O coração que os olhos não veem
10 Caminhos distintos
Notas iniciais
O céu parecia exalar um brilho diferente do normal. Apesar de ser criação de Aizen, sua essência estava outra. Tudo o que aquela imensidão encobria parecia tornar-se mais real e intensa. Talvez isso só contribuiu para a sensação assustadora que emanava do Shinigami. A luz negra que o cercava tornara-se mais acentuada. Sua feição transmitida encaixava-se perfeitamente em uma assombrosa determinação em terminar com aquela batalha. Ichigo nunca perdoaria o que eles deixaram acontecer com Inoue Orihime.
Grimmjow divertia-se com a nova atmosfera que era emanada. De fato, havia tomado a decisão certa em informa-lo do ocorrido, acreditando não ser necessário qualquer arrependimento pelo que dissera. Eufórico já o suficiente, o Espada se prepara para, finalmente, dar continuidade àquela luta que acabara de se tornar mais instigante. Prestes a dar seu primeiro passo para o ataque, o sexto é impelido por uma superveniente presença que começou a ser sentida. Sem perder um mísero segundo, ele automaticamente dirige sua visão para o novo integrante, não gostando do curso que a batalha poderia vim a tomar.
– NOITORA! – Gritou impaciente ao vê-lo surgir a alguns metros de distância. Estava exalando uma raiva maior que a comum. O sangue que circulava em seu corpo queimava a ponto de entrar em ebulição. O que ele fazia ali? Obviamente, Grimmjow não foi o único a sentir a presença do novo indivíduo.
– Então, aquele é o Noitora.
– DROGA! – Grimmjow voltava sua atenção para o Shinigami, mas já era tarde. Antes mesmo de sua visão alcançar seu oponente, o mesmo já encontrava-se partindo em direção ao Espada que acabara de chegar. Sua velocidade era anormal, sendo totalmente irreconhecível a posição do ruivo, que se perdia em um vulto negro no meio do deserto.
A zampakutou encontrava-se firme em suas mãos, seu olhar agressivo focava-se unicamente no moreno longínquo a alguns metros de distância, que ia tornando-se maior à medida que Ichigo aproximava-se dele. Notou que a feição do outro parecia despreocupada. O corpo alheio encontrava-se imóvel, não levantava um dedo com a súbita aproximação do Shinigami. O Espada parecia estar ansiando aquele ataque. Noitora nunca recusaria uma luta contra quem está buscando por isso.
Já próximo o suficiente do Arrancar, o ruivo ergue ferozmente sua zampakutou, e desfere o ataque contra aquele que feriu sua amiga. O ódio que o cercava só tornou a ação mais potente. Mas, antes que qualquer dano pudesse ser notado, Ichigo sente algo colidir com sua espada. Subitamente, ele percebe que Grimmjow estava agora a sua frente. Sua aparência estava diferente, mas ainda reconhecível. Seus cabelos azuis agora alcançavam o chão, suas orelhas assemelham-se com a de uma pantera, e sua calda só reforçava a imagem. A falta da espada do outro passou despercebida com aquelas imensas garras em seus braços, que ele usou para se defender do ataque do Shinigami.
– Ichigo, você ainda é meu oponente! Não permitirei que lute contra ele, sem passar por mim primeiro!
Ichigo permanecia incrédulo ao notar que Grimmjow conseguiu alcança-lo naquela velocidade. A única explicação que conseguiu chegar para elucidar isso, foi essa transformação do azulado. Sua aparência mudara totalmente, estando nítido que a dimensão de seu poder agora não era mais a mesma que iniciara a luta. Ao perceber que não conseguiu atingir Noitora, o ruivo afasta-se da pantera, inconformado por ter sido impedido.
– Grimmjow... – Antes que pudesse terminar sua fala, a voz do quinto Espada o interrompe.
– Não esperava recepção melhor de nosso invasor com minha presença. Do jeito que eu gosto, sem conversas, apenas partindo para o ataque.
Agora, ambos direcionavam suas atenções para o moreno. Era bastante nítido que os olhares lançados para ele não revelavam nenhuma simpatia. Na verdade, era totalmente o oposto, mas isso foi completamente ignorado por Noitora, que só fez prosseguir com sua fala.
– Você parece ser uma presa interessante, Kurosaki Ichigo. Mas, infelizmente, não vim aqui para te enfrentar. Eu sei que se o fizesse, um certo felino descontaria sua raiva em mim. – Ouve-se um rosnar após isso – Talvez uma outra hora, dependendo de como essa luta irá terminar. Mas só quero avisá-lo que aquela humana está cumprindo o papel dela muito bem. Parece que finalmente conseguiu se tornar uma de nós, e claro, não poderíamos desperdiçar a chance. Até porque, ela está conseguindo nos satisfazer perfeitamente.
Automaticamente, as pupilas do shinigami se contraem em choque.
– O que você quer dizer com isso, Noitora?! – A tonalidade de sua voz era outra. Não estava crendo no que acabara de ouvir. Parecia conhecer a resposta, mas a negava fortemente para si. Afinal, o que ele quis dizer com satisfazer?
O quinto Espada abre um sorriso espantoso com a reação que causou no outro. Parecia que esse era o seu objetivo desde o início. Sem dizer nada, vira-se de costas a eles e desaparece, deixando apenas o rastro da areia lançada contra o vento em seu lugar.
...
“ Se eu fosse a chuva, eu seria capaz de me conectar ao coração de alguém, da mesma forma que a chuva pode unir os eternamente separados céu e terra? ”
Memória de um passado ingênuo envolvia os pensamentos da prisioneira. Naquela época, sonhava ser possível conquistar o garoto dos sonhos, aquele que a protegeria de todo o perigo, que sentir-se-ia segura e não temeria nada. Aquele que completaria todo o vazio em seu coração, e a faria tornar-se feliz.
Naquela época, achava que esse garoto fosse Kurosaki Ichigo.
Talvez por ele sempre mostrar ser uma pessoa forte, valente, sem medo de ser julgado ou ameaçado de qualquer mal, pois sabia que conseguiria sair vitorioso. Ao mesmo tempo, toda essa agressividade era deixada de lado quando ele estava com os amigos. Parecia tornar-se outra pessoa, sua gentileza e bondade brilhavam como o sol naquele que era temido aos olhos de muitos.
Naquela época, ela achava que o que sentia por ele fosse amor.
Talvez sua ingenuidade ou idealismo a fizeram vê-lo dessa forma. Orihime sempre fora extremamente romântica, logo, sonhar com um príncipe encantado ainda era almejado pela mesma. Porém, ela não é mais a garota de antes. Seus pensamentos mudaram, sua visão expandiu-se e, agora, conseguia enxergar o mundo com olhos experientes.
No fundo, ela sempre soube que Kurosaki Ichigo não correspondia seus sentimentos. Por mais que tentasse negar isso a si, e acreditar que conseguiria alcança-lo, a verdade é que Rukia sempre esteve a sua frente. Todo o tempo, sempre foi ela a mais próxima de atingi-lo. E, neste momento, finalmente, ela pôde parar sua caminhada na imensurável trilha de rochas, antes que caísse no profundo abismo que encontrava-se logo a frente. Agora, enfim, ouvia todas as suas mais sinceras vontades as quais sempre as evitou.
“ Não tente negá-lo, mas aceite-o. Quando você passar a aceita-lo, você conseguirá conhece-lo ”
Halibel estava certa. Aquelas palavras foram marcantes em sua vida e, provavelmente, nunca as esquecerão. O que ela mais fez, de fato, foi negar tudo o que podia estar sentindo. Talvez nunca chegou a ser sincera consigo verdadeiramente, sempre tentando encobrir o que era incapaz de ser ocultado, ignorando o que insistia em martelar em sua cabeça.
Orihime conseguia, enfim, distinguir os seus sentimentos. Kurosaki Ichigo sempre foi imensamente admirado por ela. Mas ele não passava disso, uma fonte de admiração que a encorajava em seus momentos difíceis. Ichigo foi a luz que a direcionou para o caminho que precisava seguir. Sua admiração por ele comparava-se estreitamente com a de Tatsuki. Provavelmente sem eles em sua vida, Orihime permaneceria aprisionada no vazio criado com a perda de seu irmão.
Agora, mais do que nunca, ela havia certeza de que seu príncipe encantado nunca aparecerá. A verdade, é que ela foi se apaixonar pelo dragão que a aprisionou na torre, que tanto a menosprezou e nunca demonstrou qualquer sentimento. Mas esse dragão, ironicamente, a trazia também uma sensação de segurança e felicidade, em nenhum momento antes sentida. Sua falta a fazia afundar-se em solidão. Suas lutas a faziam temer pela vida dele como se fosse a sua própria. Sua voz a envolvia como uma serena canção em meio a ruídos grosseiros. Ela conseguia enxergar dentro dele, tudo o que faltava dentro dela.
Sem dúvidas, a pessoa que ela amava todo esse tempo era Ulquiorra.
...
– Como anda seu trabalho com a humana? – A curiosidade transmitida por Gin parecia não encontrar fim. Mais precisamente, ele sempre o fora com o que considerasse de seu fascínio. Desde sua atuação no Gotei 13, era difícil qualquer informação ser ocultada que o ex-capitão não tomara conhecimento antes.
– De acordo com os interesses de Aizen-sama. – Bastou-se a dar tal resposta.
– Entendo. Eu, provavelmente, no seu lugar, não conseguiria dar conta dela. – Sua voz soou com a mesma tonalidade de antes, porém, dessa vez, seu rosto foi ocultado enquanto o mesmo girava a cadeira que encontrava-se sentado. Uma imperceptível mudança naquela feição foi observada aos olhos do moreno, mas facilmente ignorada.
– Por que diz isso? – Ulquiorra permanecia a encará-lo. Para o braço direito de Aizen, era difícil imaginar a incapacidade de Gin para cumprir uma missão tão miserável.
– Por quê? Hm, talvez seja porque ela me lembre uma pessoa do passado.
Pessoa do passado?
– E essa pessoa foi tão influente a ponto de fazê-lo não conseguir cumprir uma ordem como essa?
– Influente... talvez seja essa mesmo a palavra adequada. – Expirava o ar pelas narinas, aparentemente em fadiga. Gin nunca foi o tipo de pessoa que decidia falar mais do que era o necessário.
Os olhos verdes, agora, desviavam sua atenção para o chão. Parecia perder-se em seus pensamentos numa profundidade espantosa.
– Acho que Aizen-sama fez a escolha certa em te colocar para cuidar daquela humana. Mas você parece ser sempre tão sério e frio, não sei como ela não tem medo em olhar esse seu rosto todo dia. – Por fim, Ichimaru levantava-se de sua cadeira, dirigindo-se para a porta, não antes de parar ao lado do Espada que já encontrava-se em pé, apoiando uma das mãos em seu ombro.
– Não esperava ter uma conversa tão duradoura logo com você. Mas no fim, não achei tão ruim. — Constatando a ausência de pronunciamento do outro, deu continuidade a sua fala — As mulheres conseguem nos fazer ver um lado nosso nunca antes observado. Não vá seguir o caminho errado por ela.
O sujeito de cabelos prateados pôs fim a sua presença antes mesmo que o Arrancar pudesse reagir ao que ouvira. Afinal, que conselho mais inútil foi esse? Como se ele fizesse alguma questão em segui-lo. Não existe caminho certo ou errado. O que há são escolhas irrefutáveis e abstenções racionais. Nossas escolhas se baseiam unicamente em nossos anseios e possibilidades. Só um tolo seguiria por um caminho o qual não possui forças para quebrar seus muros. Mais provável ele ter sido escolhido a seguir por aquele percurso por uma força superior à dele, guiada em um objetivo lógico.
Pensou consigo como Aizen escolhera alguém com ideais tão fúteis para segui-lo, mas logo desmereceu tal ocorrido. Respirando fundo, fechou os olhos e voltou a caminhar pelo extenso corredor. Não demorou muito para deparar-se a sua frente com a mulher detentora de seriedade comparável à dele.
– Ulquiorra. A prisioneira o está chamando.
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