por mais que mantivesse a mesma expressão de sempre, parecia que eu podia sentir o ar vibrar ao nosso redor.
De repente me dei conta de uma coisa. Eu havia sentido aquela mesma sensação naquele dia mais cedo, depois de sair da casa de meu avô. Voltara me escondendo nas sombras e tive a impressão de ver alguém me seguindo por um momento, e naquele instante eu havia sentido essa mesma energia pesada. Era minha mãe que me seguira através da mata? Mas ela teria me confrontado, certo? Não verbalizei meus pensamentos, deixaria isso para o outro dia. Como Rainha, ela era uma das pessoas que mais sentia a perda de um de nós.
A Cerimônia de Despedida era bem simples. Todos os elfos vestiam seus trajes e se postavam nas portas ou janelas de suas casas, e aqueles que viviam em casas terrestres se espalhavam pela floresta escura de onde pudessem ter visão do rio. Apenas o Rei, a Rainha e eu permanecemos na margem, e empurramos, meia noite em ponto, canoas individuais com os corpos rodeados de flores prateadas em direção ao oceano. Ninguém sabia para onde as canoas iam, mas éramos proibidos de nadar para além da fronteira por ser território dos mortos, de forma que nenhum Ser da Natuteza ousava tentar descobrir.
Com as cabeças cobertas e abaixadas, emitíamos um cântico para a Árvore da Vida em uma língua arcaica que só era utilizada para realizar cerimônias tradicionais. Traduzindo à grosso modo, ela dizia mais ou menos assim:
Ó, Árvore, nos ouça, não chore por um filho que se foi
Ó, Árvore, o aceite, para fortalecer suas grossas raízes
Ó, Árvore, nenhum Ser da Natureza será substituído, mas novas gerações sempre virão para nos confortar
Um último adeus então àqueles que ficarão sempre em nosso único coração.
Deviam ser as palavras mais bonitas que nós, os elfos, recitávamos para outras pessoas em todas as nossas vidas, e elas ainda precisavam morrer para ouvir isso.
Ouvi o barulho da movimentação do vento enquanto todos rapidamente se deslocavam para o interior escuro de suas casas. Mas, para minha surpresa, minha mãe escorregou seu capus para os ombros, e sua coroa se destacou mediante o brilho da lua alta no céu. Era quase como se ela fosse envolvida por poder. Uma aura prateada a envolveu, e seus traços firmes e sua postura de rainha a faziam parecer o ser mais belo daquele mundo. Seus longos cabelos prateados brilhavam e se mexiam mesmo que não estivesse ventando. Para mim, era como se ela fosse uma deusa de uma crença humana.
Todos os elfos voltaram a atenção para nós, e o silêncio pareceu sufocante. Meu pai estava virado na direção dela, como se também estivesse confuso.
— Seres da Natureza, meu povo! — Ela ergueu os braços. — Sinto quebrar tal momento de tristeza para vós, mas preciso abrir meu coração aqui, antes que não mais aguente. Sua princesa, Analu, minha filha, cometeu um ato grave de transgressão às regras da nossa tradição!
Meu capuz caiu quando levantei a cabeça abruptamente para fitar seu rosto. O que ela estava dizendo? Pude sentir todos os olhos em mim e meu pai pareceu prender a respiração.
— O que significa isso, Illya? — ele indagou, e eu não pude ler sua reação com aquelas palavras ditas em tom indiferente.
Ela o ignorou, ainda correndo os olhos pelas casas aéreas.
— Sei que, como sua Rainha, deveria bani-la do Vilarejo Azul para sempre, mas peço que entendam como me sinto sendo mãe. Peço agora que aceitem outra sentença como punição: que ela seja aprisionada nos Cipós do Vento e devidamente ensinada até que possa vir a suceder a linhagem.
— O que? — meu pai e eu pronunciamos em uníssono.
Um frio subiu por minha espinha e meu corpo ficou completamente travado. Ela estava falando sério?
Os Cipós do Vento eram uma área ao sul do Vilarejo Azul. Lá as árvores eram tão altas que atravessavam as nuvens, de forma que era impossível enxergar suas copas, ou mesmo os galhos mais baixos. Porém, grossos cipós ficavam pendurados até quase atingir o chão, como se viessem do céu, e eles aprisionavam qualquer ser vivo que se aproximasse que não fosse o rei ou a rainha dos elfos. Ouvi dizer que, milênios atrás, quando Magos e Anões ainda eram aliados, o lugar era utilizado para tortura de traidores da raça.
— Espero a sua aprovação, como meu povo. Aceitarei a vossa sentença.
Os instantes seguintes foram agonizantes. Até a floresta parecia ter silenciado mediante aquele discurso. Meu pai parecia incrédulo demais para conseguir falar e o povo deveria estar pensando o que fazer. Para começo de conversa ela nem mesmo havia dito qual crime eu havia cometido, mas todos já deveriam estar pensando "então os boatos são verdadeiros, a princesa quebrou o maior dos tabus e foi para o mundo humano".
Som do vento em alta velocidade. Som de patas batendo rapidamente contra o chão de terra. Quatro patas, como se trotassem. Um uivo de dor e raiva que preencheu a noite.
Outro som veio quando os arcos foram invocados. Pontos brilhantes corriam para todos os lados enquanto os Seres da Natureza se armavam contra a ameaça que se aproximava.
Meu coração disparou no peito. Eu sabia o que, ou melhor, quem estava vindo. E centenas de flechas seriam lançadas em sua direção. Estendi a mão e chamei Arco, que superou ainda mais sua velocidade de alcance e me acertou em menos de um segundo.
Corri em direção à floresta, seguindo pela trilha de terra. Ignorei meu nome sendo chamado atrás de mim e simplesmente corri. Não podia deixar que Gard chegasse mais perto, ou ele não teria como escapar de tantas flechas habilidosas.
Expandi minha telepatia à frente, me perguntando se era possível falar com os animais assim, se Gard me reconheceria. Alcançar sua mente foi como estender a mão e tocar seus pelos macios e eu percebi que ele mudou sua rota para vir ao meu encontro. Um sorriso de lado se formou em meu rosto e eu aumentei a velocidade.
Assim que avistei o lobo, porém, meu coração se apertou. Aparentemente ele já havia encontrado alguns elfos no caminho, pois seu pelo esplendorosamente branco estava com manchas cor de vinho de onde se projetavam pedaços de flechas prateadas. Isso não parecia impedi-lo, pois simplesmente correu até mim e me deu uma espécie de rasteira com seu corpo, me jogando desajeitadamente sobre suas costas e voltando a correr pela direção pela qual viera. Numa medida desesperada, concentrei energia na parte onde nossos corpos se tocavam para me manter segura, sem saber se aquilo daria certo. Felizmente funcionou. Mesmo assim, meu coração batia descompassado no peito enquanto eu me encolhia para longe de galhos e troncos entre os quais Gard passava em uma velocidade extrema.
A paisagem ao nosso redor era um borrão e notei que íamos rumo à casa de meu avô. Será que ele sabia o que minha mãe havia planejado? Ou ficara sondando a cerimônia por telepatia?
Vi um vulto sobre as árvores e ergui Arco, sem saber se conseguiria com aquele movimento todo acertar uma flecha. Flecha. Certamente eu não acertaria ninguém sem uma flecha, e não havia nenhuma comigo, a aljava ficara em casa.
Xinguei mentalmente e me preparei para o caso de precisar pular. Sondei a área telepaticamente e percebi que estavam todos gritando nas mentes uns dos outros.
"Salvem a princesa!" "Atrás daquele lobo!" "Isso só pode ser coisa dos Magos, estão declarando guerra!" "Encontrem a princesa!" "Não disparem! Vão acabar acertando Analu!" "Parece que está indo em direção à casa do maluco recluso, ele está se aliando aos Magos?" "Onde está a princesa? Alguém mostre a localização dela!"
Para minha surpresa, não havia nem sinal dos meus pais, eles não estavam dando ordens ou se envolvendo na discussão. Uma flecha passou de raspão por Gard e eu, me fazendo tentar enxergar na escuridão. O lobo fazia muito barulho enquanto corria, então era impossível para mim ouvir movimentos de outro Ser da Natureza. Mesmo assim, parecia que havíamos deixado eles para trás, aquela flecha havia sido um ato desesperado de nos impedir.
Em frente da casa aconchegante estava meu avô, parecendo irritado e animado ao mesmo tempo. Percebi ele que resmungava enquanto eu descia de Gard. Minhas pernas estavam bambas e precisei de um tempo para me acalmar.
Enquanto eu me recuperava, Oozin colocou uma bolsa e uma aljava aos meus pés e começou a carregar coisas para fora da casa. Em poucos minutos estava com várias bolsas penduradas pelo corpo e fez sinal para que o seguisse.
Queria dizer que Gard precisava de cuidados, mas eu sabia que ele tinha consciência disso. Seguimos em silêncio e não parecia haver ninguém nos seguindo. Estávamos indo em direção à fronteira, então imaginei que Oozin estivesse mesmo espiando a Cerimônia telepaticamente, já que a única forma de fugir de minha punição seria indo embora por conta própria do Vilarejo.
Deixei isso de lado e pensei em algo que estava me incomodando. Todos haviam associado o acontecimento aos Magos, porque afinal sempre soubemos que os lobos trabalhavam como seus servos leais. Sempre soubemos. Mas isso poderia muito bem ser uma mentira.
Meu avô havia contado que o que estava errado era o mundo, e não apenas nosso Vilarejo. Aparentemente, a mente de todos havia sido bagunçada, de forma que muitas lembranças foram apagadas. Quem quer que tivesse feito isso, poderia muito bem também ter implantado ideias diferentes e se livrado de pergaminhos históricos.
Oozin acreditava nisso não só por sua intuição, mas porque muitas vezes encontrava duas verdades para uma mesma pergunta, mas sem nunca descobrir qual delas havia sido implantada e qual havia sido mal apagada. Como ancião, sua mente havia resistido melhor que qualquer outra, então cada vez que um elfo aventureiro aparecia em sua casa, ele contava suas dúvidas e lhes dava a missão de investigar alguma coisa.
O primeiro deles, Caster, estava percorrendo todas as montanhas de anões e constantemente retornando à Montanha Norte para ver se algo suspeito ocorria. Harry percorria o mundo simplesmente com o intuito de procurar Magos que pudessem lhe dar respostas e obter informação sobre as intenções de guerra e espionagem. Por fim, Eryn resolvera o próprio rumo ao ir para o Vale dos Dragões para tentar domar alguns e utiliza-los em caso de guerra. Oozin acreditava que esta última já estivesse morta.
Assim que saltei a grossa raiz da Árvore da Vida e me vi fora dos limites do Vilarejo, o mundo pareceu mudar. Diante de nós se estendia um deserto, estava extremamente quente e a poeira entrava pelos meus olhos, ouvidos e nariz. Tudo parecia silencioso demais, e percebi que era porque todas as mentes dos Seres da Natureza haviam ficado fora de alcance quando abandonei a proteção das raízes, só havia agora Oozin e eu, e a mente dele parecia inalcançável.
— Eles não vão arriscar sair dos limites durante a noite. Podemos parar aqui para que eu cuide de Gard.
Confirmei com a cabeça e segurei Arco firmemente, mantendo guarda enquanto meu avô cuidava do lobo. Não demorou muito e seguimos nosso caminho, andando na areia fofa. Quando subimos a primeira duna já foi o sucifiente para eu notar a imensidão daquele deserto, seria uma longa viagem.
Eu não sabia como podíamos descobrir a verdade sobre a história apenas andando para lá e para cá, já que não havia um rumo ou uma pista a seguir. Mal havia começado, e eu já tinha a impressão de que seria uma jornada sem sucesso. A única coisa que me animava era que eu realmente queria saber como eram as coisas fora do Vilarejo.
— Não parece que esse deserto está no lugar errado? — Oozin indagou de repente franzido o cenho.
— Mas está no mapa...
— Mas os mapas podem ter sido alterados também. Só tenho versões de alguns séculos atrás, então faria sentido...
Ele baixou o tom de voz e continuou falando consigo mesmo. Desviei a atenção para Gard, querendo saber se ele estava mesmo bem para continuar andando mesmo depois de tantas flechadas. Aparentemente não haviam atingido muito fundo e meu avô era realmente bom com curativos. Mesmo assim o lobo estava estranho, farejando o chão nervosamente e arrastando as patas.
— Gard? — chamei.
Oozin também voltou a atenção para o lobo. Este começou a choramingar e pular de um lado para o outro. Paramos de andar e esperamos que ele se explicasse, seja lá como ele iria fazer isso.
Gard começou a cavar rapidamente, movendo as patas com afinco. Oozin e eu nos entreolhamos, acabando agachados perto do lobo e o ajudando a cavar. Em certo ponto tivemos de pular no buraco para continuar a cavar e ainda continuamos por um bom tempo. O suor escorria por minhas costas e areia se agarrava nos meus cabelos e pele. A roupa me incomodava e minha respiração era arranhada. Mesmo assim, a inquietação de Gard só aumentava, então meu avô e eu não paramos.
Abaixei e puxei um punhado de areia, e então senti algo. Espalhei areia para os cantos e encontrei a ponta avermelhada de algo.
— Vô — chamei.
Juntos tentamos desenterrar o objeto, que no final das contas era grande demais para ser descoberto apenas por nós. Mas assim que percebemos o que era, nossos olhos assustados se encontraram.
Ali, três metros abaixo do deserto, nós encontramos um telhado.
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