O Volume da Dor
1 Sonhava o pesadelo de estar acordada
Notas iniciais
Sonhava o pesadelo de estar acordada
"O sonho muitas vezes é igual a vida real
Por vezes sonhei que sonhava o pesadelo de estar acordada
E não me faltava nada nessa dor fatal...
Na vontade de fugir do meu próprio mundo
Criando pela dor imutável de um erro letal..."– Massari, Lauren.
Está frio eu posso ver isso pelo próprio ar fora de minha janela. Uma visão gelada como ventos frios soprando, mas não posso sentir, não posso sentir nada, meu quarto está uma completa bagunça e muito sujo é estranho estar aqui, não me lembro de ainda morar aqui...
Olho para os móveis só agora percebo que eles não estão exatamente lá, então em cinzas ou derretendo, está tudo derretendo como uma casa de cera, olho novamente para a janela procurando aquela visão gelada para tentar fugir do que está ocorrendo aqui dentro, porém só o que vejo é uma imensa massa de calor invadindo a janela e derretendo-a também. Eu começo a entrar em pavor, grito e grito, cada vez mais alto e subitamente acordo. Respiração ofegante, coração palpitando muito mais rápido do que o normal, devo ter acordado com meus próprios gritos, não está dando certo isso, morar aqui, não sei porque... Mas não está dando certo...
Levantei e fui até o banheiro, me indago como ninguém me ouviu gritar se tivera sido alto o suficiente para me acordar, andando pelo corredor esbarro na mesinha com o vaso e percebo que estou um pouco fora de mim, chego no banheiro e me olho no espelho, os olhos cor de âmbar rodeados pelas olheiras, de choro ou de sono, provavelmente dos dois, tiro os fios do meu cabelo do rosto, já fui muito elogiada pelos meus belos cabelos longos e negros, porém hoje já não os vejo com tanta beleza assim, não venho cuidando muito dele e do mesmo jeito continua até legal. Enxaguo meu rosto para acordar de vez, não quero mais dormir, não quero mais ter pesadelos, porém sei que na próxima noite eles voltarão, assim como vieram na noite passada e na outra, e desde que tudo ocorreu.
Quando volto para meu quarto tudo que quero fazer é ficar sozinha, sem ninguém, como sempre. Gosto disso, sei que não posso viver assim sozinha, mas gosto de poder ter um tempo para pensar em tudo, mesmo achando que quanto mais eu penso mais eu me culpo, mais eu sinto dor, quanto mais eu penso... mais merda eu faço...
Sento-me na cama calmamente e fico com uma expressão vazia e mais pálida do que já é comum para minha cor de pele, fico totalmente sem expressão eu presumo, pois não tenho um espelho agora, tenho apenas minha cama com meus travesseiros brancos sem fronha e meu edredom vermelho e branco com símbolos japoneses, me agarro ao travesseiro com força, como em um súbito abraço e tudo se passa pela minha cabeça, como flashes do pesadelo que acabei de ter. Um pesadelo que eu já tivera antes, eu sei que com toda certeza continuaria tendo este mesmo pesadelo ou até mesmo piores, e eu merecia, sinceramente eu merecia todos eles.
– Lauren, desce aqui, o café está na mesa — ouvi meu tio gritando, eu não estou com fome, não tenho tido muita fome ultimamente, mas decido descer antes que ele grite mais ou até decida subir, John é irmão da minha mãe e tem o mesmo sobrenome que eu: Massari.
Acendi a luz, pude ver então a bagunça em que eu estava. Um quarto pequeno com 3 paredes brancas e uma azul, um quarto simples: a televisão fica na cômoda de frente para a cama, essa que está tão arrumada quanto a cômoda, ou seja, nada, roupas jogadas, guarda-roupa vazio roupas ainda na mala mesmo após um mês com meu tio, estão na mala pois eu tenho esperanças de que eu ainda me mude, não me levem a mal eu gosto do meu tio de verdade, mas não gosto do lugar, não quero viver aqui, Springfield não é um lugar que gosto muito, eu não ficaria ali por muito tempo mesmo, só não sei quanto tempo. Um mês tivera se passado e eu já estou morrendo de vontade de sair.
Arrumo-me para descer trocando apenas de roupa, coloco uma calça mais leve, saindo um pouco dos meus habituais jeans, uma blusa regata azul e desço para tomar café.
– Bom dia Lau — acredite meu tio já me chamou de apelidos piores — como foi a noite de sono? — ele me pergunta como se já soubesse da resposta, algo me diz que sim, meu grito tivera sido alto de verdade, mas meu tio deve ter decidido não me 'incomodar'.
– Bom dia tio, dormi bem sim — dou uma pausa leve para pensar se devo ser sincera ou continuar com a mentira — eu acho, não sei — decido não continuar totalmente com a mentira.
Tio John não era um exímio cozinheiro por isso eu preferia preparar eu mesma meu café. Algo simples que eu amava e fazia todo dia, mas todo dia mesmo, sem exceção, um belo ovo mexido muito bem temperado, e não meu tio não sabia fazer bem nem mesmo isso.
– Vai me contar por que daquele grito ás 5 horas da madrugada? — ele falou meio sem jeito como se não quisesse mesmo perguntar, mas se sentisse no dever de perguntar.
– Se eu disser que foi uma barata o senhor acredita ?
– Posso fingir — falou e balançou a cabeça em negação, me sinto mal por não contar, mas não tenho forças para isso, nem um pouco — me da licença por favor — meu tio pede e se levanta retirando seu prato e colocando-o na pia, ele olha pra mim e nesse momento eu sei, é meu dia de lavar a louça — preciso sair, só volto de noite ok? Vou ter que fazer hora extra hoje, beijos, juízo garota — ele escova os dentes e sai de casa, são 7 horas da manhã.
Eu lavo toda a louça e quando a seco sem querer me corto com uma faca, um corte... Sangue... Esbravejo alguns palavrões e logo me acomodo e subo de volta para meu quarto saindo daquela cozinha toda branca e preta, com armários e até mesmo a pia na mesma cor, uma combinação legal porém comum. Como meu tio sempre tivera sido sozinho não tinha mesa de jantar, apenas um balcão com bancos, chegava a ser estiloso mesmo sendo tão solitário. John nunca foi casado, não gosta de compromisso, seus namoros são comumente curtos, o mais longo 1 ano e 7 meses, ele não é feio, me lembra minha mãe pela aparência jovem, porém ele é careca, por opção não por idade, tem uma barba rala, ele beira os 31 anos já não é mais nenhum adolescente mesmo tendo o ânimo de um e os relacionamentos também. Ele não é do tipo que precisa de alguém para ser feliz, eu admiro isso nele, mas eu preciso, e não os tenho mais. Percebo que estou deixando cair algumas lágrimas, eu as enxugo e me viro para as escadas de madeira na intenção de subir, porém não o faço, decido ir para a sala, ficar o dia todo deitada seria muito bom, tudo que eu preciso é isso, assim como eu venho fazendo isso pelo menos 5 dias por semana.
Eu não fui para a escola desde o que aconteceu com minha família, estou perdendo o primeiro semestre do segundo ano do ensino médio, perdendo-o presencialmente pois estou estudando em casa, minha psicóloga não apoiou a decisão, mas meu tio brigou com ela e disse que confiava em mim e se era isso que eu queria era isso que eu teria, lembro me daquele dia, do espanto no rosto da Jennifer, minha psicóloga, de tudo. Afinal eu não vou mais na psicóloga desde este dia.
Me jogo no sofá e ligo a TV, coloco meu filme favorito, baseado em um dos meus poemas favoritos e ao contrário da maioria das adaptações de livros, está é fantástica,se baseia no poema The White Cliffs de Alice Duer Miller e não é bem um poema é um romance em forma de verso. O romance conta a história de uma jovem americana que se apaixona por um inglês que sai para lutar na Primeira Guerra Mundial. Tudo bem, o filme é bem antigo, mas fazer o que se eu gosto.
O tempo passa muito rápido nessa sala, eu não o vi passar. Não almocei e já passou bastante tempo desde o horário de almoçar, não é como se a cozinha não fosse um lugar que eu goste de ficar eu até gosto o problema é que a sala ou o meu quarto são lugares que eu amo ficar, prefiro muito mais a solidão do quarto do que a exposição da cozinha, lá existem muitas janelas e muito do que parece com o ar livre, na sala as cortinas funcionam bem melhor e a televisão é fantástica maior do que todas que eu já tive o que me faz presumir que o tio John é um cara bem de vida, por isso fico pensando sobre a hora extra que meu tio tinha ido fazer, será que eu estou dando muitos custos a mais em relação aos custos normais a ponto de ele necessitar de fazer hora extra? Essa é a primeira hora extra que ele faz desde que cheguei, qual teria sido o problema? Será que exagerei de alguma forma nos gastos?
Já estou em pé em direção ao meu jantar na cozinha, ansiosa por um banho após o jantar e pela minha cama, pela cama, não pelo sono, não quero pesadelos. Atravesso o tapete opaco de cor marrom com bege, um pouco cafona se me permito dizer. Desvio da mesa de centro marrom curvada que possui um vidro sobre si, e ouço um carro parando na frente da casa, vou até a janela que é um vitro grande de 120 centímetros de altura e 130 centímetros de largura, provavelmente, ao distanciar a cortina vejo o Honda Civic preto de meu tio. Penso que ele desistiu da hora extra quando vou olhar para o relógio e vejo que são quase 23 horas, ou seja, já é tarde até para hora extra dele e também para o meu almoço, corro para a cozinha para que ele não pense que estou bisbilhotando a sua vida. Da cozinha ouço a porta abrir e lembro que deixei a televisão ligada, sou ótima em disfarçar é claro.
– Lau? Está na cozinha querida? — perguntou meu tio
– Estou sim tio — respondi com alguns segundos de atraso — estou jantando ainda, estava sem fome até agora
–Deve ter almoçado bem então — zombou ele desligando a televisão, pude ouvir o som dela desligando, ou a falta de som do programa que estava assistindo — vou tomar um banho e depois vou dormir, estou super cansado Lau, vai dormir cedo para tentar evitar os pesadelos menina, boa noite.
Dei boa noite a ele e comecei a fazer minha janta que eu dissera já estar acabando. Um belo de um lanche digno de um fast-food dos de maior qualidade, o suficiente para me alimentar até o café da manhã e eu poder comer meu amado ovo mexido.
Acabado meu lanche maravilhoso que agora que acabei ouso dizer, é melhor do que o dos fast-foods, afinal, o meu não possui picles, sou uma odiadora desse vegetal, já tive até mesmo comunidade no orkut sobre isso, hoje em dia não tenho nem facebook, nem sei se ainda usam msn, porém de qualquer forma já não o tenho mais, não preciso, não quero amizades nem virtuais, nem reais, não tem sentido buscar diversão nestas páginas, prefiro bem mais minhas páginas de poesia, posso eu escrever minhas próprias ou ler poesias de qualquer poeta, apenas sendo poesia já é bom pra mim.
Subo para tomar banho, não tomo no banheiro de baixo pois não gosto de banheira, sentir a água do chuveiro caindo sobre a cabeça e descendo pelos ombros, é maravilhosa essa sensação, o que há de melhor para me fazer pensar, e é isso que eu quero agora um bom banho, longo como todos os meus, que me faça liberar meus pensamentos.
Entro no banheiro já apenas de toalha paro de frente para o espelho apoiada na pia me olho um pouco e solto um suspiro nem eu mesma sei o porque. Finalmente me despeço de meu reflexo e me dirijo ao banho, água quente nos meus ombros, na minha cabeça, no meu rosto, em mim... Como eu já disse libera meus pensamentos e os fazem fluir. A cada peso que eu penso e deixo escorrer com a água é como se minha mente ficasse mais vazia, e eu mais leve...
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