O caderno de Amila - uma história da ditadura.
2 Um ponto de vista
Notas iniciais
Ainda no governo de Emílio houve uma guerrilha rural: A guerrilha do Araguaia, um movimento guerrilheiro a favor do comunismo ao longo do rio Araguaia, o objetivo era ser uma revolução socialista como a revolução cubana e a revolução chinesa, mas foi contida e combatida pelos militares. Possuiu em torno de oitenta guerrilheiros e apenas sobraram vinte, a maioria dos guerrilheiros eram ex-estudantes e profissionais liberais, mais de cinquenta ainda são considerados desaparecidos políticos.
Economicamente o país estava “em uma montanha russa que só vai para cima” Foi o período do milagre econômico. Nesses tempos, Amila continuava escrevendo e vivendo sua vida o máximo normal possível. Escreveu sobre vários acontecimentos importantes da época
26/02/69
Querido caderninho, hoje foi avisado sobre o decreto-lei N.477 que dispõe infrações disciplinares práticas sobre professores, alunos e empregados da ala de ensino. Que penaliza professores, alunos e funcionários de estabelecimentos de ensino público. Fico pensando em dona Isalia, professora de português da escolinha aqui da esquina.
05/09/69
Foi dito sobre o ato institucional N. 14 que estabelece a pena de morte. Contando ansiosamente os dias para a volta de meu marido.
07/11/69
Querido caderninho, será que devo lhe chamar de diário? Talvez não, afinal, não escrevo aqui todos os dias, só de vez em quando e quando sinto vontade de conversar com alguém, pois desde os tempos de que minha mãe se foi, não tenho muitas “amigas” para conversar sobre as besteiras dessa nossa vida, minha mãe era minha melhor amiga e aqui posso escrever o que anda acontecendo por aqui e comigo. Estou com saudades de meu marido, lembro-me dele em todo lugar, nossa vizinha Ionora Melo me chama para jantar na casa dela desde que soube que Luiz havia sido preso, “dividir a comida é bem melhor do que comer tudo sozinha” dizia ela com um sorriso no rosto, e desde então janto lá com ela e seu filho Joaquim, são muito agradáveis e simpáticos, o marido de Ionora morreu faz dois anos e é só isso que sei, ela não fala mais nada sobre ele.
09/11/69
Olá, hoje fui ao supermercado fazer compras, vou fazer a comida para o jantar de hoje: macarrão com almondegas e levar para a casa da vizinha. São 15:20h, ultimamente não tenho nada de mais para fazer já que uma boa parte de revistas que eu lia e os filmes que eu via foram vetados e estão inalcançáveis, só me resta testar novas receitas na cozinha e aprender a fazer alguns pontos novos em minhas roupas. Faltam vinte e sete dias para Luiz voltar e minha saudade aumenta cada dia mais, será que posso ir ao quartel e perguntar se há a possibilidade de visita-lo? Amanha irei resolver isso.
10/11/69
Hoje de manhã logo cedo fui ao quartel, a pé, assim que cheguei lá bati na porta e um soldado veio me receber, perguntou o que queria e disse que seu nome era Marcos Figuri, perguntei por Luiz e disse que era sua esposa, ele me disse que lamentava a prisão do amigo, mas também me falou que foi necessário, que meu marido estava ficando louco falando coisas sem sentidos para vários amigos do quartel, que não eram tempos de expressar e sim tempos de aceitação. “É somente o que posso lhe dizer, Amila, mas foi um prazer conhece-la” E então fui embora, pensativa, porque será que Luiz não havia me falado sobre esse amigo? Ele já me falou de João, mas desse tal Figuri, não mencionou nenhuma vez. Mudando um pouco de assunto, ouvi por Ionora que ouviu de alguém que nosso país esta melhor economicamente e espero que Luiz esteja recebendo essas informações pois acho que gostaria de ouvi-las. Esta havendo uma grande propaganda no momento, slogans foram distribuídos e divulgados de todas as formas possíveis e tem uma música que se escuta toda hora pelas ruas, se chama “Este é um país que vai para frente" daquelas musiquinhas grudes, que quando eu vejo, já estou lavando roupa cantando ela.
20/11/69
Querido caderninho, alguns vizinhos já colocaram uns enfeites de natal, o que me é bem estranho porque ainda estamos em meados de novembro. Faltam dezesseis dias para a chegada de Luiz e estou feliz e também posso perguntar sobre aquele tal Marcos, porque o achei muito estranho.
Era uma manhã do dia seis de dezembro quando Luiz chegou em casa acompanhado por dois soldados, não eram os mesmos que o levaram um era bem alto e o outro bem baixo , Amila estava na cadeira de balanço que tinha na varanda, e se levantou emocionada quando viu o marido chegando, os dois se abraçaram
– Estive esperando você cada dia que passamos separados – ela falou sorrindo
– Espero que nesses dias você tenha visto como errou em falar aquelas besteiras – o soltado mais alto falou
– Entendido – Luiz Fagner respondeu sério
Após os dois entrarem em casa e fecharem as portas puderam se abraçar por um longo instante e ficarem ali, matando a saudade um do outro:
– Como você esta, querido?
– Estou bem, senti sua falta.
– Eu também, jantei esses dias com nossa vizinha Ionora e o filho dela, fui ao supermercado várias vezes, aprendi receitas novas, costurei novas roupas e arrumei suas coisas, engomei várias blusas, esta cada “cousa” em seu lugar. – Amila falou sorrindo
– Muito obrigado querida.
– Queria te perguntar uma coisa, quem é um tal de Marcos Figuri?
– Um homem lá do quartel, João havia me avisado que não confiava nele e eu deveria ter escutado meu amigo. – Luiz falou triste
– Mas o que vosmecê fez? Porque até agora não entendi o motivo de o levarem preso
– Marcos Figuri disse que eu tinha várias ideias boas e pediu para eu cultiva-las e difundir elas para as pessoas, que quanto mais pessoas soubessem seria melhor porque ai o povo teria mais conhecimento sobre o que esta acontecendo atualmente, então espalhei minhas ideias sobre o nacionalismo, que sou totalmente contra qualquer tipo de repressão, que isso as forças armadas estão fazendo erroneamente e que tenho certeza que os Estados Unidos esteve envolvido nesse golpe militar , sem o “Ok” do povo de lá nada disso teria acontecido, pense bem minha querida, o golpe veio exatamente como eles queriam: o golpe veio exatamente como os americanos pediram, com Castello no comando e Jango fora do país. Todas as coisas que falava para você, meu bem falei para todos e algum tempo depois estavam os soldados a nossa porta. – falou um pouco pensativo
– Eu lhe avisei! Para tomar cuidado, você não quis me ouvir. – Amila falou revirando os olhos
– Ouvi dizer que economicamente esta tudo ótimo. É verdade? — ele perguntou animado
Os anos seguintes foram marcados pelo “Milagre Econômico” de 1969 a 1973 o PIB cresceu em uma taxa de 12% ao ano e a inflação por torno de 18% houve investimentos internos e empréstimos do exterior o país teve uma boa instrutura e aumentou a necessidade de emprego no país por isso havia emprego para todos, algumas obras como a rodovia Transamazonica e a Ponte Rio Niterói foram realizadas. Teve um lado negativo: uma grande dívida com o exterior que deveria ser paga no futuro.
Em 1974 o general Ernesto Geisel começa a governar, um processo lento que tinha rumo a democracia, assim que seu governo iniciou coincidentemente o milagre econômico acabou e havia uma população insatisfeita com as altas taxas, a crise do petróleo e a recessão mundial também estavam presentes e os empréstimos diminuíram. Geisel anuncia a política lenta, aberta e segura e a oposição política começa a ganhar espaço para a insatisfação dos militares linha dura que começaram a promover ataques clandestinos aos membros de esquerda.
O jornalista Vladimir Herzog é assassinado. Em 1978 Geisel acaba com os atos institucionais e restaura o habeas corpus, rumando novamente para a democracia.
20/12/78
Querido caderninho, passamos por muitas mudanças por esses anos, quando eu paro para olhar vejo o quanto o Brasil mudou de 1964 para hoje. Eu e Luiz estamos vivendo nossa vida normal, esta tudo bem entre nós. Voltaram a ser publicadas algumas revistas e fui ao cinema diversas vezes com Luiz. Atualmente, acho que realmente tudo esta caminhando para uma democracia no nosso pais.
Nas eleições de 1978 o MDB conseguiu vitória, o processo de redemocratização acelerou. O general João figueiredo declarou lei de anistia, que concedeu o direito de políticos, artistas e todos os brasileiros exilados a poder voltar para o Brasil o que não agradou nada os militares de linha dura que continuaram com a repressão clandestina, eles colocaram cartas- bomba na OAB. No dia 30 de abril de 1981 uma bomba explode no centro de convenções do Rio Centro, mas não há nada comprovado de que foram os militares. Essa época já começou a caminhar para o fim dos militares no poder.
15/11/82
As notícias são que hoje a oposição conquistou a maioria na câmara dos deputados. Está realmente acabando isso tudo, eu e Luiz estamos bem e continuamos com nosso cotidiano normal, ele me disse que não fala com Marcos Figuri fazem meses e que depois de um tempo, ele foi transferido para outro quartel, fiquei aliviada.
25/12/82
Esse é o primeiro natal que escrevo aqui no caderninho, escrevo enquanto o peru esta no forno, Ionora, seu filho Joaquim e João irão vir passar o natal aqui conosco. Luiz foi ao mercado comprar um bom vinho para todos podermos compartilhar essa alegria que é a vida, suas complicações e realizações, seus dias bons e dias ruins, com as pessoas que amamos. Ah, fiz a assinatura de uma revista, agora todo mês chega uma revista com as notícias do Brasil, fico feliz pois assim posso dizer que sou uma moça atualizada, não é mesmo? Estamos passando por alguns problemas no momento: a inflação aumenta cada dia e junto com ela a recessão. Há novos partidos e formação de novos sindicatos. Grandes obras estão paralisadas pelos sertões do Brasil, as empreiteiras abandonaram as construções mas com razão, afinal o pagamento estatal esta bem ruim. Feliz natal querido caderninho.
Os anos passaram rápido. Em 1984 politicos da oposição, jogadores de futebol e muitos brasileiros participaram do movimento chamado “Diretas Já”. Esse movimento queria a aprovação da Emenda Dante de Oliveira que iria garantir eleições diretas para presidentes, todos os participantes foram decepcionados e ficaram frustados pois a emenda não foi aprovada pela Câmara dos Deputados. Mas ainda assim os adeptos do movimento conquistaram uma vitória parcial porque Tancredo Neves foi eleito presidente em 1985. No dia 23/04 Tancredo Neves falece por causa de sua doença deixando José Sarney na presidência da república. No dia 08/05 o congresso nacional aprovou uma emenda constitucional que acabava com todos os vestígios da ditadura e foi aprovada a eleição direta para presidente, foi aprovado o direito de voto para os analfabetos, os partidos comunistas deixaram de se esconder.
05/10/85
Querido caderninho hoje foi promulgada nova constituição da República definida pelo Congresso Nacional. E posso dizer com certeza, que o golpe de 1964 já teve um fim. De sua querida Amila
DIAS ATUAIS
Louise ficou fascinada com cada palavra que sua avó escreveu e ficou imaginando como aquela época foi uma época interessante. A menina olhou para o relógio, já tinham passado duas horas e ela aprendeu várias coisas que aconteceram nessa época. Sua mãe a chamava, ela folheou o caderninho mais uma vez para poder guardar no baú de novo e viu algumas letras na ultima página, curiosa, ela leu
“Querido caderninho de Amila, do meu ponto de vista a ditadura militar foi claramente um conflito entre comunistas e não comunistas. Os militares seguiram a linha não comunista e posso afirmar que houve sim, repressão, as perseguições que houveram eram de comunistas realistas, em todos os 20 anos que a ditadura viveu houve um revezamento de generais e não um só general no comando (o que no meu ponto de vista foi correto). Digo com certeza que sem a permissão dos Estados Unidos a ditadura talvez não pudesse ter acontecido, talvez. É meio estranho, não podemos negar que várias mortes aconteceram em um contexto peculiar mas sem dados definitivos a especulação continua apenas sendo uma especulação. Esse é apenas um mero ponto de vista sobre isso tudo. Um abraço, Luiz Fagner”
Louise deu um sorriso. E aonde acabou a escrita de sua avó na pagina seguinte ela escreveu “Caderninho de Louise” para poder escrever novas histórias presentes e futuras sobre nosso Brasil.
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