O Vizinho

22 Um velho “amigo”


Semanas depois, corria uma péssima notícia pela cidade: se não arrecadasse o dobro de seu arrecadamento mensal, o orfanato da pequena Tranvânia iria fechar, já que o prédio era alugado, e os cofres da Prefeitura Municipal estavam em baixa.

Triste, Vanderlucy, uma das maiores contribuintes da instituição, queria, de qualquer forma, angariar mais fundos. Todos os dias, fazia seus famosos quitutes e os vendia em sua Igreja. Porém, a soma de tudo o que arrecadava era sempre insuficiente. Junto com mais algumas amigas, reuniu objetos de sua casa e os vendeu num bazar. Mesmo apesar dos esforços conjuntos, o dinheiro arrecadado ainda não bastava.

O último dia de prazo para o pagamento do aluguel do prédio onde funcionava o orfanato era no sábado da próxima semana.

Aflita, Vanderlucy fez de tudo o que podia: vendeu seus quitutes, costurou, lavou e passou para fora, fez faxinas, enfim, esforçou-se ao máximo para arrecadar o máximo de dinheiro possível.

O show da “Bloody Glass” ficou acertado para a próxima semana. Ansiosos, os músicos mal podiam esperar para a Grande Noite. Ensaiavam toda noite, para que tudo saísse perfeito no dia do show.

Como senso comum, decidiram abrir a apresentação com: “Sabbath Bloody Sabbath”, uma música da já citada banda “Black Sabbath”, de quem todos os quatro músicos eram muito fãs.

Alexandra coordenava todos os detalhes. Desde o figurino, passando pelo valor dos ingressos e o local. Afinal, era formada em administração.

Morten e Mrak ficaram de fazer a seleção das músicas da apresentação.

Silas, como bom amigo, foi o primeiro a garantir seu ingresso e o da esposa para o show. Ao chegar em casa, visivelmente animado, comunicou sua decisão para Vanderlucy:

– Acabei de comprar nossos ingressos para o show da “Bloody Glass”, a banda de Morten, Mörk, Mrak e Dorcha. A apresentação será dia 13, na Praça Central.

– Não vou.

– Por quê?

– Você nunca me escuta, Silas! Nunca me dá atenção! Há três semanas que eu venho avisando a você: Silas, o orfanato vai fechar, estão precisando de dinheiro! Nossa última tentativa de arrecadação será na sexta-feira, dia 13, para que as pobres crianças transvanienses não percam seu único abrigo! Esse dia será uma verdadeira maratona, porque será o último “sopro de vida” da instituição!

– Eu não sabia... Me desculpe! Tenho que ajudá-la! Mas não posso desapontar meus amigos! Não agora que eles se esforçaram tanto! – respondeu o marido, pensativo. — Tive uma ideia!

No dia do show, barracas de souvenir, quitandas, pipoca, refrigerante e até mesmo um mini- bazar foram montadas nos arredores da Praça Central da pequena Transvânia.

Mesmo diante do ceticismo de Vanderlucy, suas amigas carolas, o padre e seu marido estavam certos: unir a quermesse com a apresentação da banda fora um grande golpe de marketing. As vendas cresciam a cada momento, assim como a venda de ingressos. A banda era um grande sucesso, e via sua plateia aumentar a cada momento.

Mesmo não sabendo falar Inglês, as pessoas, mesmo na base do “embrometion”, cantavam com Mrak, cada vez mais animadas.

Ao final do show, Silas, Alexandra , Vanderlucy, suas amigas da Igreja e a banda ficaram na praça, afim de desmontar as barracas e o palco.

Assim que desmontaram tudo, uns auxiliando os outros, as amigas de Vanderlucy foram embora. Os que sobraram (Silas, sua esposa, Alexandra, Mörk, Mrak, Morten e Dorcha) resolveram comemorar o sucesso do evento na casa dos forasteiros. Vanderlucy, a essa altura, não se importava mais com a companhia dos vizinhos.

Chegando na casa dos quatro amigos, Silas resolveu parabenizar a todos:

– Não importa o quanto tenha contribuído, o sucesso desta noite não é individual, mas, sim, coletivo! Cada um de nós é responsável pela ganho do evento! Uma salva de palmas para todos nós!

Alegres, todos bateram palmas, certos do triunfo.

Ao somar as arrecadações das barracas, Vanderlucy disse, com um sorriso amarelo:

– Muito obrigada pelo espaço e pela partilha do evento.

– O que foi? Por que está sorrindo deste jeito?- diz Silas, preocupado.

– Me desculpe dizer isso a vocês, mas... A arrecadação foi insuficiente.- disse ela, constrangida — Infelizmente, o orfanato irá fechar, apesar do esforço de toda a comunidade. Pobres crianças injustiçadas! – continuou, aos prantos.

– Espere! Tive uma ideia! Garotos, reunião!- disse Morten, convocando uma rápida reunião com os colegas de banda.

Após a rápida discussão, ele chamou Alexandra para um canto, sussurrou algo em seu ouvido. Diante do sussurro, ela moveu a cabeça, afirmativamente.

– Vanderlucy, não chore! O orfanato terá uma nova chance! A “Bloody Glass” está doando todo o dinheiro arrecadado com o show para a instituição! Os órfãos ainda terão futuro!

– Obrigada a todos vocês! – disse ela, enxugando o rosto e abraçando Alexandra, Mörk, Mrak, Dorcha e Morten.

– Você não deve nada a nós! A ideia foi do Morten! – disse Mörk, apontando para o amigo.

Vanderlucy , agradecida, abraça Morten, retribuindo sua bondade.

Enquanto abraçava a vizinha, Morten sentiu um estranho cheiro de verbena, algo que o fez fungar e gemer. Ele sabia o que o odor significava, mas não queria aceitar mais essa presença.

Em meio a esta cena tão sentimental, uma estranha figura chega até o local, batendo palmas sarcasticamente. Dirige-se a Morten, e diz, cheio de desdém:

– Parabéns, Mais Novo Bom Moço da cidade!

– Jack!- diz Morten, desvencilhando-se do abraço da vizinha, sentindo uma espécie de ódio repulsivo. Sabia que o cheiro de verbena, sua marca registrada, indicava que ele estava por perto.

– Olha! O herói local sabe meu nome! Acho que já posso me considerar prestigiado, o que acham!?- disse ele, olhando para os demais presentes.

– Pare já com este sarcasmo imbecil! O que quer!?- disse Morten, agitado.

– Ai! O herói está nervozinho!- falou Jack, franzindo os lábios em pleno sinal de escárnio- OU DEVERIA DIZER O CRÁPULA!?- disse ele,aos berros, derrubando a guitarra estilizada de Morten no chão, cheio de ira.

– JÁ CHEGA!! – disse Morten, com o rosto vermelho de raiva. Suas veias chegavam a pular do pescoço. Dorcha e Mrak tiveram que segurá-lo, para que Jack não apanhasse.

– Calma! O show mal começou, caro foragido. Guarde suas energias para a cadeia! É lá que você viverá a partir de agora! Eu, como responsável pelo seu caso, declaro, através da Interpol, que você está preso pelo crime de homicídio duplo doloso por matar Hela, sua esposa, e Uklar, seu filho! Guardas, prendam-no! – disse Jack, convocando seus guardas, que algemaram Morten logo após sua deixa.

– A casa caiu para você, interesseiro! Pensou que poderia matar os outros só por interesse em seu dinheiro e sair impune!? – continuou ele, provocando Morten.

– Eu nunca matei ninguém! Foi uma fatalidade! Eu nunca quis o dinheiro dela! Nunca! – esbravejou Morten, tendo seus braços firmemente agarrados pelos guardas, para que ele não fugisse.

– Verme! – disse Jack, puxando-o pelos cabelos e soltando sua cabeça bruscamente.

– O único verme aqui é você! Asqueroso!- disse Morten, aproveitando de sua proximidade com Jack para cuspir em sua face.

Jack, enojado, limpou o rosto e disse firmemente, ordenando a seus guardas:

– Levem o meliante para o camburão!

Jack, assim como sua corja, saíram rapidamente, levando Morten para a cadeia.

Vanderlucy e Silas assistiram à cena toda bestificados. Mrak e Dorcha murmuravam algo em outra língua que, mesmo não entendendo nada, o marido de Vanderlucy pôde sentir tons de voz bastante preocupados nas falas dos amigos. Alexandra, com medo, abraçava Mörk, que, também horrorizado, temia nunca mais ver o amigo.