O Volume da Dor

2 A Grande Decisão


Notas iniciais
Capítulo dois, saindo do forno galera, aproveitem !! Boa leitura, beijos beijos.

Volume
"Para mim não se pode achar dores de mesmo tom,
É como a música, não importa o quanto mude o volume
Nunca vai ter a música no mesmo som
E eu já mudei muito o volume da dor..." - Massari, Lauren.

– Por quê está tudo girando? Por que está tão quente? — quando falo a palavra quente retomo ao normal. Percebo todo o calor, queimando tudo, me queimando. Forço os olhos e foco em algum objeto derretendo distante de mim, percebo então que não é um objeto mas sim alguém pelo menos parece ser alguém, vejo então que é um corpo desconhecido ao que parece, e não é só um, são dois corpos, agora vejo o segundo corpo rastejando a caminho, um pouco atrás do outro, não consigo definir se é homem ou mulher pela face derretendo e o corpo já disforme; o mais aterrorizante é que posso distinguir o outro corpo, ele sou eu pedindo socorro, mas não faz sentido, não faz nenhum sentido...

Só então percebo que é um sonho. Acordo soando, um suor frio, tento levantar para ir ao banheiro lavar o rosto ou tomar um banho, mas me sinto em 1 metro e 68 centímetros de pura fraqueza, e nesse momento o suor é envolvido e misturado com lágrimas, a duas noites atrás eu acordei com meu próprio grito, hoje com meu suor e mal estar. Meu tio abre a porta me dando um susto, ao contrário daquele outro pesadelo onde no termino eu estava sozinha, no termino deste existe alguém para tentar me acalmar.

– Você está bem querida? O que houve? Outro pesadelo ? — ele perguntava ofegante e preocupado parecia que era ele quem tinha tido o pesadelo — Já chega Lauren, já chega não pode mais ter esses pesadelos, não posso te ver assim toda noite, eu tenho evitado falar qualquer palavra sobre isso, mas agora chega, esses últimos tem sido mais intensos e tem me preocupado mais ainda — quando ele terminou de falar eu já estava recuperada.

– Tio, tá tudo bem tio, tá tudo bem — repeti na intenção de introduzir a ideia na cabeça dele antes que eu falasse o que eu achava que ele estava a ponto de falar
– Está tudo bem agora, mas não estava a um minuto atrás, vou ligar para uma psicóloga você vai voltar as sessões, me desculpa mesmo Lau- ele me abraça logo que termina de falar, eu fico em silêncio e o abraço de volta sabendo que não tenho outra opção que não seja aceitar

– Só por favor, a Jennifer não, ok? — dou algumas risadas forçadas para fingir que estou bem

– Não, ela com certeza me mataria, e eu acho que morrer não é legal né? — ele olha para mim com aquela cara de 'droga falei merda' — Desculpa, escolhi as palavras erradas querida, é o... o sono, vou dormir um pouco, semana que vem já marcarei sua psicóloga tá bem? você está bem? — apenas balanço a cabeça em positivo, enquanto ele sai porta a fora, eu decido pegar o celular e ver o horário, são 6 horas em ponto, o pesadelo foi um pouco mais tarde do que o comum, mas foi tão intenso quanto os últimos 5 pesadelos, em 4 dias, ou seja, tem um sobrando, e eu tenho medo que tenham outros e outros que possam vir fora de hora.

São sempre horríveis, mas antigamente eram apenas móveis do meu quarto derretendo, evoluiu para a casa toda, depois objetos sem foco, e hoje eu pude infelizmente focar, focar em um dos corpos, focar em mim...

Mais lágrimas escorrem. Estou molhando meu travesseiro, levanto agora com forças, e tomo um banho, gelado dessa vez, para poder me livrar totalmente do suor e claro do pensamentos.

Ao me trocar depois do banho decido ficar no quarto mesmo, não estava me sentindo bem, me levantei para explicar isso ao tio John e chegando na porta de seu quarto tenho uma grande surpresa.

– Sim, sim, eu sei que as coisas com a Jennifer não deram certo — é meu tio no telefone — pode deixar que terei cuidado com isso, vou me organizar melhor, vou pagar tudo que devo referente a Jennifer, por favor só me arranja uma merda de uma psicóloga nova pra Lauren, só isso, eu sei muito bem do que devo — ele ainda não tinha desligado o telefone, todavia eu já tinha escutado o suficiente, eu sou com certeza o motivo das horas extras nos últimos dias, eu sou só mais um problema para meu tio John, um problema para a minha família mais próxima, a pessoa viva que eu mais amo, eu sou um problema para ele...

Chego no meu quarto e estou chorando muito, com medo até de me afogar em minhas próprias lágrimas talvez, estou chorando agora mais do que com os pesadelos, afinal já me acostumei com a dor intensa da perda, mas agora a dor de decepcionar alguém que amo novamente? A dor de ser um fardo a ser carregado pela única família que realmente considero? Essa eu não consigo mais aguentar, em um súbito pensamento idiota, e como eu sei que é idiota, até penso em me arrepender do que ainda nem fiz, mas penso em como eu sou inútil, como sou um fardo a ser carregador, em como eu sou um peso, em como eu trago problemas para as pessoas, nesse momento me tranco no banheiro e pego uma lâmina de barbear e faço a besteira de cortar o pulso esquerdo, um pequeno corte, uma coisa de adolescente babaca, idiota, decepcionante e fraca. Pelo menos foi isso que pensei a vida toda, e isso é tudo que sou agora, fraca... nada mais do que uma adolescente fraca... no mesmo momento em que me corto sinto um grande alívio acompanhado de uma dor dessa vez uma dor física, mas era diferente, era como se a dor física sobrepujasse, me enganasse e sobrepujasse a dor por seu eu mesma, a dor por causar problemas, a dor por decepcionar, a dor pelos erros com meus pais, a dor pelo que aconteceu com eles, pela minha culpa, por eu ter... feito o que fiz...

Entro no chuveiro ainda com o sangue escorrendo e de roupa. Ligo-o e deixo a água escorrer assim como o sangue os dois se unindo e ardendo sem me deixar pensar em mais nada, uma dor melhor do que a que me fez fazer isso, muito mais confortável se é que posso chamar alguma dor de confortável.

Ao sair do banho me culpo pelo que fiz, mais uma culpa, porém essa eu não estou ligando de carregar, decido tentar dormir para esquecer do que aconteceu...

Acordo naquele dia sem nenhum vestígio de pesadelo, pela primeira vez em tempos. Estou nesse momento até cogitando não ir para a psicóloga é então que eu levanto e olho para meus pulsos e vejo a marca em caminhos da cicatrização perfeita, porém esta marca eu posso carregar, tenho uma marca pior que não pode ser vista por ninguém, mas que eu sinto, e sinto muito, todos os dias, e foi bom não lembrar dessa marca, não lembrar dessa dor, pelo menos por uma noite.

Três meses e meio depois do que aconteceu e eu já não lembrava como era não sentir essa culpa. Eu tinha conseguido dormir em paz, uma noite de sono, finalmente, tranquila, sem suor, sem susto, sem pânico, sem coração acelerado, sem respiração ofegante, só eu, minha cama e a paz que eu tanto quero e nada mereço...

Me convenço a parar de pensar no ocorrido, entretanto demora sempre mais para agir do que para se convencer e de fato foi isso que ocorreu, olhei no relógio do telefone já passava do meio dia; tio John já tivera saído para trabalhar a um bom tempo, acordei tarde espero eu por ter descontado as noites mal dormidas então parece que hoje não tenho café da manhã. Estou de bom humor, decido que não vou almoçar, não em casa, logo me vem a cabeça que eu literalmente não conheço nada em Springfield, Oregon.

Penso em mandar mensagem para meu tio perguntando onde comer, mas não o faço pensando que pode ser um erro fazê-lo, entretanto neste momento já me vejo com as mensagens em tela, olhando fixamente a mais recente, de minha quase tia, Martha. Ela é a meia irmã de meu pai que eu nunca gostei de fato, ela tem algum bom dinheiro e a um tempos antes do tio John ela foi quem se ofereceu para cuidar de mim, manter minha tutela, afinal como ela mesma dizia ela 'poderia bancar um estudo de qualidade e uma melhor posição social', meu Deus que mulher mais sem noção, não é isso de fato que eu quero e nem preciso, no entanto agora isso já não me parece má ideia, ela tem dinheiro que é o problema que estou causado aqui é justamente este, é um problema financeiro, isso que sou. A mensagem é de exatamente 16 dias atrás, e dizia algo como:

–Ola docinha, tudo bem com vc? A minha proposta ainda está de pé okay? Beijo da sua tia Martha.

Eu nem mesmo tinha respondido talvez por não entender essa preocupação dela sendo que nunca tivemos contato, ela não tinha contato nem mesmo com meu pai, mas agora era uma boa ideia, acabei mandando uma mensagem sem perceber.

– Boa Tarde Tia, se não fosse incomodar, a proposta ainda esta de pé? Beijos...

Já não da mais tempo de apagar, não sei porque mandei esta mensagem, nunca gostei dela de verdade, agora eu teria que escolher entre a família que amo e a família que não tenho nenhum contato.

Para esquecer um pouco da decisão que teria que tomar decido abrir meu caderno de poesia e ler as mais recentes, talvez até escrever um pouco quem sabe, ao abrir percebo que todos os poemas ou frases desde o ocorrido são sobre dor ou pesadelo, percebo também que essa depressão depende do dia, por que quando ela ataca os poemas em si ficam mais depressivos e sombrios, quando não eles são apenas tristes, sempre amei poesia, poemas e tudo, de todos os lugares, mas nunca fui de escrever, talvez um ou outro no fim do caderno nas aulas chatas, no entanto não era tão recorrente como tem sido, a culpa do meu momento escritora barra poeta, é de Jennifer; pelo menos isso de bom ela conseguiu fazer comigo e lembro do dia que ela me fez escrever poesia, ou melhor, me fez começar a escrever.

– Não tem mais nada que você goste? Algo que possa te dar algum foco diferente? — perguntava ela como se fôssemos próximas e não relação paciente-psicóloga — Algo para te distrair? Algum amigo ou amiga? — por fim terminou de indagar-me.

– Foram os que se diziam meus amigos que me fizeram sentir assim — foi a resposta que arranjei e antes que eu terminasse e pudesse responder sobre algo que eu goste ela me cortou e perguntou.

– Como assim seus amigos fizeram você se sentir assim? — conseguia notar o ponto de interrogação sem seu cérebro.

– Eu gosto de poesia — respondi como se não ouvisse a pergunta dela eu realmente não queria falar sobre aquilo, nesse momento eu sabia que não gostaria dessa mulher e posteriormente descobriria que eu estava certa.

– Então você escreve poesia? Lembra de alguma? — perguntou ela

– Apenas leio poesia, nada de escrever não acho que eu leve muito jeito — humilde porém real, até hoje ainda acho que não levo jeito.

– Pois deveria escrever, nunca sabemos do nosso verdadeiro potencial — ela tirou isso de onde? Bela pesquisada no google — tente escrever, Lauren, é um ótimo meio de passar o tempo, de distrair e de escrever um pouco do que se sente, talvez isso seja tudo de que precisa certo? — encerrou ela, sempre com uma pergunta no final, parecia que ela mesma não tinha certeza do que falava.

De fato eu aceitei a proposta e me apaixonei por escrever poesia. Escrevo até hoje e não pretendo parar, porém não gosto de que outras pessoas leiam, nunca dei esta permissão para ninguém.

Notas finais
Foi bom? Deixa um comentário, segue a fic, vamos me ajudar galera ! Se não ficou bom me diz qual é o problema por favor, bom é isso. beijos beijos.