O assassino do Cantor
1 Capítulo 1
1
Kamenashi Kazuya tinha o hábito de morder objetos quando estava ansioso. Naquele momento mordia a tampa de uma caneta, jogando-a de vez em quando para o canto de sua boca. Verificou o relógio mais uma vez e bufou, estava demorando mais que o normal. Encarou a porta em que o fotógrafo havia se enclausurado há duas horas. O mesmo tempo em que ele esteve navegando pela internet lendo as últimas notícias do assunto que não saía de sua cabeça.
Aos vinte e quatro anos, ele estava perto do seu grande furo jornalístico. Depois de dois anos trabalhando com pequenos casos de furtos e assaltos, agora ele estava diante de um crime de verdade que era o assunto de todos os veículos de comunicação. O assassinato do famoso cantor Kimura Takuya estampava as manchetes do mundo todo. Aparentemente, não havia motivos para alguém desejar a sua morte.
Kimura tinha uma imagem impecável. Um pai de família honrado, um excelente cantor, e um grande representante do país. Era engajado em ações sociais, um homem gentil, educado e, apesar da riqueza e da fama, humilde. Não havia nada que pudesse ser criticado nele e, contudo, foi encontrado apenas de cueca, estrangulado. Também encontraram vestígios de drogas em seu corpo, provavelmente estava inconsciente quando o estrangularam.
Era um grande mistério a sua morte. Porque não havia motivo. E sem motivo, como apontar os suspeitos? Nenhuma pista havia sido divulgada pela imprensa, mas Kamenashi sabia que a polícia havia encontrado alguma coisa e ele precisava descobrir o que era. Havia acionado os seus contatos, mas ainda não obteve resultado.
Espreguiçou-se, sentindo sua nuca dura e dolorida. Repousou a tampa da caneta na mesa e batucou os dedos nela. Precisava descansar um pouco, mas não havia muito que se fazer por ali. Era um apartamento pequeno e ele já tinha dormido no sofá, que era a cama de Kato, jogado seu vídeo-game e observado o movimento pelo terraço, cuja porta de acesso era o único meio de entrada de ar e luz naquele apartamento. Um balcão estreito separava o quarto-sala da pia, microondas e fogão, utensílios da improvisada cozinha. Havia também o banheiro, com igual falta de espaço, e o quarto, que era usado pelo rapaz para revelar suas fotos. E era onde ele estava.
– Owe, Shigue!! – ele cansou de esperar e se levantou para bater na porta. – Quanto tempo mais você vai precisar?
– Me dê mais dez minutos, ok?
– Inferno, preciso disso ainda hoje.
– Calma, você terá. – apesar da pressão, a voz de Shigeaki manteve-se neutra.
Kamenashi observou a si mesmo que nunca viu o amigo agitado. Shige era um poço de tranqüilidade e era sempre muito gentil. Suspirou e depois voltou a observar o apartamento, procurando algo para se distrair. Na parede em que o sofá era encostado havia um grande painel com as fotos preferidas de Shigue. Kazuya se aproximou para ver se tinha algo novo desde a última vez em que estivera ali. Ele reconheceu as fotos das crianças brincando no parque, as fotos de praias, flores, amigos e parentes.
Shigue era muito talentoso, na opinião de Kazuya. Ele conseguia capturar o momento exato da emoção das pessoas. Kazuya quase podia ouvir as risadas das crianças ou os sussurros do casal de namorados. A bronca de uma mãe com seu filho todo sujo. A voz do quitandeiro. A tristeza de um jovem encapuzado sentado em um degrau de uma escadaria de rua. Ele mantinha as mãos unidas e mordia o polegar, o braço apoiado em seus joelhos, o tronco inclinado para frente e um olhar perdido. Ele parecia tão deprimido. E, ainda assim, não deixava de ser muito bonito.
Kamenashi não se deu conta de que tinha ajoelhado no sofá para observar aquela imagem. Ficou curioso em descobrir a história daquele sujeito, qual o seu nome, como Shigue o conhecia. Ele o conhecia mesmo? Queria que sim. Desejou ver aquele rapaz pessoalmente para conferir a sua beleza.
– Estão prontas, Kame!
Kame se virou e se esqueceu do jovem em poucos instantes. Animado, aproximou-se do amigo e lhe tomou as fotos. As viu rapidamente, sem conter a sua ansiedade, depois ele as veria com calma. Ali estavam as fotos da cena do crime e do cadáver. Com ajuda de sua fonte, eles foram capazes de colher aquele material. Talvez a lente de Shigue pudesse ter capturado alguma pista que escapou ao pente fino da polícia. Quem sabe? Seria a sua passagem para o um futuro promissor no jornalismo se isso acontecesse.
Seu coração palpitava com tanta intensidade que chegava a doer. E Kame nunca esteve tão certo de que escolhera perfeitamente a sua carreira. Era indescritível o tesão que sentia em apurar os fatos, escrever uma matéria e publicá-la.
Pegaria o assassino de Kimura Takuya, estava certo disso. Ele daria tudo de si e faria o que fosse preciso para alcançar seu objetivo. Ergueu o rosto para Shigue e sorriu. Com a mão em seu ombro, disse:
– É a nossa chance, Shigue.
E ele viu os olhos do amigo brilhando.
2
Ele não se deu conta do tempo até que se levantou para preparar uma xícara de café e viu no relógio da cozinha que já era meia noite. Kamenashi se assustou consigo mesmo ao perceber que ficou cerca de cinco horas digitando freneticamente em seu laptop. O bom era que tinha terminado duas matérias e um artigo cujos dead line era no dia seguinte. Melhor dizendo, era para aquela tarde. E, modéstia à parte, todos os três ficaram excelentes. Seu editor não teria motivo algum para reclamar. Conseguiu tudo o que pediam as pautas e mais um pouco. Estava dentro do limite de caracteres e estava certo de que o revisor teria pouco trabalho em corrigir seus textos, sua ortografia era muito próxima à perfeição. Os erros eram mínimos.
Despejou o líquido preto em uma grande xícara e seguiu para a sala. Descansaria um pouco de seu trabalho assistindo a algum filme na televisão e depois revisaria as fotos que Shigue lhe entregou mais cedo.
Kame passou pela mesa e pegou uma delas. Seu amigo havia lhe dado de bom grado também aquela foto que tinha lhe encantado. Shigue disse que não havia motivos para manter suas próprias fotos com ele quando havia alguém que as admirasse. O sonho dele era fazer uma grande exposição. Shigue tinha um espírito de artista, mas precisava sobreviver e por isso trabalhava como fotojornalista do caderno policial.
Sentou-se com os pés no sofá e se encostou ao apoio para braço. Tomou um gole do café sem desgrudar os olhos do rapaz. Agora, mais acostumado com a sua beleza e tristeza, ele pode reparar melhor no cenário. Ele conhecia aquela escadaria. Era a que levava a uma fonte, muito agradável de relaxar durante os intervalos do expediente. Muito próxima de onde ficava a redação do jornal.
O jovem era apenas figurante naquela imagem. Estava no lado direito da foto e outras pessoas estavam sentadas no lado esquerdo. Não era ele o alvo da câmera de Shigue, era todo o conjunto e um pedaço do céu. De fato, era uma bela foto.
Foi tirado de seus pensamentos quando seu celular tocou. Levantou-se e pegou o aparelho na mesa e viu no visor que era seu melhor amigo de infância, Tanaka Koki.
– Yo, Baby!! – e ele era muito barulhento e animado.
– Hey, Koki! O que você tem pra mim?
– Nee~... Algo grande, Baby! Você vai gostar com certeza!
– Eu tenho certeza que sim, você nunca me decepciona.
– Claro que não! – ele deu uma pausa e depois seu tom de voz ficou sério. – Escuta Baby... Descobri algo sobre o caso... Há rumores fortíssimos de que Kimura tinha uma amante.
– Ehhhhh?? Isso é sério? Porque se for, será o escândalo da década! – Kame levou uma mão à testa, entusiasmado. – Você tem noção da história que está me dando?
Uma risadinha do outro lado da linha.
– Calma, Kazu. Eu disse que são rumores. Fortes, mas apenas rumores. Ainda vou confirmar isso pra você... E sim, um caso passional daria uma bela história nos noticiários e seria um grande escândalo na alta sociedade. O rapaz exemplar, o queridinho do Japão, envolvido em um caso de adultério.
– Confirma isso pra mim, Koki. Confirma!
– Farei isso, Baby. Vou ficar atento, está bem?
– Ok... Só mais uma coisa...
– Pode falar, Baby!
– Não acha que esse apelido de infância deveria ter ficado na infância? – resmungou.
– Que culpa eu tenho se você ainda faz bico tão infantil? – ele riu – Em todo caso, nos falamos depois. BABY!
– Mou... – resmungou novamente, fazendo o bico mencionado.
A ligação foi encerrada e Kamenashi permaneceu de pé, batendo o aparelho em seu queixo. Havia uma possibilidade da imagem de cristal de Kimura ter um arranhão? Talvez não passasse de uma bijuteria, afinal. Sorriu de canto. Estava animado para voltar a investigar as fotos de Shigue. Só foi dormir quando o Sol entrou pela janela e o avisou de que a madrugada havia terminado.
3
Dormiu apenas por duas horas e foi suficiente para sonhar. Sonhou com aquele rapaz. Ele caminhava em sua direção com o rosto entristecido e passava por Kamenashi sem escutar seus chamados. Não conseguiu segurá-lo e nem fazer com que ele lhe desse alguma atenção. Resignado, o Kame do sonho apenas o observou se afastar até sumir, ficou ali parado, embora o Kame real ordenasse a seu corpo se mexer, correr atrás dele, indagar-lhe seu nome, sua história, nada adiantava. E ele acordou.
Kamenashi se sentiu confuso com aquele sonho. O rapaz o havia impressionado de um modo que ele nunca experimentou antes. Seria isso o que chamam de paixão à primeira vista? Será que isso era possível de acontecer?
Sacudiu a cabeça. Não podia ter pensamentos ridículos como esse. Apaixonado por uma fotografia. Impossível.
Ele se lembrou de seus compromissos e então se levantou, tomou um banho e seguiu para o jornal. No caminho, voltou a pensar naquele jovem sem perceber. Enquanto indagava-se sobre sua existência, Kamenashi escrevia uma história em sua cabeça. Pela aparência ele arriscava a dizer que estavam na mesma faixa etária, talvez um pouco mais velho ou mais novo. Usava roupas confortáveis, uma blusa de moletom, calças largas e tênis. Se for rico, era humilde e preferia uma moda mais discreta. Mas também não era pobre o suficiente, suas roupas não pareciam velhas.
Se ele tinha de fato a sua idade, já não era mais um estudante universitário. Que tipo de curso ele teria feito, e se é que teria cursado alguma faculdade. Ele achou que deveria ser alguma área de humanas. Ele não parecia alguém muito inteligente, usava roupas descontraídas e tinha um ar kakkoi demais. Não tinha a aparência séria de um médico ou enfermeiro. Não, com aquela beleza, ele deveria ser um ídolo ou um aspirante. Poderia estar no começo da carreira, sendo modelo de propagandas e, por isso, não era tão conhecido. Deveria estar chateado com algum trabalho que teria perdido. E podia estar pensando que tinha perdido a chance de sua vida. Um trabalho como ator ou ainda a recusa de uma gravadora em lançar o seu álbum.
Kame parou de imaginar a biografia do desconhecido quando chegou ao prédio do jornal. Era um prédio pequeno, com apenas três andares, velho, mas bem conservado. Recentemente a fachada foi pintada e lhe deu um ar mais aconchegante. Kame entrou e preferiu subir os três lances de escadas até a sala de seu editor ao invés de se arriscar no elevador velho de grade. Odiava aquele elevador, tinha a impressão de que se ele quebrar, certamente a pessoa ficaria trancado para sempre e envelheceria junto com toda a estrutura do prédio. Era um pensamento absurdo, ele admitia, mas era melhor não arriscar.
Nakai Masahiro, seu editor, estava com uma aparência cansada. Seus olhos com algumas rugas estavam com uma coloração escura e Kamenashi sabia que era a falta de um bom descanso, coisa que seu chefe não tinha feito nos últimos dois dias, e a tristeza. Ele ficou arrasado com a morte do cantor. Kimura era o seu melhor amigo, eles estudaram juntos no ginásio. Por isso ele tinha dado o seu aval para Kamenashi investigar paralelamente sobre o assunto. Ele queria descobrir e colocar na cadeia o assassino de seu amigo.
Sorriu satisfeito, diante da mesa de seu editor, quando ouviu os elogios pelos seus últimos trabalhos. Os elogios foram sinceros, mas Kamenashi sabia que não eram aqueles textos que realmente interessavam a Nakai naquele momento.
– E como está indo com o assassinato do cantor? – ele perguntou finalmente.
– Ainda estou apurando.
– Está certo. Avise-me do que precisar. É um grande caso e certamente você precisará de apoio em algum momento. – ele disse, ajeitando os óculos sobre o nariz, e em seguida dispensou o jornalista.
Kamenashi agradeceu e se retirou com seu estômago o lembrando de que precisava comer algo. Antes, ele foi para a redação. A sala cheia de computadores e barulhenta, com pessoas falando ao telefone enquanto outras digitavam com velocidade e compenetrados em seus textos, era um ambiente muito agradável para Kame. Ali era o seu habitat.
Foi direto para a sua mesa e deixou sua jaqueta de flanela quadriculada na cadeira e depois se virou para seu colega de editoria. Maru estava prestando muita atenção ao que digitava, então, Kamenashi bateu no teclado para distraí-lo.
– OWE! – ele esperneou.
– Maru, estou indo até a padaria, quer ir comigo? – Kame não lhe deu bola.
O rapaz refletiu alguns instantes e disse:
– Preciso fumar. – comentou. – Mas não posso sair daqui agora. Parece que um peruano assassinou a namorada no centro, preciso ver isso. Pode trazer um maço pra mim?
– Ok. Café longo também?
– Seria bom...
Kamenashi voltou à rua e se lembrou mais uma vez do jovem na foto de Shigue quando atravessou o local em que a imagem foi produzida. Ele olhou para o degrau que havia decorado em que o rapaz estava sentado e, sem saber explicar a razão, sentou-se ali por alguns instantes e tentou reproduzir a imagem.
– O que ele estava pensando quando ficou aqui, desse jeito? O que tinha acontecido naquele dia para que estivesse tão triste? Seria problema de trabalho ou amoroso? Poderia ter terminado uma relação antiga?
E havia se tornado divertido imaginar quem era aquela pessoa. Ali, sentado no mesmo lugar, ele tinha a visão daquele rapaz. Estava vendo o mesmo que ele, embora soubesse que certamente o desconhecido não estava nem ao menos prestando atenção aos prédios em torno da praça ou às pessoas que andavam naquela calçada. Nem às arvores e nem às flores.
De repente, a boca de Kamenashi secou. Ele viu, do outro lado da calçada, alguém usando o mesmo casaco de moletom cinza com capus. Seria possível que fosse ele? Certamente era um casaco comum e milhares de jovens poderiam ter o mesmo modelo, mas Kame não se convenceu disso e já estava correndo em sua direção. Precisava romper a distância entre eles. Precisava ultrapassá-lo e vê-lo de frente. Talvez esbarrar nele e se virar para pedir desculpas. Não, não era um bom plano. Se fosse se curvar e pedir desculpas não poderia encará-lo, seria deselegante e poderia irritá-lo. Não era esse o seu objetivo. Aliás, qual era o seu objetivo?
Um turbilhão de ideias confundia a mente aguçada de Kamenashi naquele instante. Seus sentimentos o impediam de manter um raciocínio lógico. Percebeu o óbvio, estava em êxtase. Não tinha mais como negar, estava encantado com aquele jovem e a menor chance, e ele engoliu em seco quando se aproximou. A distância curta o fez agir por impulso, tocou-o no ombro.
O rapaz parou de andar e se virou. Kamenashi não era ator, não conseguiu esconder a sua decepção.
– Ah, gomen nasai. Desculpe incomodá-lo, pensei que fosse um amigo meu... O casaco é igual...
– Sem problemas. – foi a resposta seca e ele voltou ao seu caminho.
Kamenashi xingou a si mesmo de tolo. Como podia estar tão envolvido com uma pessoa que não conhecia, que não sabia simplesmente nada sobre ela? Decidiu que não pensaria mais nisso e voltaria para o seu trabalho. Seguida para a padaria e depois para o jornal.
4
Odiava aquela fumaça sufocante, a música eletrônica que tocava em um volume absurdamente alto e a pouca iluminação. Era míope e por isso ele não gostava dessa fabricada sensação de não conseguir enxergar. É claro que a sua ansiedade contribuía para Kamenashi se irritar com qualquer coisa. Shigeaki não se incomodava com isso, achava natural, conhecendo o seu amigo como conhecia.
Kamenashi mal pode acreditar quando o fotógrafo lhe telefonou e contou que teve um encontro rápido com o rapaz naquela mesma praça em que havia tirado a sua foto. E, o que era ainda mais incrível, ele tinha concordado com um encontro.
E os três dias de espera até que finalmente o sábado chegasse apenas o deixou ainda mais sensível. Porque ele simplesmente não conseguia deixar de pensar em Akanishi. Mas Shige sabia que tudo isso passaria quando estivessem com aquele rapaz.
Aquele encontro foi marcado de forma muito fácil e Kamenashi desconfiou de início. Porque uma pessoa concordaria em aceitar se encontrar com alguém que tinha se encantado com uma foto sua? As pessoas normais deveriam considerá-lo maluco ou algum tive de pervertido. Pensava nisso para tentar enganar a sua ansiedade.
Quando Kamenashi e Shigue chegaram à boate, informaram na portaria que procuravam por Akanishi Jin e foram direcionados para área vip. Tomavam cerveja argentina enquanto esperavam por ele.
– Ele não vem.
Shigue deixou de prestar atenção na pista de dança, que ficava um nível abaixo onde eles estavam, e viu o rosto decepcionado de Kamenashi. Estranhava aquele interesse repentino. Kamenashi era gay, isso ele sabia, mas não era uma pessoa que se deixava levar pelas aparências. Bem... Paixão à primeira vista deve acontecer ao menos uma vez na vida das pessoas, ponderou. E aquela paixão parecia que tinha realmente feito algum estrago em seu amigo.
– Não fique assim. Ele só está atrasado. – tentou animá-lo. –... E se não vier... Ao menos sabemos que ele costuma freqüentar aquela praça. Porque não o espera lá qualquer dia desses?
– Até parece que ele vai voltar lá. – Kame disse, irritado, cruzando os braços e os apoiou em cima da mesa. – Ele deve me achar um maluco pervertido que persegue pessoas que não conhece pessoalmente. Nunca mais vai voltar lá... – fez um bico que, se Koki estivesse ali, prontamente o chamaria de Baby.
Kamenashi percebeu o ridículo que dizia por conta própria. Ele riu, julgando-se um imbecil e tomou um longo gole de sua cerveja, que ajudou a acalmá-lo.
– Na verdade, eu não deveria estar aqui. Isso não faz o menor sentido. – afirmou.
– Mas Kame...
– Tudo bem, eu agradeço sua intenção Shigue. De qualquer forma, preciso falar com o Koki sobre o caso Kimura... Eu vou indo.
Shigue tentou insistir, mas Kamenashi recusou. Pagou as bebidas e pediu mais uma para o amigo, dizendo para ele aproveitar a noite e repetiu que tinha que voltar ao trabalho e foi embora. Ele teve que descer para a pista, conseguir caminho até a saída. Foi esmagado e empurrado, um encontro mais forte o fez recuar, a pessoa lhe pediu desculpa e ele aceitou e cada um seguiu sua direção.
Do lado de fora, Kamenashi se sentiu bem com o ar fresco da noite. Puxou o maço de cigarros do bolso de sua calça, retirou um e o acendeu, protegendo o fogo com a mão livre. Soltou o ar para cima e depois voltou a andar sem imaginar que a pessoa que tanto procurava havia se desculpado por ter esbarrado com ele.
5
Ele pediu desculpas e o rapaz a aceitou com um simpático sorriso. Era bonito, Akanishi logo registrou e teria puxado assunto se não tivesse já compromisso marcado para aquela noite. Haviam lhe informado que dois rapazes o esperavam na ala vip e ele se dirigiu para lá.
Kato estava de costas quando ele chegou e repousou a mão em seu ombro, e ele deu um pequeno sobressalto pelo movimento inesperado. Mas rapidamente isso passou e ele exibiu um sorriso e cumprimentou Akanishi .
– Desculpe o atraso. Tive um trabalhinho de última hora.
O fotógrafo disse que não tinha problema e explicou que seu amigo também tivera um imprevisto e por isso não pode esperar mais. Akanishi Jin se acomodou no lugar em que antes Kamenashi estivera e desviou a conversa para algo menos formal.
Para Shigue, ele parecia outra pessoa, uma totalmente diferente. E não era exatamente a sua aparência que havia mudado apesar do cabelo estar mais cheio e cacheado nas pontas. Também não era a roupa cheia de acessórios e brilhos, Akanishi vestia uma camiseta preta com partes rasgadas como se tivessem sido feitas por golpes de faca e por baixa se via o desenho de uma caveira. A uma jaqueta era cheia de correntes, assim como o pescoço dele. A calça era justa e realçava o seu traseiro, Shigue percebeu, quando ele foi ocupar o lugar de Kamenashi.
Não era nada disso. E sim o fato de que Akanishi sorria, falava muito e o seu tom era sempre carregado de ironia e malícia.
– Por pouco você não o pega aqui. Meu amigo teve que ir resolver uns assuntos. Eu sinto muito ter feito você perder seu tempo.
– Não se preocupe com isso... – ele se inclinou na mesa em sua direção e brincou: – Mas tem certeza de que não é você quem está interessado em mim?
– Eh?? Não, não. – ele ficou encabulado e não conseguiu mais encarar o rapaz. Era melhor mudar de assunto e Shigue pegou algo dentro de sua bolsa. – Aqui. Kamenashi deixou comigo a foto, eu pedi para te mostrar.
Foi instantâneo. Assim que se viu na fotografia, o sorriso de Akanishi desapareceu e ele parecia de novo o rapaz que Shigue havia encontrado outro dia. Seu rosto estava sério, quase tenso, a foto havia provocado uma reação exagerada, Shigue pensou.
– Foi naquele dia... – ele murmurou e Shigue não o compreendeu. – Não, não foi nada. Bonita foto, você é muito talentoso Kato-kun. – e ele sorria novamente. – Bem, seu amigo vai ter que trabalhar, mas nós estamos livres. Vamos beber.
Jin fez um gesto para chamar o garçom. Todos os seus gestos eram muito sensuais, até mesmo os banais, Shigue pensou se ele estava fazendo propositalmente. Estaria tentando seduzi-lo?
Akanishi era um homem bonito e não era sem razão que tinha impressionado Kamenashi. E era por isso que Shigue não se sentiu atraído. Ele jamais trairia um amigo. Tinha uma opinião radical sobre relacionamentos e traições. Ele não conseguia suportar quando seu namorado era elogiado por outra pessoa. Não era do tipo ciumento explosivo, era do tipo que se chateava e ficava triste às escondidas. Mantinha o sorriso, mas por dentro se deprimia. E em suas amizades ele também dava uma importância enorme à lealdade. Por isso, ele tinha que deixar tudo bem claro para Akanishi .
– De verdade, você tem que conhecer o meu amigo.
Akanishi se jogou no encosto da cadeira com certa impaciência. Shigue lhe mostrou uma foto de Kamenashi que havia tirado enquanto esperavam por ele. Enquanto o rapaz analisava seu amigo, Shigue fez questão de ressaltar suas qualidades. A irritação de Akanishi foi se desfazendo pouco a pouco. O tal amigo era bonito, muito bonito. E lhe parecia familiar, mas Akanishi não conseguia encontrar o motivo disso. Deixou isso de lado e depois ele estava sorrindo com malícia mais uma vez. Ele passou a língua no lábio inferior antes de fazer um pedido a Shigue.
Shigue devolveu o sorriso sacana e concordou com aquela ideia.
6
– Está entregue, Baby. – Koki disse após estacionar o carro em frente a casa de Kame. – Tome cuidado e não comente com ninguém sobre o que eu te contei. Isso ainda está em fase de sigilo da polícia, foi o que eu ouvi de um corrupto que vendeu a informação no submundo.
– Não se preocupe, sei preservar minhas fontes. Arigatou, Koki! Você está sempre me ajudando! Vou segurar essa informação e me avise quando puder soltá-la.
– Farei isso. E quem poderia imaginar que ele tinha mesmo uma amante?
– As pessoas se deixam levar fácil por uma imagem produzida. Pensa, milhares de mulheres jogando as pés dele. Milhares de mulheres gostosas, exalando tesão, querendo foder com o cara de qualquer jeito. Só se ele fosse viado. Mas ele também teria milhares de caras correndo atrás dele. E ele teria um amante do mesmo jeito!
Koki riu.
– Há algo de verdade nisso, mas você não acredita que uma pessoa possa ser fiel se trabalhar no mundo do entretenimento?
– Acho difícil. Eu demoraria muito tempo pra me casar se estivesse no lugar dele. Kimura casou cedo demais. É claro que seu corpo iria querer novas experiências. Bom, então a suspeita é Hayami Minami?
– Só sei o nome dela por enquanto. Vou ficar atento e tentar descobrir mais detalhes.
– Me avise.
– É claro que sim.
Despediram-se e Kamenashi entrou em sua casa. Tomou um demorado banho e depois vestiu apenas uma calça moletom. O aquecedor da casa estava ligado e ele não se deu ao trabalho de vestir uma camisa. Precisava se sentir à vontade para escrever suas matéria pendentes. Antes, preparou uma garrafa de café, ele teria que passar a madrugada em claro novamente para conseguir cumprir o prazo. E ele sempre cumpria, odiava estourar o dead line, mesmo que isso fosse algo bastante comum numa redação porque uma matéria não depende apenas do jornalista, mas também da disponibilidade das fontes.
Foi para a sala com a garrafa térmica e a repousou na sua mesa de trabalho. Abriu o laptop e recomeçou com o texto que tinha iniciado na noite anterior. Já tinha o texto do box prontinho em sua cabeça, foi fácil digitá-lo. A entrevista, ele preferiu o formado ping-pong e ia sugerir que o diagramador a disponibilizasse em pequenos quadros em torno da matéria principal. Era uma matéria sobre depressão em cães e era para a revista, não para jornal, então ele podia brincar com a aparência da matéria.
Quando terminou de escrevê-la, ficou satisfeito com o resultado e sorriu. Espreguiçava-se quando a campainha tocou e ele olhou na direção da porta e em seguida para o relógio. Duas da manhã. Era um pouco tarde, mas a sua rotina não era das mais tradicionais e poderia ser qualquer amigo seu. Talvez fosse Koki trazendo algo novo sobre a amante de Kimura.
Não era o seu amigo. Era Akanishi Jin, que se encostou com um braço na batente da porta e inclinou metade do seu corpo para dentro do apartamento. Ele o fitou com um olhar sério que fez Kamenashi estremecer. A sua beleza era ainda maior assim de tão perto. Kamenashi perdeu o fôlego apenas com a intensidade daqueles olhos e do sorriso sedutor. Ele mal notou o movimento da mão dele. Quando Kamenashi percebeu algo, era tarde. Akanishi o beijava com bastante paixão.
A porta foi fechada pela mão livre de Akanishi, que não interrompeu o beijo, e depois ele empurrou Kamenashi para trás. Abriu os olhos a procura de um lugar confortável e viu o sofá. Era mais alto e mais forte, não teve problemas em guiar o dono da casa até ali.
Apenas para jogá-lo no sofá foi que ele o libertou do beijo. Kamenashi caiu ainda tonto com aquela situação totalmente inesperada. Sentia calor e seus lábios inchados desejavam outro beijo, mas a sua consciência lhe dizia que aquilo estava errado. Não devia estar aos beijos e amassos com um homem que não conhecia. Nem ao menos haviam sido apresentados formalmente...
O rapaz subiu sobre seu quadril e se inclinou sobre seu corpo, deixando seu rosto muito próximo ao seu. Kame viu aqueles olhos castanhos percorrem seu rosto com muita curiosidade e um riso divertido escapou dos lábios grossos. Quis protestar, quis parar aquele ato, mas sua boca nada disse, seus olhos interessados em observar o desconhecido. Notou que ele tinha uma pinta atraente ao final do olho direito.
Akanishi tomou sua mão e a levou ao próprio rosto. Esse foi o incentivo para Kame deslizar seus dedos e sentir a sua pele.
– Não era isso o que você queria?
Aquele sussurro causou um grande impacto em Kame. Ouvia pela primeira vez a sua voz, que era rouca e falava lentamente, era fascinante.
– Tocar a minha pele? – ele interrompeu o toque e mordiscou os dedos de Kamenashi. – Me sentir? Me conhecer?
Kamenashi não conseguia dizer nada. Apenas o observava, sua respiração mais acelerada. Viu o rapaz se erguer, sentar-se novamente sobre seu quadril enquanto puxava sua camiseta – a jaqueta que vestia já havia sido jogada habilmente no chão em algum momento que Kame não saberia dizer qual foi – e lhe mostrar o seu peito. Tomou a mão do jornalista novamente e o guiou pelo seu corpo até entrar pela sua estreita calça jeans e lhe provocar um gemido quando encontrou seu sexo.
Kamenashi se deliciou com aquele corpo estremecendo. Akanishi jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. Ele era lindo. E Kame queria conhecer mais daquele corpo. Finalmente saiu do estupor e se levantou. Desprevenido, Akanishi foi derrubado contra o apoio de braço do sofá e Kamenashi se colocou por cima, apoiando-se com suas mãos uma de cada lado do rosto do rapaz.
E o beijou.
O beijou com uma sede incrível, liberando todo o seu desejo acumulado naqueles dias. Duelou com a sua língua até Akanishi entender que era ele quem estava dando as coordenadas agora e, então, diminuir a força de sua língua e apenas passou a obedecer aos movimentos de Kamenashi. Estava totalmente entregue ao jornalista.
O que começou no sofá terminou na cama. Aquele foi o sexo mais estranho, casual e intensamente delicioso que Kamenashi já teve. Nunca antes experimentou uma sensação tão grande de satisfação. Era como se tivesse realizado um sonho. Não era à toa. Ele havia saciado uma vontade que crescia cada vez mais dia após dia desde que vira aquela fotografia.
O seu amante havia adormecido logo depois. E não disse nenhuma palavra depois que se separaram. Ele simplesmente dormiu, sentindo-se muito à vontade, como se estivesse em sua cama. Que situação maluca, Kamenashi riu baixinho enquanto o admirava. Foi mais estranho do que em filmes pornôs em que as pessoas começam a tirar as roupas sem o menor motivo e transam loucamente em praias, academias, ou em qualquer outro cenário dos fetiches tradicionais. Mas havia sido ótimo e ele queria que não terminasse nunca. Queria manter esse sentimento tão raro por muito tempo, por isso não dormir. E mesmo que quisesse seus olhos não conseguiam se fechar diante daquele rosto.
Um rosto forte, queixo quadrado e um olhar arrogante – o momento em que se encararam quando abriu a porta ainda estava gravado em sua mente –; lábios vermelhos, carnudos, macios. A pele sedosa, branca, em um tom mais escuro que a sua, cremosa. Apesar do ar sedutor, ele tinha um riso infantil e meigo, Kamenashi descobriu quando tocou sem querer em seu ponto débil – a clavícula –. Akanishi inclinou o rosto até o ombro e riu quando ele a mordeu e foi a imagem mais linda do mundo.
Nem percebeu quando dormiu, mas aquele foi sem dúvida o melhor sono de toda a sua vida.
Estava feliz.
7
Quando acordou, encontrou aquele rosto sorridente. Akanishi estava deitado de barriga, com o queixo apoiado em suas mãos e balançava os pés como uma criança arteira. Ele estava nu e Kame tinha uma visão parcial de seu traseiro. Era bonito. Kame olhou duas vezes naquela direção, tentado a recomeçar o que fizeram durante a madrugada, mas seu corpo implorava por um descanso. Não tinha sido suficientes aquelas quatro horas de sono.
– Nee~... Finalmente acordou. Eu estou com fome.
E Kamenashi descobriu que ele falava. E falava muito. A voz já não era mais sedutora, os olhos não eram mais maliciosos e o sorriso não era sacana. Kamenashi o fitou e piscou, em seguida jogou o travesseiro em seu rosto e tentou voltar a dormir. Estava com muito sono, muito cansado.
– Nee~... Nee~~~. – ele insistiu, desta vez sacudindo seu braço. – Estou com fome. Prepare algo para que eu possa comer.
– Pode usar a cozinha. Não faça cerimônias. – ele lhe deu as costas.
–... Eu não sei cozinhar. Se soubesse, já teria feito algo.
– Eh?!
– Faça algo para comer! – ele repetiu – Ou então pague logo pela nossa transa para que eu possa comer algo em algum lugar.
– Pega a carteira lá na... EHHH???
Kamenashi ergueu-se de supetão e encarou o rapaz, que havia se assustado com o movimento brusco e em seguida riu de si mesmo. Depois, ele riu da expressão confusa de Kame.
– É isso aí. Akanishi Jin. Garoto de programa. A nossa transa custou cinco mil dólares! – ele piscou e sorriu.
Kamenashi não acreditou no que ouviu.
Principalmente porque ele não tinha aquela grana.
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