O canto que não uiva
4 Tudo estava acontecendo tão rápido
- Nunca imaginei que viria pra cá à trabalho e encontraria o amor. — Falei mais como uma confissão.
Ela me olhou tranquila.
- Eu estava aqui te esperando chegar.
- Você fala umas coisas que objetivamente não fazem sentido algum.
- Por que tudo tem que sempre fazer sentido?
Caímos na gargalhada.
Meu coração saltitava dentro do meu peito. Ela parecia ter ouvido. Parou de rir de repente e prestou atenção em mim, alternando sua visão entre meu tórax e meus olhos. Ficou serena.
- Tudo bem? — Perguntei.
- Eu que te pergunto. — Alanis respondeu com um sorriso malicioso.
- Tá tudo ótimo! — Gargalhei em resposta. — Tá dando pra ouvir daí é?
- Eu estou ouvindo o Rodrigo te chamar lá na sua casa.
Fiquei séria. Ela parecia falar com tanta certeza.
- Para com isso, menina. — Ri, desconfiada.
- Mas também estou ouvindo seu coração. Quer ouvir o meu? — Ela perguntou.
Balancei a cabeça em sinal positivo. Sem usar as palavras para me comunicar. Direcionei minha cabeça para seu peito, enquanto ela se aproximava para diminuir a distância.
Tum tum... Tum tum... Tum tum...
- Tá dando pra ouvir de longe — Falei, entrando na brincadeira.
- Você é muito linda, minha deusa. — Ela disse com um olhar penetrante.
Sorri, mas não pude deixar de questionar.
O que estava acontecendo? Quem é essa mulher que me encantou como uma sereia? Por que ela diz que é guardiã desse lugar? Por que ela falou daquele jeito de Rodrigo?
Minha cabeça começa a girar com tantas dúvidas. Me afasto um pouco. Respiro fundo.
- Tá confusa? — Ela pergunta curiosa.
- Sim... — Respondo olhando pro horizonte.
- Perceba o que o silêncio te comunica. — Ela fala se levantando. — Preciso ir.
- Ah, pelo menos dessa vez você avisou. — Falei engraçada.
- Obrigada por esse encontro. Quero te ver todos os dias. Vem almoçar comigo amanhã?
- Sim! — Respondo animada enquanto me levanto.
- Ok! — Ela diz com um sorriso sincero.
Estávamos de frente uma para outra. Ela se aproximou lentamente me beijando com muito afeto. Devolvi instantaneamente. Seu toque me causou novamente sensações nunca antes sentidas. O beijo virou um abraço carinhoso. Ela saiu do abraço e depositou um beijo na minha testa, saindo sorridente no final. Se afastou até sumir pela natureza.
Voltei pra casa pensando no nosso encontro, caminho até a entrada do chalé e me deparo com Rodrigo.
- Oi, sumida! — Ele fala sorridente. Ele sempre está sorrindo, né?
- Rodrigo? — Perguntei surpresa.
- Estava te chamando, mas a Doutora estava fora. Desculpe ter vindo, eu tentei ligar, mas estava fora de área, mas o que eu queria dizer é que...
Pera... Ela estava ouvindo mesmo? Ok, estamos apaixonadas, da forma mais rápida e bonita que eu já vi e ouvi falar em toda minha vida. Mas Alanis tem algo a mais, ela é bruxa de verdade? Bruxas têm poderes especiais de audição? E seus olhos? Ela não gosta de Rodrigo, não posso contar isso pra ele, vai trair a confiança dela, ela não precisou me dizer isso, eu sinto...
- Doutora Alice? — Rodrigo chamou minha atenção.
- Ah! Oi, Rodrigo! Então, desculpe, eu não ouvi nada que você falou, estou um pouco cansada, podemos conversar depois?
- Claro, Doutura, mas só preciso te entregar esses documentos para que na segunda-feira a gente já comece realizando alguns testes, pode ser?
Ele direcionou uma papelada na minha direção. Peguei.
- Você não acha cedo demais? — Perguntei confusa.
- Mas segunda-feira é Lua Cheia! — Ele falou animado demais.
- O que tem?
- É o dia em que os lobos saem pra encontrar seus pares! — Ele falou se afastando e acenando um 'tchau' brevemente — Até segunda, Doutora.
- Mas, Rodrigo...! Só precisamos de um!
- Mas fica mais fácil de capturá-los!
Capturar? Achei que já tinhámos um lobo aos cuidados do Instituto.
Liguei diretamente para Murilo.
- Oi, Murilo. Então... Você não me avisou que a gente iria precisar CAÇAR um lobo!
- Calma, Alice! Eles não me informaram que quem vai fazer isso é você! — Deu uma risada — Fica tranquila!
- Tranquila? — Estava ficando furiosa — Vocês disseram que existia um lobo que, muito doente, precisou ficar sob os cuidados do Instituto, criado em cativeiro nunca mais se adaptou a vida no cerrado! Onde ele está?
- Morto, Alice! Todo mundo morre, esqueceu?
- Murilo, não me deixe descobrir o que você não quer, caso contrário, eu sei muito bem como acabar com a raça de todo mundo!
- Alice, vai descansar! Mal chegou aí já está desse jeito!
Desliguei indignada. Será que Rodrigo está com 'eles'? Será que Murilo está com 'eles'? Quem são 'eles'? Ai, Alanis, você precisa me falar, eu não estou entendendo seu silêncio.
Terminei o dia angustiada com tanta informação. Tudo estava acontecendo tão rápido e parecia que eu não conseguia acompanhar.
-
O domingo finalmente chegou e eu estava à espera de Alanis, visto que eu não tenho outra forma de encontrá-la, apenas ela vindo ao meu encontro.
Escuto novamente aquele canto hipnótico vindo da janela e já abro meu maior sorriso. Abro a porta da entrada e a vejo na posição de cócoras, ao lado de uma árvora, me olhando com ternura.
— Pronta pro nosso almoço? — Alanis diz sorridente.
- Sim, meu bem! Estava te esperando. — Digo apaixonada.
Seguimos para sua casa, andando pela floresta por alguns minutos e de repente, me deparei com uma clareira onde se encontrava uma casinha linda e cheia de animais ao redor. Cabras, galinhas, bichos menores, roedores... Parecia estar num lugar mágico, fiquei admirada com tudo que via.
Ela me apresentou tudo, eu me apaixonava mais a cada minuto. Comemos muito bem, ela contou como perdeu seu pai numa noite de Lua Cheia há alguns meses e desde então vive sozinha neste casebre lindo e surreal. Em um dado momento, eu consegui conversar sobre o que tinha acontecido no dia anterior com o Rodrigo e Murilo.
Ela ficou serena, mas mais calada que o normal.
- Você sabe de alguma coisa? — Perguntei preocupada. — Preciso que me conte, só assim posso fazer algo! Tenho medo que eles não estejam seguindo o combinado e estejam capturando lobos-guará para transformá-los em ratos de laboratório.
- É exatamente isso que eles vêm fazendo... — Ela disse séria. — Eu só não tenho como provar, visto que tudo para vocês, humanos, precisa de provas concretas, sejam elas manipuladas ou não.
- O que você disse? — Fiquei estatelada.
- Pois, é. Eles estão fazendo isso... — Ela seguiu repetindo o que disse.
Não percebeu o que acabou de dizer.
- "Vocês humanos?" — Perguntei incrédula.
Ela arregalou os olhos, mas sorriu de leve.
- Eu sei que também sou humana. — Falou tranquila.
- Você é? — Respondi cada vez mais confusa.
- Um pouco.
Levantou, abriu os braços, levantou o rosto para o alto e sorriu. Parecia estar abraçando o céu. Os pássaros cantaram como um coral, todos juntos. Fiquei ali observando. Ela voltou-se para mim novamente.
- Precisamos impedir que eles cacem os lobos. Achei que com a sua chegada, eles iriam parar, pois você sabe como usar os lobos sem matá-los. — Alanis falava obstinada. — Mas estão planejando utilizar os lobos a qualquer custo, mesmo que isso custe a morte de vários deles!
- Calma, como você descobriu isso? — Perguntei muito mais confusa.
- Você precisa me ajudar com isso, Alice.
- Claro que vou! Na minha pesquisa, nenhum lobo morre! Só pegamos amostras de sangue! — Falei.
- Mas eles não estão preocupados com cura nenhuma, Alice. Tem algo maior por trás disso... — Ela falou se aproximando. — Algo relacionado com a história do lobo-guará.
Não acredito nisso...
- Vai me contar agora ou acha que o silêncio é suficiente pra eu entender?
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