O canto que não uiva
3 Lavando a alma no rio
Após me desvencilhar da lembrança da noite anterior e sumir com meu sorriso ridículo, levantei para preparar meu café da manhã. Era um sábado ensolarado e eu teria o dia livre. Meu trabalho só começa na segunda, iria apenas conhecer o laboratório e os equipamentos de alta tecnologia que o Instituto me oferecia.
Passei por todas essas etapas e estava de volta em casa antes do almoço. O lugar era silencioso e dava pra ouvir o barulho dos ventos balançando as árvores, os pássaros cantando delicadamente.
Ai, Alice... Como você vai encontrá-la?
Entre o canto dos pássaros, comecei a ouvir uma melodia. A primeira coisa que percebi foi a simplicidade aparente, mas existia algo profundamente hipnótico na forma como as notas se repetiam e se entrelaçavam. Comecei a procurar de onde vinha esse canto. Cheguei até a janela e me deparei com Alanis encostada em uma árvore em frente ao chalé, era de sua boca que saia essa melodia.
Sorri encantada com a cena. Ela sorriu de volta, ainda cantando. Saí ao seu encontro. Abri a porta da frente e encontrei uma divindade da natureza. O sol parecia brilhar especificamente sobre ela, como um holofote, o vento balançava seus cabelos longos e seu cheiro de flores frescas alcançou minhas narinas, respirei profundamente.
- Eu tava pensando em você! — Disse emocionada.
- Eu também — Ela respondeu leve, se aproximando.
- Por que você sumiu ontem? — Perguntei curiosa.
- Eu precisei ir, mas estou aqui agora. Vamos? — Ela falou me oferecendo sua mão.
- Pra onde?
- Lavar a alma no rio!
Num movimento de impulsividade, apenas fechei a porta atrás de mim e segurei sua mão, ela não soltou, fomos de mãos dadas e em silêncio até o rio que — dessa vez — com a iluminação do sol, trouxe um ar de limpeza e tranquilidade.
- Você é silenciosa, né? — Perguntei.
- Não é só a voz que fala. — Ela respondeu sábia. — Mas o que quer saber?
Ela chegou na beira do rio e se despiu. Completamente nua. Zero pudor. Foi adentrando ao rio e a água foi cobrindo seu corpo, mergulhou e subiu à superfície apenas sua cabeça. Eu não consegui falar nada, apenas olhar aquela cena com tanta admiração.
Alice, o que é isso que você está sentindo?
Segui em silêncio. Petrificada.
- Alice... — Ela falou com olhos sedutores.
- Oi — Respondi retornando à consciência.
- O que você quer saber?
Nesse momento, fui magnetizada e comecei a andar rio adentro, parando de frente a Alanis.
- Quem é você? — Perguntei com um tom de voz leve, mas havia muita ansiedade e curiosidade.
- Você parece que precisa saber tudo de forma concreta.
Sorri
- Sim, sou uma mulher da ciência. — Respondi sorridente, mas nervosa.
Ela chegou a centímetros do meu rosto. Seus olhos claros penetravam os meus.
- Só o silêncio consegue explicar isso daqui. — Alanis sussurrou junto da minha boca.
Eu conseguia sentir sua respiração, sentir o cheiro do seu hálito doce.
- Posso te beijar? — Perguntei cheia de vontade.
Estava sentindo uma energia nunca antes sentida. Uma intensidade nessa aproximação. O desejo de tocar seu corpo era como um imã que me puxava para ela.
- Meu silêncio tá te respondendo o quê? — Ela perguntou provocante.
Todo o meu corpo se permitiu ir ao seu encontro. Meus lábios tocaram os seus com muita sutileza, com um ritmo leve e delicado. Minhas mãos encontraram sua cintura e rapidamente senti seu corpo sentar em cima do meu dentro da água, ela me abraçou com suas pernas. O beijo foi se intensificando, mas sempre cheio de ternura. Como se tudo estivesse em câmera lenta. Senti uma de suas mãos tocar o meu pescoço, a outra buscava mais aproximação me puxando para ela pelas costas. Nesse momento, uma corrente elétrica invadiu todo o meu ser, resultando numa vibração que com certeza emanava longas distâncias, os pássaros começaram a cantar, as árvores balançavam forte com o vento, o barulho da água era calmo e se movia no nosso ritmo. Ela saiu do beijo suspirando e enterrando seu rosto no meu pescoço, lambendo e sentindo a mistura do meu gosto com a água doce do rio. Ainda de olhos fechados eu senti a veemência do seu gesto. Sorri de desejo. Passei uma das mãos nos seus cabelos, tirando-os do caminho de seus ombros, onde depositei vários beijos carinhosos e delicados. Ela subiu ao meu ouvido com seus lábios molhados, lambeu minha orelha enquanto sentia todo o seu corpo ainda abraçando o meu pelas pernas, quase nos transformando em um ser apenas. Saí de seu ombro para olhá-la e ali vi uma cena extranatural. Seus olhos já não eram os mesmos, sua íris tinham uma cor âmbar e aumentara de tamanho, quase que tomando conta de toda a esclera, sua pupila estava extremamente dilatada. Aquele momento me congelou, uma mistura de surpresa e encanto.
- Seus olhos... — Foi a única coisa que consegui falar.
Ela sorriu.
- Finalmente te encontrei. — Ela falou suspirando.
Alanis saiu do nosso abraço enquanto piscava rapidamente. Seus olhos voltaram ao normal.
- Alanis... — A curiosidade não me deixava não perguntar — Quem é você?
- Já disse que sou a guardiã desse lugar. — Ela falou se aproximando novamente.
- Então você é bruxa mesmo como todo mundo fala?
- O que você acha? — Ela retrucou.
- Acho que bruxas não existem. — Respondi rapidamente, mas com um sorriso no rosto.
- Hahahaha! Você é uma mulher da ciência! — Ela gargalhou. — A ciência ainda não provou isso, né?
- Exato.
Rimos juntas. Por mais que a curiosidade me atravessasse, sentia que estava aprendendo com Alanis que está tudo bem não ter respostas para tudo, viver a experiência mágica e potente daquele momento estava me fazendo transceder a matéria. Deixaria os questionamentos para depois. Continuamos aproveitando o lugar, saímos da água para comer e ficamos nos amando, deixando o silêncio gritar para a natureza naquele encontro.
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