O amor pode te quebrar?

9 Mágoas que permanecem


Notas iniciais
Boa leitura❤️

—Aquela garota é uma idiota! — Bianca dizia, pela milésima vez, enquanto Enzo tomava seu sorvete. — Ela bem que mereceu aquilo, mas a minha vontade mesmo era arrastar a cara dela pelo asfalto, pra ver se arrumava aquela cara de rapariga.

—Já acabou? — o loiro perguntou. — eu tenho uma coisa pra te falar, mas você não deixa.

—Tá vai, pode falar. — disse, dando de ombros.

—Acho que salvei uma garota ontem. — Enzo disse. — Ela iria ser molestada pelo próprio pai, eu vi, Bianca. Ele agarrava ela, e a garota só gritava.

—Meu Deus, onde foi isso? — Bianca perguntou, perplexa.

—Não sei direito, foi quando o pneu do meu carro furou, em uma rua que eu nunca tinha ido. — respondeu. — A menina era legal, ela me ajudou a encontrar uma borracharia, e foi muito simpática, apesar do choque. Coitada, vai passar a vida toda lembrando que quase foi estuprada pelo próprio pai.

—Realmente existem muitas pessoas ruins no mundo. Tipo aquela ruiva tingida. — Enzo revirou os olhos com o comentário da amiga. — Mudando de assunto, o meu encontro foi uma merda. O homem era um babaca, e no final eu acabei jogando um pedaço de bolo na cara dele. Mas ele mereceu.

—O que ele fez?

—Comentários homofóbicos e machistas. — respondeu, tomando um pouco do seu sorvete. — Ainda tá conversando com a garota da festa?

—A última vez que falei com ela foi ontem. — Enzo respondeu.

—Por que não chama ela pra sair? — a loira perguntou.

—Eu conheci ela a três dias, Bianca.

—Talvez ela seja o amor da sua vida. — disse, e Enzo olhou para ela com uma sobrancelha arqueada. — A Beatriz disse umas coisas desse tipo pra mim hoje. Disse que eu encontraria o amor da minha vida, e blá, blá, blá.

—Mesmo se ela fosse o amor da minha vida, é muito cedo para começarmos a sair juntos, nem nos conhecemos direito.

—Mas é pra isso que existem encontros, pra se conhecer melhor. Chama ela pra ir no cinema. — sugeriu.

—Claro que não. Ninguém vai ao cinema no primeiro encontro. É vergonhoso, vocês não podem conversar, nem vão assistir o filme, porque vão estar muito preocupados com o clima pesado entre vocês.
—Ao parque?

—Muito clichê.

—Pensei que gostasse de clichê.

—Gosto, mas ela não parece ser muito clichê.

—Restaurante?

—É estranho, vocês ficam conversando e quando vai ver tinha um pedaço de carne no seu dente.

—Chama ela pra tomar um sorvete.

—E se ela não gostar de sorvete?

—Quem não gosta de sorvete, Enzo? — perguntou equivocada. — Quer saber, se você é muito frouxo pra chamar ela pra sair, eu mesma chamo.

Bianca pegou o celular de Enzo e mandou uma mensagem pra Malu.

Messenger

Malu

Oii, tudo bem?

Quer sair comigo hoje?

Olha, na verdade quem está falando é a amiga do Enzo, Bianca

Pq ele é mto frouxo pra chamar vc pra sair

Mas ele adoraria sair com você

***

Malu estava terminando de arrumar as suas coisas para ir embora, seu celular estava desligado, por isso não viu a notificação, e nem percebeu tê-lo deixado em cima da mesa, quando saiu, se perguntando se tinha esquecido de algo.

—Fiquei com dó da Marina, nem foi culpa dela. — disse Lívia, enquanto conversava com Catarine.

—Quem mandou aceitar o desafio? — a morena disse, se olhando em um pequeno espelho e retocando seu batom. — Achei bem feito.

—Deixa de ser falsa, Catarine. — Lívia falou. — Pra que você desafiou ela a falar tudo aquilo? Não mudou a sua vida em nada, só fez a coitada da Alice ser humilhada.

—Para de frescura, Lívia. — disse, olhando para a amiga. — A Marina fez porque quis, eu só desafiei, não tenho culpa se a Alice gosta de partir pra agressão.

Lívia apenas revirou os olhos e começou a mexer em seu celular.

—De quem é aquele celular? — Catarine perguntou.

—Meu. — respondeu, levantando o celular que estava em suas mãos.

—Não esse, idiota, aquele! — disse, apontando para o celular de Malu, que estava em cima da mesa.

Catarine foi até a mesa e pegou o celular, o ligando.

—Deixa o celular aí, não é seu. — Lívia falou, tentando pegar o celular da mão de Catarine.

—Calma, só vou dar uma olhada, não vou roubar um banco. — disse, terminando de ligar o celular e vendo que tinha senha.

—Viu, tem senha, pode devolver.

—Tava na mesa da Maria Luiza. — disse, pensando um pouco em qual poderia ser a senha. — Quando é o aniversário dela?

—Como é que eu vou saber?

—Vê na lista de chamada. — disse, e Lívia foi ver.

—14 de junho.

—Que ano ela nasceu?

—2001.

—Que original! — Catarine disse, quando conseguiu acertar a senha. — A senha é 140601. Tem como ser mais criativa que isso?

—Larga o celular, Catarine! — Lívia disse, mais uma vez.

—Ui, quem é esse gato? Até me deu um calor. — disse rindo.

Messenger

Enzo

Oii, tudo bem?

Quer sair comigo hoje?

Olha, na verdade quem está falando é a amiga do Enzo, Bianca

Pq ele é mto frouxo pra chamar vc pra sair

Mas ele adoraria sair com você

—Mesmo frouxo, eu amaria ficar com ele. — a morena disse, e Lívia revirou os olhos, pegando o celular. — O que você vai fazer?

—Devolver pra ela.

—Não vai mesmo. — disse, pegando o celular de volta e respondendo a mensagem.

Adoraria sair com vc tbm rs

pode ser amanhã?

sabe aquele bar perto da praça?

me encontra lá as 18:30

—O que você tá tramando, Catarine? — Lívia perguntou cruzando os braços.

—Nada demais. — respondeu. — Só que quando ele levar um bolo da Maria Luiza, eu posso ir lá consolar ele.

—Você é ridícula.

—Você é igual a mim, sabe disso. — disse, pegando suas coisas e puxando Lívia para fora, junto com ela.

—Vai mesmo se encontrar com esse garoto? — a garota perguntou.

—Vou. E você vai comigo!

—O que? Nem ferrando. — Lívia falou.

—Você, a Marina, todo mundo vai. — disse, e a amiga a olhou sem entender nada. — Vou chamar todo mundo pra lá, assim quando eu chegar nele, não vai parecer armação.

—Às vezes eu me pergunto por que eu virei sua amiga.

—Porque você me ama. Vamos logo. — disse, e as duas saíram da escola.

***

A garota havia acabado de chegar em casa, depois de ter certeza de que não havia ninguém lá. Sua irmã estava na escola, sua mãe trabalhando e seu pai poderia estar em algum bar ou se embebedando em um beco qualquer.

Ela estava totalmente ferrada! Como diria pra sua mãe que estava suspensa por ter batido em uma garota, depois dela ter lutado tanto para colocar a filha naquela escola?

Alice era bolsista desde o ensino fundamental, quando Malu pediu para que ela estudasse em sua escola, e começou a dar alguns para a amiga, para que a mesma passasse nas provas. Sua mãe teve que trabalhar em dobro para comprar o uniforme e os livros da filha, que depois de anos, tinha sido suspensa.

Teve seus pensamentos interrompidos quando ouviu o barulho da porta e olhou assustada, pensando ser seu pai.

—Oi filha, chegou cedo. O que houve? — Agradeceu a Deus quando viu que era apenas sua mãe.

—Mãe, eu preciso falar com a senhora. — disse baixo, mas alto o suficiente para que Juliana a ouvisse.

—O que aconteceu, Alice? — perguntou.

—São duas coisas, na verdade, e eu preciso que você fique calma. — disse, tentando criar coragem para falar pra sua mãe as coisas que estavam acontecendo em sua vida.

—Pode falar, meu amor. — Juliana disse, se sentando de frente para Alice.

—Primeiro, eu tenho que te contar algo, e eu te peço que não fique com raiva, não foi algo que eu consegui conter, quando eu vi já tinha acontecido.

—Alice Carolina Gomes, você está grávida? — perguntou indignada.

—Não, mãe, claro que não! — a garota respondeu, mexendo no cabelo, em sinal de nervosismo. — Eu fui suspensa na escola.

—Você o que? — gritou, se levantando. — O que você fez, Alice Carolina?

—Eu briguei com uma garota. — disse, e sua mãe abriu a boca pra dizer algo, mas foi interrompida. — Calma, deixa eu terminar. Ontem, ela me humilhou na frente de todo mundo, disse que eu podre, pobre e fez um monte de comentários racistas sobre mim, e hoje ela veio conversar comigo com uma cara de sonsa, dizendo que nunca quis dizer aquilo, aí eu não aguentei e dei um tapa na cara dela. Forte. E ficou vermelho. Mas ela mereceu.

—Eu passo o dia trabalhando, pra chegar em casa e ouvir isso?

—Você chegou mais cedo hoje. — murmurou, mas se calou quando viu sua mãe a olhando com uma cara nada boa.

—Não interessa. Você não tem vergonha na sua cara? Bater em uma garota? Ela ia te pedir desculpas e você vai lá e bate nela?

—Você não ouviu o que ela me falou, mãe! O que me disse não se diz nem com um animal. — disse deixando uma lágrima escapar, e vendo isso sua mãe se acalmou um pouco, se sentando novamente.

—E a outra coisa? — perguntou, e Alice a olhou sem entender. — Você disse que tinha duas coisas pra me falar, qual é outra?

—Mãe, o que eu tenho pra te falar agora, é muito sério, por isso eu preciso que a senhora fique calma, eu preciso que a senhora fique do meu lado. — disse, começando a chorar, mas tentando ficar calma.

—O que aconteceu, filha? — perguntou preocupada, vendo o desespero de Alice.

—Ontem, eu cheguei da escola e você e a Sophia não estavam, só estava o meu pai. — a garota disse com dificuldade, por causa das lágrimas. — Ele estava bebendo, e começou a perguntar de você, e da minha irmã, então eu menti, eu disse que a Sophia estava na escola, porque se eu dissesse a verdade ele iria atrás dela.

—Fez certo. Nunca deixe esse homem sozinho com a sua irmã, nunca. — ela disse, ainda sem entender onde Alice queria chegar. — Ele é um monstro, mesmo ele achando que a Sophia é filha dele, eu não quero nem imaginar o que ele faria se estivesse sozinho com ela.

—O meu pai gritou comigo, muito. Ele queria saber onde estava a minha irmã, e eu não disse. Então ele... — disse chorando desesperadamente, sem conseguir dizer mais nada. — ele tentou abusar de mim.

Juliana não sabia o que dizer ou fazer naquele momento, não conseguia acreditar no que tinha escutado. Não queria acreditar naquilo. Começou a chorar, pensando que tudo aquilo que estava acontecendo com suas filhas era sua culpa.

—Me perdoa. — disse. — me perdoa, filha, me perdoa.

—Ta tudo bem mãe, um homem chegou e me ajudou, eu to bem. — disse, tentando consolar a mãe.

—Isso tudo é culpa minha, eu me casei com esse homem, me perdoa.

Alice se levantou e foi até a mãe a abraçando forte. Estava muito magoada, precisava daquele abraço tanto quando sua mãe.

—Tá tudo bem, mãe. Vai ficar tudo bem.