O Vizinho
11 Uma rápida visita e reflexões
Alguns dias depois, Vanderlucy acordou sentindo um cheiro forte de podridão. Passava o dia a reclamá-lo ao marido, que só se preocupava com Morten e Dorcha. Desde o jantar, eles não se falaram mais. Algo muito estranho, mesmo para o padrão dos dois, que deixaram de tocar e ouvir música alta desde o banquete.
De súbito, Silas se lembrou do que eles disseram sobre a vinda de novos moradores. Resolveu, logo após o jantar, devido a seus compromissos relativos à igreja de Vanderlucy, falar com seus vizinhos sobre a real data da chegada de seus “novos possíveis amigos”.
Ao chegar na casa de Morten, surpreendeu-se com sangue manchando ainda mais o carpete já manchado de vinho. Um animal jazia morto sobre a mesa de vidro, também toda lambuzada de sangue,e com Dorcha sentado numa cadeira próxima a carcaça. Ao avistar Silas, ele sorriu, mostrando seus caninos saltados e manchados de vermelho. Um líquido, da mesma cor, pingava em sua mandíbula.
Morten convidou o vizinho para entrar e compartilhar, juntamente com eles, sua “refeição”. Silas, enojado, disse, polidamente:
– Não, obrigada. Quando chegam seus amigos?
– Já chegaram. – respondeu Morten. Logo após sua fala, um loiro alto, com roupas de couro pretas e pesadas, e com óculos escuros, cumprimentou–o e disse algo traduzido por Morten como:
– Olá, meu nome é Mrak. Você deve ser Silas, o morador da casa ao lado, não!? Muito prazer.
– Sou Silas, o vizinho, como você já sabe. O prazer é todo meu, Mrak.- disse Silas, estendendo a mão ao loiro, que simplesmente, assentiu com a cabeça, após a tradução de Morten.
– Ele tem um irmão, Mörk. Onde ele está, Mrak?- disse Morten, traduzindo a fala de Dorcha.
– Foi trazer mais comida e conhecer a cidade. Sabe como ele é, sempre dá um jeito de fugir nos momentos mais inoportunos! – completou novamente Morten, traduzindo o que foi dito por Mrak, que movia a cabeça negativamente.
Silas gentilmente se despediu de todos e foi para casa, dormir. Ao tocar na maçaneta, depara-se com um vulto preto por trás de si. Num susto, procura por alguém, e não vê nada. Ergue os ombros, como quem diz “não foi nada!”. Abre a porta da fachada e entra na sala de estar. Depara-se com Alexandra e Vanderlucy numa conversa animada, em meio a gargalhadas da esposa. Surpreso por não vê-la feliz a tanto tempo, pergunta:
– Olá, boa noite, Alexandra! Sobre o que vocês tanto riam?
– Conheci um cara muito engraçado. Estava contando para a Vanderlucy suas histórias hilárias e como nos conhecemos.
– Hum... Transvânia é muito pequena para ele ser daqui. É um turista ou coisa parecida? – questionou Vanderlucy.
– Não sei... Só sei que é loiro e alto, parece sulista e fala nossa língua muito bem. Aparenta ser uma pessoa bacana. Silas, você não esbarrou com ninguém , ao entrar aqui!?
– Não... Que estranho, não vi ninguém.
– Estou perguntando- lhe isso porque ele acabou de me deixar aqui.
– Alexandra, Alexandra! Cuidado com ele! Você mal o conhece e já o deixa trazer – lhe para casa! Cuidado, você não sabe se defender sozinha!
– Silas! Eu já sou bem grandinha para me cuidar sozinha, não acha!? Já sei me defender sim, e muito bem! Aqui não é minha casa, mas, sim, a sua! Pare de achar que é meu pai, temos a mesma idade e nunca precisei de seus cuidados! Você ficou assim logo depois que seu pai morreu. Ficou muito possessivo! Chato, grudento! Boa noite, Vanderlucy!- disse Alexandra, aos berros , com a mão na maçaneta da porta, já indo embora. Só deu tempo de Silas dizer:
–Alê! Espera... Eu... — Antes mesmo de completar essa frase, para seu desespero, Alexandra já havia ido embora.
– Não adianta, ela não o ouvirá. Se bem a conheço, demorará dias para voltarem a conversar. Quer que você se arrependa amargamente por tê-la tratado assim.
– O que eu fiz de errado? Só queria protegê-la. Esse mundo é muito perigoso para ela, uma garota tão inocente.
– Silas, só você não enxerga, ela não é mais uma garota. Já é uma mulher. Você sempre a tratou assim. Quando era criança, ela suportava. À medida que foi crescendo, isso começou a incomodá-la. Ela não quer que você cuide–a como se fossem pai e filha. Ela quer ser considerada adulta, coisa que já é. Deixe-a em paz. Não sou eu quem fala isso da boca para fora. Alê me contou. Desabafa comigo sempre. E vive se queixando de você.
– Eu não consigo evitar. Para mim, ela ainda é uma garotinha que precisa de um protetor, de um irmão mais velho.
– Vocês tem a mesma idade, mas entendo o que diz. Pense que, assim como um passarinho que vai voar pela primeira vez, chegou a hora da Alexandra partir e sair de seu ninho.
E assim, o casal mais ilustre de Transvânia encerrou a noite sem nenhuma ideia do que poderia acontecer no dia seguinte...
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