Já era bem tarde para um cara que planejava chegar cedo em seu primeiro dia de trabalho. Bom, eu era esse cara, e eu tinha que chegar as 7:10 na delegacia Civil do Brooklyn, que se eu conseguisse chegar a tempo seria meu primeiro e tão almejado emprego dos sonhos. Isso soa literalmente muito gay, mas era a verdade, e se eu perdesse o meu emprego por causa de uma noitada de bebedeira, não iria me perdoar jamais. Tinha acabado de me formar, o que sempre estranhou todos os meus professores que eu tenha passado sempre como primeiro da classe, era o fato de eu ser o aluno típico que dormia na carteira e quando chamavam sua atenção levantava com algum papel grudado em seu rosto pelo excesso de suor da sala de aula. Acabei escolhendo uma profissão bastante contraditória para a pessoa que eu era no ensino médio. Quis me tornar policial, e sim, isso foi possível, respondendo às perguntas das pessoas que não acreditavam em mim, mas na verdade nem eu mesmo acreditava. Enfim consegui a disputada e única vaga na delegacia do bairro onde era a sede das Testemunhas de Jeová, e estava prestes a perde-la se não saísse de casa agora mesmo.

Faltavam apenas 10 minutos para meu tempo se esgotar, nunca tive muita sorte com o número 10, em sorteios sempre era ele que prejudicava minha sorte que por coincidência em todos os quatro sorteios que participei peguei o número 10 e sempre era sorteado o 11 ou o 12. Já estava dentro do meu carro parado no meio do transito. Depois de alguns minutos vegetando ali consegui finalmente sair, acelerei para tentar chegar a tempo quando vi meu raio de esperança, ou melhor a delegacia estava a poucos metros de distância de mim e do meu carro sedã preto. Estacionei-o perto da delegacia onde eu pudesse vê-lo quando saísse.

Logo que entrei vi que o clima ali era outro, mais pesado, como se as pessoas não quisessem e nem pensariam que estariam ali algum dia, muitas caras afobadas e suadas. Vi um rapaz baixinho com uma gravata vermelho-sangue vindo em minha direção.

-Você deve ser o Detetive Tomsom, muito prazer sou o Clark.

Fiquei tão encantado com o fato de ele ter usado o meu segundo nome e o termo “detetive” para se dirigir a mim que por alguns instantes não lembrava de como ele havia dito que se chamava.

-Prazer Sr. Clark, pode me chamar apenas de Ben.

-Sem esse papo de senhor também meu rapaz, temos quase a mesma idade.

Ele aparentava ter uns 32 anos pelos seus sintomas de calvície, então convenhamos que um jovem de 19 anos que tem todo o seu cabelo intacto não poderia ser comparado a um baixinho calvo.

Ele estava andando apressado até uma porta aberta no fim do corredor, tinha muitas pessoas fazendo muitas coisas ao mesmo tempo e não consegui assimilar muito bem o que estava acontecendo, então simplesmente o segui. Dentro da sala tinha um homem de terno cinza falando com um outro cara sobre churrasco no espetinho. Nunca imaginaria que em uma delegacia os funcionários e principalmente o chefe deles estariam falando seriamente sobre churrasco no espetinho.

-Senhor Philip? Esse é o garoto que ganhou a vaga como seu ajudante.

-Ben Tomsom. – Aperto sua mão. — É um prazer.

-Vou indo Albert continuamos aquela conversa depois.

-Mas é claro. Então filho. Você é o sortudo que conseguiu a vaga? Serei seu chefe. Albert para os mais próximos, Sr. Philip para os subordinados, você entende, não é? Pois bem aquela será sua mesa.

Era uma mesinha coberta por plástico grosso cinza e uma cadeira de rodinhas com forro azul. Dizem que os maiores começam de baixo, no meu caso irei começar por uma mesinha de colégio e uma cadeira de salão de informática.

-Como é seu primeiro dia irei pegar leve com você, então você pode ir comprar um café para mim aqui do lado enquanto examino os dados de um cara que deve estar apodrecendo no necrotério.

-Claro.

Pensei que eu seria um ajudante não uma empregada. Mas tudo bem era o meu primeiro dia então faria algumas coisas para causar boa impressão, comprar café para um homem gordo e grisalho não era exatamente o que eu esperava fazer.

Pensei que iria ser difícil encontrar essa tal cafeteria, mas logo vi uma placa com o nome marrom com preto: “Café do Brooklyn”, penso que o grande autor do nome do café deveria estar muito inspirado para ter dado esse título.

Entrando no estabelecimento vi a moça do caixa de costas para o balcão tentando equilibrar o baldinho dos pirulitos enquanto pegava um e colocava entre os dentes.

-Licença.

Ela acaba tomando um susto e derruba o baldinho.

-Oi, desculpa é que eu só estava tentando pegar um pirulito. O que não ocorreu muito bem.

Aquele rosto era familiar, já tinha visto aquele cabelo loiro e aqueles olhos castanhos antes.

-Sei que pode parecer estranho, mas você poderia soltar o cabelo?

-Por que?

-É uma dúvida que está me perturbando.

Ela puxa a fita azul que estava prendendo o seu cabelo em um rabo e automaticamente a reconheço.

-Josy? Já estudamos juntos. Não lembra de mim?

Ao contrário do que muitos pensaram agora, não, ela não era a gostosona do colégio, pelo contrário. Todos ficaram sabendo de sua existência depois de ela ter tropeçado em seus próprios pés na cantina onde todos estavam reunidos e ter caído de cara entre as pernas do Jorge que era o típico galã que todas as menininhas abririam as pernas por ele, todos a chamaram de madurinha o ano inteiro. Por causa da expressão “cair de madura”, ou seja, cair sem algum motivo aparente.

-Desculpe?

-Ben Tomsom.

-Claro. Como pude me esquecer? Você fez o Klaus te pedir perdão na frente de todos.

Klaus era meu antigo professor de física, me achava um perdedor e no penúltimo dia de aula discutimos e por eu estar contra argumentando ele acabou puxando minha orelha, achei uma falta de respeito, daí resolvi agir. Chamei a todos da direção e falei o que estava acontecendo, ele teve que me pedir desculpa pois usei os direitos do ser humano como tópico de contra-argumento ou ele era demitido.

-Nossa, você ainda lembra?

-Sim!

Ela tira o avental e sai pela portinha do balcão. A primeira coisa que percebo é que ela não era mais a mesma garotinha indefesa do colegial. Estava uma mulher com curvas escondidas em uma calça jeans larga.

-A quanto tempo. – Nos abraçamos. – Serio, não esperava mesmo te ver por aqui, o que está fazendo?

-Ganhei uma vaga para ser ajudante do Sr. Philip na delegacia do lado.

-Enquanto você está trabalhando em uma delegacia eu estou vendendo cafés. Que rumo tomei? – Ela dá uma risadinha.

-Pelo menos, você não tem que comprar café para o chefe que você conhece a dois minutos como uma empregada que cuida de criancinhas a anos.

Rimos.

-Agora tenho que ir, mas qualquer dia desses vamos combinar de tomar um café?

-Estranho você dizer isso em uma cafeteria na qual eu trabalho, mas tudo bem, pode ser aqui quarta-feira?

-Claro, vou indo.

Volto apressado para a delegacia, o Sr. Philip estava examinando alguns papeis e conversando em um chat online para divorciados, ele foi o sortudo a qual a esposa o chifrou com dois strippers da boate a cinco quadras de sua casa.

-O seu café, senhor. – Entrego o café em suas mãos.

-Até que foi rápido Ben, meu antigo ajudante não era ágil assim. Que seja, agora teremos que ir até a cena de um crime que ocorreu em Coney Island.

Foi uma surpresa encontrar uma cena de crime no meu primeiro dia, mas já que é assim, aceite o que você escolheu quando estava com a mente totalmente sã Ben, ou não. Bom, dei-me conta que estava chegando ao local do acontecido quando parei de pensar que rumo tomei da minha vida.