Quando o meu despertador tocou pontualmente às nove da manhã eu não me toquei que dia era, até olhar o celular: 13 de abril. Dia de Botafogo na Libertadores. Comecei a pensar no jogo. Se conseguíssemos um empate na Colômbia estava bom. O time dos caras era forte, lá em Medelín, não sei não! Deu frio na barriga. Troquei de roupa e comecei a me arrumar para a faculdade. Ou seja, coloquei a primeira roupa que estava na gaveta e era isso aí. Cheguei na cozinha e meu pai espantado falou:

Carol, porque você está acordada e vestida essa hora?

— Ué, PUC-Rio me aguarda… — Falei estranhando

— Carolina, hoje é quinta-feira santa, feriado meu amor! — Falou com aquele tom de voz doce que só meu pai tinha.

— Mas eu sou muito retardada mesmo! — Falei me jogando na cama de volta de roupa e tudo.

Eu sonho muito. Isso é um fato, e o mais bizarro é que eu lembro desses sonhos quando eu acordo. Naquela soneca que eu tive de nove da manhã a meio dia eu tive um sonho BIZARRO! Se isso fosse uma premonição eu estava ferrada, e se “Freud explica” eu estava mais ferrada ainda.

O sonho simplesmente começava em uma mesa de bar onde estavam sentados Léo, Joaquim e Almeida falando de mim. Só que, por algum motivo, eu não falava nada. Só ficava observando eles conversarem, parecia que eu não estava ali. Eis que chegava uma mensagem no meu telefone de um número desconhecido dizendo: “Fica tranquila, venceremos”.

Acordei assustada. Peguei meu celular correndo, mas não tinha nenhuma mensagem de número desconhecido, só uma de Dimitri.

Dimi para @Carol:

— Pilha fazer algo hoje, Escarola???

Carol para @Dimi:

— Hoje tem jogo. Perdão.

Dimi para @Carol:

— Tinha esquecido disso! Vamo sair para ver o jogo então! Algum bar ou alguma coisa assim…

Eu nem gostava tanto de ver jogo na rua, eu era meio descontrolada, mas eis que surgiu uma ideia.

Carol para @Dimi:

— Pode ser! Chama os meninos se você quiser, gostei de conhecer eles aquele dia.

Dimi para @Carol:

— Boa Escarola! Vou falar com eles! Te aviso.

Carol para @Dimi:

— Beleza!

Deixei o celular de lado e comecei a pensar que não seria nada mal dar de cara com o Almeida mais uma vez, ainda mais vendo um jogo de futebol. Mas isso também significava que eu teria que me comportar. O último jogo da Libertadores que eu vi pela TV, contra o Olímpia, eu LITERALMENTE arremessei um copo de vidro contra a parede só de raiva. Talvez seja melhor eu deixar para beber só depois do jogo.

Decidi ir no cinema de tarde. Ir ao cinema é uma das coisas que eu mais gosto, não importa o filme. Na verdade as vezes eu vou só pelo prazer de ir ao cinema e comer pipoca. Fui sozinha ver “Meu Malvado Favorito 3”. Eu me amarro em filme de criança, é bom para esquecer da vida e rir das piadas bobas. Mas o melhor de tudo é entender as piadas que são direcionadas aos adultos que levam as crianças no cinema.

Saí da sala e dei de cara com a Lagoa. O Lagoon era um dos meus cinemas favoritos por isso, era na beira de um dos lugares mais lindos da cidade. O sol estava se pondo e eu sentei em um dos bancos só para ver se Dimitri tinha dado sinal de vida. Mas a minha surpresa foi que não foi só ele que apareceu na tela do meu celular. Lá pra baixo, depois de umas três mensagens de Dimi estava uma notificação do facebook:

Antônio Almeida quer te adicionar como amigo.

Abri um largo sorriso. Será que a Julieta estava realmente certa?? Quase no automático tirei um print e mandei pra ela.

Carol para @Julie:

— Você fez alguma coisa??

A resposta veio imediatamente, o que era uma raridade quando se tratava de Julieta.

Julie para @Carol:

— Não! Viu como eu tava certa????

— Eu vou ser a madrinha do casamento, não quero nem saber.

Carol para @Julie:

— Menos Julieta, bem menos!

Aceitei a solicitação no Facebook e fui olhar as mensagens de Dimitri:

Dimi para @Carol:

— Falei com os mlks, vai rolar!

— Pensamos na Cobal que da pra comer, beber e ver o jogo num telão.

— O que você acha?

Carol para @Dimi:

— Perfeito! Nove lá?

— Jogo começa nove e meia.

Dimi para @Carol:

— Show!

— Até mais tarde!

Olhei para o relógio, já eram quase sete. Eu tinha que passar em casa para tomar um banho e trocar de roupa. Pedi um Uber e, enquanto esperava, me vi pensando em qual camisa eu usaria para ver o jogo. Dessa vez além da questão superstição, também tinha a questão "estar apresentável".

Fiquei com a minha gaveta de camisas do Botafogo aberta por uns 10 minutos tentando fazer alguma ciência na minha cabeça de humanas para escolher a camisa perfeita. Acabei optando para a tradicional preta e branca com um decote v. Meu pai estava indo para a casa do meu Tio ver o jogo, então me deu uma carona até a Cobal. No carro ele questionou porque o Dimitri me chamou para ver o jogo, se ele era flamenguista. Tentei explicar que o Dimi era assim mesmo, já tinha ido inclusive no meio da torcida do Botafogo comigo contra o Fluminense.

Cheguei a pizzaria e ninguém parecia ter chegado. Tinha só um menino solitário de camisa do Botafogo sentado em uma mesa olhando pro celular. Mandei mensagem para Dimitri:

Carol para @Dimi:

— Oi! Cheguei! Cadê tu?

Dimi para @Carol:

— Tô chegando com o Bruno.

— Não tem ninguém aí já não?

Eu estava prestes a digitar uma mensagem perguntando como eu saberia se alguém chegou se eu não sabia quem era pra chegar, quando eu senti uma mão no meu ombro. Quando eu virei para trás era justamente o menino que estava sentado sozinho na mesa:

— Oi! Você é a Carol? — perguntou sorrindo.

Nossa, que menino bonito. Ele era magrinho, mas tinha um cabelo loiro jogado pro lado, um olho ridiculamente azul e estava de camisa do Botafogo, o que multiplicava a beleza por cinco.

— Sou. Por que? — perguntei assustada.

— Eu sou o Danilo, primo do Dimitri. Ele me avisou que a Carol amiga dele tinha chegado e eu pensei que só podia ser você. — falou

— Entendi! Desculpa, ele não me avisou que você vinha! Prazer! — falei com vergonha

Sentamos na mesa meio desconfortáveis, afinal a gente nunca tinha se visto na vida. Aposto que as pessoas da mesa do lado acharam que era algum primeiro encontro de Tinder ou algo assim. Pelo menos, pouquíssimo tempo depois Bruno e Dimitri chegaram.

— Oi oi oi! — disse Dimitri enquanto se aproximava da mesa

— Fala moleque! — disse Danilo dando um abraço apertado no primo.

— O Lobo ainda não chegou não? Ele falou que tinha saído de casa antes da gente. — Falou Bruno

— Não! Só falta ele? — respondi muito curiosa.

— Só! Por que? Tava esperando mais alguém, Escarola? — desse Dimitri claramente vendo minha cara de decepcionada.

— Não! Só achei que o Almeida e o Tomás viessem… — falei baixo

— Ué, mas o Almeida nem é botafoguense — Respondeu Bruno

— Mas o Dimitri também não. Isso não é motivo, e o Tomás é botafoguense.- respondi

— O Tomás foi ver o jogo na sede com uns amigos da faculdade, o Almeida ficou com preguiça mesmo. — respondeu Dimitri.

Óbvio! Como que eu esqueci do jogo na sede? Na verdade até eu deveria estar vendo o jogo na sede!

— Ah suave! — falei e tentei desviar o assunto — Eu tô é com fome, alguém topa dividir uma pizza?

Depois de passar 15 minutos tentando escolher um sabor de pizza que todo mundo gostasse e acabar com duas pizzas meio a meio, o jogo começou. Lobo chegou atrasado colocando a culpa no ônibus.

Passei o primeiro tempo tensa, até o momento que que Camilo cabeceou para o fundo do gol e abriu 1x0. No segundo tempo, Guilherme cortou pro meu e bateu cruzado, outro gol! Eu mal sabia me conter de felicidade. Abracei os meninos e umas lagriminhas vieram nos olhos.

Quando o jogo acabou decidimos que a vitória só poderia ser comemorada de um jeito: baixo botafogo.

Chegamos e logo pegamos uma mesa debaixo do viaduto. Como era feriado, estava bem cheio. O assunto era claro o jogo, revivemos cada um dos gols, quase encenando na mesa do bar. Afinal, éramos 4 botafoguenses e 1 flamenguista que, acima de tudo amava futebol.

O assunto entrou no momento tenso que eu e Danilo nos encontramos na pizzaria:

— Foi engraçado, porque eu tinha percebido a presença dele ali. Eu tenho essa sensação de que quando eu vejo uma pessoa de camisa do Botafogo parece familiar, dá um quentinho no coração, sabe? — falei.

— É verdade! — completou Danilo — Eu sempre reparo mais em alguém de camisa. Se for mulher então, fica até mais bonita.

Obviamente todos os meninos começaram a gastar dizendo que foi por isso que Danilo percebeu que eu estava na pizzaria. Envergonhada, tentei mudar o ponto:

— Mas eu tenho uma teoria que se um cara está com a camisa do meu time, tocando violão ou de terno, ele fica umas cinco vezes mais bonito.

Os meninos riram. A partir desse momento eu achei que o tal do Danilo estava me dando alguma bola. E olha que eu sou uma retardada para perceber que alguém está dando em cima de mim. Estávamos falando justamente de viagens quando eu tive uma grande surpresa:

— Um dos lugares mais diferentes e mais legais que eu fui é a Eslovênia. Tive a chance de ir esse ano, nas férias, e fiquei apaixonada. — falei

— Sério? Que irado! Quero conhecer. — disse Danilo — O meu foi o Vietnã.

— Você foi pro Vietnã? Cara eu morro de vontade de conhecer, sério! — falei muito.empolgada.

— Uhum! Foi incrível — respondeu Danilo- Fui com a minha namorada ano passado!

Opa opa opa! Namorada? O menino num tava dando em cima de mim? Nossa eu sou uma anta mesmo! Mas honestamente, nem liguei.

— Ah que irado! Meu sonho é ir pra Ásia! — falei

Continuamos a conversa por mais uns minutos, descobri que ele fazia administração na UniRio e quase fez jornalismo. Quando a conversa morreu resolvi ir ao banheiro. No longo caminho de debaixo do viaduto até onde propriamente era o bar, encontrei o Marcelo. Marcelo era meu amigo de escola, tinha namorado muito tempo uma amiga minha, a Marina:

— E aí Botafoguense, tá feliz? — disse ele me dando um susto.

— Oiii! — falei dando um abraço nele — feliz é pouco menino.

— Tá fazendo o que por aqui? Com a galera da escola? — ele perguntou

— Não, quer dizer, tô com o Dimitri e uns amigos dele. — falei

— Ah maneiro, manda um abração pra ele! — Marcelo respondeu

— E você? Tá comemorando a vitória do meu Fogão ou o que?

— Ah, nada! Tô só indo encontrar uma galera da faculdade! Acabei de chegar! — ele respondeu.

— Entendi! Vai lá! Você vai no aniversário do Henrique sábado? — perguntei

— Devo ir sim! Você vai?

— Acho que sim — falei — A gente se encontra lá então!

Nos despedimos e eu segui para o banheiro. No caminho de volta passei olhando para ver se eu via onde, e com quem, Marcelo estava. Eu sou muito curiosa e fofoqueira sim. O que é um jornalista se não curioso e fofoqueiro. Quando eu achei Marcelo e comecei a olhar o resto da mesa vi Tomás. Sentado, com um copo de cerveja na mão e uma camisa branca do Botafogo de manga comprida que eu nunca tinha visto igual. A teoria realmente funciona, ele tava umas cinco vezes mais bonito só de estar com aquela camisa. Voltei a realidade quando uma menina aleatória esbarrou em mim no meio do caminho. Tomás devia ter saído da sede e vindo pro bar. E faz todo sentido ele ser amigo do Marcelo porque os dois fazem economia na UFRJ. O mundo é um ovo mesmo!

Cheguei a cogitar ir falar com o Tomás, mas achei que seria estranho. Deixei para lá. Voltei para minha mesa e comentei com os meninos:

— Tomás está sentado numa mesa lá atrás!

— Foi por isso que você demorou, né Escarola? — perguntou Dimitri

— Não senhor! Demorei porque eu encontrei o Marcelo que inclusive mandou um abraço para você. Nem falei com o Tomás. — respondi meio atravessada.

— Tudo bem, tudo bem! Você assiste o próximo jogo com ele. — Falou Lobo.

— Olha só! Ele tem o direito de me zoar porque me aguenta há seis anos, você não! — Falei rindo e apontando para Dimitri.

— Justo — respondeu Lobo. — Eu tô é puto que o Almeida não veio!

Eu também Lobo, pensei, eu também.

— Ué liga pra ele e chama ele pra vir. O moleque é seu irmão. — Falou Bruno.

— Seu irmão, oi? — falei espantada.

— Então, meio irmão de criação, tipo Drake e Josh, sabe? Nós éramos amigos na escola quando a minha mãe conheceu o pai dele. Aí eles começaram a namorar, casaram e agora a gente é meio que irmão. — contou Lobo

— Meu Deus! Isso é história de filme. Mas quem é o Drake e quem é o Josh? — perguntei

— O Almeida é o Drake — falou Bruno

— Não! Eu sou o Drake — disse Lobo indignado. — Eu toco guitarra, o Almeida é um retardado.

Eu não sei dizer como o assunto se desenvolveu de Drake e Josh para o fato de eu não saber jogar sinuca, mas aconteceu e quando eu vi eu estava no meio de uma combinação de jogar sinuca no sábado seguinte.

— Vou criar um grupo amanhã e colocar todo mundo. Sábado a gente vai jogar sinuca! — Falou Dimitri

— Sábado eu não posso — respondi sem graça — Eu tenho o aniversário do Henrique.

— Henrique? Aquele retardado da turma A? — perguntou Dimitri — porque que você é amiga dele?

— Porque ele faz Simulação da ONU — falei com um tom de obviedade.

— Nossa! Só tem gente estranha nesse negócio, esse moleque, aquele Caio, e o babaca do Joaquim. — Disse Dimitri

— Ei! Não fala mal do Joaquim! — falei com raiva.

Assim como eu não suportava o fato das pessoas acharem que eu e Joaquim ainda terminaríamos juntos, eu também não suportava o fato de pessoas que falavam mal do Joaquim por conta do que ele fez. Ele realmente era uma pessoa pela qual eu tinha um carinho muito grande, acho que isso nunca iria mudar.

— Você não muda! Mas vês se não vai fazer papel de trouxa de novo! — respondeu Dimitri

— Joaquim é passado! Já te falei!

— Tá bom Escarola! Eu acredito. — Falou Dimitri .

Depois dessa conversa vieram outras falando só as famosas amenidades e besteiras. Decidi ir para casa, afinal já era duas da manhã e eu sabia que eu tinha almoço de família na sexta-feira da paixão no dia seguinte.

Me despedi dos meninos, agradeci a companhia e fui para frente do bar pedir um Uber. Enquanto estava parada ali esperando o carro chegar vi o replay dos gols na televisão do bar. Quando o aplicativo dizia que o motorista chegaria em um minuto, eu não resisti e olhei na direção da mesa do Tomás. Ele estava lá, com a mesma cara tranquila e o mesmo copo de cerveja na mão. Entrei no carro e fui pra casa.

No dia seguinte, acordei e peguei meu celular. A primeira notificação era:

@Dimi te adicionou no grupo @Sinucria

Dimi para @Sinucria:

— Está marcado então! Sábado que vem no Boteco Taco do Humaitá. Não aceito desculpas.

Olhei para aquele grupo: Dimitri, Eu, Bruno, Lobo e Danilo. Achei engraçado para não dizer ridiculamente aleatório. Mas ao mesmo tempo fiquei feliz. Sepa eu real tinha feito novos amigos entrando de penetra em um bar.