Notas iniciais
Boa leitura ;)

Capítulo 8

POV Lucas

Eu trouxe minha mãe do hospital e como imaginei ela adorou o lugar, a tranqüilidade que transmite, a beleza dos campos e o frescor do rio. Contei a ela tudo que aconteceu e por incrível que pareça ela entendeu e disse que não tinha raiva de mim e que sentiu muito a minha falta, me contou sobre as meninas e como ela via um pouco de mim nelas e de como isso conseguia fazer ela acreditar que eu iria voltar.

– Mãe, você sabe que eu não posso te curar definitivamente, mas consegui aliviar a sua dor e quis te trazer aqui como uma lembrança boa pra você.

– Eu sei, meu filho, a minha hora é essa, mas fico feliz de poder ver o seu rosto antes de ir e saber que você está bem e que agora vai poder cuidar das meninas.

– Eu não sei se a Luiza vai deixar eu chegar perto delas tão cedo, mãe, ela parece furiosa comigo e depois do que eu fiz, deixar ela, vocês assim, ela deve me odiar. Alei um tanto triste.

– Lucas, a Luiza te ama e eu tenho certeza que, assim como eu, ela sabia que você ainda ia voltar. Ela sempre te esperou e sempre falou com carinho de você pra meninas, elas podem nunca ter te visto, mas acho que te conhecem de tanto nos ouvir falar de você. Sempre tratamos como se você apenas estivesse em viagem, mas que estava ainda presente em nossas vidas.

– Mãe, ela nunca ficou com ninguém? Ela nunca pensou em me deixar realmente como morto e encontrar alguém?

– Não, meu filho, ela nunca nem pensou em fazer isso, como eu disse, nós nunca víamos como se você tivesse morrido e sim viajado, apenas pras meninas a gente falou isso porque não saberíamos explicar pra elas algo que nem nós entendíamos. – Falou minha mãe com um sorriso.

– Mãe, eu tenho que te levar de volta, o meu pai deve está preocupado.

– Vamos, eu realmente preciso descansar, mas sinto que quando voltar e dormir será pra sempre.

Ouvir aquilo me doeu muito, saber que eu perdi anos da vida da minha mãe, minhas filhas e todos e voltar pra ver minha mãe partir é muito difícil.

– Eu te amo mãe, te amo muito, me perdoe por te deixar. – Falei já chorando.

– Tudo bem, meu filho, eu estou em paz e vou em paz, também te amo muito.

Peguei ela no colo e quando abri os olhos eu estava novamente no hospital e ali no quarto estava meu pai com um olhar tranqüilo e Marcio com uma mal disfarçada fúria. Coloquei minha mãe na cama novamente e ela chamou os dois e não soltou a minha mão.

– Marcio, não brigue com o seu irmão, no momento certo ele vai explicar a vocês o que houve e todos vão entender, ajude seu pai e ajude seu irmão com relação a Luiza e as meninas. Eu te amo muito meu filho e tenho orgulho de tudo que você se tornou hoje, de tudo que você fez pela nossa família e pela família do seu irmão enquanto ele não estava.

– Mãe, pare de fazer despedidas, você ainda tem muito tempo com a gente e... – meu pai o interrompeu com a mão em seu ombro e balançando a cabeça. Ele então olhou pra mamãe com os olhos marejados.

– Eu também te amo mãe, e eu prometo que vou ouvir o que o Lucas tem a dizer antes de quebrar a cara dele. Falou sorrindo pra ela, mas me lançando um olhar que queria dizer que não era brincadeira.

– Jorge, meu amor, minha vida, obrigada pela vida maravilhosa que você me deu ao seu lado, obrigada pelos dois presentes que você me deu que são os nossos filhos, eu não pude dar a você a filha que tanto queria, mas agora você tem 4 lindas meninas que te amam não só como avô, mas como pai. Eu te amo e hoje nós cumprimos a promessa do altar.

– Eu te amo minha rainha e só tenho a agradecer por você ter compartilhado sua vida comigo e por ser a minha companheira, vou sentir sua falta, mas vou ficar um pouco mais pra ajudar nessa bagunça que tudo ficou, mas assim que estiver tudo certo por aqui eu vou também.

Meu pai se abaixou e lhe deu um beijo e quando se levantou ela estava com os olhos fechados e com um sorriso no rosto, e então sabíamos que ela tinha partido.

Se passaram alguns dias desde a morte da minha mãe e eu não voltei mais, dei esse tempo a eles, achei melhor assim já que após a minha mãe partir o Marcio começou a me culpar pela morte dela, por não saber o que eu tinha feito com ela e pra onde eu a tinha levado, criou uma confusão no hospital e eu tive que sumir. Mas hoje eu vou procurar a Luiza e contar a ela tudo que aconteceu esses anos e o porque de eu tomar essa decisão, não posso mais adiar isso e o dia em que todos verão o que acarretou minha decisão está próximo. Fecho meus olhos e quando abro estou no seu quarto, melhor, nosso quarto, ali onde nos amamos ou passamos horas conversando. E ali estava ela, dormindo de costas pra mim. Chego mais perto e quando vou tocá-la ela acorda e me olha assustada. Por um instante ela não fala nada, seus olhos começam a encher de água, mas antes que as lágrimas caiam seus olhos começam a demonstrar a raiva e a fúria que ela estava sentindo e isso me deixa triste, em imaginar tudo que ela passou e eu não estava ali pra ajudar.

– O que você pensa que está fazendo aqui? – Ela fala entre dentes.

– Nós temos que conversar.

– Conversar? Você só pode estar de brincadeira, eu não quero conversar com você, eu não quero nem olhar pra você. Sai daqui agora! Pode voltar pra onde quer que você estava e continuar lá, estávamos todos muito bem sem você aqui. – Ela fala gritando e chorando e essas palavras me acertam como um soco e por um instante eu penso que ela está certa e que realmente eu não deveria ter voltado, mas as três pessoas que aparecem em seguida na porta me fazem pensar diferente.

– Mamãe, o que houve, porque a senhora está gritando e... – Ela para de falar quando as três percebem a minha presença.

– Vão pro quarto de vocês e não saiam de lá até que eu diga pra saírem!

– Mas mãe, é o papai...

– Eu disse agora!

– Por favor, obedeçam sua mãe, eu prometo falar com vocês assim que terminar de conversar com a mãe de vocês.

– Tudo bem, mas o senhor não vai sumir outra vez, vai?

Me senti um pouco culpado com aquelas palavras.

– Não vou, não vou mais sumir.

– Vamos voltar pro quarto então. – Elas saíram e uma delas se virou e pareceu que iria falar alguma coisa, mas ao olhar pra Luiza, desistiu e fechou a porta. E caminhei até a porta e a tranquei com a chave que estava ali.

Caminhei até onde eu estava antes e a Luiza parecia debater alguma coisa consigo mesma.

– Será que agora nós podemos conversar como adultos?

– Eu não deveria deixar você ficar aqui, eu deveria te expulsar e nunca mais olhar na sua cara e nem deixar você falar ou ver as meninas. Eu estou com tanta raiva, mas essa raiva é de mim, porque a única coisa que eu consigo pensar agora é no quanto eu queria que você me abraçasse e falasse que nunca mais vai embora e o pior é que se você falar eu vou acreditar, mas eu tenho que sentir raiva de você. Você sumiu por anos e ninguém nunca soube o que aconteceu, se estava bem, vivo, eu não entendo o porquê de você ter sumido por tanto tempo. Meu Deus, você literalmente sumiu dos mês braços e eu nunca mais soube nada de você, era como se nunca tivesse existido e a única coisa que eu tinha de você eram as meninas. E, droga eu não sei mais de nada... – Ela falou tudo isso em meio as lágrimas e eu deixei que falasse o que quisesse, porque era isso que ela precisava, despejar tudo que estava guardado todos esses anos e que tenho certeza que ela não falou com ninguém.

A única coisa que eu queria fazer ouvindo tudo aquilo era a abraçar, e foi o que eu fiz e ela deixou, e chorou, não sei por quanto tempo, mas a deixei chorar o quanto precisava.

– Se sente melhor agora?

– Sim – Falou ela se afastando de mim se lembrando que deveria sentir raiva.

– Não ache que vai aparecer aqui e me abraçar e tudo vai ficar bem porque não vai.

– Eu sei e estou disposto a contar tudo pra você, desde o início. Mas você precisa confiar em mim, existem muitas coisas que eu vou te falar que vai ser difícil de acreditar.

– Pode falar, acho que não tenho escolha a não ser te ouvir, já que trancou a porta.

– Claro que não, você ouve se quiser. – Falei estendendo a chave.

– Começa logo com isso que a nossa conversa vai ser muito longa.

– Bom, no dia da praia, eu desapareci dos seus abraços e acordei em uma casa de campo, num lugar bonito e agradável e me deparei com o homem que causara tudo aquilo. Ele me pediu desculpas e disse que só te atacou porque somente assim eu liberaria minha força. Ele me levou a um lugar e começou a me explicar o motivo de tudo aquilo.

Ele, assim como eu, tinha sido escolhido e testado para se tornar um dos sábios do universo, pessoas que são treinadas nesse lugar para liberar sua força oculta, mas não é nada como magia e essas coisas, são forças que nós temos, mas que não são desenvolvidas. Uma delas é a força do pensamento que só é liberada quando aprendemos a usar todo o potencial cerebral, a força física, que aprende a usar da mesma forma todo o potencial muscular e assim em todas as áreas do corpo. É dessa forma que eu consigo “desaparecer” e aparecer em outro lugar, na realidade eu só estou me movendo com todo meu potencial e por isso, mais rápido que a velocidade da luz. Somente fechando meus olhos e pensando em onde eu quero chegar, meu cérebro capta e me faz chegar até o lugar. Mas para isso eu precisei de todos esses anos pra aprender a usar o ponto máximo de cada área do meu corpo. Tudo em mim foi treinado pra liberar 100% do seu potencial, seja cerebral, físico e com isso, eu dominei todas as áreas de estudo já descoberta pelo homem e até umas descartadas erroneamente e que hoje faria uma imensa diferença. Eu consigo aliviar dores me concentrando, assim com fiz com a minha mãe quando a levei para esse lugar que eu estava.

– Você quer dizer que você foi recrutado por aquele homem pra aprender a liberar todo seu potencial e que você deixou toda a sua família, amigos e responsabilidades pra seguir ele e fazer isso?

– Luiza, deixa eu terminar de te explicar, você vai entender.

– Como você quer que eu fique quieta aqui ouvindo isso, é absurdo, você acha mesmo que eu vou acreditar?

– Eu consigo captar pequenas ondas do seu cérebro e interpretá-las e assim a grosso modo eu posso “ler a sua mente”.

– Como é que é, acho que você só pode estar doido se acha que eu vou acreditar nessa história ridícula, a gente não é mais criança, EU tenho três filhas que eu criei sem o pai delas, que agora diz, supostamente ser um super homem sábio que usa 100% do corpo e da mente e diz que pode ler minha mente.

– Pense em uma coisa que eu não teria como saber, algo que você não contou pra ninguém. Por favor.

Ela suspira e assente. Quando ela começa a pensar eu me concentro e quando termino eu estou pálido com o seu pensamento, e ao mesmo tempo enraivecido. Como ela pode querer fazer isso?

– Eu não acredito que você realmente tentou se matar, mesmo sabendo que estava grávida das nossas filhas. Você estava maluca?

Ela ficou pálida na mesma hora que eu falei, ela entendeu que eu realmente sabia o que ela pensou.

– Isso é verdade, você sabia mesmo o que eu pensei.

– É verdade que você tentou se matar?

Ela abaixou a cabeça e respondeu:

– Sim, eu entrei em depressão profunda quando você sumiu e quando eu fiquei sozinha por um instante eu quase fiz, mas quando me lembrei do bebê que eu ainda não sabia serem as meninas, eu não fiz.

– Me perdoe por isso, eu deixei você sozinha, quando mais precisou.

– Sim, você me deixou.

– Deixe eu terminar, você vai entender. Nada justifica o que eu fiz, e eu me senti e sinto culpado todos os dias por isso, mas você vai ver que a única escolha que eu tive foi ficar lá.

O Jhon me explicou que o mundo estava entrando em colapso e que em alguns anos apareceria uma doença mortal e que exterminaria a raça humana, o mundo inteiro seria devastado por essa doença e que ela seria criada pelo homem. E que ele, por estar velho já não tinha mais toda sua capacidade cerebral para resolver esse problema, e somente uma mente jovem poderia fazer isso e esse escolhido era eu. Se eu não aceitasse, eu iria voltar e me esquecer de tudo, mas essa doença iria chegar e todos nós seriamos dizimados da face da terra. Eu questionei se ele poderia escolher outro, mas ele disse que o único com o potencial que ele precisava era eu. Ele também mentiu pra mim dizendo que se eu não decidisse até o por do sol todos iriam se esquecer de mim e eu ficaria preso lá. Isso me fez tomar uma decisão rápida e eu só conseguia pensar em que se eu desistisse vocês também poderiam morrer e todos seriam castigados pela minha covardia. Eu queria vir me despedir e avisar a vocês, mas o Jhon me explicou que eu não podia, que se eu voltasse antes de ter feito o treinamento eu não poderia voltar. Então eu resolvi sacrificar a minha convivência com vocês para o seu próprio bem. Eu consegui analisar o vírus da doença e consegui criar a cura pra ele e também de outras doenças, mas isso não vem ao caso agora. O que eu quero saber é se você acredita em mim. – Ela me olhava espantada e com um pouco de dúvida. – Luiza, eu te amo mais que a minha própria vida, porque outro motivo eu deixaria você, eu não sabia que estava grávida, se soubesse talvez eu não deixaria você e o Jhon sabia disso, por isso escondeu de mim.

– Eu não sei o que pensar, você não pode querer que eu confie e acredite em você assim do nada. Você desapareceu por 13 anos e agora vem e me joga toda essa história, eu estou muito confusa. Não sei o que pensar. Eu nem sei mais quem é você.

– Eu ainda sou o mesmo que você conheceu, a minha essência é a mesma, eu te amo e te amei a cada dia que eu estive longe, eu sofri muito em ter que te deixar, quando mal tínhamos começado nossa vida juntos e agora saber que eu perdi 13 anos da vida das minhas filhas, aquelas que eu sempre sonhei em ter e estavam aqui quando eu nem ao menos sabia da sua existência.

Ela se levantou e caminhou até a janela e ficou ali por um tempo.

– Luiza, eu sei que você precisa pensar, eu entendo, mas eu queria muito falar com as meninas, conhecer elas, eu nem sei se elas vão gostar de mim, eu nem sei ser um pai. – Falei um pouco triste. – E eu também preciso saber se eu posso ficar aqui.

– Eu vou te levar até elas, elas conhecem você pelas fotos de quando nós éramos mais novos, eu sempre falei muito de você pra elas, então acho que elas conhecem um pouco de você. E é claro que você pode ficar aqui, é sua casa também, ou se esqueceu disso. – Falou com um pouco ainda triste.

– Você pode ir comigo, sei que não estou no direito de te pedir ajuda, quando eu mesmo não estava aqui quando você precisou da minha, mas por favor, eu estou apavorado. Eu não sei o que elas pensam de mim por ter sumido, o que elas sabem dessa história toda?

– Eu contei a elas a história da praia no dia em que você voltou, e depois eu conversei com elas sobre tudo, elas não são mais crianças e entendem dentro do possível o que está acontecendo, mas essa sua história, ainda acho que não é o momento de contar a elas. Eu mesma ainda não consigo acreditar em tudo isso.

– Tudo bem, essa parte eu deixo ao seu critério.

– Vamos no quarto delas então. – Fala com uma aparência cansada.

E assim eu a sigo até o quarto das minha filhas pra poder conhecê-las.

Notas finais
:*