Notas iniciais
Fiz o melhor que eu pude, o capítulo é meio lento em comparação com o anterior mas explica uma parte do mundo, boa leitura.

Nina estava digitando no computador, esperando Gabriel chegar, quando ela ouviu um chamado de socorro vindo do piso de baixo “esses ladrões estão abusados, roubando em baixo literalmente do nariz da Giustizia, eles iriam ver, mas Gabriel não está aqui, acho que só me resta ir”.

Ela se inclinou na janela para ver o resquício de cena que se passava, um quarteirão a frente um jovem baixo encapuzado numa jaqueta corria com uma bolsa debaixo do braço esquerdo, atrás dela seguia um outro adolescente de camisa branca e calça preta com uma farda no braço “Gabriel!”, afinal ele pelo menos chegara quando fora preciso.

Ela desceu as escadas para ver os danos ocorridos na loja abaixo, chegando lá ela se deparou com uma moça mais ou menos da sua idade, caída no chão, havia vidro quebrado ao seu redor, ela achou melhor tira-la de lá. A moça estava desmaiada, branca como um cadáver, e era pesada, apesar disso ela consegui subi-la escada acima para trata-la.

Nina pôs a moça na única cama ali no escritório e pegou em uma das gavetas da escrivaninha o kit médico. Ela virou a mulher, por sorte o vidro não entrara em sua pele, só rasgara parte do vestido que ela usava, havia outra batida na cabeça dela onde crescia um calombo, ela passou uma pomada e enrolou-o em bandagens.

Ela começara a ficar preocupada, Gabriel demorava mais do que ela esperaria “deve ter perdido o ladrão de vista”. Passados alguns minutos a mulher acordou e ainda parecia meio tonta então Nina falou:

–Não se esforce muito, você sofreu uma pancada na cabeça, acho que quando caiu no chão do desmaio, mas não se preocupe Gabriel já deve estar voltando com sua bolsa.

–Certo, obrigada, mas não foi o criminoso que fez isso, eu já estava com ele antes do assalto.

Ela notou uma batida, duas batidas, três batidas na porta, era um sinal de Gabriel “dispense a mulher” era o que significava as três batidas consecutivas.

–É melhor você ir para casa e descansar, você consegue chegar lá?

–Acho que sim, eu volto aqui quando estiver melhor, obrigado pelo tratamento.

E assim a moça saia pela porta, ela não deu de cara com ninguém, “Gabriel não queria ser visto por ela, provavelmente não conseguira capturar o ladrão”.

Alguns minutos depois que a moça saiu, o adolescente fardado dá um pontapé leve na porta para entrar, com ele, mais especificamente em suas costas estava uma coisa, que se revelou ser uma menina, lá pelos 13 anos.

–O que é isso? Pergunta Nina espantada por aquele ser ali.

–É uma menina, estava correndo por ai, roubou aqui em baixo, acho que você deve ter ouvido da moça, não?

–A moça não chegou a falar nada, mas por que ela está inconsciente?

–Inconsciente não, dormindo, ela é uma divinity, acho que usou seu poder demais ou então só quando ela caiu no chão, ficou muito cansada, qualquer coisa assim, isso não é o importante.

–Já vou ligar para os Guardians, só espere uma momento, falou ela enquanto buscava o celular nas suas calças jeans para ser parada pela voz dele.

–Não, não ligue.

–Como assim não ligue, a menina cometeu um crime, é natural que seja presa, ou você já se esqueceu disso.

–Eu não me esqueci de nada, mas eu quero ouvir a história dela, por favor.

–... só me conte o por quê?

–Ela... estava faminta, passando fome.

“Passando fome, sério é só isso que basta pra você não entregar ela, arr, que raiva, só vou deixar, porque bem, é ele, e ela devia uma para ele”

–Certo, eu não vou denuncia-la, mas onde você vai deixa-la.

Ele olhou para ela com olhos de cachorro abandonado que indicava exatamente o que ele estava pedindo.

–Não precisa usar meios tão sujos para me pedir um favor, mas você vai ficar me devendo uma.

–Muito obrigado Nina, ela de desmanchou em vermelhidão no rosto.

–Só, só deixe ela ali na cama.

Gabriel deixou a menina na cama e saiu anunciando o inicio da ronda. Prontamente Nina foi cuidar da menina, ela estava muito magra para alguém da sua idade e com um calo na canela direita “aquele bruto”. Ela tratou da canela assim como a moça da loja e fez uma comida para quando ela desperta-se.

...

Ela mexia no computador, organizando as denuncias e boatos, rumores do bairro no escritório da Giustizia, mas hoje o trabalho não rendia, talvez fosse a concentração perdida nos olhares constantes na menina capotada no sofá, talvez fossem as palavras do adolescente.

Numa dessas quebras de serviço ela observou a menina já desperta comendo o caldo de galinha que ela preparara e deixara na cabeceira da cama. Depois disso, a menina olhou seu ambiente ao redor, se inquietando com aquele lugar muito estranho, a falta de paredes na divisão dos cômodos e a junção de um pseudo dormitório com um escritório facilitavam a confusão da garota.

Mas logo ela se cansou daquele jogo de admiração e com um pulo ela saiu da cama, a canela direita formigou quando ela aterrissou, mesmo assim, manca, ela continuou a ir em direção à porta.

–Você sabe, por mim eu chamava os Guardians.

A menina espantada com a voz saindo do meio da pilha de papel pergunta assustada:

–Quem está ai? Onde está aquele garoto que me deteve?

–Sou Nina, e se você quiser vê-lo você vai ter que esperar, por quê você não se deita e dorme mais um pouco, eu acharia uma falta de educação enorme nem esperar seu salvador, ele só não levou você aos Guardians porque queria ouvir sua história.

A menina talvez convencida talvez com segundas intenções voltou para a cama, se deitou lá e ficou a observar a janela do segundo andar, não que fosse possível ver a céu claramente, mas certamente os prédio ao redor deviam dar um aspecto feio, mesmo assim ela olhava como uma criança quando vê alguma coisa pela primeira vez.

Nina ajeitou os óculos e procurou começar uma conversa.

–Qual seu nome? Eu acho que já falei, mas eu sou Nina.

A menina permaneceu em silêncio mas por fim cedeu.

–Me chamo Sofia, prazer.

–Igualmente.

–O que é isso “aqui”?

O aqui que ela usou pejorativamente não agradou a jovem de óculos mas ela já tinha se acostumado a aquele padrão de casa que as pessoas tinham, então ela foi explicando:

–Isso “aqui” é um escritório da Giustizia na região Norte do 16°Círculo da Cidade Plataforma, também é minha casa.

A garota pareceu incomodada quando ela mencionou a Giustizia, mas mesmo assim seguiu quieta na explicação da jovem.

–Nós só temos dois membros, eu e o Gabriel, o bruto que trouxe você aqui.

–“Bruto”? Vocês não sempre agem assim?

Nina ficou estupefata com aquela pergunta que não parecia ser provocativa, mas sim uma ignorância em sua forma mais inocente, ela tomou fôlego e tornou a explicar para ela.

–Deixe-me deixar claro, nós da Giustizia só fazemos as denúncias e patrulhas durante o dia, nós nem carregamos armas, ou melhor não permitem nó carregarmos armas, é uma atitude sábia sabendo que nós somos principalmente estudantes ou menores. A EXUCUTIO é que maneja as ações mais violentas, já os Guardians são os carcereiros da Cidade Plataforma. Você nunca passou por nenhum deles?

–Eu não saberia, você fala esses nomes mas eles parecem que ignoram o lugar de onde eu venho.

Aquilo era inacreditável, ela sabia que os 17° e 18° Círculos, os mais afastados do Forbe, eram mais negligenciados, mas ela tinha quantos anos na cidade? Quase 10, como isso era possível?

–Mas aquele garoto, ele era forte, parecia até treinado.

Nina empinou o nariz como se o elogio fosse feito a ela e se precipitou para esbanjar toda sua informação.

–Ele é um divinity com nível 10, um dos maiores dos Círculos afastados (18,17,16,15,14,13) ele poderia até ir para o 5°Círculo.

–Nível 10, baseado no que?

–Você não é ranqueada no sistema?

–Que sistema?

–Minha nossa, eu pensando que o nosso círculo era atrasado, mas vejo que tem pior, geralmente eles fazem isso na escola, eles classificam de 0 a 5 alguns critérios, 4 na verdade, poder, inteligência, uso para pesquisa e uso para sociedade.

–Que estranho, seria bom se isso acontecesse no meu círculo, talvez melhorasse minha vida.

Com isso a menina se fechou para conversas futuras e tornou a observar o céu da pequena janela do quarto.

Era no mínimo curioso, parecia até que ela pertencia a outro mundo, ela já sabia que o projeto da cidade igualitária estudantil era falho, mas ela nunca pensara que fosse tanto.

...

Depois de cerca de duas horas já batia o sino das 12 horas da meia noite e ela quase dormia em cima do teclado, a menina já capotara novamente depois de comer mais uma pratada de sopa.

Passos ecoaram no edifício subindo as escada, ela já o esperava a algum tempo, mesmo com a rota de patrulha mais demorada ele já deveria ter voltado.

Gabriel abriu a porta silenciosamente e foi para perto de Nina, ele então a olhou da cabeça aos pés, ela usava um pijama de sapo, e estava pronta para dormir, não era algo confortável ser olhada naquele traje, percebendo seu incômodo ele olhou através da janela e perguntou:

–Conseguiu alguma coisa? Tipo o nome dela?

–Não descobri muito, mas sei que ela se chama Sofia e vive em alguns dos círculos mais afastados, ela parece um extraterrestre de tão ignorante é.

–Como assim?

–Ela não foi classificada e também disse que nunca viu os EXECUTIO ou um Guardian.

–Nossa, aquele lugar esta mais sem lei do que eu pensava. Mas e ai ela chegou a pedir alguma coisa ou falou do roubo?

–Nada, mas eu acho que ela está com a perna muito ruim, você tinha que ser tão violento?

–Para sua informação eu não sabia que era uma garotinha e nem que ela era uma divinity, por isso tive de apelar.

De repente um berro vindo do outro lado, no lado do quarto espantou-os ambos, era um grito de garotinha de 13 anos.

–GAROTINHA! COMO ASSIM GAROTINHA?

Quando eles olharam, Sofia estava de pé para eles piscando nervosamente tentando se controlar, “ela ouviu toda nossa conversa” pensou Nina, mas foi Gabriel quem cedeu primeiro.

–Desculpa, não sabia que você estava ouvindo, pensei que estivesse dormindo, moça.

A menina ficou um pouco menos nervosa, a ponto que a piscadela nervosa parou. Mesmo assim ela continuava a encarar o adolescente que foi aos poucos se aproximando dela. De repente ela começou a falar já sem irritação na voz.

–Você, Gabriel né? Você me deve explicações.

–Também acho que eu poderia ouvir algumas das suas, por que não fazemos uma troca de informação?

–Sim, mas me fale você primeiro, por que você não me levou a esses tais de Guardians?

–Essa é fácil, eu não sabia o quê você queria quando roubou aquela loja, mas uma coisa seu estômago me contou, você estava faminta num nível que ninguém deveria passar. Agora é minha vez, foi falando Gabriel enquanto se sentava ao lado dela na cama, por que você estava roubando?

Para Nina aquela pergunta era óbvia, se ela estava com fome, era só ligar os pontos mesmo assim ela resolveu tomar o papel de observadora.

–Eu queria dinheiro, só isso.

Era óbvio que ela estava mentindo, mas mesmo assim ele deu um jeito de continuar com a conversa.

–Falemos a verdade Sofia, ou esse acordo não é bem lá um acordo.

Então ela contou uma história triste demais, ela contou como o irmãozinho dela era, ela descreveu seu sorriso meigo e inocente, e como uma recaída destruiria aquilo, ela contou seu sofrimento para pagar a dívida, contou do trabalho que ela arrumara para pagar a dívida do irmão, contou do prato bordado com pratos que ela vendera, a dívida que não parava de aumentar, contou até o dia de hoje. Chegando ao final do relato, Nina já estava prantos, e a cara de Sofia também não era a das mais apresentáveis mas, Gabriel não parecia nem um pouco comovido com a história, na verdade ele não expressava nada.

A menina recompôs a voz e reiniciou a conversa.

–Minha vez agora, você é realmente forte?

Ele ficou surpreso com aquela pergunta, mas respondeu prontamente enquanto alisava os cabelos curtos e negros.

–Eu me considero bem forte, embora não tão forte a ponto de conseguir tudo aquilo que eu queira... mas eu posso afirmar que eu não fiquei sério em nenhum momento da nossa luta. Eu só tenho mais uma pergunta, onde está seu irmão?

Ela hesitou para responder aquilo, até porque, as pessoas com quem ela estava envolvida, deviam ser realmente violentas, imagine só um narcotraficante numa terra sem lei, é quase um festival, mas por fim ela conseguiu tirar o endereço da boca.

–Você vai fazer alguma coisa contra eles? Você falou que você não era tão forte.

–Não é para mim esse endereço, eu vou tenta mexer alguns pauzinhos e fazer a EXECUTIO entrar lá, não é muito, mas se você estiver dizendo a verdade, eles irão recuperar seu irmão.

A menina que até então só mostrara raiva e admiração quebrou o paradigma e inclinou a cabeça numa cara de incrível pergunta, ela pensou longamente naquilo, mas ainda parecia inquieta e enfim perguntou em to baixinho.

–... Mas por que você faz isso?

–Porque eu já estive na sua situação, fala o garoto em tom misterioso.

Notas finais
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