Notas iniciais
Uma força muito maior unia ambos, tão grande que se fazia difícil acreditar nela. Mas ela existia. E, talvez, só fosse questão de tempo até eles a enxergarem.

"Você não começou a sentir nada por uma mera humana, estou certo?"

A imagem de Sousuke Aizen se fez presente. Aizen estava repetindo palavra por palavra, sílaba por sílaba um discurso ligeiramente familiar para Ulquiorra. O olhar sombrio e profundo dele dizia muito mais que suas palavras. Esse olhar tenebroso deixava claro para o Espada que o aviso de seu superior ia muito mais além. Aizen não aceitaria que aquela garota fosse tocada. Tocada por mãos que levassem consigo desejos que o Arrancar desprezava, mas conhecia-os.

Um Arrancar não é um humano, nem nunca o será. Ele é um ser infinitamente superior, sua existência não conhecia fim. Mas, por mais divergentes que fossem esses dois seres, ainda assim haviam pequenos sinais que os ligavam; que tinham em comum. Como poderia um ser tão evoluído ser capaz de compartilhar características com os humanos, isso o Espada 4 nunca entenderia. Sua filosofia resumia-se em acreditar apenas naquilo que seus olhos conseguissem enxergar, pois o que não é visto, não passa de mera ilusão. Mas, sem compreender, algo dentro dele começou a se tornar concreto e nítido; tão nítido ao ponto de, praticamente, enxergá-lo a sua frente. Aquela sensação que invadia seu corpo nunca antes havia sido sentida — ou vista. Sensação esta que se assemelhava a uma flecha em chamas atirada contra uma gloriosa árvore, incendiando-a ao ponto de não restar mais nada. Afinal, que sensação estranha é essa que percorria o seu corpo? Seria isso algum sentimento? O que liga um Arrancar aos humanos é esse sentimento que eles compartilham juntos? Inadmissível.

Mas o que ele estava sentindo, de alguma forma, não conseguia controlar, o que o deixou ainda mais surpreso. Sempre conseguira controlar tudo em sua vida, como então estava tendo problemas com algo dessa natureza? O que aquela humana possuía para deixá-lo tão drasticamente irreconhecível? Como ela conseguia fazê-lo passar por algo severamente incrontrolável?

Afinal, o que é ela?

– Afaste-se, mulher.

Orihime continuava a chorar, ignorando o que ouvira. Mas será que ela realmente conseguiu ouvir o Arrancar? Encontrava-se em um estado de tamanha pertubação em sua cabeça, que não seria difícil aquela ordem passar despercebida pela garota. Tristeza, solidão, fraqueza, arrependimentos, incertezas eram só alguns dos sentimentos que queimavam dentro daquela humana. Orihime encontrava-se tão fragilizada que demorou a enxergar que a primeira pessoa a qual se agarrou foi, ironicamente, o sujeito responsável por confundir suas emoções.

Ao se dar conta disto, a mesma larga as vestes de Ulquiorra, exaltando um rosto severamente vermelho, sem saber dizer se era devido ao seu choro, ou ao constrangimento causado pelo ato praticado. Ela agora enxugava as lágrimas com as mãos, enquanto Ulquiorra não deixava de a observar.

– Desculpa. — Falou, ainda sem direcionar o olhar para o outro. Estava muito constrangida com a atitude tomada. Atitude esta que a pegou de surpresa, como se fosse algum tipo de instinto natural que direcionou-a a isso.

– Por que fez isso, mulher? Será que procuravas em mim algum tipo de consolo para seus sentimentos? Se foi esse o caso, saiba que não sou a pessoa para isso.

A garota nada responde. Demorava enquanto alguma resposta era formada em sua cabeça. Não seria fácil responder aquilo, mas ela precisaria dar alguma satisfação. Ele não aceitaria seu silêncio. Passado algum tempo, pode-se ouvir a voz desta.

– Na verdade, você tem razão. Eu estava procurando alguma forma de encontrar consolo e, não sei porque, vi isso em você. — Sua visão ainda não havia sido cruzada com a do rapaz, permanecendo a olhar timidamente para baixo — Eu sou mesmo uma boba, sei que você não está aqui para me consolar. Eu sei também que você podia ter a qualquer momento reagido antes mesmo de eu chegar a tocá-lo. Eu podia estar agora gravemente ferida... Mas não estou.

Com tudo isso que acabara de dizer, Orihime tomou coragem para, confiante, fitar os profundos e belos olhos verdes a sua frente. Olhos esses que sempre a chamara atenção, desde o primeiro dia que apareceram em sua vida. Ao ouvir tudo aquilo que aquela garota externou, o Arrancar sabia que ela não estava mentindo. E realmente não estava. Era inegável a surpresa de Ulquiorra com a resposta recebida. Surpresa por ouvir de uma humana um discurso tão insultante e prepotente para a posição que se encontrava; e surpresa por nenhuma reação ter sido tomada da parte dele. Se ele realmente quisesse, poderia ter esquivado de sua aproximação ou, inclusive, ter feito uso da força para conter o ato alheio. Isso não seria nenhum problema para o servo de Aizen, contando que a garota permanecesse viva. Mas ele não o fez. Por que deixou de fazer algo tão fácil, tão simples para ele? Talvez nunca em sua vida estivesse tão surpreso consigo como se encontrava agora.

– Eu não estou ferida. Será que isso significa que existe dentro de você algum resquício de bondade? — A medida que as palavras eram proferidas pela garota, sua crença nelas ia surgindo — Será que até mesmo os Espadas não são seres totalmente frios e crueis como demonstram? — E, surpreendentemente, sua tristeza parecia estar sumindo com as palavras que vinham a sua boca.

Ao ouvir aquilo, o Espada imediatamente reage, numa tentativa de fazer aquela humana parar de falar. Segurou o braço da menina de forma tão brusca que nem passou em sua cabeça a possibilidade de poder chegar a quebrá-lo. Será que Ulquiorra também estava acreditando no que acabara de ouvir? Como pode uma humana ter uma resposta para algo ainda incompreensível para um ser como ele? Não. Ela estava equivocada. Sonhadora para falar melhor.

– Não ouse dizer mais uma palavra.

Orihime olhava fixamente para o Espada 4 a sua frente. Ela sabia que o que dissera tinha sentido, que podia de fato ser verdade, e ela queria acreditar nisso. No fundo, ela tentava achar uma resposta para a pergunta que o fizera pela primeira vez.

"Você também está sofrendo?"

A garota sorri.

– Por que está sorrindo? Acho que você ainda não tomou consciência das consequências que pode vim a sofrer, mulher.

Se Ulquiorra não tivesse falado, ela nunca saberia que começara a sorrir. Mal sabia ele que ela já havia encontrado a resposta de sua pergunta.

– Desculpe, não é por nada.

A mudança em sua atitude intrigava fortemente o Hollow. Como parece que todo o peso que levava consigo nas costas tivesse sumido tão rapidamente? Ulquiorra solta o braço da garota, apoiando a respectiva mão em seu bolso, como de costume. Logo em seguida, ele vira-se de costas para ela, iniciando seus passos em direção à porta.

– Sua refeição chegará em poucas horas.

Orihime ficava o observando sair por entre a porta. O que sentia agora é incomparavelmente diferente do que sentiu a instantes atrás. Ele não a feriu. Olhando para o tecido amassado sobre seu braço, onde o mesmo a havia segurado, pensa consigo que aquela força usada por ele não a machucou. Na verdade, nem de longe viria a machucá-la. Por mais que a atitude do Espada tenha sido brusca, a ação tomada foi cuidadosa e inofensiva.

Deitando-se no grande sofá local, a garota passou a absorver toda a informação que havia vivido. Ela sentia-se incrivelmente mais leve. Talvez pelo fato de ter conseguido, mesmo que por um curto período de tempo, consolo com o Arrancar. Não um consolo da maneira que as pessoas buscariam, mas isso para a jovem já foi o suficiente.

Lembrou-se dos seus amigos e passou longos períodos de tempo pensando neles, que vieram tão heroicamente salvá-la. Mais uma vez rezou por eles, para que estivessem sãs e salvos.

– Kurosaki-kun...

O pensamento em Ichigo era constante. Não seria fácil para a jovem esquecê-lo, e não sabia ela se isso iria acontecer algum dia. Mas, de alguma forma, o rosto de uma outra pessoa surge em seu pensamento.

"Será questão de tempo até tê-los mortos"

Sentiu um aperto em seu coração. Ela não entendia porque sempre que pensava em Kurosaki Ichigo, o rosto do moreno formava-se automaticamente em sua mente. Porém, desta vez, o pensamento no Arrancar não mais era o mesmo de antes. Pensava nele agora como uma fonte de esperança.

Esperança em encontrar os reais sentimentos de Ulquiorra Schiffer.

Notas finais
Orihime passa a enxergar seu sequestrador com outros olhos. Ela passa a ver nele, de alguma forma, seus sentimentos compartilhados. Enquanto isso, o Hollow passa por uma forte confusão em sua mente.