O despertar de uma alcateia

1 E logo no primeiro dia, eis que surge um desafio


“ Acorde. Princesa, acorde, hoje é dia de deixar o palácio, as aulas vão começar” Era a voz de Dylan, o jovem Anemoi, que arrastava uma mala cinzenta como uma nuvem carregada para dentro do quarto. Ele não tinha um tom de pele claro e cabelos loiros, ou do contrário, pele escura e olhos negros, na realidade parecia uma névoa espessa em forma humana mas o diferencial era seu sorriso galanteador e os olhinhos amendoados que fixaram na sonolenta Katherin Westfield.

— Eu não quero ir para aquela escola nojenta... — Murmurou, quase manhosa, se espreguiçando na cama.

— E eu gostaria de ser um centauro azul com asas de morcego e cavalgar sobre o arco íris em direção ao pôr do sol mas adivinha? Isso também não vai acontecer.

A garota sorriu, um sorrisinho irônico de quem compartilhava do mesmo sentimento sobre o poder do sarcasmo junto a Dylan, por isso ambos se davam tão bem, mesmo sendo uma relação entre nobre e servo.

Aguardou o Anemoi deixar o quarto para se dirigir ao banheiro que tinha proporções colossais assim como tudo no palácio. Encarou seu reflexo no grande espelho, visualizando sua forma esguia e curvilínea, mas sem exageros, que parecia perfeita para sua estatura baixa de cerca de 1,56 de altura, no entanto sua face era bela e bem desenhada, suas bochechas eram proeminentes e levemente rosadas, o nariz fino e empinado, seus olhos amendoados eram ligeiramente puxados mas não davam a ela um ar asiático, pelo contrário, a íris tinha uma coloração incrível de azul, como puro cristal de gelo. Os fios lisos eram loiros esbranquiçados e caiam como uma cascata de neve por seus ombros, contrastando em seu tom de pele pêssego.

Suspirando, optou por entrar debaixo do chuveiro, deixando a água quente cair sobre as costas e o vapor se dissipar assim como seus pensamentos. Ela tinha uma mente barulhenta.

[...]

Ouviu soar o alarme, a escola mais parecia um castelo medieval com alguns “quês” de modernidade aderidos de outros reinos que não constituíam este. Nos autos falantes se ouvia uma voz masculina que Kate conhecia bem. Era o diretor, e seu tio.

“ Sejam bem vindos! Ao se acomodarem, dirijam-se ao refeitório para ouvir o pronunciamento sobre as normas escolares além de claro, um delicioso café da manhã para que comecemos bem o dia. “

Revirou os olhos, suspirando enquanto obrigava as próprias pernas a caminharem rumo ao refeitório, adentrando o mesmo com um ar indiferente, observando de soslaio os demais alunos. Ao passar por uma mesa onde apenas um rapaz estava sentado, raptou uma maçã, mordendo-a sem nem mesmo sorrir ou dar-lhe bom dia, por fim se sentando em uma mesa afastada onde podia visualizar o jardim através da grande janela. Mordeu novamente a maçã, desta vez observando os alunos se sentarem, um ou outro parecia animado, um ou outro parecia interessante, mas no geral, a maioria preferia se isolar dos demais, e foi nesse instante que uma figura de cabelos cor de areia com um comprimento considerável se levantou, cobrindo a face com um capuz e enfiando as mãos nos bolsos, dirigindo diretamente a si um olhar indiferente, o que durou poucos segundos visto que ele deu as costas, saindo sem ao menos tocar em sua refeição.

Intrigada e irritada por aquele olhar, a princesa se levantou, sua aura irradiava poder e inquietação, ao caminhar as brisas pareciam se agitar à sua volta. Ao dar por si, já o seguia até a arena, onde ouviu o barulho de lâminas, fazendo-a projetar os lábios em um biquinho infantil, logo seus olhos frios focalizaram o rapaz.

Ele não esperava por uma garota, muito menos aquela garota. Cerrou os punhos, girando as lâminas que segurava em ambas as mãos, encarando-a com um meio sorriso. Ela não sorriu, mas encarou aquilo como um convite silencioso. Arqueou uma sobrancelha, se aproximando com passos vagarosos, sem desviar o olhar do mais alto, nisso fez um gesto rápido, um único movimento na diagonal da esquerda para a direita, de cima para baixo onde uma névoa envolveu seu braço até o cotovelo, no mesmo instante já segurava uma Katana.

— Bela arma. — Comentou o loiro, agora também se aproximando lentamente. — Quem morrer primeiro perde? — Gargalhou, uma gargalhada subjetiva, maliciosa, seus olhos claros brilhavam.

— Só a arma? — Implicou, a voz carregada em sarcasmo, girando o cabo da lâmina entre os dedos com um ar travesso, igualando-se à malícia furtiva do outro. — Eu adoraria ter sua cabeça empalada em uma lança... Mas é contra as regras que você não teve o prazer em ouvir. Infelizmente. — Suspirou, o que projetou uma suave brisa gélida sobre o ambiente, agora realmente próximos.

— Não, você não é de se joga fora mas... Meus interesses aqui são muito mais para o lado profissional. Obrigado pela oferta porém devo recusar, minha cabeça fica onde está.

— E quem disse que eu tenho algum interesse em você?

Foi a última resposta antes dele investir contra Kate.

Notas finais
Grata se leu até aqui.