O Vizinho

21 Uma luz no fim do túnel


No dia seguinte, Alexandra, juntamente com o namorado, aguardava o investigador chamar-lhes para ela prestar seu depoimento.

Repentinamente, Vanderlucy aparece, seguida do marido. Neste momento, o semblante da namorada de Mörk se ilumina, e, em meio a um leve sorriso, diz:

– Sabia que não me decepcionariam! Obrigada por virem!

– Senhorita Alexandra! É a sua hora de prestar depoimento!- disse um policial.

– Sim. Vamos ao motivo de minha visita. — murmurou ela, dirigindo-se à sala do investigador.

Ao entrarem na sala do detetive, deparam-se com o próprio, em pé, radiante de felicidade, dizendo:

– Bom dia a todos vocês! Gostaria que se sentassem nesse sofá, exceto a senhorita. — falou, dirigindo-se a Alexandra. — Queira se sentar nessa cadeira de frente para mim e de costas para eles.

Após todos se sentarem nos devidos lugares, o oficial continuou:

– Alexandra, o que aconteceu na noite da morte do Sr. Harry Johnson?

– Harry tinha dito que iria buscar mais champanhe. Estava demorando demais, então resolvi procurá-lo na adega.

– Por que a senhora se predispôs a sair de seu lugar e ir procurá-lo?

– Sentia- me sufocada, estava esperando uma brecha para me levantar.

–Pode continuar! A senhorita se levantou para procurar por Harry...

– Me levantei, indo até a adega. Na entrada do cômodo, me deparei com gritos suplicantes. Assustada, entrei sorrateiramente . Percebi uma figura que, mesmo contra a luz, consegui observar. Ela se aproximava cada vez mais de Harry, que,a essa altura, gritava de pavor. A figura encostou algo no pescoço do pai de Henry, que desmaiou instantaneamente, de olhos abertos. A essa altura, já estava morto. A sombra da tal figura abaixou-se próximo ao corpo e friccionou algo novamente, próximo ao pescoço de Harry. Com algum instrumento pequeno, espalhou o sangue do cadáver no pescoço. Presenciando essa cena macabra, não consegui me controlar e comecei a chorar. A figura virou o pescoço para trás lentamente. Por sorte, consegui me esconder para ela não me ver. Foi nesse momento que decidi sumir no mapa, para que não me achasse e acabasse com minha vida, afim de silêncio sobre o crime.- disse ela, com a cabeça baixa, já que queria esconder que chorava.

– Figuras... Isso é muito vago, não acha!? Se pudesse ser mais específica... Que tipo de figura era essa a que a senhorita se refere?

– Era um homem alto, com o cabelo rapado até o couro cabeludo, usava um chapéu, e,pelo que consegui ver precariamente, era negro.

– Hum... Entendo... A senhorita faz ideia de qual objeto foi encostado no pescoço do finado Sr. Johnson pela primeira vez?

– Como disse, devido a minha posição no cômodo, não consegui ver nada direito. Porém, pelo pouco que vi, era uma espécie de tubo comprido. Teve uma de suas extremidades pressionadas.

– Um tubo comprido... A senhorita poderia ser mais precisa, se possível!?

– Algo como uma... Não lembro o nome... Algo como aquelas coisas usadas para tirar sangue ou dar remédios líquidos! Uma... Lembrei! Algo como uma seringa.

– E quanto ao segundo objeto friccionado no pescoço do Sr. Johnson? Poderia descrever o que era?

– Era algo peludo e maior que o anterior. O assassino precisou segurá-lo com suas duas mãos. Devido a ele ter ficado acocorado, não consegui vê-lo claramente. Me desculpe.

– Tudo bem, a senhorita fez o melhor que pôde. Não se preocupe! Para sua segurança, será inserida no Programa Nacional de Proteção à Testemunha, até encontrarmos o verdadeiro assassino. Pelo que ouvi, o único suspeito é uma hipótese descartada, já que as discrições físicas se divergem.

– Morten não é o culpado? – pergunta Vanderlucy, atônita.

– De maneira alguma, segundo as novas pistas. Ele foi preso por engano, visto que as provas anteriores não apontavam diretamente a ele, mas a qualquer pessoa que calçasse quarenta e dois e tivesse um morcego.

– Morcego? Que história é essa? – diz Alexandra, confusa.

– Segundo nossa perícia, o que teria matado o Sr. Johnson fora uma mordida de um morcego na veia jugular. Sua morte teria sido lenta e dolorosa. Todavia, pelo que me relatou a pouco, sua morte foi rápida, e causada por algo anterior ao morcego. Este assassino plantou a prova falsa de que a morte teria sido causada por um morcego quando, na verdade, teve outra causa. Teremos que fazer uma nova autópsia!

Ao chegar em casa, Silas não se conteve:

– Dá para acreditar, Vanderlucy!? Morten não é o culpado! Não é o assassino e nunca sequestrou Alê! Ele não é um sujeito ruim! Eu sabia que era uma pessoa boa desde que o vi pela primeira vez! Ainda podemos ser amigos, se ele me perdoar! Como fui burro! Deveria ter acreditado nele desde o momento em que foi acusado injustamente! Vou até sua casa, pedir perdão. Acho que você também deveria. Afinal, pintou-o como vilão desde que chegou na cidade!

– Não posso. Preciso passar roupa. Pode ir sem mim.- respondeu Vanderlucy, aparentando estar confusa.

– Tudo bem, então. Até mais! – respondeu o marido, a porta fechando-se atrás de si.

Silas foi até a casa do vizinho. Bateu na porta e demorou a ser atendido, como sempre.

“O som está alto, por isso estão demorando tanto a me atender.”- ele deduziu.

Quem o atendeu foi Morten que, pela primeira vez desde que chegara na cidade, estava sorrindo. Trazia, numa das mãos, uma caneca. Abriu a porta e estendeu-a ao vizinho, dizendo:

– Cerveja!? Pode entrar, estamos comemorando o que eu já sabia: não cometi crime algum.

Com a música alta, Silas esforçou-se para dizer:

– VOCÊ ME DESCULPA???

– PELO QUE!?

– POR DUVIDAR DE SUA INOCÊNCIA! FUI UM IDIOTA!

– TUDO BEM.

– AMIGOS!?

– AMIGOS!- disse Morten, estendendo ao “penetra” outra caneca de cerveja. Esta, ao contrário da outra, Silas aceitou.

De repente, Morten fez o que mais gostava de fazer quando estava feliz: começou a tocar sua guitarra em formato de um morcego com asas abertas. Dorcha, Mrak e Mörk o acompanhavam com baixo, voz e bateria, respectivamente. Aproveitaram a ocasião para ensaiar, já que planejavam um show para as próximas semanas.

Feliz, a banda “Bloody Glass”- pelo que Silas pôde ler escrito precariamente na bateria — tocava a música “Damaged Soul”, da banda inglesa “Black Sabbath”. Seu público- duas pessoas, somente Silas e sua ‘‘irmã’’-, apesar de não gostar do estilo de música tocado, não se queixaram de nada. Afinal, a banda tocava bem.

Na casa ao lado, apesar do barulho dos vizinhos, Vanderlucy conseguia pensar com clareza.

Passar roupa – uma das atividades que ela mais gostava, pois a permitia refletir profundamente sobre seus problemas – a acalmava de uma maneira fraca.