O caderno de Amila - uma história da ditadura.
1 Um velho baú
Notas iniciais
DIAS ATUAIS
Louise chegou da escola cansada e depois de jantar com seus pais subiu ao seu quarto, nele havia um velho baú com antiguidades, curiosa, a menina começou a vasculhar o pequeno baú e acabou achando um caderno velho e desbotado, nele lia-se “Caderno de Amila”, era de sua avó, abriu e na primeira página com letra cursiva ela leu “Aqui escreverei um pouco sobre minha vida, ainda não me decidi se devo chama-lo de diário, pois apenas escreverei quando der vontade” Louise se interessou e começou a ler o pequeno caderno de sua avó imaginando como que foi aquela história com cada palavra que lia.
SÉCULO XIX
“Na manhã do dia primeiro de abril de 1964, no então bucólico Posto Seis, na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, um coronel do exército salta de um citroen preto e caminha em direção ao sentinela que guardava a entrada do Forte de Copacabana. A bofetada no rosto do praça eliminou um dos supostos focos de apoio ao presidente João Goulart, essa altura politicamente desenganado.” O referido oficial ficou preocupado e colocou dois paralelepípedos no meio da única pista da Avenida Atlântica: “Precisamos parar os tanques do I Exército!” ele falava. O I Exército não apareceu. Na verdade, ele se reuniu aos demais exércitos e a Marinha e Aeronáutica para iniciar o experimento que pôs fim a República de 1946.
Luíz Fagner, soldado do exército, estava na reunião e ouvia cada palavra com atenção: “Prestem atenção soldados, já esta na hora de tomarmos o poder, acabarmos com essa zona e derrubar o poder de João Goulart!” ouviu-se um sim uníssono na sala. Após a reunião Luiz se dirigiu ao carro vagarosamente, com um olhar cansado, quando foi cutucado por um colega:
- Ei Fagner, tudo bem com você?
- Sim, claro, só um pouco de medo dessa radicalização política que irá acontecer no país
- Mas é necessário – o colega afirmou – Abaixo o comunismo! Está demais Fagner, alguém tem que tomar as rédeas desse país. Não esta vendo que esta tudo desgovernado?
Luiz iria fazer um movimento de “não” com a cabeça mas achou melhor ficar quieto. Ele sabia que os dias seguintes seriam de muita aflição e que esse processo não seria fácil. Logo que os militares assumiram o poder foi feita a prática de vários atos institucionais, normas que foram feitas por comandantes do exército da marinha ou da aeronáutica, era um mecanismo para manter o domínio dos militares. Nas ruas ouvia-se repetidamente e em uníssono “um, dois, três: Brizola no xadrez! Se sobrar lugar, põe também João Goulart”.
Castello Branco, general militar, foi eleito em 15 de Abril de 1964, quando fez seu pronunciamento disse ser a favor da democracia, mas quando assumiu o poder teve uma postura autoritarista, parlamentares tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos cancelados e sindicatos receberam intervenções militares, foi instituído o bipartidarismo. Só estavam autorizados o funcionamento de dois partidos: Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (ARENA ). Enquanto o primeiro era de oposição, de certa forma controlada, o segundo representava os militares. Luiz dizia que estava acontecendo um conflito ideológico entre comunistas e não comunistas, não era muito a favor a essa repressão toda e que todo esse movimento era um evento republicida, dizia em casa, para sua mulher Amila, que sempre respondia:
- Cuidado com o que tu fala meu bem, isso não está sendo brincadeira não – fazia uma expressão séria
- Eu sei, mas estou falando para você, você não vai falar pra ninguém o que te digo, não é mesmo? Sei que vosmecê concorda comigo.
- Concordo sim meu bem, só estou dizendo que isso não é uma coisa que se fale por ai, veja como o governo está rígido – ela falava
- Uma coisa eu concordo: prática do nacionalismo, devemos ser nacionais, cuidar de nosso pais, favorece-lo economicamente, comprar coisas daqui e não ficar importando tudo que se vê pela frente, pois quando se importa gera emprego e lucro para lá e não para meu querido Brasil.
- Eu sei querido, eu sei – Amila falava e voltava a cozer.
O movimento de 1964 eliminou a principal característica da República de 1946: a possibilidade de representação política de parte importante do país. Os anos se passaram e com eles a repressão foi aumentando. Em Janeiro de 1967 o governo impõe uma nova constituição para o país que confirma e institucionaliza o governo militar, o congresso nacional foi dissolvido, foi criado um código de processo penal que permitia que a polícia militar e o exército brasileiro poderiam prender e encarcerar pessoas suspeitas o novo regime era nacionalista, desenvolvimentista e anti-comunista. Luiz era muito a favor do nacionalismo e não era a favor do comunismo, achava que o certo era o governo caminhar para isso mesmo, mas não dessa forma, com toda essa repressão. O general Arthur da Costa e Silva assume o poder, mas seu governo foi com a presença de muitas manifestações políticas e insatisfação geral. A União Nacional dos Estudantes organiza no Rio de Janeiro a passeata dos Cem Mil. Em Minas Gerais e São Paulo os trabalhadores fazem greves, paralisam fábricas e a situação só piora, para achar uma solução o governo decreta um novo ato institucional, que foi o mais rígido já lançado, pois aumentou a repressão militar e policial, cassou mandatos e aposentou juízes. Por esses dias, Luiz vivia sua vida normal, ia trabalhar, voltava, jantava com Amila, os dois conversavam e iam dormir, eram felizes, um belo e jovem casal. Em mais um dia normal os colegas de trabalho, os soldados, combinaram de ir a um barzinho que ficava perto do quartel, Luiz ligou para Amila e disse que iria chegar tarde em casa:
- O pessoal resolveu sair para botar os assuntos em dia, vou com eles, tudo bem?
- Tudo bem, vou fazer chá e deixar pronto aqui para você, caso chegue em casa e eu esteja dormindo – Amila falou.
- Ok.
- Tome cuidado, eu amo você.
- Pode deixar, eu também amo você.
Eles saíram e foram todos papear, no meio de muitas cervejas, gargalhadas e conversas bobas, começaram a conversar sobre a situação atual, em uma mesa se encontrava Luiz e dois colegas, Marcos Figuri e João Nobrega
- E o que você esta achando desse movimento todo, Fagner? – Marcos perguntou com um olhar curioso
-Olha, sou a favor do nacionalismo, mas essa repressão toda já esta sendo um absurdo rapazes, qual é? Torturar e exilar pessoas só pelo fato de elas pensarem um pouco mais do que as pessoas normalmente pensam não é justo – Luiz sussurrou
- Ah é? Conte-me mais sobre sua opinião – Marcos continuava perguntando
- Ei pessoal, vamos falar de uma coisa mais alegre – João sugeriu.
- E há coisa mais alegre que nosso Brasil, Nóbrega?! – Luiz sorria e bebia mais um gole da cerveja que segurava em sua mão – Nosso país deve ser muito honrado, sou nacionalista com orgulho, mas te digo que nosso governador Costa, esta governando tudo de um jeito muito errado e ainda lhe digo mais: aquele povo de lá de fora, os americanos, influenciaram muito aqui, há os dedos podres deles aqui, isso eles não nos falam, querem nos fazer de burros.
- Pois é, eita olha como já esta tarde – João falou dando um sorriso amarelo e olhando para o relógio – venha Luiz, vou te levar para casa, Amila esta te esperando
Os dois se despediram de Marcos Figuri, depois se despediram dos outros e entraram no carro
- Luiz, creio que esta numa época muito perigosa para sair se expressando desse jeito assim, não confio muito no Figuri – João falou dirigindo, preocupado
- Ora, deixe de bobagem homem... não falei nada de mais
Se despediram e Luiz entrou em casa, encontrou o chá que Amila preparou em cima da mesa da cozinha, ele agradeceu em silêncio por tê-la em sua vida, era uma incrível companheira, tomou o chá e foi para seu quarto, Amila dormia, do seu lado havia um caderninho, ele o abriu e o folheou, nele se encontrava diversos dias detalhados:
10/02/62
Hoje foi um dia bom, tudo estava tranquilo, fui fazer compras com a mãe hoje, ela parecia feliz, já estamos superando a morte de meu pai, havia um homem muito bonito na fila do caixa, era moreno e alto, vestia o uniforme do exército.
27/02/62
Oi! Sabe aquele homem que encontrei no mercado? ele veio falar comigo, o nome dele é Luiz Fagner, parece bem simpático. Hoje minha mãe piorou, fui ao mercado comprar torradas para ela e esbarrei com esse tal moço, espero que minha mãe melhore.
03/04/62
Eu e Luiz estamos muito felizes, hoje ele me pagou um sorvete e me pediu em namoro! Amanha ele vem aqui em casa conhecer a mãe, vamos fazer um jantar juntas, como nos velhos tempos.
01/02/63
Estamos casados! Há exatamente duas horas e estou mais feliz que tudo! Luiz é o “perfeito soldado protetor” que sempre quis.
20/04/64
Os militares tomaram o poder, estou um pouco assustada. A sede da UNE foi incendiada. Luiz anda meio avoado, não conversa comigo tanto quanto antes, espero que tudo melhore.
Luiz leu o que Amila escreveu sobre esses dias e sorriu, mas se sentiu um pouco mal por ela acha-lo avoado, ele não sabia desse caderno.
Os dias foram se passando e Marcos Figuri pedia a Luiz que ele dissesse suas ideias daquele dia do bar para mais pessoas, porque eram interessantes e ele devia compartilha-las com o resto dos soldados e cada dia que se passava em mais ouvidos chegavam as inovações de Luiz. No dia 31/08/1969 Costa foi substituído por uma junta militar, um ministro do Exército, um da Marinha e um da Aeronáutica. O MR-8 e a ALN (dois grupos de esquerda) seqüestram o embaixador dos EUA Charles e exigem a libertação de 15 presos políticos. E18 de setembro, o governo decretou a Lei de Segurança Nacional: dava permissão para o exílio e a pena de morte em casos de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva". Em um dia normal, batem a porta da casa de Amalia e Luiz, quando a moça abre a porta, dois soldados perguntam por Luiz e o avisam que ele esta preso.
- Mas por quê? Se me permitem perguntar – Amila perguntava desesperada
- Porque você não é a favor do regime militar e parece que deixou isso bem claro, espalhando por bares, por pessoas e até em seu próprio quartel.
- Os senhores vão me levar preso por seguir a linha política do nacionalismo e da legalidade? – Luiz perguntava sério
- O que é isso Luiz? Espalhando ideias em bares? – Amila estava assustada
- Silêncio! Sem mais nenhuma palavra ou poderá ser usada contra você, será preso durante quarenta dias e irá responder a um IPM.
Luiz foi levado pelos soldados, deixando Amila sozinha sem saber o que fazer, estava furiosa pois tinha avisado ao marido para ter cuidado com as palavras. Era dia 27 de Outubro de 1969 e ambos iriam lembrar-se desse dia em todo resto de suas vidas, a esposa, parada no meio da sala, olhando para as paredes com um olhar vago, imóvel, pensava em como iria ficar sozinha, passou um tempo e foi para a cozinha, enquanto esquentava a água, pegou seu diário e começou a escrever.
27/10/69
Luiz Fagner é o homem mais honesto que conheço depois de meu pai. Estamos casados há seis anos e admiro mais a sua inteligência a cada dia que passa, agora ele irá ficar 40 dias longe e nem sei se poderei visita-lo, sei que falei mais de uma vez para ele tomar cuidado com o que fala, mas a liberdade de se expressar não é um direito que todos deveríamos ter? Aliás, concordo plenamente com ele, esta certo em defender sua pátria, mas acho que fez isso em um momento errado. São tempos estranhos e acredito que a liberdade vai ser conquistada aos poucos, não quero que mandem meu marido para o exílio, descobrirei se poderei visita-lo, escreverei aqui sempre que possível, posso narrar o que vejo lá fora e minhas opiniões, nesse pequeno espaço de liberdade.
A Junta militar escolhe um presidente: Emílio Garrastazu, foi a época mais puxada da ditadura ficou conhecido como “anos de chumbo”. A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. “Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos, torturados ou exilados do país. O DOI-Codi ( Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa Interna ) atua como centro de investigação e repressão do governo militar.”
02/11/69
Oi, então aqui estou eu de novo, Amila, há um novo presidente no governo: Emílio, e podemos ver que o moço não brinca em serviço não, jornais, revistas e livros foram censurados e a biblioteca que eu costumava ir ler livros já não abre faz quatro dias, fiquei então costurando novas roupas, desmancha aqui, costura ali e por ai vai, fui ao mercado ontem e fiz uma boa sopa e fui na vizinha compartilhar com ela, ficamos conversando um pouco e depois entrei. Não tenho notícias de Luiz desde o dia que foi preso, mas estou esperando ansiosamente que os quarenta dias passem rápido.
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