O conto de um padre apaixonado
1 Proibida pra mim
A notícia da morte de Dalila Abdala trouxe um alívio para todos nós. Laila e Jamil são muito queridos por todos nós do Instituto Boas Vindas. Deus perdoe esses pensamentos, mas Laila está grávida de seu segundo filho e é um alívio saber que a ameaça de Dalila já não é mais um problema, que Deus tenha piedade de sua alma. Em outros tempos eu iria até a casa da família celebrar as boas novas, mas... desde que me declarei para Missade sinto que não sou bem-vindo. Não pelos outros, porque felizmente ninguém desconfia de nada, mas Missade desde então passou a me evitar e eu entendi que não sou correspondido. Talvez o melhor mesmo seja ficar longe dela para não causar mais constrangimentos do que já causei.
Por aqui, a vida continua agitada, o que me força a me ocupar e faz com que os dias passem mais depressa. Com as últimas doações recebidas do Bruno, do Norberto e da Valéria, conseguimos uma boa reserva para manter o Instituto com folga pelo próximo ano e ainda aumentar as atividades que oferecemos. Enfim, tudo que parecia desarranjado, parece que finalmente voltou ao seu eixo. Menos eu.
É insuportável esse sentimento preso no meu peito, a vontade de gritar e explodir para o mundo o amor que estou sentindo por aquela mulher. O amor de homem. O amor que jamais pensei poder sentir por uma mulher. Eu que só conhecia o amor pelo lado fraternal entre as pessoas, fui arrebatado por esse sentimento que posso afirmar com toda a certeza, é o mais forte e poderoso, capaz de derrubar todos os obstáculos que atravessarem o seu caminho. É assim que eu descobri o amor dentro de mim. É assim que me sinto cada vez que penso em Missade, como se fosse o homem mais forte do mundo capaz de derrubar todas as barreiras do universo para viver esse amor.
Porém, quando penso que ela não compartilha desse amor, esse sentimento dói tanto que parece que vai explodir meu peito. Sinto-me derrotado. Contudo, hoje tomei uma decisão. Vou deixar o sacedórcio. Há muito tempo cuidando de pessoas refugiadas das mais diversas nacionalidades e religiões aprendi que o amor de Deus está no olhar das pessoas, nas nossas atitudes, no acolhimento dos necessitados, e, definitivamente, não precisa de uma batina para se fazer presente. A fé está no coração de cada um, e essa, certamente é, e sempre vai ser, inabalável pra mim.
Ser padre é só um título que carrego, mas que sinto que já não me pertence mais. Talvez se o meu coração não batesse mais forte por uma mulher, sustentaria esse título por toda vida, apenas por não me incomodar com ele, sou padre desde que me entendo por gente, porém já não me reconheço mais assim, pelo menos não como a religião exige que eu seja. O amor que hoje sinto e que a mim é proibido só fez com que caísse a venda sobre meus olhos. Por tantas vezes eu vi esse mesmo amor ser proibido a outros e por covardia e obediência eu me omiti. Não posso mais. Eu quero poder abençoar os casais que querem celebrar o amor, seja ele entre um homem e uma mulher, dois homens ou duas mulheres, como tantas vezes eu vi aqui, o amor mais verdadeiro nascer entre pessoas que a minha religião ensina que não pode haver amor. Eu não posso fingir ser o que não sou, não é correto com o compromisso religioso que assumi, mas principalmente não está certo comigo. Não posso mais continuar vivendo essa falsa verdade, não por ninguém, mas principalmente por mim. Eu mereço seguir o meu coração e praticar o bem que eu acredito. Celebrar o amor de Deus com cada irmão que eu encontrar no caminho, tenha ele o gênero que tiver, a orientação sexual que tiver, a religião que tiver. Bem, e quanto a Missade? Quanto a Missade, o tempo se encarregará de aquietar o meu coração, aos poucos o eixo volta para o lugar e ele baterá novamente no ritmo que não me doa mais o peito, e consiga voltar a oferecer a ela o mesmo que ela tem por mim, a mais pura amizade.
Eu, padre, ela, uma mulher casada, da forma mais inexplicável me vi apaixonado e rendido ao sentimento mais arrebatador. Nocauteado por meus próprios pensamentos, não pude mais conte-los e um dia tomei coragem e me declarei. Acho que foi a pior coisa que eu fiz. Ela de maneira mais inexplicável ainda se afastou de mim. O marido já tinha a abandonado por duas vezes, da primeira, mesmo expressando palavras contrárias aos meus sentimentos, aconselhei a perdoa-lo, porém, da segunda vez eu já não conseguia mais esconder, e minhas palavras me traíram. Atirei a queima roupa tudo o que eu sentia e que não podia mais fingir que não existia. A consequência disso foi a indiferença e o afastamento dela. Mesmo não estando mais casada ela se afastou completamente de tudo que pudesse levar ao meu encontro, não frequentava mais as atividades e os eventos do Instituto, e, quando raramente nos encontrávamos ela não permitia cruzar o seu olhar com o meu. E, assim, a mulher que invade todos os dias os meus sonhos foi, e sempre será sempre proibida para mim. Enquanto esse amor insistir em queimar o meu peito, estou certo que não poderei me reaproximar, mas tenho certeza que o tempo fará o seu melhor trabalho.
Já tenho em mãos a carta de desistência do sacerdócio para o Arcebispo. Espero que ele permita que eu continue a frente do Boas Vindas, já que assumi aqui quando ainda era seminarista e esse era só um espaço abandonado da Igreja. Eu ajudei a fundar esse Instituto, não gostaria de ir embora dele, mas se isso acontecer, levarei o amor de Deus para outro canto, para outros que também necessitarão de mim e que não falte amor para recomeçar em um novo lugar.
Bom, mas isso só o Arcebispo poderá dizer. Agora é tratar de levar essa carta ao correio, porque até nisso a minha Igreja é ultrapassada, na era da Internet, precisa de uma carta de próprio punho enviada ao Arcebispo da Diocese de São Paulo. Depois disso, voltar à atenção para os projetos, o desfile da nova coleção do Martin será em 7 dias e as atividades não param por aqui. Trabalhar para esquecer a dor que o amor, quando não correspondido, traz. Ufa! Espero que meus pensamentos sosseguem um pouco e me deixem dormir, afinal, é apenas dormindo que encontro com ela, pelo menos lá eu posso segurar sua mão e beijar seus lábios que tanto desejo. Apenas mais um desejo antes de apagar a luz: que a noite seja longa!
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