A semana passou rápido. O movimento no Boas Vindas começou junto com o nascer do sol. O entra e sai de moradores e voluntários começa a trazer vida ao nosso espaço. Aos poucos a passarela vai sendo montada e decorada, os modelos vão se preparando, as barraquinhas de comida já exalam os primeiros perfumes... hoje é um dia de grande festa!

No escritório continuo passando para o computador a planilha de gastos, e, vejam só que alegria, a de investimentos. Sim, finalmente temos dinheiro suficiente para investir para melhor atender nossos irmãos que chegam sem nada e precisam se restabelecer. Quero deixar tudo organizado, para que meu futuro substituto (sim, trabalho com a hipótese que meu pedido seja negado) não tenha dificuldades de entender as necessidades do Instituto e encontre a casa organizada.

— Com licença Padre Zoran.

— Olá Cibele, pode entrar.

— Eu estou ajudando o pessoal lá embaixo, os preparativos para o desfile de hoje à noite estão a todo vapor.

— Sim, eu sei. O quanto antes eu termine de atualizar essa planilha vou me juntar a vocês.

— Eu só vim entregar essa carta que acabaram de deixar lá embaixo para o senhor.

— Ah, uma carta da Diocese. Ok Cibele, muito obrigado.

Bom, parece que não terei que esperar mais para anunciar minha decisão para o pessoal e dependendo do que está escrito nessa carta, precisarei de um reforço para não deixar a emoção falar mais alto do que eu.

Infelizmente não consegui cumprir o que disse à Cibele. O trabalho no escritório durou mais do que a tarde toda. Claro que minha ajuda nos preparativos não foi imprescindível. Duas horas antes do horário marcado para a festa começar tudo já estava pronto. A equipe caprichou nas luzes e na decoração do palco/passarela. Avisei aos que já estava em seus postos que apenas sairia para me preparar, mas que antes do horário marcado já estava de volta. Subi ao meu quarto, com a carta recebida nas mãos, não queria deixa-la a vista antes que eu anunciasse o conteúdo dela. No banho tive tempo ainda de refletir sobre tudo o que estava prestes a acontecer. Pensei no Instituto e em todos que passaram por lá nesses anos todos. Lembrava de cada história, de cada pessoa que esteve ali e com a nossa ajuda conseguiu se reerguer e seguir adiante. Pensei nas obras realizadas, tantas missões concluídas com sucesso, outras fracassadas, outras ainda inacabadas, mas todas com a vontade de continuar ajudando o próximo. Pensei em Missade. Mesmo que não quisesse pensar, involuntariamente ela tomava meus pensamentos. Meu corpo ardia de modo que nem mesmo a água que caía gelada sobre ele podia acalmar minha pele. Ficava claro que por mais que eu respeitasse meu sacerdócio, a natureza humana é inerente a mim, independente do título que me deram e contra isso eu não podia lutar. Tento me recompor. Desligar a água e me preparar logo para hoje a noite. Mas, ainda assim, penso em como ela reagiria se soubesse o conteúdo daquela carta? Queria contar primeiro pra ela, mas eu não tinha esse direito.

Certamente ela não viria ao evento, mas logo ficaria sabendo de tudo que se passará essa noite. Ao olhar os trajes separados para a noite especial vejo a camisa tradicional preta, porém escolho uma de cor azul que acho mais conveniente para a ocasião. Finalmente pronto, coloco minha carta no bolso e volto ao escritório para conferir os últimos detalhes das planilhas em que trabalhei durante à tarde. Ali, em pé mesmo, apenas conferindo e checando dados, de costas para a porta, sou surpreendido:

— Afuan...

Meu coração pára por milésimos de segundos. Posso reconhecer essa voz a quilômetros de distância... era a voz de Missade.

— Missade, está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

Ela anda rápido em minha direção, com passos de alguém que está decidida, e com um gesto silencia minhas perguntas para não ser interrompida.

— Elias me convidou para voltar para a Síria com ele, o vôo sai amanhã de manhã, mas antes eu precisava te falar uma coisa. Não é só você que tem sentimentos por mim, eu também sinto a mesma coisa...

Eu não conseguia pensar mais nada. Fiquei atônito ali parado na frente do amor da minha vida dizendo que correspondia ao mesmo sentimento. Ela se aproximou mais e no impulso decidido a confirmar o que veio fazer ali naquele dia me beijou.

Perdi a noção do tempo. Não tenho a menor ideia de quanto tempo o beijo durou, só sei que durou tempo suficiente para eu ter mais certeza da decisão que tomei. Eu só podia estar sonhando e assim custava a abrir os olhos. De todos o sonho mais real que tive. Demorei a conseguir abri-los e enxergar a realidade, eu tocava, mas mesmo assim não acreditava, sim, ela estava ali, diante de mim. O mundo parecia que girava mais devagar, estava zonzo, inebriado com o gosto de missade em minha boca e para sempre em minha memória. Despertei com a realidade me atropelando pelas palavras dela. Ainda em meus braços e com as mãos me acariciando a face ela disparou o que eu mais temia ouvir:

— Eu jamais poderia viver esse sentimento, mas jamais vou esquecer você. Eu não poderia ir embora sem dizer isso. Fique com a certeza que foi tão amado e desejado quanto me amou e me desejou.

Beijando-me as mãos ela foi aos poucos se esvaindo das minhas, quando num súbito a puxei de volta.

— Não vá! – supliquei.

— Eu não posso viver tudo isso, já disse. Não podemos.

— Calma. Espere um pouco. Eu tenho um comunicado muito importante a fazer.

— Eu não posso esperar, tenho que fazer as malas, parto amanhã para a Síria.

— Eu te imploro, não vá. Não fuja de nós. Eu respeitei o seu silêncio até agora, porque pensava que não era correspondido, mas agora tudo mudou.

— Nada mudou. Você é um Padre e eu sou uma mulher casada.

— Voltou para o Elias?

— Ele é o pai da minha filha.

— Você não o ama. Acabou de me comprovar isso. Missade acalme-se. Eu sei que tudo está muito confuso e mais ainda depois de tudo o que acabou de acontecer, mas eu lhe imploro, não vá. Fique aqui e ouça o comunicado que eu tenho a fazer e só depois decida se vai embora ou não.

— Allah me perdoe por isso.

— Não há do que pedir perdão. Você não fez nada de errado. Acalme-se. – tomei coragem e a abracei. – Você vai entender tudo, eu prometo.

— Padre, tudo pronto, podemos começar?

Fomos obrigados a nos soltarmos. Um pouco sem jeito pelo pequeno flagra, respondi:

— Claro Bruno, já estou descendo.

Bruno saiu e eu me virei numa última súplica.

— Eu preciso ir, mas por favor, fique até o final do desfile.

Saí do escritório quase arrependido de ter deixado Missade lá, sem entender nada do que estava acontecendo. Aliás, nem eu entendia bem o que estava acontecendo, só havia uma certeza, nosso Amor.

O desfile foi deslumbrante. A noite foi perfeita. Martin fez uma coleção deslumbrante inspirado no seu país de origem. Ver aquela coleção criada por ele me enchia de orgulho, era mais uma história de sucesso do Instituto e que eu guardaria no coração.

Mas, era chegada a hora. Subi ao palco para encerrar o evento. Ao longe avistei Missade que estava sentada na última fileira da plateia. Que alívio senti naquele momento. Ela não tinha ido embora. Eu tinha uma chance.

— Meus amigos, antes de terminar mais esse evento do nosso Instituto eu gostaria de parabenizar o Martin pela coleção linda criada inspirada no Congo, seu país de origem. É com muito orgulho que eu vejo o seu renascimento meu amigo, e hoje é o começo de um novo ciclo na sua vida. Porque a vida é feita assim meus amigos, de ciclos. O Martin inicia hoje um novo ciclo e eu quero comunicar a vocês que encerro o meu.

O Instituto jamais havia conhecido tamanho silêncio. Todos prestavam atenção em cada respiração que eu emitia em busca de compreensão para a mensagem que eu começava a passar.

— Sim, quero comunicar meus amigos, que a meu pedido, a partir de hoje eu não sou mais Padre. Meu ciclo de sacerdócio se encerra aqui para começar um novo ciclo. Agora não mais como o Padre Zoran, mas como Ivan Kristofer Zoran, meu nome de batismo. E como o meu nome mesmo diz eu carrego Cristo dentro de mim e pretendo leva-lo para onde eu for. Quero que vocês saibam que minha decisão de deixar o sacerdócio é para que eu possa exercer e levar o amor de Deus a todos que precisam dele, independente das escolhas que fizeram para suas vidas. Quero levar o amor e a esperança como sempre fiz aqui durante todos esses anos aqui no nosso Instituto.

— Mas o senhor vai continuar aqui no Instituto né Padre? Quero dizer, Ivan.

— Isso a Arquidiocese ainda não decidiu Benjamin. Por enquanto eles solicitaram que eu tirasse umas férias e me afaste da direção do Instituto para que eles possam avaliar melhor meu pedido. Mas tenho certeza que o Padre que vier para o meu lugar vai dar continuidade ao nosso trabalho e vai poder melhorar tudo que ainda não conseguimos fazer.

— Isso é um absurdo Padre, o Senhor é alma do nosso Instituto.

— Não sou não Cibele. Eu sou só um braço, uma ferramenta que ajuda a máquina funcionar. A alma está aqui, bem diante dos nossos olhos. A alma é esse amor que faz pulsar a vida e a esperança de um mundo melhor e mais acolhedor, é isso que fazemos aqui, é isso que vocês fazem aqui. Sem dúvida o maior reflexo do amor de Deus nos homens está aqui nesse lugar. Continuem a levar essa mensagem a todos que chegarem aqui precisando de vocês, independente da minha presença aqui, eu sempre estarei com vocês nas minhas orações e pensamentos.

— O Senhor está se despedindo?

— Não Mari, estou dando um até breve. Se Deus quiser logo estarei de volta para continuar nosso trabalho, enquanto eu estiver fora, conto com vocês para que os nossos projetos não parem. E que também auxiliem o novo diretor.

— Pode contar com a gente Padre!

Apenas olhei para Jean com um lembrete:

— Desculpe, o senhor foi sempre foi Padre.

— Sim, mas agora eu sou só Ivan. Ou só Kristofer, ou só Zoran. Logo vocês vão se acostumar. Bom, era isso que eu tinha para comunicar a vocês. A partir de amanhã viajarei para o litoral de São Paulo e lá ficarei aguardando a decisão da Diocese. Enquanto isso, bola pra frente porque o jogo tem que continuar!

Todos se levantaram já se encaminhando para encerrar mesmo a noite. Alguns cabisbaixos, outros vinham se despedir, outros só tinham lágrimas nos olhos e não conseguiam falar. Eu estava confiante, mas não podia enganá-los existia a possibilidade de não voltar a dirigir o Instituto. Um a um ia embora até que finalmente fiquei sozinho com Missade novamente, escondida ali no finalzinho da plateia ela estava de cabeça baixa. Aproximei-me.

— Obrigado por ficar. Era muito importante o que eu tinha para dizer.

— Eu não sei nem o que dizer.

— Não diga nada. Não precisa dizer nada. Apenas pare de se torturar. Eu não sou mais Padre.

— Não sei se me sinto pior agora.

— Não se sinta. Não foi por você. Não carregue essa culpa. Foi por mim. Há tempos não me sentia mais um Padre de verdade, como manda a minha religião. O amor por você só reforçou isso e me deu coragem para viver uma nova chance. Abrir mão do título e levar o amor de Deus independente, por mim mesmo. E se você quiser estar ao meu lado eu serei o homem mais feliz do mundo.

— Eu não posso. Embarco para Síria amanhã.

— Então vai mesmo voltar.

— Lá é o meu lugar.

— Não é possível que não sente nem um pouquinho ligada ao Brasil. Agora que tem seu neto brasileiro, sua família estabelecida aqui, seu emprego. Vai largar tudo o que conquistou para trás?

— Eu estou muito confusa.

Impulsivamente a abracei.

— Então pense. Você tem essa noite toda para pensar. Fique. Todos eles precisam de você. Eu preciso de você.

— Eu vou pensar, mas antes de ir, preciso saber mais uma coisa...

Nem terminou a frase e nossos lábios já se tocavam novamente. Nossos corpos se desejavam e se reconheciam. Enquanto a beijava podia sentir o ritmo acelerado do coração dela batendo junto ao meu. O amor que sentíamos se viu livre naquele momento, vigiado apenas pela lua e pelas estrelas nos entregamos ao nosso desejo. Ela abriu os primeiros botões da minha camisa e recuei perguntando com o olhar se era aquilo mesmo que ela queria. Sem palavras apenas continuou. Levantou e me colocou em pé também e entendi que ali não podíamos mais ficar. Em direção ao meu quarto, mais uma vez recuei perguntando se ela queria mesmo aquilo, mas a resposta foi a mesma de antes. Entramos no quarto, nunca acessado por qualquer outra mulher antes, Missade entrava com uma divindade e se apossava do meu quarto, do meu corpo e do mais profundo amor que já senti por outra pessoa. Descobrimo-nos amantes. Com sede buscava nos lábios dele saciedade. Em meus braços ela encontrava o amor, que quando perdeu jamais imaginou que fosse encontrar novamente. E agora ele vinha renascido, mais vigoroso e cheio de força para lutar. Embebidos pelos nossos desejos, sentimentos e pensamentos, nos perdemos... não adormecia, pois não queria acordar. Ela deitada em meu peito eu acariciava os seus cabelos...

— Eu queria ficar aqui para sempre, moraria no teu abraço.

— Então fique pra sempre.

— Eu preciso ir. Já vai amanhecer.

— Você não precisa ir.

— Preciso sim. Foi inesquecível o que aconteceu aqui.

Ela se levantava e se vestia. Preparava-se para ir embora e me deixar. Ela partiria naquela manhã. Eu partiria naquela tarde. Não queríamos falar, mas era inevitável não pensar.

— Eu só peço que seja feliz com as suas escolhas.

— Lembre-se você também pode escolher. O seu compromisso é com a sua felicidade e com nada mais. Abrace as chances que a vida está te dando.

— Eu pensarei em cada momento com muito carinho, mas agora preciso ir.

Beijou-me novamente. Um beijo demorado, saudoso, difícil de interromper para um adeus... Acariciei o rosto dela e enxuguei uma lágrima que teimosa resolveu escorregar pela face. Delicadamente colocou minha mão de lado e partiu sem olhar para trás.

Voltei a deitar e fiquei ali de olhos abertos olhando para o nada enquanto as primeiras nuvens claras começavam a chegar no céu. Olhando para o teto fiquei pensando em tudo o que tinha acontecido e como seria dali em diante. Eu que estava decidido a deixar o tempo se encarregar de ajeitar as coisas só tinha a certeza que jamais ele conseguiria apagar o gosto de missade na minha boca.

O sol raiou e logo começou a movimentação no Instituto. A equipe de limpeza já havia chegado, e os comentários eram só para repercutir a notícia da noite anterior. Fui logo para o escritório para tratar de acertar tudo. Recebi a ligação do próprio bispo afirmando que estava comigo, mas que era necessário esse afastamento para que todos pudessem decidir com maior isenção. Ele também me informou que chegaria logo mais o Padre Alberto, que me substituiria na minha ausência.

Tratei de fazer logo minhas malas. Quanto mais me mantinha ocupado, mais me forçava em não pensar onde estaria momento àquela hora. Certamente dentro de um avião rumo à Damasco e o pior junto com Elias. A certeza que eu a havia perdido para sempre me embrulhou o estômago. Afinal por que deixei ela ir embora?

— Padre Zoran... quer dizer... Zoran, está aí o Padre Alberto, disse que será o seu substituto.

— Está bem Jean, traga ele aqui.

Pronto! Agora os pensamentos foram espantados na marra!

— Bom dia Padre Alberto.

— Bom dia Zoran.

— Seja muito bem-vindo ao nosso Instituto Boas Vindas.

— Obrigado. Você sabe que por mim você continuaria o seu trabalho aqui.

— Não se preocupe, tenho certeza que você vai fazer um excelente trabalho. Me encarreguei de deixar tudo organizado para você, nossas despesas, nossos investimentos, os projetos... e todo mundo aqui vai estar disponível para te ajudar.

— Obrigado meu amigo. Não se preocupe que vou cuidar de tudo para quando você voltar.

— Eu que agradeço. Bom, mas você vai me dar licença que preciso terminar de arrumar minhas malas. Quero partir ainda hoje.

— Para onde vai?

— Vou para Guarujá. Um amigo do Jamil me cedeu temporariamente a sua casa da praia e lá vou cuidar de um projeto social de crianças carentes.

— Mas sem a ajuda da Igreja?

— Eu tenho minhas economias. E o projeto conta com as doações das pessoas da cidade. Vou levar para lá a experiência que adquiri durante todos esses anos aqui.

— Está certo meu amigo. Se precisar de qualquer coisa, conte com a gente.

— Muito obrigado.

De volta ao quarto fui atropelado pelas lembranças da noite passada. O amor que vivi com Missade não poderia se acabar. Por que ela foi embora meu Deus? Fazia um pouco mais de nove horas que ela havia partido e o cheiro dela ainda estava ali. Meu peito ardia de saudades. O desespero de tê-la deixado ir embora era quase incontrolável. Pedia à Deus que estivesse o tempo todo com ela e que tivesse piedade da minha alma e me aliviasse um pouco a dor para que eu terminasse aquele dia onde eu deveria estar, no ônibus rumo a Guarujá.

A partir dali o tempo voou. Logo o relógio bateu 16 horas e era hora de partir. Dali até o terminal rodoviário do tietê levaria quase uma hora a depender do transito e o ônibus partiria as 18 em ponto.

A despedida não foi fácil. A cada abraço apertado a certeza que a saudade vai cavando um buraco no nosso peito. Até que não tenha mais peito e fique só a saudade. Era assim que me sentia. Só saudade daquilo tudo que estava deixando. Minha vida. O encerramento de um grande ciclo que perdurou por mais da metade de meus quase longos anos de vida. Não havia como não chorar, mas eu não estava triste. Eu queria viver mais. Levar a mensagem de amor, de paz, de união a outras pessoas.

Despedidas realizadas. Entrei no táxi e parti. Deixei pra trás as pessoas e levei comigo apenas as boas recordações de tudo que vivi ali. Partia com o coração leve, sentimento de dever cumprido. Eu fiz o meu melhor. Me doei por inteiro àquelas pessoas. E agora partia para uma nova doação.

No terminal do Tietê cheguei com antecedência. Comprei a passagem e já me encaminhei para a plataforma. Ali fiquei à espera do meu próximo destino. Minutos depois sinto uma cutucada nas minhas costas.

— Padre.

— Rogério. O que você está fazendo aqui?

— É que apareceu lá no Instituto uma pessoa que queria se despedir do senhor e eu resolvi traze-la aqui para ela conseguir se despedir. Não podia deixar ela vir sozinha para esse terminal tão grande. Vim para ajudá-la.

— Quem é? Onde está?

— Ela está descendo. Foi comprar passagem antes que não desse tempo.

Descendo as escadas do terminal eu mal podia acreditar no que meus olhos viam. Olhei para o Rogério e ele só me sorriu de volta. Larguei tudo e saí correndo ao encontro dela. Cheguei antes que ela terminasse os degraus, a peguei no colo e nos beijamos.

As pessoas que transitavam apressadas no terminal pararam para ver e aplaudir. As palmas nos envergonharam e nos largamos e o ritmo dos passageiros voltou ao normal.

— Eu pensei que...

— Eu não consegui ir embora. Não podia deixar minha felicidade escapar. Elias seguiu sozinho para a Síria. Eu voltei pra você.

Nos beijamos de novo. Dessa vez fomos interrompidos por Rogério. Eu não queria atrapalhar, mas o ônibus que parte para Guarujá já estacionou.

— Você tem certeza?

— Nunca tive tanta certeza na minha vida. – mostrando a passagem.

— Obrigado Rogério.

— Imagina Padre... quer dizer, Zoran, eu não fiz mais do que qualquer outro amigo faria.

— Você é um grande amigo mesmo.

— Que Allah te proteja dr. Rogério.

— Amem dona Missade. Bom, gente, vocês precisam ir. Pa... Zoran qualquer coisa pode me ligar. São Paulo x Guarujá é pertinho a gente corre lá. Em breve espero vê-lo de volta ao Boas Vindas.

— Se Deus quiser Rogério. Pode deixar que qualquer coisa eu te ligo. Mais uma vez muito obrigado por tudo.

Rogério partiu e eu e Missade embarcamos. Rumo a nossa nova vida. Sentada ao meu lado nossas mãos entrelaçadas eu lhe beijei a mão e prometi que sempre estaríamos juntos para todos os desafios, com ela eu me sentia mais forte, comigo ela se sentia mais viva! O amor pulsava e onde existe amor existe fé e esperança de encontrar a felicidade. Nós nos encontramos e agora partimos para distribui-la ao mundo. Obrigado Deus por essa nova chance!