O coração que os olhos não veem
13 Resgate
Notas iniciais
O vento deslizava sobre a superfície alva de sua pele, percorrendo toda a sua extensão até chocar-se com os fios negros, sacudindo-os em rumo indefinido. Aquele ar que colidia sobre o seu corpo, impossível de se determinar de onde proveio e para onde prosseguirá, parecia levar consigo uma mensagem a qual sua única intermediadora era o toque. Aquela sensação única não visível, mas que claramente era captada, sem cor, sem formato, sem cheiro, sem gosto, nada. O único sentido capaz de comprovar aquela existência era o tato. Sentir a brisa tocar sua pele, de fato, era uma boa sensação. Las Noches sempre fora um local fechado, possuidor de poucas janelas onde, dificilmente, o vento ganhava permissão para entrar. Como se já não bastasse a comumente tensão que era sentida naquele lugar pelos membros que o habitavam, a ausência de vento só contribuía para deixar o ar mais denso.
É por esta razão que o Quarto Espada sempre gostou de passar, ao menos poucas horas ao dia, na plana extensão da mais alta torre do castelo, onde era possível enxergar toda a imensidão do deserto que os cercava. Sem dúvidas, aquela era a melhor vista do lugar. Não que a paisagem seja muito atrativa, a cada metro que sua visão alcançava apenas areia podia ser vista, fora os poucos galhos secos das árvores mortas, mas ainda assim aquele lugar era bastante valorizado por Ulquiorra.
Naquele dia em específico seus olhos podiam, finalmente, apreciar algo diferente do usual. Uma extensa neblina de areia podia ser vista de longe. Não demorou muito para constatar raios turquesa e negros sobrepondo aquela uniformidade, em incessantes colisões e choques entre si. A verdade é que a visão apenas comprovou o que sua reiatsu já sentira. Kurosaki Ichigo e Grimmjow Jaggerjack perduravam com o seu conflito. O estranho seria pensar que aquela disputa cessaria rápido, logo não foi nenhuma surpresa para o Quarto defrontar-se com os dois ainda guerreando. Ao menos seria um cenário diverso do habitual.
O tempo se passava e ele permanecia sentado assistindo a batalha que ocorria à distância. Preferiu ausentar-se de qualquer pensamento naquele momento, pois sabia que não colheria bons frutos deles. A verdade é que Ulquiorra encontrava-se impossibilitado de pensar. Ele sabia que se provavelmente chegasse a lembrar do ocorrido com sua ex-prisioneira, deixaria uma nova potência dominar o seu corpo, e certamente sua razão trocaria de lugar pela força desmedida. Enxergava que não era o mesmo neste momento. Em nenhuma outra hipótese permitiria guiar-se por uma forte emoção, arriscando perder todo o seu discernimento. Apesar de permanecer calmo, por dentro enfrentava um incessante conflito, o qual nem o próprio podia conhecer sua procedência.
Afinal, por que sua consciência estava tão instável? Seria por causa daquela mulher? Mas quem é ela perto dele? Ela não passa de mero objeto de Aizen, incapaz de atingi-lo nestas proporções. Porém, por mais que ele tentasse convencer-se que não era ela a responsável pelo seu atual estado mental, a descrença neste convencimento só aumentava. No entanto, continuar insistindo nisto seria inútil, e ele sabia disso. Ela agora não é mais responsabilidade sua, o próprio Aizen permitiu que Szayel cuidasse da humana agora. Não há mais nada que ele possa fazer para mudar esta realidade, apenas aceita-la. Por um lado, talvez tenha sido bom, o tempo sozinho o qual tanto valorizou agora seria maior. Ainda assim, uma inconformidade crescente não deixava o seu corpo.
Recusava não poder mais vê-la.
– Grimmjow seu miserável. Se divertindo tanto enquanto continuo na seca por aqui.
Seria mentira acreditar que aquela voz não pegou Ulquiorra desprevenido. Na verdade, apenas uma pessoa possuía o dom de aparecer nos piores momentos e da pior forma. Talvez “dom” não seja a palavra, mas uma persistência desmedida. Nnoitora parecia divertir-se ao esconder sua reiatsu, propositadamente, todas as vezes que aproximava-se de Ulquiorra. Isto, para qualquer um, podia ser motivo de aversão ou ira, porém o quarto nunca se importou em sentir este tipo de emoção por aquele que estava em nível inferior ao seu. Acreditava que sequer a sua raiva o quinto Espada merecia, logo respondeu-o no mesmo tom de voz que comumente usa ao dirigir-se a qualquer um.
– Não sabia que também frequentava este lugar, Nnoitora.
– Ora, nunca é tarde demais para conhecer lugares novos.
– Não é comum este tipo de coisa vindo de você.
Discretamente os estreitos olhos negros fitaram o portador da máscara ao lado.
– Fiquei sabendo que sua prisioneira agora está nas mãos de Szayel. Lamento o ocorrido, porém sendo ele quem é, não creio que ela continue a mesma. – Voltava a mirar sua visão na batalha que se prosseguia logo a frente, carregando seu extenso sorriso costumeiro — Então, Ulquiorra, o que você acha que ela já perdeu? Um braço? Talvez uma perna? O que me diria de seu lindo rosto?
Os olhos esmeralda temporariamente desviam do palco da batalha, a qual já estava por ser finalizada, para encarar o sujeito longínquo ao seu lado. Apesar do outro encontrar-se em pé, o foco nos olhos alheios em nenhum momento fora interrompido. E a comumente resposta desprovida de palavras do quarto foi capaz de fazer surgir um sulco de irritação entre as sobrancelhas do portador da extensa zampakutou. Não demorou muito para o mesmo retribuir o olhar que recebera e, naquele breve momento, uma avalanche de efervescência foi criada na ligação daqueles olhares. Sem abrirem a boca, foram capazes de se comunicar em uma espécie de sexto sentido, captando todo o estado emocional do outro e os motivos por trás deste. O ar, que sempre fora limpo e leve aonde encontravam-se, aparentou estar guiado por uma gravidade pesada e densa. Um instante momentâneo que surtiu efeitos de anos.
– Nnoitora, você tem alguma coisa a ver com isto?
Desta vez, foi o moreno em pé a negar-lhe resposta. O único retorno que ofereceu ao outro se deu na abertura incomum que seu sorriso externou. Não era preciso de mais nada. Antes de o vento colidir em sua pele, Ulquiorra já encontrava-se por trás do Quinto. O que o assustou não foi a súbita presença do outro em suas costas, mas sim aquele dedo indicador em sua direção.
– Eu te fiz uma pergunta. Você tem alguma coisa a ver com isto?
Finalmente a hora havia chegado. O momento tão esperado por ele surgiu a sua frente e, após muita espera, podia realizar o seu aspirado desejo em lutar com Ulquiorra Schiffer. O que será que o espera? Por que Aizen pôs nele uma numeração mais elevada do que a do próprio? Seria ele realmente forte, ou foi apenas uma espécie de gratificação de seu líder nomeá-lo como o quarto Espada por sua fidelidade constante? Independente de qual motivo tenha sido, Nnoitora nunca o aceitaria. Para ele, sua posição ainda estava muito abaixo da sua real capacidade. Ele precisava de mais, ele conseguiria mais. Era esta a ânsia que tanto o dominava.
– Não irei dizer. Se quiser saber vai ter que arrancar de minha boca, Ulquiorra! – Impossível determinar quando aquela imensa zampakutou deixou o chão, pois imediatamente ela já encontrava-se cortando o ar, seguindo em direção ao indivíduo por trás de seu portador. Foi um movimento instantâneo, mas que aparentemente já estava sendo aguardado pelo outro.
Quando o Quinto Espada vira-se para certificar se havia o acertado, é pego de surpresa por uma monstruosa carga negra que banhou toda a atmosfera que o cercava.
Cero.
...
Em meio a um cenário que outrora assemelhava-se a um deserto, encontrava-se dois indivíduos gravemente feridos. Ambos ainda estavam em pé, mas não moviam mais um músculo. Seus ataques haviam cessado, e nenhum deles ousou iniciar um outro. Provavelmente não possuíam mais fôlego, força ou resistência para atacar, muito menos para defender-se. Aquela monotonia durou pouco, pois logo o primeiro movimento foi visto, ainda que não da forma esperada.
Grimmjow não conseguia mais segurar seu corpo em pé, desabando na areia manchada pelas marcas vermelhas da batalha que travara. Finalmente aquele infinito duelo pode chegar a um fim. Por mais que tenha perdido, sentia-se satisfeito. Talvez esta fora a primeira vez que o sexto Espada sentia que ganhou algo, ainda que estivesse totalmente desarmado, com seu corpo caído ao chão sem qualquer força que o levasse a erguer-se. Um estado degradante e insultuoso para qualquer um, mas Jaggerjack o considerou diferente. Provavelmente se o mesmo houvesse caído contra qualquer outro adversário, sentir-se-ia rebaixado, mas aquela batalha contra Kurosaki Ichigo, em específico, despertou nele uma nova sensação.
Não, realmente ele não havia perdido.
Minutos depois pode-se ouvir outro estrondo ao chão. O azulado tentava focar sua visão na direção do barulho, mas não obteve êxito. Encontrava-se totalmente imóvel. Nem ele próprio imaginava tal final.
– Grimmjow, não esperava que você fosse ser tão persistente...
– Tsc, quer dizer que depois de tudo, você continua em pé.
– ...Não exatamente.
– Itsugooooo! – Aquela voz foi capaz de quebrar toda a atmosfera que se formara entre os dois. A portadora do som agudo surgiu por trás de uma das rochas do local, atirando-se por cima do ruivo que acabara de cair de joelhos contra a areia, equilibrando seu corpo com a pouca força que lhe restara. Este equilíbrio não durou muito, pois logo em seguida a criança joga-se sobre suas costas, fazendo-o disparar o rosto contra o terreno arenoso.
– Nell estava tão preocupada, Itsugo! Você quase morria várias vezes e Nell não podia fazer nada para te proteger! – A fala da menor intercalava-se com o choro o qual não dava tréguas. Ela aparentava estar profundamente abalada pela batalha que presenciou, e seriamente preocupada com o seu amigo. Seu rosto moldado naquele triste semblante vermelho só reforçava o estado emocional da criança. Ainda que estivesse, naquele momento, por cima dele, a mesma não se deu conta que o estava machucando, pois seu desejo de ficar junto do shinigami era maior do que qualquer discernimento. A angustia que a pequena sentiu naquela batalha só aumentou a vontade de juntar-se a ele e garantir, a si mesma, que o Kurosaki permanecia vivo.
O maior não fez nenhuma questão de receber o ato alheio, apenas esforçou-se para levantar-se do chão e afastar, ao menos, seu rosto da areia. A esverdeada ainda não o havia soltado, e ele claramente notou toda a preocupação dela consigo. Em meio a um sorriso acolhedor e um carinho sobre os cabelos curtos, o ceifeiro de almas tenta acalmá-la.
– Está tudo bem Nell, a luta já acabou.
– M-Mas... Você está todo cheio de sang-
Uma estrondosa explosão foi capaz de consumir todo o som que era ouvido. Todos calaram-se naquele momento. Sua magnitude foi tamanha que tornar-se-ia impossível não chamar a atenção dos três que estavam a quilômetros de distância. Direcionando sua visão para a origem do estrondo, o ruivo constata que o mesmo proveio da fortaleza a qual sua amiga mantinha-se prisioneira. Imediatamente, duas reiatsus surpreendentemente potentes são sentidas.
– Então quer dizer que Nnoitora já deu início.
– Nnoitora.
– Não Itsugo, não vá! Você está muito ferido! – Nell insistia em agarrá-lo na única tentativa que possuía de impedir seu companheiro de enfrentar outra batalha e arriscar-se novamente.
– Nell, sinto muito mas preciso ir. Pressinto que através de Nnoitora conseguirei chegar até Inoue, e este é o meu objetivo desde o início. Não sei como estão os outros, mas preciso acreditar que todos ainda estejam vivos. Não posso desperdiçar esta chance.
A menor sabia que desde que seu amigo encontrou-se com este Nnoitora, ele o enfrentaria. Talvez já o tivesse feito, se Grimmjow não o atrapalhasse naquela oportunidade. Ela sabia que nada do que dissesse surtiria qualquer efeito no shinigami. A determinação dele podia, evidentemente, ser constatada naquele par de olhos acastanhados. Sua feição estava diferente, ela enxergava esperança no semblante de Ichigo. Sabia que ele não estava pretendendo perder.
– Itsugo.
– Nell, fique aqui.
– Eh?! – Ela imediatamente olha para o azulado ao seu lado ainda com certo pavor. Apesar de Grimmjow se encontrar totalmente ensanguentado e caído ao chão, sem quaisquer condições de levantar um dedo, ainda conseguia lhe causar medo. Não demorou muito para ela voltar sua atenção para o ruivo, apertando mais forte o pouco tecido que revestia a sua pele – Não, não quero! Me leve com você, Itsugo! Prometo não atrapalhar! – A esverdeada mais parecia estar suplicando do que apenas o pedindo. Na realidade, Ichigo sabia que deixa-la a sós com aquele indivíduo não seria uma atitude muito sensata. Apesar de ele encontrar-se gravemente ferido, não seria correto arriscar. A generosidade não é algo comum entre os Espadas, e com uma criança não seria diferente.
– Tudo bem. Segure forte em mim, Nell. – Logo em seguida o shinigami encaminha-se ao indivíduo jacente ao chão. Grimmjow finalmente podia encarar aquele responsável por derrota-lo.
– Qual é desse olhar, você não parece querer me matar.
– Grimmjow, eu voltarei e te tirarei daqui. Aguente mais um pouco.
– Eu não preciso de sua ajuda! – Já era tarde quando o Espada o respondeu. O kurosaki já não se encontrava mais ali, agora partira para um novo duelo, desta vez mais próximo de resgatar a sua amiga.
– Kurosaki Ichigo, como você é patético.
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