O coração que os olhos não veem
11 Uma declaração impossível
Notas iniciais
– Entre.
Antes mesmo de chegar a bater na porta, a confirmação já é recebida. Ele a abre, acessando o espaço particular alheio. Não demorou muito para seus joelhos dobrarem-se e seu corpo se curvar em reverência ao ser a sua frente. Seria uma ousadia invadir aquele território sem dar as devidas satisfações.
– Szayel Aporro Granz. Algo a tratar comigo?
– Aizen-sama. – Após o pronunciamento, o rosado ergue seu corpo, voltando a ficar em pé – Perdão a intromissão em seus aposentos sem ter sido convocado, mas talvez o que venho informa-lo seja de seu interesse.
– Continue.
Com a permissão recebida para prosseguir, o Octava Espada ajusta seus óculos no rosto, externando o sorriso comumente conhecido dele. Parecia que desde o início ele já esperava a aquiescência de seu superior com o seu pedido.
– Eu serei direto. Há uma grande chance de descobrir toda a explicação de como os poderes de Inoue Orihime funcionam. Se eu conseguir desvendar a chave de suas ações, será possível criar uma cópia exata e melhorada dos poderes da garota e dá-la ao senhor, para ter acesso direto e particular a ele, sem mais necessidade de recorrer àquela humana.
Aizen permaneceu em sua costumeira posição, ouvindo tudo o que aquele indivíduo o informava. Ao seu término, um brilho diferente surgiu nos olhos do ex-shinigami. Um brilho indecifrável, mas carregado de significados ocultos. Impossível até mesmo do Espada a sua frente compreendê-los. Por um momento, Szayel temeu a reação de seu superior. Será que foi muita ousadia de sua parte colocar os olhos na garota a qual Aizen proibira qualquer um de aproximar-se dela? Toda a certeza impregnada em seu discurso pode não ter passado de mera blasfêmia de sua parte, coisa que Aizen jamais perdoaria. Qual seria a próxima atitude de seu mestre após seu pronunciamento? Um medo não previsto percorreu todo o corpo do cientista. Por alguns segundos, Szayel esperou sua morte, até ser surpreendido com a voz emanada a sua frente.
– Interessante. Dou permissão para os testes na garota, agora a cargo de sua responsabilidade. Não preciso informa-lo que não a quero morta, até que consiga obter o resultado pretendido.
Antes mesmo de abrir a porta, Aporro Grantz já imaginava a aceitação de Sousuke. Desde o início se manteve calmo, pois com a proposta que trazia seria difícil receber uma recusa. Porém, de algum modo, adquirir essa permissão ainda o surpreendeu. Parecia que toda a sua previsão havia sido reescrita com o olhar lançado de seu superior, e por um momento passou pela sua cabeça que nada mais daria certo. O impacto da resposta ainda cercava seu subconsciente, mas agora ele precisava falar algo. Deixou de lado a incompreensão que rodeava a sua mente, e inclinou-se mais uma vez para saudar a sua autoridade.
– Imensamente grato pela permissão, Aizen-sama. – Virou-se para a porta, prestes a retirar-se. Já havia conseguido o que queria, não havia mais motivos para permanecer ali. Porém, enquanto caminhava para a saída, ouviu aquela única voz capaz de intimidá-lo.
– Szayel. Antes que se retire, preciso informa-lo que você não fará isso como um possível resultado. Você tem que conseguir esse resultado, sendo ele possível ou não. Estou lhe dando permissão para estudar todos os poderes daquela humana, logo você obterá informações preciosas ao seu respeito. Não espere que venha depois me informar que não conseguiu criar a cópia perfeita e aprimorada de seus poderes, enquanto obteve dados importantes da garota. Você só tem uma opção. Não aceitarei falhas.
Sentiu escorrer pelo seu rosto um suor gelado com aquelas palavras. Realmente, Aizen não deixava o menor dos detalhes passar despercebido. De fato, ele não conseguiu o controle e dominação do Hueco Mundo sem possuir habilidades. Fazia jus chama-lo de mestre.
– A próxima vez que eu abrir esta porta, estarei com o resultado em mãos. Com a sua licença, Aizen-sama. – Voltava o seu percurso em direção a saída.
A porta se fecha.
Aquela curta conversa foi capaz de firmar a evidência que o rosado já possuía: a de que não devia, em hipótese alguma, subestimar aquele homem. Agora devia focar toda a sua atenção em sua pesquisa. O mais insignificante dos detalhes pode possuir complicações indecifráveis. Não, nada é totalmente indecifrável que Szayel Aporro Granz não consiga desvendar. Por mais que o último aviso dado pelo seu superior pudesse causar pressão a qualquer um, isso não ocorreu com o Octava Espada. Ele não era qualquer cientista. A verdade é que nunca aconteceu de qualquer pesquisa sua resultar em falhas. Até hoje, tudo o que seus olhos tocaram, seu conhecimento o transformou em criações bem sucedidas. Não havia o que temer.
O rosado seguia seu percurso pelo corredor até deparar-se com uma esguia sombra que se formava na anexação de um corredor com o outro. Não era difícil imaginar quem seria, pois já esperava que ele estivesse a sua espera. Aproximando-se daquela sombra, curvando-se no corredor, encontrou exatamente com quem esperava.
– Como foi?
– Você tem sorte que eu já estava de olho nessa humana desde que ela chegou aqui. Coincidentemente, os meus interesses assimilaram-se aos seus, o que acabou por contribuir para nós dois.
– Faz tempo desde a última vez que trabalhamos juntos. Será bom me juntar novamente a você.
– Oh sim, realmente faz tempo. Quando foi a última vez? Ah, me lembrei. Quando pusemos fim a antiga tercera Esp-... – Aquela espada dominou seu campo de visão. Tornar-se-ia difícil concluir sua fala, enquanto aquela monstruosa arma é atirada contra a parede pelo moreno. A brutalidade com a qual ele a lançou no concreto demonstrava claramente sua recusa em ouvir falar daquela mulher. Apesar de sua extensa arma ter sido disparada a poucos centímetros do cientista, este não moveu um músculo. Parecia que o fato de ela não ter lhe atingido foi regido mais pela sorte do que necessariamente um cálculo de distância. O outro apenas ri gloriosamente, enquanto acomoda seus óculos sobre o nariz. Apesar de demonstrar despreocupação, nenhuma palavra é mais ouvida de sua boca.
– Vamos logo dar início ao plano. Estou cansado de esperar. – Noitora voltava a carregar sua katana, apoiando-a sobre um dos ombros, como costumeiramente a transportava. Dava as costas ao rosado com celeridade. Sua ânsia só reforçava a impaciência que pulsava no corpo do Espada. Não suportaria esperar mais.
...
A garota de madeixas acobreadas andava de um lado para o outro em seu cômodo. Talvez nunca antes se movera tanto em tão curto espaço de tempo naquele lugar. Por um momento demonstrava impaciência, mas em outro clamava por tempo. Um sorriso podia ser visto em seus lábios, mas no instante seguinte seus olhos humedeciam a ponto de escorrerem lágrimas. Indecisões e mais indecisões cercavam sua cabeça, mas ao mesmo tempo ela sentia uma certeza tão forte que podia dirimir todas as suas dúvidas. Era inegável que a garota passava por uma forte confusão em sua cabeça. Um turbilhão de emoções a regindo.
A felicidade envolvia toda a extensão de seu corpo quando lembrava que Ulquiorra estava vindo, neste momento, vê-la. Depois de sua última conversa com a terceira Espada, enxergou que a mesma era de confiança. Logo, sabia que Halibel havia dado o aviso como a prometera. Não restava dúvidas, era questão de tempo até Ulquiorra abrir aquela porta. Pensar nele fez seu coração bater mais rápido. Se surpreendeu como quão veloz esse órgão pode vim a pulsar. A ansiedade e nervosismo em seu corpo a dominavam como nunca antes. A cada minuto que se passava sua inquietação aumentava. Seus olhos não desviavam da porta. A qualquer momento ela se abre, a qualquer momento.
Não, ela não aguentava mais ficar em pé. Precisava sentar, sentia que suas pernas estavam perdendo as forças para continuar segurando o peso de seu corpo. Sentando-se, ela começa a passar as mãos nos fios ruivos, arrumando-os. Logo depois ela começa a mexer em suas roupas, alinhando-as ao corpo. Sempre fora uma garota vaidosa, e não seria logo agora que ela deixaria de se arrumar, ao menos um pouco. Ao tocar com as palmas das mãos o seu rosto, sente-o quente. Sabia que estava corada, mas como não estaria? Essa seria sua primeira declaração para alguém.
Não, não a primeira.
Ela não podia esquecer que já havia se declarado antes para Kurosaki Ichigo. Uma declaração repleta de emoções e desejos. Havia sido logo antes de vim para o Hueco Mundo, antes de aproximar-se do quarto Espada, e antes de seus sentimentos mudarem. Pensar nisso a fez agradecer o fato de, naquele momento, Ichigo estar dormindo. Não saberia como fazer para negá-lo tudo o que anteriormente o dissera, caso ele tivesse ouvido suas palavras. Mais uma vez ela se lembra o quão ingênua foi. Mas agora a situação era diferente. Essa seria sua primeira declaração onde iriam ouvi-la. Ela precisava estar preparada para aquele intenso verde dos olhos alheios a fitarem a cada palavra que sair de sua boca. Precisava passar por cima de todo o seu constrangimento. Não que ela fosse uma garota tímida, mas em uma situação dessas o nervosismo torna seu insistente companheiro.
– A-Ah não! Eu não fiz nenhum discurso preliminar! Como eu posso dizer para ele o que estou sentindo? Será que ele vai entender? E se ele não gostar do que ouvir? – Respirou fundo – Eu preciso ter calma, mesmo que ele não me corresponda, eu não posso deixar isso me abater! Por mais que ache difícil isso não me abater... – Dá uma risada sem graça. Ela sabia que querendo ou não, iria sofrer caso não fosse correspondida. Não suportaria passar por isso novamente. Mas ela precisava tentar. Não teria forças para continuar guardando isso dentro de si por muito tempo. Não enquanto os seus amigos estão vindo resgatá-la. Quanto tempo mais ela teria junto do Espada? Não poderia esperar muito – Bem, não importa. Agora já é tarde para eu escolher minhas palavras. A qualquer momento ele chega. – Ela engolia em seco. Seu corpo não parava de tremer. Os olhos sempre focados na porta agora desviam dela por um instante – ...O que eu estou fazendo? Não é certo sentir isso por meu inimigo. – A ruiva abaixava sua cabeça, apoiando ambas as mãos no rosto. Seu corpo não tremia mais com o nervosismo. Agora sentia-se culpada. Tentava relembrar o que Halibel havia lhe dito naquele dia, para encorajá-la.
“ Se seus amigos realmente querem o seu bem, eles irão entende-la. ”
Sim, eles vão entende-la. Um breve sorriso surgiu em seus lábios. Ela precisava se agarrar a essa convicção. Mas a medida que se aproximava do momento dela se declarar para um Espada, o medo voltava a assumi-la.
– Não, não! Tudo vai dar certo! – Levanta-se com firmeza. A força em suas pernas havia voltado. Precisava acreditar naquelas palavras, pois não havia outro caminho. Depositar sua fé nelas e amenizar seu sofrimento, ou continuar a temer o pior, e permanecer sofrendo. Não há muitas opções para se escolher. Não passou muito tempo após suas palavras, Inoue se depara com a porta abrindo a sua frente.
Era impressionante como o seu coração ainda foi capaz de bater mais rápido do que a segundos atrás. O suor em suas mãos foi facilmente ignorado por ela. Agora toda a sua atenção se voltava para o indivíduo que entrava em seu aposento. Mais uma vez engolia em seco. Nenhum tom de vermelho podia chegar a ser comparado a sua feição naquele momento. Era agora, ela precisava reunir todas as suas forças para abrir os seus mais íntimos sentimentos.
– U-Ulquior...ra-kun... – A asseveração em suas palavras foi sumindo a medida que aquele homem que surgia em sua frente ia aproximando-se de seus olhos. Vestes brancas, mas não era ele. Por que não era ele? Será que Halibel não havia dado o aviso como lhe prometera? Seu corpo tremia, mas não era pelas mesmas razões de antes. Ela se assusta quando sente suas costas bater contra a parede. Enquanto tentava entender aquela situação, caminhava para trás sem notar. Provavelmente pretendendo se afastar daquele homem, em um ato inconsciente. Não havia mais para onde ela ir – Quem é você?
– Você vem comigo, princesa.
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