O elfo remanescente

1 Apenas um homem solitário


Bruxo era como todos os chamavam. Não sabia se era exatamente isso, mas pouco importava. Na sua juventude desperdiçara muito tempo tentando descobrir o seu verdadeiro nome, sua verdadeira identidade, o que, ou quem realmente era. Sabia que ele não era um homem comum. Homens comuns nascem, envelhecem e morrem, e isso não acontecia com ele. Nunca pode entender o porque todos a sua volta morriam enquanto ele continuava vivo e sadio. Não conseguia compreender o motivo pelo qual o seu rosto ainda continuava jovem apesar de já ter perdido a conta de quantos anos tinha. Essa essa incompreensão já durava a tanto tempo que ele se acostumara com isso.

O que compreendia é que logo teria que se mudar da vila onde estava pois a sua aparência já chamava a atenção dos mais velhos, incomodando os moradores que acreditavam terem como vizinho um filho das trevas que penhorara a sua alma para ter a juventude eterna. Deixara já algum tempo a barba cobrir o rosto na tentativa de esconder as rugas que não tinha. Mas isso já não mais evitava os comentários maldosos dos que o observavam sempre desconfiados.

O dia recém acordava quando ele desceu do cavalo em frete a sua tosca cabana, era a casa mais afastada da vila. Tirava do lombo do cavalo um feixe de lenha e as encilhas, enquanto um grupo de crianças passou jogando-lhe tomates podres ao mesmo tempo que cantarolavam:

—Bruxo! Bruxo! Filho das trevas, volte para a cavernas das ermas. — Correram. E ele se quer reagiu, odiava admitir mas estava cansado de dar demostrações de sua destreza de se desviar dos arremessos mais precisos, o que o fazia parecer menos humano ainda.

—Lucas, Jhonan, Caspar! Não façam isso! — Esbravejou uma jovem camponesa com uma cesta em suas mãos, vindo logo atrás dos meninos, compadecendo-se do homem _Perdoe-me Sr. Feagor. Isso não vai mais acontecer, eu prometo! — Disse ela aproximando-se dele, que continuou as suas atividades como se ela não estivesse lá. _Sabe como são essas crianças… ficam fantasiando histórias sobre o senhor… mas irei relatar aos pais deles, não se preocupe! — Ela escolhia cuidadosamente as palavras, tentando ser o mais simpática possível, observando a expressão no rosto de Feagor, porém, ele mantinha-se imparcial. A palavra não se preocupe pareceu-lhe deslocada pois não havia menor sinal desse sentimento, ou de qualquer outro. Ela deu um tempo para ele responder, mas como nada foi dito continuou: _Bem, até mais breve então! — Disse ela um tanto encabulada, virando-se para seguir em frente, parecendo finalmente entender que ele não estava muito aberto para conversas.

Deu alguns passos porém e tornou a virar-se sacudindo a sua cesta, não dando-se por vencida: _Sabe que não acredito no que outros falam, que o Sr. é um bruxo, um necromante, um vampiro um ser das trevas… — Ele mantinha-se em suas atividades como se ela simplesmente não existisse e ela não parecendo incomodada com isso continuou com uma expressão sonhadora: _…acho que as pessoas apenas têm inveja da sua aparência… dizem que o Sr. é imortal e não envelhece…acho, acho, elas deveriam descobrir então, qual é o seu segredo para juventude eterna, e não se afastarem apavoradas… — Ela continuaria falando se ele não lhe desse as costas, entrando em sua cabana e fechando a porta com brutalidade. Clarie ficou imóvel por alguns segundos, ainda em choque com a atitude hostil do homem. Fazia tempo que Clarie tentava arrancar algumas palavras de Feagor, mas não havia conseguido nada mais que um murmurar de concordância ou negativa. O ar misterioso e o charme que ele possuíam a exitava e instigava a sua curiosidade e a sua imaginação. Aquela atitude porém, de estremada grosseira não era esperada por ela, e feriu o seu orgulho de moça, demonstrado em sua face corada de vergonha.

Olhou ao redor para se certificar de que ninguém havia presenciado o vexame, em um gesto impensado de irritação revirou os olhos para o céu e murmurou entre dentes: —Será que alguém já considerou o fato de ele ser surdo ou mudo?

Virou-se ainda com a cesta vazia entre as suas mãos seguiu o seu caminho. Porém a medida que caminhava a raiva e a sensação de que tivera sido humilhada foi dando espaço para pensamentos controversos: _Não vou desistir dele. Ele é apenas um homem solitário e triste que precisa de alguém que o ame.

Ela não podia imaginar, que dentro da silenciosa e rude cabana Feagor a observava com interesse. Afinal ultimamente poucas pessoas se atreviam a tentar um diálogo tão aberto com ele. Além do mais ela não era de se "jogar fora" o rosto era delicado, os cabelos louros encaracolados desciam até quase a cintura. Seios bastante avantajados quase saltando para fora do espartilho que parecia não desejar eles dentro dele. Ele conhecia Clarie do centro comercial. O seu pai tinha um comércio de tecidos onde Feagor comprara algumas vezes. Ela sempre lhe atendia com altivez e simpatia. Mas ele nunca tinha sequer olhado com a atenção merecida para ela. Só quando a silhueta da jovem desapareceu no horizonte Feagor se movimentou para longe da janela. Tirou a toca que lhe ocultava a cabeleira jovem e loura. Mantinha os cabelos cortados a faca a altura dos ombros o que lhe dava um ar ainda mais selvagem e rude. Sem querer fitou-se de relance em uma vasilha de prata polida, pegou o objeto entre as mãos e observou-se com atenção, fazia muito tempo que não se olhava num espelho. Sua aparência era muito bela, tanto a ponto de desejar não ser tão belo a fim de não chamar a atenção. Afastou os cabelos que lhe cobriam as orelhas pontudas. Aquelas orelhas incomuns já haviam lhe causado muitos problemas. Os dentes continuavam brancos e bem alinhados. Analisou com atenção a pele do rosto, estava um pouco queimada pelo sol e um tanto suja sim, mas constatou com certa decepção que não existia ali nenhuma linha de expressão nova, nenhuma ruga, ou sinal que demonstrasse a sua idade.

Devolvendo o objeto na mesa, sentou preguiçosamente em uma cadeira e deixou o seu pensamento voar para o dia em que chegou na vila de Salenhad a 160 anos atrás. Era um lugar remoto e com poucos moradores, gente simples e humilde, por isso ficara. E fora muito bem recebido, fizera amigos mesmo que não fosse o seu objetivo, e havia despertado o interesse nas mulheres que o cortejavam muitas vezes de forma até embaraçosa. Era conhecido como um homem de poucas palavras, de 27 anos, trabalhador, inteligente, mulherengo e beberrão. Nada fora do normal para um jovem belo da sua idade. Mas conforme o tempo foi passando, Feagor foi sentindo-se observado pelos moradores. A cada dia que passava via as pessoas as quais tinha convivido envelhecerem e morrerem, e a estranheza que causava a sua aparência sempre jovem ia crescendo cada vez mais. Então logo, vieram os questionamentos de porque ele não envelhecia, e porque ele não sabia responder o que também se perguntava. As pessoas temem o que não conhecem, e então com o com o medo veio a antipatia dos moradores, sustentada por histórias cheias de superstição e cismas, e essas histórias passaram de pai para filho. Assim como acontecera no mesmo lugar onde ele morava antes de ir para Salenhad. Feagor havia construído a sua cabana longe da vila, bem próximo a floresta e viveu praticamente recluso por quase durante 80 anos, vivendo na floresta, plantando para se alimentar. Porém notava como a vila ia crescendo e expandindo a medida em que enriquecia e se tornava um valoroso pôlo financeiro de comércio de prata e ferro para a coroa Europeia, no ano de 200 antes de Cristo. Casas iam avançando para próximo de sua cabana e agora o centro da vila não ficava mais tão distante. Ele já não estava mais tão escondido. Sua paz ia acabando a medida que a vila ia crescendo.

Quando Feagor apareceu novamente na vila pode ver o quanto tinha a vila havia se transformado, Salehad que antes contava com 600 moradores agora passava de 5 mil, e possuía até um representante da coroa que não era ninguém menos que um dos filho do rei. Adotou o nome de Feagor Terceiro, mas as suas aparições, reacenderam as histórias e lendas sobre um homem imortal que vivia na região. E é por isso que ele deveria partir para bem longe, pois sabia por experiência própria que a cada ano que passasse a situação se agravaria.

Dando fim a essas lembranças e pensamentos, levantou-se. Precisava agir. Chegara a hora de ir embora. Juntou alguns agasalhos e objetos, colocando tudo sobre a mesa. Somente o necessário. Analisou a lâmina da faca certificando-se que estava devidamente afiada, assim como fez com o machado. Constatou que precisava ir para a vila, pegar algumas sementes para a viagem. Colocou a sua toca, tomando cuidado para esconder bem as orelhas, colocou o seu agasalho e sem perder tempo colocou-se a caminho da vila que ficava a uns 2 quilômetros de distância.

Ao passar o limiar da cidade logo percebeu que ela estava diferente naquele dia. Mais limpa e com flores que enfeitavam todos os lados. E isso só acontecia quando um visitante especial se estabelecia por ali por durante algum tempo. Mesmo indiferente podia ouvir os murmúrios das pessoas polvorosas que comentavam algo sobre o casamento do vassalo do rei com uma linda moça vinda do oriente.

—Ouvi dizer que ele mandou fazer pétalas de ouro para ela caminhar até o altar!

—E o vestido dela será verde para combinar com os olhos…

—… é a mais bela que já vi…

E os mais empolgados falavam: _Parece que ele teve que matar 3 dragões para conseguir a mão dela.

E o número de dragões aumentava a medida que Feagor caminhava entre o povo. Nunca sentira-se tão à vontade no meio da multidão, finalmente tinham outro assunto que não era o velho das trevas que aparecia em formato de jovem para seduzir as virgens desavisadas. Imperceptivelmente sorriu, achando graça daquela baboseira toda. Mesmo assim podia notar aqui e ali olhares de repulsa. Sem tempo a perder tratou de comprar logo o que lhe faltava e pós-se novamente ao caminho de casa. Enquanto caminhava despreocupadamente pelas ruas estreita de pedra ladeada por comerciantes com suas bancas se perguntava porque ficara tanto tempo naquele lugar.

De repente voltou a sua atenção para um barulho distante que sua audição apurada captou. Era barulho de cascos de cavalos no chão da rua de pedra. Parou e olhou para trás, a esquina lhe impedia a visão mas ele pode sentir a aproximação, deu um passo para trás trazendo consigo uma mulher comerciante desavisada, liberando o caminho para a passagem de uma dúzia de soldados montados que passaram em desenfreada correria sem se importar se havia alguém em seu caminho.

—Obrigada meu jovem senhor! — Disse a mulher assim que Feagor afrouxou o braço ao redor do ombro da mulher. _O senhor salvou a minha vida! — Ele olhou a mulher e fez um gesto com a cabeça, torcendo o canto da boca numa tentativa de ser simpático. Agora os comentários que podia ouvir em meio dos barulhos das pessoas se recompondo em meio a rua em caos, era o mesmo que ele se fazia com a testa franzida, observando imóvel, os cavalheiros se deslocarem no sentido da floresta: _ O que havia acontecido para os soldados estarem em tamanha agitação?