O dia em que eles se encontraram.
1 Capítulo 1 O dia em que eles se conheceram
Notas iniciais
Sofia olhava para seu prato, um prato de vidro que ela comprara não muito tempo atrás, quando seu irmão ainda frequentava sua casa, era um prato modesto, mas na época fora uma grandíssima conquista, tinha as bordas moldadas por um mestre artesão do Continente que fizera seu trabalho acrescentando patos as bordas do prato.
A estudante no balcão olhava para a menina que continuava a vaguear sobre suas memórias juntas aquele prato, era perceptível o esforço que ela fazia trazendo o prato ali, justamente em sua loja, por fim cedendo as vozes morais que a orientavam ela se inclinou e disse:
–5 niquens e nós fechamos negócio.
A cara de Sofia de irradiou, não porque ela vendia bem, mas porque ainda havia um pouco de bondade em sua história, ela prontamente deu sua despedida final para seu prato de borda de patos.
–Muito obrigado, moça, se tiver alguma forma de eu lhe retribuir, eu o farei.
A nota de 5 niquens caiu em suas mãos e Sofia saia da loja com um sorriso feliz, ou o mais feliz que ela conseguia esboçar, com 5 niquens era possível até comer num restaurante bem caro, ou se alimentar durante uma semana. Colocou a nota no bolso e começou a andar em direção ao seu destino.
As ruas que ela percorria naquele momento já não eram tão estranhas a ela como quando ela as percorrera pela primeira vez, causava certo desespero não poder se localizar. Hoje ela já sabia os becos e também os atalhos para circular por toda a região, também já sabia onde ficava seu dormitório, um edifício retangular que se expandia para os lados, deixando uma área livre no centro.
Mas hoje aquele não era o seu destino, ela não pretendia gastar seus 5 niquens com seus desejos pessoais ela só desejava recuperar seu irmão, por isso se dirigiu ao Raven, um edifício abandonado que ficava no limiar do 17°Círculo.
Era uma longa caminhada até lá, mas finalmente ela não voltaria sozinha, voltaria com o irmão ou assim ela esperava.
O Raven era um edifício que já servira de estacionamento quando a cidade ainda era construída, ele tinha 8 níveis, mas ele fora abandonado quando sua utilidade acabou, na entrada quadrada do edifício duas pessoas encapuzadas vigiavam-na. Ela lentamente caminhou até eles.
–Eu vim falar com Dino.
O nome era quase uma senha que deveria ser proferida para se entrar, Dino era o chefe local e era o homem que tinha seu irmão. Sofia suou frio, Dino era instável, nem seus capangas escapavam dos seus acessos de ódio, ela ouvira falar uma vez que quando ele ainda era mais um nas ruas, ele arranjara briga com 7 caras de uma gangue rival e os derrotou todos, quando descobriu que ele fora traído ele liquidou o seu chefe e todos da gangue.
Os guardas liberam-na de seus olhares atentos e concederam passagem para o interior do edifício. No primeiro andar ficavam os traficantes quando realmente havia drogas, era o caso de hoje, dezenas de jovens se drogavam ali mesmo e ficavam em êxtase depois do efeito da droga fazendo movimentos estranhos e falando consigo mesmos, mas ela não tinha olhos para eles por isso subiu direto as escadas até o oitavo andar.
No topo do edifício, um homem gordo lá pelos 130 quilos se estendia por um sofá que fora colocado lá, ele usava uma regata laranja e um shorts branco, ele falava com uma pessoa encapuzado sob uma jaqueta e num dos cantos perpendiculares se encontrava um jovem de cabelos avermelhados e olhos negros olhando para o além em transe, era seu irmão.
Ela conseguiu escutar um pouco da conversa de Dino e o homem de touca no agasalho.
–É fácil, um simples negócio, nós damos o produto e vocês só o revendem, todos saem ganhando.
–Eu ainda não vejo o que você ganha nisso, Sr...
–Nomes não são necessários.
Foi quando Dino reparou na pequena figura que se aproximava de ambos.
–Por favor dê-me tempo para pensar sobre isso, é o que dizem, ninguém que faz negócios pode ser apressado.
O encapuzado levantou-se e deu um saco cheio de pílulas na mesa onde Dino estava como uma despedida e se afastou do lugar e passou pela pequena menina que esperava ansiosamente para desaparecer nas escadas.
–Agora que um foi resolvido está na hora de outro... Sente-se Sofia, vamos conversar sobre seu futuro.
As palavras de Dino podiam parecer pedidos, mas eram apenas ordens sutis. Ela sentou-se na cadeira que o encapuzado estivera segundos antes, engoliu em seco para se concentrar nas suas próximas palavras.
–Dino, eu vim aqui para...
–Eu já sei o que você veio fazer aqui, mas menos papo mais dinheiro, onde estão os 15 niquens que seu irmão me deve?
Ela tirou do bolso interno da blusa uma nota de 10 niquens e do bolso da calça tirou a recém-conquistada nota de 5 niquens e as colocou sobre a mesa e passou para Dino.
O homem gordo olhou para as notas e fez uma cara de desapontamento para depois se dirigir a ela, com um tom nervoso na voz.
–Que mixaria é essa, você acha que isso é o suficiente?
–Nã-não era essa a dí-dívida?
–Era, até semana passada, antes de seu irmão me buscar para mais Droga, agora você só me deve 20 niquens.
–20 niquens?! É impossível juntar esse dinheiro.
–Fale isso para seu irmão ali, quem diria que ele sabendo da sua situação daria mais uma recaída.
Sofia caiu de joelhos enquanto olhava para a figura de cabelos vermelhos no canto do edifício, abanando os braços, buscando alguma coisa no vazio do ar. Ela começou a chorar, como ele pudera fazer aquilo, como!
–Você ainda tem aquela opção que eu te falei semana passada, será que não é hora de você aceita-la?
“A proposta”, ela se lembrava muito bem dela, servir como narcotraficante na escola, devido a sua classificação superior por conta de ser uma Divinity ela estudava numa escola melhor ainda não corrompida, assim ela poderia pagar rapidamente a dívida, mas muito além de ser contra seus princípios, ela já não desejava aquele mal para ninguém, não depois de passar por aquele pesadelo com seu irmão, ele mal beirava os 9 anos e já estava viciado, ela se lembrou de como aquilo tudo começou, ele primeiro usou seu dinheiro e depois já roubou das economias dela e já havia roubado lojas para se sustentar, por isso sua resposta veio fria e alta.
–Não, nunca.
Dino já se zangava com aquela situação, então ele rapidamente puxou-a para a escada enquanto gritava:
–Então não volte mais aqui, não sem o dinheiro, vai, ninguém precisa de você.
...
Em algumas horas ela ainda chorava no seu dormitório, um pequeno quarto com beliche, cozinha e banheiro totalizando 20 metros quadrados.
“Maldita cidade, era pra sermos todos iguais” ela se lembra da propaganda que estivera num pôster na escola quando ela ainda a frequentava, um pôster cheio de palavras bonitinhas sobre como superar os obstáculos e que tudo dependia de você mesmo.
“Igualdade uma droga, tudo o que até a Giustizia fazia era priorizar os Círculos internos da Cidade Plataforma e abusar de violência contra os inocentes”. Nesses pensamentos obscuros ela pensou enquanto chorava, até adormecer.
Ela sonhou com os tempos antes das drogas, no sorriso inocente de seu irmão e como ele era feliz ali, mesmo não sendo um divinity que nem ela. Todas as cenas que ela sonhava, ele estava alegre e brincando.
...
O sol já raiava quando ela saiu do quarto para ir para o tudo-ou-nada, ela já tinha traçado seu plano, ou era aquilo que salvaria seu irmão ou ela seria uma narcotraficante, ela foi para o terraço para se despedir daquela vista que ela tinha do mar, que era rara mais para o interior da cidade plataforma, infelizmente a Giustizia ali também era mais rara e muito mais corrupta.
Sofia suava fria enquanto andava em direção ao 16°Círculo, para chegar lá era necessário tomar o transporte coletivo da cidade, ela já havia perdido a noção dos dias e semanas naquela rotina, mas ele deduziu que era sábado devido a demora do ônibus.
O transporte era gratuito, “pelo menos isso”, ela se sentou num dos inúmeros bancos vagos do ônibus, lá dentro a realidade não condizia com o interior do transporte, o contraste entre o ônibus e os prédios abandonados ou dormitórios caindo aos pedaços era tanto que ela resolveu dormir, ”um bom sono e daqui a pouco já estou longe daqui”.
O sono não chegou, assim como a tranquilidade, mas pelo menos ninguém sentara perto dela, o fedor dela com jaqueta e também calças largas espantava os outros passageiros, ela conseguia escutar as pessoas que formavam um círculo de contenção em volta dela.
Depois de meia hora ela chegou ao destino: 16°Círculo da cidade plataforma, devido ao fato dela ser uma divinity, ao menos isso é que já tinham chamado ela, ela tinha acesso até o 13°Circulo, embora ela nunca tenha passado nem para o 15° uma vez.
A paisagem não se diferenciava muito do seu Círculo, apenas as construções abandonadas ali davam lugares a laboratórios, ou pelo menos era isso que ela pensava que fossem.
Ela viu a ponte que ligava o 17° ao 16° Círculo a suas costas, “minha rota de fuga” pensou, até os Giustizia ficariam fora da jurisdição uma vez que ela a atravessasse.
Ela procurou o seu alvo, cada um parecia mais pobre que o outro, ela não gostaria de roubar alguém já pobre. Depois de andar algumas quadras de distância a procura ela finalmente a encontrou: uma loja de doces dos Vniguers, uma rede de lojas que se estendia por toda a cidade, a fila do lugar dispensava qualquer dúvida sobre a popularidade da loja.
Ela esperou até que o sol baixasse para que a escuridão a cobrir, mas ela foi azarada, não eram nem 3 da tarde e a loja já se fechava, ela se desesperou e agiu sem pensar, sacou o canivete, colocou o capuz da jaqueta e assaltou a moça que atendia na loja.
–Passa tudo, rápido, passa tudo!
A moça ficou pálida, “ótimo, um desmaio”, mas ela conseguiu abrir a caixa de dinheiro antes de desmaiar, Sofia limpou as notas de 5 niquens que abundavam ali e de saída roubou a bolsa da moça, “quem mandou desmaiar justo agora”.
Quando saia correndo da loja, a moça já levemente recuperada bloqueou a passagem, Sofia a empurrou para o lado com todo seu corpo de 13 anos e deu de cara na rua com apenas um garoto uns três anos mais velho que ela entrando numa escada ao lado da loja. Ela já estava a 20 metros quando o grito da moça que ela derrubara de “Me ajudem, ladrão” a perturbou, mas não foi o grito que a assustou, foi o som de passos em corrida que se seguiu.
Ela olhou para trás e o garoto que ela vira ao sair da loja corria atrás dela, no seu braço direito que ela não havia avistado, estava uma farda de um grande G branco no fundo preto “um Giustizia? Justo aqui? Tá tudo errado” ela apertou o passo da corrida.
Ela tentou despista-lo em algumas passagens que ela tinha visto de manhã mas o adolescente era persistente, ela já suava e previa que correr daquele jeito sem comer nos últimos dias, iria ficar mal, muito mal.
Ela resolveu ir direto para a ponte “é só atravessar a ponte, só atravessar a ponte” infelizmente para ela o garoto era mais rápido na linha reta, e a distância agora entre ambos não passava de 5 metros.
Ela resolveu entrar no último beco antes da ponte e desacorda-lo, se ela fosse vista pelas câmeras batendo no garoto, além de ladra, agressão também iria para seu perfil.
O beco era longo e quando ela virou nele o garoto parou vendo que não havia saída para ela “ele pensa que me capturou agora” ela virou quando chegou no fundo do beco. O garoto fez um gesto de aquecimento nos braços que nem se faz nas aulas de educação física e disse:
–Eu aqui esperando que você iria para o seu esconderijo, e você me faz parar aqui, mas que decepção, mas agora que se resume a isso, por que você não se rende?
Ele dava certo ar de superior a Sofia, que pensava em como sair dali.
–Último aviso, largue a bolsa e se renda, se você não quiser sair machucada.
O garoto assumiu uma posição de preparação para um embate. Sofia foi andando até ele até estar próximo o suficiente para arremessar a bolsa nele, ele rapidamente a desviou com a cabeça, mas ela já estava ao seu lado cortando o ar perto dele. Ele deu alguns passos de recuo e viu o braço, um corte superficial.
Ela se espantou com o resultado, ela esperava pelo menos um banho de sangue com um corte daqueles “acho que a fome é mais crucial do que eu imaginei, melhor não dar bobeira” ela se concentrou na mão que segurava o canivete que já emitia uma luz vermelha.
–Da próxima vez não será só o braço, saia da minha frente.
O jovem parecia realmente impressionado mas mesmo assim deu uma resposta com ar brincalhão.
–Acho que não.
“O canivete não está realmente quente, é só um truque que eu aprendi” pensou enquanto lançava uma saraivada de cortes horizontais e diagonais na direção do garoto, o garoto parecia mais rápido agora, tanto que se desviava com facilidade dos golpes, quando Sofia viu uma brecha ela meteu uma estocada na direção da barriga do garoto que dobrou o joelho para trás e deu uma cambalhota pra trás chutando o canivete ao ar.
–E agora, está pronto para desistir?
Dessa vez ela se irritou com o garoto e foi direto em sua direção com fumaça saindo dos dedos, ponta para agarra-lo e o derrubar para fugir, o sentimento de desespero fazia as pessoas mais lutadoras, sua antiga instrutora dissera a ela certa vez. Mas o Giustizia fez pouco caso disso, passou um chute baixo nas canelas dela, fazendo-a cair. Rapidamente ele a dominou e tirou umas algemas do bolso da calça preta e colocou nos punhos dela.
–Ah, como as pessoas estão violentas esses dias...
–Me largue, me largue.
–Não, falou ele em tom autoritário.
Sofia já via tudo escurecer, os seus sonhos, suas esperanças tudo agora se tornava negro, como sua visão do asfalto, ela começou a chorar, “merda, merda, merda, eu estava tão próxima, por que essas pessoas assim não aparecem para lidar com os problemas dela” o choro já era incontido.
O dominador começou a ficar envergonhado agora que ele via o rosto de Sofia, uma mancha branca cheia de lágrima com cachos que deveriam ser castanhos claros mas que tornavam para o preto de tanta sujeira.
–Ei, não vem chorar para cima de mim agora...
Mas o choro continuava mesmo assim, ela já dormia no concreto, mas foram os roncos de sua barriga que levaram o garoto de blusa branca a carrega-la nas costas de volta para o local onde eles se avistaram.
Para Sofia, aquilo ali já era um sonho onde ela resolveu finalmente descansar nas costas do garoto que era um grande travesseiro...
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