O Vizinho

7 Um breve amanhecer


Após acordar de um sono profundo e tranquilo, Silas resolveu investigar o que realmente ocorrera na casa de Morten para que a música e a luz acabassem logo após os incensos serem acesos por sua esposa. Achou tudo muito estranho, e ponderou:

"Certamente haverá uma explicação lógica para tudo isso!".

Ao chegar na casa do novo vizinho, que estava com todas as janelas fechadas e cobertas por cortinas pretas muito espessas, bateu na porta uma vez. Sem resposta, bateu novamente. Ansioso, bateu pela terceira vez na porta e gritou:

– Morten! Aqui é o Silas! Morten!

Perdendo a paciência, desistiu e voltou para casa. Ao virar-se, escutou um rangido típico de ferrugem e olhou para trás. Uma estranha figura, no breu da casa, de óculos escuros, com o cabelo desgrenhado, roupas pretas e pesadas, ao abrir a porta disse, com sua voz grave:

– What do you want?

– Chame o Morten, por favor!

Sem entender nada e com cara de poucos amigos, o alto homem repetiu a pergunta:

– What do you want?

– Eu não falo essa língua! Você poderia falar isso em Português?

Com o impassível rosto do estranho a sua frente, Silas disse:

– Você não entende uma palavra! Que cabeça a minha! — disse ele, batendo a mão na cabeça e a balançando negativamente .- Vou chamar o Henry! Espere aqui! — disse ele, fazendo um sinal de pare com as mãos , em direção o homem a sua frente.

Ao voltar com seu amigo de infância Henry, um homem de cabelos negros e olhos azuis, filho de um casal de imigrantes americanos, e que, todos diziam, era muito bonito, Silas disse, ao ser convidado a entrar na casa, e se sentar no sofá preto com manchas vinho:

– Henry, diga a ele que é um prazer conhecê-lo, pergunte sobre sua chegada aqui na cidade , diga que sou Silas, o morador da casa ao lado, e que minha esposa não conseguiu dormir com a música ontem. Peça a ele que , da próxima vez, abaixe um pouquinho o volume do som, e que chame o Morten, por favor. Traduza isso a ele, por favor.

Após transformar tudo o que o amigo disse para o Inglês, e ao dar as respostas do estranho a Silas, Henry disse:

– Seu nome é Dorcha, ele é irlandês e amigo de Morten. Ontem fizeram uma festa de boas vindas a ele. Ah! Esqueci de dizer seu nome, e que é o morador da casa ao lado, espere.

Ao mencionar estranhas palavras e fazer sons muito estranhos, Henry começou a gargalhar e apontar para Silas. Dorcha fez uma cara ainda mais feia que a anterior, e estalou os dedos, com as mãos prontas para dar um soco, dirigindo um olhar de ódio ao vizinho.

– O que você disse? – perguntou o amigo, assustado.

– Contei a verdade! Disse que Vanderlucy, aquela mandingueira, é quem estragou a festa deles!

– Henry! Peça desculpa e conte a verdade!

Cabisbaixo, Henry fez o que o amigo pediu, e tratou logo de desfazer o mal entendido. Dorcha respondeu que Morten não estava. Henry se despediu também em nome de Silas.

Já indo embora, ao abrirem a porta para voltarem para suas casas, uma pequena fresta de sol adentrou na sala de estar. Dorcha, incomodado, escondeu-se atrás do sofá. Porém uma pequena fagulha de luz alcançou sua mão, que, na opinião de Silas, parecia queimar. Agonizando de dor, Dorcha gritava palavras que, na opinião do vizinho, eram palavrões do mais baixo escalão.