O canto que não uiva
2 O primeiro encontro
Tento abrir meus olhos, mas a claridade do sol entrando pela janela tenta impedir. Os lençóis e cortinas todas com cores muito claras auxiliam a luz solar neste trabalho. Luto para acostumar minha visão... e sorrio lembrando da noite anterior.
- Posso te ajudar?
Uma voz doce e macia entrou pelos meus ouvidos. Olhei na direção da dona daquela voz e me deparei com a pessoa mais bela que já conheci em toda vida.
Engoli seco e tentei me concentrar para responder de forma sensata, sem parecer uma boba.
- Ah! Oi! Boa noite! — Falei claramente nervosa — Estou admirando seus produtos!
- Não são produtos... — Ela falou calma e doce. — São curas que a natureza nos oferece!
Abri a boca surpresa com a sua visão. Ela tem razão.
- É verdade! São muito lindos, parabéns pelo seu trabalho! — Tento aprofundar o assunto. — Também trabalho com a cura que a natureza oferece.
Ela olhou curiosa, mas seu olhar nunca deixa de ser gentil. Soltou alguns colares que estava arrumando e se aproximou lentamente.
- Você é cientista, não é? Chegou recentemente? — Perguntou delicada.
- Sim! Cheguei hoje! — Pigarreei — Oi! — Estendi a mão direita — Meu nome é Alice. Prazer!
Ela me abraçou. O que me deixou muito surpresa, jamais esperaria aquela ação, e por isso, permaneci parada enquanto ela me tocava suavemente. Ao perceber, devolvi o movimento para o meu corpo e retribui ao seu abraço.
- Prazer, Alice. Eu sou a Alanis. — Disse misteriosa enquanto saía do abraço.
Sorri.
- Prazer, Alanis.
- Você tem uma alma pura. Seu cheiro é muito doce. — Disse Alanis.
- Ah! É... — Nunca tinha recebido aquele tipo de elogio, fiquei desnorteada — Obrigada...!
Ri sem saber muito o que dizer nem fazer.
Como alguém poderia me deixar desse jeito? Eu sou uma adulta! Vamo lá, se comporte como uma!
- Eu cheguei para terminar minha pesquisa com a ajuda do Instituto. Se tudo der certo, vamos ter curas para diversas doenças relacionadas ao sangue. — Falei com mais firmeza.
- Você quer tomar um chá? — Ela perguntou enquanto buscava uma cumbuca.
Derramou o líquido quente e me ofereceu. Peguei levemente. Sorri em agradecimento.
- Obrigada! — Respondi.
Ela pegou para ela também. O silêncio daquele encontro me deixava desconfortável, mas curiosa ao mesmo tempo.
- Deve ser um trabalho muito bonito o seu. — Ela disse despretenciosa.
- Ah, espero que dê certo para realmente fazer a diferença.
- Mas por que aqui no cerrado?
- Porque as pesquisas são com o lobo-guará.
Ela olhou com seriedade. O sorriso se fechou. Ficou imóvel, mas não desconfortável.
- Os lobos são sagrados. — Alanis falou com muita certeza.
- Sim, eu sei. — Respondi como quem pisa em ovos — Estamos nos dedicando para não afetar em nada na população dos lobos.
Sorriu.
- Você quer dançar? — Ela perguntou estendendo sua mão.
Estendi a minha em resposta. Não precisei falar, ela me puxou delicadamente. O silêncio também comunica tantas coisas, os gestos são suficientes neste momento. Ouço uma música alegre e sutil vindo dos músicos, de repente volto a ouvir todo o resto... as pessoas, os cachorros latindo enquanto brincavam, o barulho da fogueira estalando em brasa. Sua mão direita chegou no nível da minha cintura e ela segurou firme, mas com suavidade. Dançamos devagar e eu estava tímida, mas notava que ela me olhava obstinada. Deixei minha vista descansar em seus olhos que penetravam a minha alma com leveza e carinho.
- Quem é você? — Perguntei como quem quer desvendar um mistério.
- Sou a guardiã deste lugar. — Ela respondeu de imediato.
Sorriu. Sorri de volta.
- Olha só! Alice já fez amizade! — Rodrigo falava alto enquanto se aproximava da gente. — Boa noite, Bruxa Alanis!
Ela sai da dança devagar, olha para Rodrigo com um olhar seco, quase violento.
- Oi, Rodrigo! — Digo sem graça.
- Alice, nós já estamos indo, vim te avisar. Você fica ou vai com a gente? — Rodrigo perguntou com um tom debochado.
Alanis me olha com ternura. De novo, o silêncio falou tão alto que eu já sabia o que responder.
- Eu vou ficar, Rodrigo. Obrigada! — Respondi enquanto olhava de volta para Alanis, sua ternura me hipnotizava.
- Tudo bem! — Respondeu ele com um sorriso gigante. — Nos vemos amanhã então?
- Claro! Boa noite, Rodrigo! — Respondi.
Ele saiu acenando e indo de encontro ao pessoal do Instituto.
- O Professor Rodrigo está com eles. — Alanis falou firme.
- Eles quem? — Perguntei curiosa.
- Você conhece a história do lobo-guará? — Ela falou rapidamente.
Ela mudou de assunto? Ou está tentando me explicar algo?
- Você diz a lenda do lobo-guará? — Respondi
- Não. A história do lobo-guará que começou aqui. — Ela falou firme. — Vem, vou te contar.
Acompanhei Alanis, primeiro com os olhos, enquanto ela se afastava para dentro das árvores que nos rodeavam, depois fisicamente fui ao seu encontro. Andamos mata adentro, ouvindo os sons das corujas e outros animais noturnos que nos observavam.
O que conheço da lenda conta que há um deus originário que castigou um homem transformando-o num lobo guará pois ele era extremamente arrogante e boçal, não tinha respeito nem empatia pelos seus e a natureza. Sendo assim, foi condenado a viver solitário, se alimentando de frutas e sem um uivado característico de lobo. O que se conta é que esse lobo procriou e que ainda existem lobisomens que vivem naquela terra sagrada.
Claro que é uma lenda. Sou uma mulher da ciência, lobisomens não existem, isso seria acreditar em magia. Mas parecia que Alanis queria contar uma história, e não uma lenda.
Ela foi andando devagar e fui ouvindo o barulho de água. Parou na beira de um rio e se sentou, agachada, tocou as águas com sua mão esquerda, parecia estar desenhando na superfície do rio.
- A história do lobo-guará é ignorada pelos que querem se aproveitar da natureza para destruí-la. — Alanis diz sem olhar para mim.
Eu chego perto dela, observando seus movimentos.
- Então, a lenda que se conta não é real? — Pergunto.
- Não há lenda. Há uma história que é escondida. Se os lobos podem ajudar os seres humanos, deixaremos que isso aconteça, mas sem prejudicá-los.
- Claro! É pra isso que estou aqui. — Falo certeira.
- Tem certeza que está com quem quer fazer o certo? — Ela olha para mim com seriedade.
- Não sei. Estou? — Falo me abaixando para ficar na sua altura.
Ela levanta sua mão esquerda, a que estava desenhando no rio, toca meu rosto de forma tão suave que sinto apenas a energia, apenas uma corrente elétrica que me faz arrepiar de imediato.
- Você tem uma alma pura, Alice. — Ela fala delicada.
- E você... é um imã? — Enquanto falo, meus olhos se fecham para deixar sentir com mais profundidade o toque de sua mão em minha face.
Ela quase sussurra com seu tom de voz manso.
- Eu estava te esperando há tanto tempo.
Abro os olhos sorrindo. Ela não estava mais lá. Desapareceu. Arregalo os olhos, procurando-a. Olho por todos os lados, estava sozinha.
Aquilo foi real?
Volto para a feira, sua barraca estava vazia. As pessoas continuam lá, festejando na noite iluminada pelas fogueiras e lamparinas. A minha curiosidade só aumentou enquanto sua última frase ecoava na minha mente.
"Eu estava te esperando há tanto tempo."
Quem é essa mulher?
Volto para casa andando tranquila. Chego no chalé e me preparo para dormir. Alanis não saia da minha cabeça. Deito na cama tranquila e encontro um sono profundo e restaurador. Aquele encontro foi só o início. Sinto uma energia tão intensa e preciso descobrir o que é isto. Mas deixarei para amanhã, ou que em meus sonhos eu encontre conforto e mate minha curiosidade.
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