Notas iniciais
Naquele momento, eu caí da cama — me arrependi, meu pijama rasgou — e a fitei. Aquilo NÃO podia ter acontecido.
–Como assim Alfre? Ele estava comigo agora a pouco e...
–Você estava com ele? — Ela me olhou com uma cara maliciosa. — Vocês estão namora...
Joguei minha sandália na cara dela. Acertei bem no seu olho esquerdo, fazendo ela rugir — exato, ela não gritava, ela rugia — de dor.
–Ai, qual é a necessidade disso? — Alfreda indagou massageando seu rosto.
–Não interessa! — Eu gritei. — Bem, mas como assim? Sabem quem foi?
Ela aproximou-se lentamente de mim.
–A única coisa que restou foi o gorro dele. Está com as mesmas digitais de quem sequestrou o Sr. P. O cientista contratado primo do Bob Marley, que também não sabem o nome por isso o chamam de Aga, não conseguiu identificar as digitais. — Alfre me mostrou o gorro, fazendo eu soltar lágrimas.
–Nós temos que conseguir encontrá-lo! — Berrei.
–Calma, na missão a gente reserva um tempo para busca!
–Tá bem, mas vamos ir hoje Alfreda! Chame o Alfredo que vou me vestir!
–Calma Marina — A loira saltou em mim e derrubou-me no chão para eu não a expulsá-la — Você está cansada, vá dormir. Amanhã a gente vai. — Ela me olhando com seus olhos azuis me ajudou a me levantar.
Eu relaxei, mexendo nos meus cabelos castanhos. Baixei a cabeça e concordei com ela. Expulsei ela do meu quarto — sou muito amável, sabe — e fui trocar o pijama, — é claro que eu não ia dormir com um pijama com a bunda rasgada, claro — logo eu deitei. Enfiei a cara no travesseiro e pus-me a chorar até conseguir dormir.
No dia seguinte, tomei um banho quente — minha pele queimou de tão quente que estava a água, até hoje tenho uma cicatriz da queimadura no braço esquerdo — e me arrumei para a missão. Coloquei uma blusa de manga comprida azul macia e quente, pois estava fazendo frio, uma calça comprida e um colar. Fiz uma trança no meu cabelo e peguei minha mochila.
Fui pra praça de alimentação e tomei café da manhã. Um sanduíche de queijo e presunto com achocolatado foi o suficiente para matar minha fome.
Me encontrei com o Alfredo e a Alfreda — nossa, já estou ficando confusa com isso, vou morrer! — no pátio, para irmos sair para a minha primeira missão.
Mas Alfredo me puxou e falou:
–Devemos falar que iremos ir, pois se não Bob Marley nos mata...
–Mas... — Não terminei de falar. Não queria morrer antes da missão começar. Fui até a sala dele.
Bati na porta e entrei. Vi uma sala com papéis espalhados por todo canto, com uma estante de livros desorganizada, gavetas abertas, tendo só uma trancada, um balcão cheios de lápis e documentos espalhados, bem, resumindo: uma total bagunça.
Lá estava o grandalhão moreno, de cabelo e barba comprida, olhos sempre com um óculos escuro, uma boina, um paletó e gravata, bermudas havaianas e tênis. Tudo combinando, pra não dizer ao contrário.
–Posso falar com o senhor? — Perguntei
–Claro. — Ele respondeu. — Creio que é sobre a missão.
–Sim.
–Está bem senhorita Carvalho. Sente-se.
–Quando ele falou meu sobrenome Carvalho, eu gelei. Era o sobrenome do meu pai. Que eu o matei.
Naquela hora, eu retirei imediatamente aquilo da minha cabeça. Não poderia chorar na frente do diretor.
–Bem, o que você vai fazer na missão? — Ele perguntou.
Para ser sincera, eu não sabia. Apenas dei de ombros.
–Vou lhe dar algumas dica. — Bob pegou um mapa que tinha na mesa. Apontou para o Acre.
–Está vendo esse estado? — Ele perguntou.
–Sim.
–Pronto, é ali que os extraterrestres começarão a invasão. — O diretor falou tirando sua boina e jogando em um canto qualquer — Só isso posso lhe dizer.
–Mas a gente está no Nordeste, como iremos para o Norte sem ajuda? — Perguntei.
Ele arregalou os olhos, e logo em seguida deu de ombros.
–Se virem.
Naquela hora, eu pensei "que ótimo. Ajudou muito. Valeu mesmo, não sei o que seria da minha vida sem seu conselho".
–Está bem, obrigada, tchau.
Antes que eu chegasse na porta, ele gritou algo parecido com um "espere".
–Marina — Ele se levantou e pegou algo na gaveta trancada. Tirou um livro das cores do internato — verde e vermelho — sem título. Ele me entregou. Folheei as páginas, mas só haviam linhas.
–O que é isso, e pra quê? — Perguntei.
–Isso é um diário. — Ele falou — Jamais uma menina de 14 anos, numa missão retornou viva. Mas eu acredito na sua capacidade. Você é diferente. — Ele deu uma pausa. — Prometa uma coisa para mim.
Eu tinha gelado. Era a segunda promessa que pediam para mim.
–Tome isto. Se você voltar viva dessa missão, ao completar 35 anos, você escreverá tudo que você passou nessa missão, desde da chegada do internato até a volta da missão. Você será a marca do mundo com isto. Se vencer, provará ao mundo que adolescentes são capazes de tudo. Promete que irá escrever suas memórias nisto ao completar 35 anos? — Ele perguntou.
Eu pensei um pouco. Talvez eu provaria a minha mãe que eu ainda tinha chances. Mostraria do que EU seria capaz. Olhei em volta. Acreditei na minha coragem.
–Prometo.
Ele me deu um forte abraço.
–Boa sorte. Mostre do que você é capaz. Você é a heroína desse mundo. Não será um Super-Homem ou uma Mulher Maravilha qualquer, será a garota, forte e corajosa. Não tenha medo de perder. Temos que nos arriscar, batalhar e vencer. Não pode ter medo e desistir de tudo. — Ele falou confiante.
–Obrigada senhor. — Falei emocionada.
–Senhor não. Apenas Bob.
–Obrigada Bob! — Agradeci ele.
–Boa sorte! Não tenha medo!
Eu saí da sala com o coração a mais de mil. Bob Marley não era um terror como os outros diziam.
Voltei para onde Alfre e Alfredo estavam.
–E aí? — O pálido perguntou.
–Vamos agora. — Falei. Vamos pro Acre.
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