O conto de um padre apaixonado

3 Uma dose única de realidade


A chegada ao Guarujá foi excepcionalmente mágica. Nem nos meus melhores sonhos eu me atreveria a sonhar com tamanha felicidade. Missade e eu começando uma nova vida juntos.

Chegamos à casa de Ali, ele gentilmente cedeu o imóvel, e me deu permissão para ficar o tempo que precisasse. Eu não sabia quanto tempo a Diocese levaria para decidir o meu destino no Boas Vindas, mas enquanto durasse o julgamento Deus já havia me preparado um teto, um trabalho e um amor. Eu não poderia pedir mais nada, e se morresse naquele dia, sem dúvida alguma, morreria feliz.

— Zoran, não vai entrar? Ficou aí parado na porta... está com um sorriso bobo... está pensando em quê?

— Em você... em como sou o homem mais feliz desse mundo.

Ela se aproximou e se colocou em meus braços.

— Mais feliz eu não sei, mas é o mais sensível, sincero e carinhoso que eu já conheci.

Nos beijamos, mas subitamente eu interrompi o beijo, deixando-a sem entender. Puxei Missade de volta para fora da casa, e a peguei no colo.

— Zoran, o que está fazendo?

— Estou levando nos meus braços a mulher que eu amo. Hoje não é o dia do nosso casamento, mas é o primeiro que estamos juntos pelo resto de nossas vidas. Eu estarei sempre aqui para você e por você.

— E eu por você. Para sempre, enquanto eu respirar quero estar ao seu lado.

Nos beijamos novamente. Gentilmente a coloquei na cama, mas não conseguia desgrudar os meus lábios dela. Beijava cada parte de seu corpo, sussurrando em seu ouvido o quanto a desejava. Lentamente ia abrindo os botões da blusa e descobrindo o seu corpo, aos poucos os tecidos iam se espalhando pelo chão e a pele morena dela ia se mostrando inteira pra mim. Eu podia sentir o corpo dela queimar como o meu. Nossa razão ficou do lado de fora e sobre aquela cama só restou dois seres insaciáveis que buscavam matar o desejo de amar e ser amado.

A primeira noite ao lado dela só confirmou o que eu já sabia. Eu a amava com todas as minhas forças. Eu não queria dormir. Quando nos esgotamos de amor, e demos uma trégua a nossos corpos (afinal, apesar de parecermos, não éramos mais adolescentes), ela encostou no meu peito e dormiu. Fiquei ali, velando o seu sono, acariciando os cabelos, e pensando em como a vida pode ser surpreendente. Eu lutei muito contra o cansaço, lembro que ainda pude ver a alvorada, mas não sei precisar em qual momento meus olhos se fecharam. É bem verdade que também não sei por quanto tempo permaneceram fechados, apenas sei que ao abrirem se depararam com a mulher com o sorriso mais lindo do mundo.

— Pensei que não ia acordar hoje...

— Nossa! Que horas são? Por que não me acordou?

— Eu estou brincando, ainda é cedo. Eu não queria acordar você, estava dormindo tão bonito. – ela se aproximou de mim na cama e me deu um selinho demorado. – Fiz um café pra gente.

— Fez um café? Mas você não precisava fazer nada. Eu queria fazer um café pra você. Aliás, quero, todos os dias.

— O que é isso! Não me custava fazer um café pra nós. Além do mais, eu não sabia que você sabe cozinhar.

— Imagina, fazer um café qualquer um sabe fazer! Mas, sim, eu sei cozinhar. Na minha vida solitária, muitas vezes eu mesmo tive que preparar minha própria comida e acabei tomando gosto. Tenho minhas receitinhas e os meus próprios segredos culinários.

— Ah! Esses eu vou querer conhecer!

— Ah é?! Só esses?

— Não! Esses e todos os outros.

— Não tenho e nunca terei segredos para você.

Missade me olhava com ternura, mas um pequeno olhar de canto de olho parecia ter alguma dúvida.

— Eu não terei segredos para você meu amor, quero apenas te amar e te fazer feliz. Essa será minha missão, e eu peço a Deus que eu seja capaz de cumpri-la.

— Eu não tenho dúvida quanto a isso. Também quero te fazer feliz.

— Eu já sou, mas então qual é a dúvida?

— Que você sabe cozinhar!

— Está duvidando mesmo disso? Pois então eu vou fazer um almoço à moda Zoran, e você será minha convidada. Aí poderá dar o seu julgamento!

— Ah, muito obrigada pelo convite senhor chefe, mas agora vai tomar seu café ou não vai parar em pé até a hora do almoço.

— Sim, eu já vou, mas antes eu quero fazer uma coisa.

— O quê?

— Beijar você de novo, porque já estou com saudades...

— Zoran...

Eu não podia perder a deixa para beija-la novamente. Se eu pudesse, nunca mais pararia de beija-la... até tentei puxa-la de volta para a cama, mas ela foi mais esperta e me puxou para a cozinha. O cheiro do café forte invadia toda a casa, sua pequenez em estrutura era suficiente para abrigar o nosso amor. Tomar aquele café me lembrou do dia que conheci Missade. Quando chegou ao Instituto fragilizada com a perda de tudo. Desde que eu a vi pela primeira vez, meu coração não bateu mais no mesmo compasso. Muitas vezes eu lutei contra esse sentimento, mas perdi todas as batalhas, e agora estou aqui, completamente rendido ao amor dessa mulher que só com o sorriso ilumina todo o meu dia.

Depois do café, passeamos pela praia, eu sempre gostei de caminhar na beirada do mar. Missade parecia feliz, nós permanecíamos de mãos dadas e confiantes que era assim que sempre estaríamos.

Conforme o prometido, preparei o almoço. Missade mal podia acreditar que eu sozinho dei conta do recado, com direito a sobremesa e tudo!

— E então? Passei no teste?

— “Aiua”! Com louvor! Mais uma vez você me surpreendeu.

— O que é isso, você que é uma cozinheira de mão cheia, eu sou só um aventureiro arriscando umas misturas de sabores.

— “NaƐam”! Pois muito bem senhor aventureiro, já que o senhor cuidou do almoço me deixe pelo menos lavar a louça.

— De jeito nenhum. Aqui o serviço é completo você é minha convidada, esqueceu?

— “La”... mas deixe pelo menos eu te ajudar... não sei ficar parada com os braços cruzados.

— Está bem, mas só porque assim você fica mais pertinho de mim.

— Bobo.

— Ahan... bobo e apaixonado!

O dia terminou como começou, eu e Missade aproveitamos cada momento que dispúnhamos para ficarmos juntos. O tempo passava rápido, o sol logo se pôs. A lua logo apareceu nos iluminando na praia. Antes de voltarmos para a casa, Missade parecia cabisbaixa.

— O que foi meu amor? Parece que ficou triste de repente?

— Não estou triste.

— Então o que foi? Está pensativa...

— Tenho medo... é maravilhoso estar aqui com você, mas o que será do nosso futuro?

— Eu não sei meu amor, a única coisa que tenho certeza é que com você ao meu lado eu enfrento o mundo se preciso for. Sinto-me forte e animado para construir uma vida ao seu lado.

Ela sorriu.

— É bom te ver tão animado, mas não somos mais dois adolescentes...

— É exatamente assim que eu me sinto, mas você tem toda razão.

— Amanhã me apresentarei para a assistente social do grupo Girassol que me chamou para esse trabalho com as crianças. Amanhã a realidade invadirá a nossa casa e nos jogará de volta para essa nave louca chamada vida. Mas hoje meu amor, vamos viver esse nosso presente que é tão perfeito que não parece estar acontecendo de verdade, parece que estamos flutuando fora desse espaço tempo chamado presente.

— Zoran, não seja um entusiasta sonhador.

— Mas é exatamente isso que eu sou. Por favor, me deixe sonhar! E, venha sonhar junto comigo!

Missade sorriu novamente e me beijou se entregando aos meus argumentos sonhadores.

Entretanto, ela tinha razão...

Os dias passavam quase sempre iguais. Eu saía todos os dias de manhã e voltava no final do dia, quase noite. Quase não conseguia nem almoçar em casa, o grupo ficava muito longe e eu perdia muito tempo no trajeto, então preferia ficar direto e voltar só à noite. Missade sempre me esperava com o melhor sorriso que podia, mas aos poucos eu fui percebendo que ela não tinha tanto brilho no olhar. Até que um dia ao voltar para casa, ela não estava. Uma dor me bateu no estômago que parecia que eu tinha levado um soco. Desesperado saí pela praia, mas não demorou muito para encontrá-la sentada na areia olhando para o infinito. Só o corpo físico estava ali, a alma e os pensamentos com certeza estavam bem longe. Ela tinha um papel na mão que parecia uma carta.

— Meu amor?

....

— Missade? Você está bem?

Como num surto, a alma dela voltou a se conectar com o corpo.

— Ah! “NaƐam”! Está tudo bem. Chegou essa carta para você.

— A carta da Diocese. O que diz?

— “La”, eu não abri. A carta é sua.

— Não tenho segredos para você. Certamente é a resposta que nós estamos esperando. Essa carta deve dizer se eu poderei voltar ao Instituto como diretor, mesmo não sendo mais Padre...

...

— “Yala” homem, fale logo...

— Missade eles...

— Ou você fala logo ou eu juro que me atiro no mar porque não aguento tanta agonia!

— Eles me aceitaram de volta! Essa carta é uma convocação para eu assumir novamente meu posto de direto do Instituo Boas Vindas! – falei com tanta felicidade que a peguei no colo e comecei a beijar, mas ela não parecia estar tão feliz como eu estava.

— O que foi meu amor? Pelo amor de Deus me diga o que você tem? Não ficou feliz com a notícia? Afinal por que está tão amuada? Distante de mim... está triste?

— “La” não estou triste, estou muito feliz porque eles te aceitaram.

— Então, eu pensei que você estaria tão feliz quanto eu, voltar a São Paulo e voltar a ficar perto de Laila e Raduan e de sua família, no entanto, não me parece feliz.

— Eu estou feliz, porém preocupada.

— Não se preocupe com o que os outros poderão falar, todos te adoram, ninguém irá te ofender, além do mais na sua frente.

— Zoran, eu não posso voltar com você!

Aquelas palavras perfuraram fundo o meu coração. Aquele soco no estômago voltou a doer mais forte do que nunca, perdi o chão com o que ela disse. Precisei me sentar na areia para não cair ali mesmo diante dela. Juntei o resto do ar que me sobrou da última respiração...

— O que você disse? Como assim não pode ir comigo? E tudo que vivemos esses dias? Eu pensei que estávamos juntos? Eu quero que você vá comigo, por que você não quer ir? Por favor, me dá uma explicação plausível para eu acordar desse pesadelo e fingir que eu não ouvi o que você acabou de dizer.

— Você ouviu muito bem o que eu disse, mas tudo bem, eu posso repetir. Zoran eu não posso voltar com você. Eu não vou voltar com você.

A dor era agora mais profunda. O ar faltou e eu não sei por quanto tempo o silêncio permaneceu ali entre nós... eu estava desnorteado. Voltar para o trabalho no Instituto era tudo o que eu mais queria. Eu gostava muito do trabalho no grupo Girassol, mas o Boas Vindas era a minha vida. Tudo que eu queria era expandir aquele trabalho continuar os projetos que eu deixei para trás. Mas pensar em voltar sem Missade não era uma possibilidade. Mas agora ela me tirava completamente o chão e me deixava numa encruzilhada, sem nenhuma dica de qual caminho escolher. Até que finalmente ela quebrou o silêncio.

— Olha, as coisas estão um pouco confusas na minha cabeça, mas o que eu sei eu não posso voltar com você.

— Sim, isso você já disse três vezes e eu já entendi. Agora eu te suplico, me diz o porquê pelo amor de Deus... e eu prometo que eu vou tentar entender.

— Eu vou para a Síria.

Pronto! A confirmação de que eu estava mesmo em um pesadelo acabou de chegar!

— Vai voltar para a Síria?

— Por favor, não me interrompa...

...

— Zoran eu ainda sou uma mulher casada e nessa condição não posso voltar para o Instituto com você. Eu preciso me livrar de uma vez por todas do casamento com o Elias, e só conseguirei isso indo para a Síria.

Eu quase desmaiei, mas a voz saiu baixinho, quase um sussurro.

— Meu amor, você já está separada, nós estamos juntos, não precisa de um papel para dizer isso. Eu demorei muito para entender que essa cobrança que a Igreja e a sociedade nos impõem são só bobagens, onde há amor, há a presença de Deus e é isso que realmente importa.

— Eu sei que você não se importa, mas eu me importo. Não está certo vivermos como um casal, se ainda há um laço entre mim e Elias. Você fez certo, deixou de ser padre, agora é um homem livre pra mim, eu quero fazer o mesmo e ser uma mulher livre pra você. Eu preciso desfazer esse elo que ainda me prende ao Elias, mesmo não existindo mais amor, há um compromisso que nos unia e quero desfazê-lo de uma vez por todas. Por favor, me entenda.

— Eu te entendo, claro. Nossas crenças fazem parte de quem somos, é por você que me apaixonei, por você e pela sua história, tudo que faz ser você quem é, sendo assim, mesmo contrariado, te apoio na sua decisão e estarei contigo sempre.

— Eu sabia que você me apoiaria. Confie em mim, o quanto antes eu desatar essas amarras do passado, antes eu volto para você e para nossa vida. Poder viver esse amor livre com você é o que eu mais quero.

Ela sorriu. E ali minha paz voltou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.