O Vagão dos Mortos - Caminho do Destino
3 Capítulo 3 - O Começo do Fim
Notas iniciais
CAPITULO 3
“O Fim de muitos é o começo de outros”
—O Próprio Escritor- ( O Livro que Você Está Lendo, capítulo 3, página 17)
Como se um copo quebrasse, o silencio foi apagado pelo barulho da campainha que ressoou por toda a casa. A mulher que chorava perto do menino despertou de sua dor e retornou a realidade, nesse instante sua vontade foi de ir ao sino e destruí-lo e retornar a sua tristeza. O pensamento foi logo refutado quando finalmente se lembrou que estava a espera de uma visita.
Estremeceu seu corpo por inteiro ao lembrar do motivo que aguardava a estranha visita. Enquanto caminhava pelos cômodos sem vida, seus pensamentos começavam a borbulhar e uma mare de desamparo e terror passou pela sua cabeça, chegou perto de ignorar a campainha que tocava incessantemente, porém voltou a se lembrar das consequências caso ignorasse.
Assim que chegou ao andar térreo, percebeu o quanto havia adiado sua limpeza, mesmo que sua vontade fosse de pedir a estranho que aguardasse, porém como a gravidade da situação era crítica e também pelo seu cansaço físico e mental decidiu apenas ignorar assim como havia fazendo há muito tempo em sua vida.
Finalmente abriu a porta e deu de cara com o médico que vinha atendendo a família a anos desde o princípio da doença de Diego. O doutor apertou a mão da mulher em sinal de condolência, ambos sabiam o motivo de tal formalidade. O homem começou um discurso falando:
(Doutor): Boa noite Clara, eu sinto muito o motivo de minha vista, mas ambos sabemos que Diego, mesmo sendo um garoto forte chegou a hora. Não a como adiar mais.
(Clara): Mas doutor não podemos adiar mais um dia, é fim de ano, ele deveria ver pelo menos seu último fim de ano...
(Doutor): Ele não tem mais uma noite, se conseguir aguentar até o dia amanhecer provavelmente estará respirando seu próprio sangue. Os remédios vão começar a perder efeito em poucos minutos, o melhor a se fazer e colocá-lo para dormir e deixar que morra em paz.
(Clara): Chegou a hora... -ela começa a chorar-
(Doutor): Sinto muito, mas é o melhor a se fazer.
Após secar suas lágrimas, ela se levantou e fez um pequeno sinal para que o médico a acompanhasse. Enquanto a acompanhava Clara se segurava para não desabar em lagrimas. Por algum motivo sua mente a levou para um lugar muito distante.
Viajou ao longo de anos de sua vida, a cada passo mais anos se passavam, mesmo se forçando a concentrar-se em não pensar em nada continuava a voltar, retornou a sua pequena morada grande cidade de São Paulo, se lembrou de seus pais e o quanto os ama e amava.
O tempo parou de retroceder e começou a avançar, a cada passo que dava o tempo passava, se lembrou de quando deixou a cidade para ir a capital, naquela época aquilo havia causado grande dor, mas hoje, anos a frente e com o peso da responsabilidade em suas costas percebeu o quanto aquilo foi essencial para sua vida e de uma forma ou outra nunca teria encontrado o pequeno garoto.
Terminaram de subir as escadas, o tempo avançou um pouco e se lembrou de seu tempo na faculdade, de certo aquele foi um grande marco para sua vida, além de ser um período de muita felicidade percebeu que fora a última vez que não teve que se preocupar com algo. Foi nesse período também que aquele pequeno garoto, um verdadeiro milagre de muitas maneiras.
Quando chegaram no corredor que ia até do menino sua memória avançou uma última vez, estava a apenas 6 anos do atual presente, nessa época sua vida havia começado a retornar aos eixos, largou a faculdade para poder cuidar do pequeno garoto que havia chegado. Seus pais morreram na mesma época que o garoto chegou, foram tempos sombrios para Clara.
As dividas chegaram primeiro que as condolências, seus pais estavam gastando muito mais do tinham, principalmente após perderem seus empregos e o pequeno negócio falir, mesmo assim conseguiu sobreviver algumas contas pendentes aqui e ali, mas não era nada que a mataria, não em curto prazo.
Naquela época descobriu a doença de Diego, foi um tempo perturbador enquanto os médicos descobriam sua doença. Ele passava noites em claro tentando, a cada inspirada se sentia mais fraco, mais debilitado e cada vez mais doente. Quando finalmente descobriram o que ele tinha as coisas melhoraram um pouco, agora ele usava um respirador que diminuía drasticamente a quantidade de oxigênio.
Mesmo com uma rápida melhora a situação tornou a piorar com os efeitos da baixa taxa de oxigênio, também veio a primeira pneumonia, dessa forma o que já estava mal piorou. A solução a mais alta dose de morfina, e o primeiro coma induzido. A situação continuou a piorar chegando ao atual presente, um corredor sem saída, a mote finalmente havia alcançado Diego.
Parados em frente a porta o doutor e Clara estavam prestes a entrar no quarto quando a mulher ouviu um estralo atrás de si, virando instantaneamente. Assim que virou viu um homenzarrão no lugar do médico, esse tinha um largo sorriso no rosto e uma pesada adaga na mão.
Antes que pensasse em gritar a adaga passou pelo seu peito acertando diretamente seu coração, a dor foi desesperadora e fria se espalhando por todo seu corpo. Primeiro um barulho ensurdecedor e depois um silêncio, agora ela caia no fundo abismo e a luz desaparecia, a única coisa que pensava era o garoto, que mesmo não sendo seu sangue, de muitas formas era seu filho.
(Homenzarrão): Desculpe-me criança, isso não é nada pessoal, mas infelizmente é necessário. Se eu entrar naquele quarto, roubar a criança e te deixar tentar impedir, pega mal.
(Homenzarrão): Se isso te consola, eu vou cura-lo, mas antes vou acabar com qualquer resquício de humanidade ou personalidade –risos- desculpa as vezes me empolgo demais. A proposito eu sou o Tempo, quando encontrar com a morte mande lembranças, e você vai ter companhia na queda. – O homem começa a rir –
Clara parou de ouvir, o mundo estava se apagando e o frio ia se alastrando pelo seu corpo, seus olhos começavam a se fechar e a sonolência era quase incessante. Ela de alguma forma sabia o que estava por vir e o medo começou a tomar conta de seus pensamentos, assim subitamente a calma se apoderou de seus pensamentos.
E então começou a cair, caiu durante algum tempo até chegar a um navio que estava velejando para seu destino final.
Ainda na terra o Tempo estava a poucos passos da porta do quarto, deixando a mulher, agora morta de lado, limpou o sangue de sua adaga e como se evaporasse, retornou a forma do doutor e abriu a porta do quarto. Quando entrou sua primeira reação foi de puro ódio.
Retornou a sua forma natural e pegou o bilhete que estava em cima da cama agora vazia. O bilhete estava escrito: “Desculpe-me, mas não posso morrer assim”, o homem entrou em fúria e começou a destruir o quarto em sua mente tentava pensar para onde aquele garoto poderia ter ido.
Diego na verdade estava a quilometro de distância, em cima de uma moto junto a uma garota que vinha sendo sua amiga desde que descobriu sua doença. Em cima da moto ele estava tendo algo que em muitos anos, ele finalmente estava vivendo.
Ele não desmerecia todo o trabalho de Clara, mas mesmo assim não conseguia parar de desejar isso, ele estava começando a sentir a dor lacerante em seus pulmões, o efeito dos medicamentos começava a perder efeito em pouco tempo ele estaria sufocando em seu próprio sangue, mas mesmo assim estava feliz em poder finalmente sair um pouco de casa e respirar o ar puro.
A garota que pilotava a moto se chamava Beatriz, ela se mudou para a casa ao lado na época em que Diego descobriu sua doença. Se encontraram na janela uma vez e depois daquilo se tornaram amigos nas mais diversas circunstâncias. Desde então se encontravam quase todo dia, o plano de fugir tinha sido ideia dela, ele havia concordado, principalmente depois de que descobriu que não tinha muito tempo, de certo modo havia sido uma enorme coincidência eles decidirem que agora era a hora de irem.
Já estavam muito distantes da pequena cidade chegavam perto de uma das várias plantações de eucalipto. Nesse momento os pulmões do garoto ardiam em chamas, ele começava a cuspir sangue sabia que provavelmente morreria no caminho para onde quer que fossem.
Como se sua vida dependesse disso, e dependia, ele pediu a garota que pilotava a moto que parasse. A garota parou imediatamente, com um salto o ajudou a descer da moto e o ajudou a sentar em uma pedra no meio da estrada. Sentado ele começou a vomitar sangue dessa forma isso aliviou um pouco sua dor que de qualquer forma ainda era extremamente forte.
O garoto começou a falar:
(Diego): Desculpa Bia, mas já deu pra mim. Eu não aguento mais continuar, você vai ter que ir sem mim.
(Beatriz): Nada disso, não posso te deixar no meio do nada, além disso, como posso te deixar MORRER sozinho!
(Diego): Você sabe que vou morrer de um jeito ou de outro, se ficar aqui vou vomitar um pulmão em você.
(Beatriz): Não tem problema, sempre quis ver um pulmão e além do mais, acho que não a diferença entre ter ou não um pulmão para você.-risos_
(Diego) -risos- Mas agora falando sério, vai embora, não quero que alguém me veja morrer, pretendo ficar aqui, respirar ar puro com cheiro de eucalipto, olhar as estrelas e pensar “O que estou fazendo aqui?”, “Por que eu vou morrer?” e “Qual foi minha última refeição?”, agora vá.
(Beatriz): Você tem certeza? — Ela pergunta mesmo sabendo a resposta —
(Diego): Sim. –Respondeu tristemente-
A garota que estava sentada ao seu lado se levantou, ela parou e olhou, seus olhos brilhavam ao luar, principalmente pelas lágrimas que brotavam de seus olhos. Ela era uma garota linda, seus cabelos eram negros como a própria noite e sua pele alva como a neve, ela era uma ótima amiga e o apoiou em mais diversas situações, ele era grato e adoraria retribuir o favor, mas como ambos sabiam que o tempo havia acabado.
Ela, limpou a lágrima com a manga da blusa, subiu na moto e com uma breve reverência deu a ignição e partiu em uma aventura que agora faria sozinha. Diego ficou sentado observando as estrelas, pensou no que haveria lá nas estrelas e a probabilidade baixíssima de haver vida lá fora e uma quase ínfima de ele algum dia ver a Terra de longe.
Preparou-se para rever sua vida inteira, uma curta viajem e sem nenhuma aventura de verdade a ser vivida, enquanto esperava que as memórias chegassem, começou a retornar a sua estagnação emocional. Percebeu que na verdade poderia considerar sua vida de muita sorte ou de um extremo azar.
Tinha sorte por ter sobrevivido tanto tempo com uma doença tão singular, única e morta. Ela deveria tê-lo matado a 5 anos, porém agora passado-se 7 anos de sua descoberta, finalmente sua jornada estava a se findar, sua dor, que agora estava quase enlouquecedora, finalmente iria terminar e sua paz provavelmente chegaria.
Mesmo assim, em outro ponto de vista, ele era a pessoa mais azarada do mundo no mínimo, sua doença era tão rara que – conferir –, não havia registro médicos reais de outro caso, além de pequenos relatos nos últimos 300 anos. Se isso não fosse azar, tal fenômeno certamente era apenas um mito.
Mesmo que tais pensamentos fossem doloridos demais a serem pensados, no estado atual do garoto ele estava feliz por ainda conseguir pensar algo, com seus pulmões ardendo em chamas de tal modo que não conseguia sentir o ar entrar em sua boca. Dessa forma uma dúvida instaurou em sua cabeça, como seria seus últimos momentos e o quão perto eles estariam.
Seu nariz assim como sua boca agora estava derramando sangue, se não morresse por asfixia, provavelmente seria por hemorragia. Agora sua cabeça estava fervilhando em pensamentos, achou que estaria preparado para seu fim, mas o desespero inundou seus membros, ele começou a sentir a adrenalina percorrer seu coração indo em cada direção, não sabia de onde, mas de alguma forma ainda tinha energia para uma última corrida, uma fuga da morte e assim fez.
Corria da forma que nunca fez, não importava se suas pernas ardiam, pela falta de exercício, se em seu sangue não bombeava mais oxigênio, se estivesse a um passo do abismo da morte, mas correria, e iria até o fim do mundo, mas não pararia de correr até que caísse morto no chão e ali ficasse.
Os galhos batiam em sua cara e em suas pernas, começava a sangrar, mas não se importava mais. Ouvia os barulhos de animais, talvez encontrasse algo interessante, ser morto por um animal grande e feroz poderia ser uma opção melhor.
Então logo a frente viu um vulto, achou que deveria ser apenas sua imaginação, ou um pequeno animal, talvez um fantasma que abitasse por aquela, mas nada a que viesse a lhe preocupar, pois não corria por medo ou qualquer coisa do gênero, corria pela sua liberdade, pelo ato de poder correr enquanto ainda tinha vida, mesmo estando quase morto ele pelo menos estava vivendo.
Então ao se aproximar do vulto, pensou que fosse sua mente que ficava turva, pois tinha certeza de que estava vendo um homem com mais de 3 metros de altura no meio da floresta. Então com sua pesada mão o vulto agarrou seu pescoço e o ergueu como se fosse apenas um pequeno saco de arroz, assim que foi pego sentiu seu pescoço, assim como sua traqueia e coluna todas se esticarem e estalarem como um chicote, se seus pulmões não o matassem pela dor, com certeza teria quebrado seu pescoço naquele instante.
Estava quase sufocando, não sabia se era porcaus de sua pré condição ou talvez fosse aquele homem que apertava com força. Tal homem tinha um sorriso insano e um charuto em sua boca, mas a cada segundo que passava se sentia mais tonto, sua visão estava turva e se preparou para dizer seu último adeus.
Agora tinha certeza de que a morte havia chegado para sua alma, mas pelo menos estava livre de suas limitações e de tudo que o prendia, estava livre, e por todo o seu corpo ele pode sentir a energia que assim como sua alma escapou para fora do corpo.
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