O coração que os olhos não veem
3 Confusão Sentimental
Notas iniciais
Um Hollow não deve deixar-se influenciar por uma humana. Humanos são seres inferiores dignos de pena. Todos merecem o destino que terão; e em todos os casos, esse destino é a morte. Mas o Arrancar ainda tentava entender porque aquela garota o intrigava tanto. O que era aquilo que estava sentindo dentro dele? Não, isso só pode ser impressão sua. Ele existe apenas para servir a Aizen Sousuke, sendo esta a sua única missão, devendo desprezar tudo que possa atrapalhá-lo nesse objetivo. Mas o impacto que Inoue Orihime estava causando neste Hollow era difícil de ignorar.
Dirigindo-se à sala de reunião, Ulquiorra encontra-se com os demais Espadas na grande mesa que englobava-os. No centro da mesa, uma cadeira vazia respectiva a Sousuke Aizen. Não passou muito tempo para que ele chegasse juntamente com seus dois subordinados. Sentando-se em seu lugar, Gin Ichimaru e Kaname Tousen ocuparam também suas posições, resguardando as costas de seu superior.
– Agradeço a presença de todos aqui hoje. Sei que os acontecimentos dos últimos tempos têm deixado vocês mais ocupados que o de costume, mas tentarei ser breve.
– Qual o problema Aizen-sama, será que esses invasores estão lhe dando mais trabalho do que esperavas? — O rapaz de cabelos azulados era reconhecido como o mais atrevido dos presentes, não pensando duas vezes ao fazer a pergunta a seu superior.
– Ultrajante. — Balbuciava a Espada número 3.
– Tsc. — Grimmjow agora direcionava sua visão para a mulher, com o rosto enfurecido como geralmente o tinha. Estava prestes a respondê-la, quando é interrompido pelo indivíduo ao seu lado da mesa.
– Grimmjow, você sabe muito bem que não se deve tentar Aizen-sama. — Explanava Szayel Aporro Grantz, sorrindo maliciosamente ao dirigir-se ao sexto Espada.
– Meus senhores, vamos nos conter um pouco, já temos diversão demais nos aguardando com a chegada desses ratos em nosso território. — A última coisa que Noitora desejava era conter aqueles Espadas. A ambição em sua voz distorcia expressivamente do que ele acabara de falar.
– Calados! Ouçam o que Aizen-sama tem a dizer. — Interrompia o debate dos presentes Kaname, que sempre fora dignamente conhecido pelos outros por seu desejo de manter a ordem local e o cumprimento das regras.
Todos da mesa silenciaram-se, mesmo que alguns contra sua vontade.
– Será questão de tempo até os invasores se instalarem nas principais zonas do Las Noches. Já alerto que não aceitarei nenhuma conduta imprudente de vocês, basta seguirem as obrigações como outrora fora estabelecido a cada um. — Aizen Sousuke seguia com seu discurso, apoiado com o rosto em uma das mãos, numa típica posição que sempre fizera.
A reunião seguiu normal como de costume. Porém, ao seu término, após Aizen dispensar os Espadas, ordenou para que Ulquiorra e Grimmjow permanecessem. Este último já estava se levantando para a saída quando, após ouvir a ordem recebida, balbucia algo incompreensível com a boca, voltando a sentar-se em sua posição. Enquanto os demais Espadas retiravam-se da sala, o sorriso de um deles, Noitora, foi percebível no instante momento que virou sua cabeça para observar os que ficaram.
A porta se fecha.
– Grimmjow, eu sei que você não seria tolo a esse ponto, mas apenas o alerto a não ousar tocar em nossa nova convidada. Principalmente por objetivar qualquer tipo de desejos seus. — Não era surpresa para o azulado imaginar que Aizen já havia tomado conhecimento de seu desejo de vingança com o shinigami que agora encontrava-se em seu território — Sei que você não se esquecerá disso. — Finalizou seu superior, com seu típico tom de voz que, apesar de não exaltar nenhuma ameaça, os Espadas sabiam que desobedecê-lo seria suicídio.
– Essa humana não é do meu interesse. — Virou seu rosto com o pronunciamento.
Aizen agora dirigia seu olhar ao Hollow que, como de praxe, permanecera a reunião calado. Seu servo mais fiel...
– Ulquiorra. Você tem feito um ótimo trabalho com Orihime e sei que continuará a desempenhá-lo da melhor forma. Só tome cuidado para não mudar suas emoções por uma mera humana. Orihime é uma garota muito bonita, mas você continua sendo um Arrancar. — Agora o tom de sua voz discretamente tornou-se mais firme, olhando diretamente para o par de olhos verdes ao seu lado — Você não começou a sentir nada por uma mera humana, estou certo?
– Impossível.
Satisfez-se com a resposta recebida, como era de se esperar do seu mais fiel servo. Logo em seguida liberou-os. De alguma forma, aquele aviso havia colocado os pensamentos do quarto Espada no lugar novamente, passando a ignorar qualquer sentimento que o ligasse à garota. Sentimento? Havia ele criado algum sentimento pela humana? Não, impossível. E foi com essa certeza que ele seguiu a diante.
...
Exalando seu brilho no vasto céu escuro, a lua permanecia em seu lugar sempre imóvel, em uma perfeita posição que podia ser diariamente admirada pela garota. Orihime passava horas contemplando o astro que sempre se pusera a brilhar sobre sua cela, sendo ele o único vestígio que a garota possuia do mundo exterior. Ela não sabia, mas nascia nela uma necessidade incessante e ardente de companhia, carinho, alguém ao seu lado. Mesmo o mais forte dos Espadas possui algum outro para lhe fazer companhia. Porém, a garota aprisionada, em nenhum momento, sentiu isso depois que chegou àquele lugar. A solidão dentro dela crescia a cada dia.
– Orihime, não fique triste! Você é uma menina forte e vai conseguir enfrentar qualquer dificuldade que surgir em seu caminho! Isso mesmo! Do mesmo modo que seus amigos estão dando o melhor deles, você deve dar o melhor de si! — incentivou-se assim que tomou conhecimento dessa forte necessidade que sentia — Você consegue Orihime. Consegue... — Aos poucos sua voz foi perdendo a animação que iniciara, pois a realidade era sempre muito dura, mais dura do que ela achava que teria forças para suportar.
– Estou entrando.
E, ao se dar conta da voz que ouvira, seu coração palpitou. Palpitou de tal forma que foi impossível ignorar. A garota coloca ambas as mãos sobre seu peito, ligeiramente vermelha, sem entender o porquê daquilo. Vira-se ao ouvir os passos do Hollow que acabara de entrar, já esperando o servo trazendo sua comida logo atrás. Mas não. Ela só visualiza Ulquiorra Schiffer entrando e a porta se fechando por trás dele.
– Mulher, vim avisar que a batalha contra seus amigos já se iniciou, e será questão de tempo até tê-los mortos.
Apesar das fortes palavras ditas pelo Hollow, Orihime tinha fé em seus amigos, e sabia que eles conseguiriam enfrentar as batalhas e sairem vencedores. Ela sabia, mas parecia que tentava mais se convencer do que realmente acreditar nisso.
– Eles não irão morrer.
– Pobre ilusão. Você ainda não se deu conta do perigo que eles estão correndo vindo aqui te salvar, mulher.
– Eles... Não irão morrer.
Permanecendo com seu característico gesto de pôr as mãos nos bolsos, Ulquiorra aproxima-se da humana, encarando-a próxima aos olhos.
– Como pode ter tanta certeza? Afinal, essa sua esperança é devida aos seus sentimentos por eles?
– Sim. Meus sentimentos me fazem crer que eles serão capazes de enfrentar qualquer um.
– Como podes dizer uma coisa como essa enquanto choras, mulher?
Sim, ela chorava. Não sabia ao certo quando deu início, mas todo esse tempo enquanto falava, lágrimas escorriam pelo seu rosto, marcando suas vestes. Talvez porque toda a dor que sentia dentro de si fosse tamanha que, ao transbordar pelos olhos, não a tivesse sentido. Por mais que tentasse ser forte, ainda era difícil suportar que qualquer coisa acontecesse aos seus amigos. A ruiva nada pronuncia, porém sua resposta surpreende totalmente o Hollow a sua frente.
A garota, em um ato instintivo, agarra suas mãos na roupa de Ulquiorra apertando-a forte, enquanto encosta a cabeça em seu peito, desabando-se a chorar.
Não entendia porque fez isso. Não entendia como teve tal ousadia, mas uma força muito maior dentro dela a conduziu a isso. Aquele impulso possuiu tamanha destreza que foi impossível compreendê-lo. O calor exalado do corpo alheio a envolveu como chamas em um terreno coberto por neve. Finalmente, finalmente podia sentir o contato com alguém. Mesmo ele sendo um Hollow, mesmo a ferindo profundamente com suas as palavras, ainda assim, a sensação de senti-lo a confortou imensamente naquele momento. Era tudo o que precisava.
O moreno permaneceu imóvel. Abaixou sua cabeça lentamente para ver a garota que se encontrava agora em seu peito desabando-se a chorar, ainda sem crer naquilo. Ele não compreendia porque ela fez isso. Não entendia como ela possuíra tamanha ousadia e atrevimento de aproximar-se tanto dele, mesmo sabendo de suas incontroversas diferenças de poder, sem nem temer qualquer reação que ele porventura pudesse tomar contra a mesma. De onde vem tamanha coragem dessa humana? Chegava a ser ridículo esse atrevimento. Ele sabia que aquilo não estava certo. Sabia que ele precisava fazer algo mas, mesmo com toda a sua força, Ulquiorra não conseguiu levantar um dedo contra a garota.
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