O Ultimo Ato

4 Capitulo 4 - Tarja | O Primeiro Ato


Notas iniciais
Um Tigre? Sério? Tarja... Você é meio doida, sabia?

— Methos. — Disse Tarja logo que o tigre saltou até mim.

Fechei os olhos e senti uma forte pressão sobre o braço esquerdo, o mesmo que usei para tentar bloquear a investida do Tigre. Quando ousei abri-los, vi o rosto do tigre bem de perto, observando melhor percebi que suas presas estavam perfurando meu braço e eu não sentia muita dor. Ao meu lado estava um dos cavaleiros de Tarja, Methos. Ele apenas segurava meu ombro enquanto sua armadura reluzente competia com o brilho do sol. Tentei fitar seu rosto por um instante, mas seus olhos emanavam uma luz muito forte para permitir que tal ação tenha sucesso.

— Methos é um dos meus cavaleiros, enquanto ele estiver aqui, sua sensação de dor pode ser quase anulada. Mas não se engane Rana, o ferimento ainda está aí, quero apenas mostrar-lhe que o que pode te atrapalhar é seu medo da dor. — Pela primeira vez em quase um dia, vi o rosto de Tarja perder o sorriso enquanto dizia essas palavras.

— O que devo fazer, Tarja? — Disse para Tarja enquanto me mantinha imóvel.

— Estar parado não é uma opção interessante. Veja só, ele é menor do que você, ele está totalmente sem guarda, mas veja seus olhos... — Disse Tarja enquanto sua voz voltava ao tom sereno e mais humano.

Meu rosto estava tão perto do tigre, que eu nem tinha percebido o quão lindos eram seus olhos. Ele apoiava ambas as patas em meu braço, não chacoalhava e nem tentava remover suas presas. Apenas permaneceu ali, olhando para mim com sua atmosfera natural. Eu não podia machuca-lo, eu não queria machuca-lo.

— Tarja... Por favor... — Minha voz evidenciava que um choro vinha em seguida. Me emocionei com a face tão bela daquele animal sereno, seus pelos... Seus pelos eram tão lindos, tão dourados. Apesar de estar envolto a um bote, eu não queria revidar.

— Methos... — Tarja deu uma ordem para seu cavaleiro apenas com o olhar. Por um momento eu senti como se estivesse sendo rasgado, e de fato... Eu estava. A dor veio de uma vez, comecei a suar, quando olhei novamente para o olhar do tigre... Vi apenas o rosto de um assassino, um bruto que merecia castigo. Firmei minha lança com minha mão direita, estoquei seu abdômen. Meus olhos derramavam as ultimas lágrimas que a pouco eram de pena. Fui tão brutal quanto aquele... Aquele monstro.

Após uma quantia incontável de golpes, fui sentindo suas presas me soltarem. O tigre logo caiu no chão, meu rosto estava manchado do seu sangue e minhas mãos estavam firmes, a única avaria eram os furos que ele deixou em meu braço.

Olhei para o lado, queria ver o rosto satisfeito de Tarja. Queria ouvir ela dizer que o campeão dela estava pronto. Queria ser considerado o vencedor do Tigre Dourado.

— Me perdoe por faze-lo presenciar isso Methos. — Foram as ultimas palavras dela para seu cavaleiro, e o mesmo se ajoelhou e desapareceu. Sua voz não parecia satisfeita, era como... Como se estivesse decepcionada comigo.

— Tarja, o que acont- — Antes mesmo de eu terminar minha frase, um trio de pequenos tigres se aproximou descaradamente. Se deitaram ao lado do corpo morto do tigre maior, não se importaram com o sangue ao seu redor, apenas... Apenas se aconchegaram em meio a criatura caída ao chão.

— Como eu disse, o que mais pode te atrapalhar, Rana... É a falta de consciência pela dor. Não é algo que deve nos controlar, por mais que seja insuportável. Devemos entender o fluxo, devemos entender a importância de uma vida. Devemos entender que aqueles olhos, os olhos que nos fitam tem uma história tão grande e bonita quanto a nossa. Seja presente, seja passada ou seja uma história que ainda será contada. Você encerrou o capitulo dessa Tigresa, mas seus filhotes ainda terão o que contar. — O tom de voz de Tarja fora tão profundo quanto eu jamais imaginaria. Meu coração estava envolvido por garras que o apertavam fortemente, eu queria voltar no.... — Voltar no tempo, Rana? Assim você arruinaria a história. O que já foi contado jamais será esquecido, está bem? Hoje não foi uma falha, não para ti. Eles crescerão rápido são machos, sua capacidade física estende as da mãe, eles serão grandes tigres dourados em menos de oito meses, e com eles você também crescerá. Quando voltar aqui, você irá vê-los novamente.

Com essas palavras, Tarja me deu uma lição de vida, uma lição que eu nunca esqueceria. E com isso prometi a mim mesmo que nunca mais iria me deixar levar por mais forte que a dor fosse. O Sangue que escorreu pelo meu braço se estancou e as cicatrizes ficaram. O nome daquela que tentou proteger os filhotes foi erguido por mim. — Bastet. A Deusa dos Gatos. Obrigado por me ensinar tão bela melodia, não deixarei que sua ideia morra. Seus olhos não estavam vendo uma presa, estavam fitando minha alma. Me perdoe.

Tarja se assustou quando peguei os pequenos, um a um, todos eu prometi cuidar. Ela apenas fez um movimento com a cabeça, 'sim', foi tudo que eu precisava entender. Caminhamos até o enorme palácio de Tarja e lá ela rapidamente se separou de mim e eu me dirigi ao meu corredor. Mais uma vez passei pela terceira porta o calafrio voltava a me assolar. Os filhotes dormiram em meu colo até que acordei-os para limpar todo o sangue em seus corpos. Tomei meu banho e tentei dormir.

Nos primeiros meses que se avançavam, Tarja me ensinou a capacidade de entender as situações a minha volta. Desde penhascos extremamente perigosos até o chamado Portão do Submundo, onde haviam cães guarda que flamejavam. Aprendi tanto com Tarja quanto com Eron, Bacca e Muna, meus três companheiros. Filhos da grande Tigresa Dourada, que nomeei de Bastet. Aprendi a arquearia, a luta com espadas e aprendi a prever golpes a distância com muita maestria. Tarja me ensinou a aguardar o cair de uma folha para agir, me ensinou que não é só de água e pão que vivem os homens, me ensinou que o Sol nos dá força, a Lua nos dá sabedoria e que até mesmo um sussurro podia significar, em ocasiões especificas, um grito. Ela sempre sorridente e bem humorada, fazendo piada de tudo. Tarja era uma flor que nunca desabrochava, era uma mãe pra mim e para meus tigres. Mas infelizmente seu semblante político se perdia cada vez mais.

— Ela não é abençoada pelos Deuses.

— Uma mulher na liderança só mostra a fraqueza de seu pai para gerar um verdadeiro Rei.

— Se os Dhura dominarem a cidade, não me incomodarei. Sou bom em negociar e eles parecem ter políticas mais agressivas, talvez melhorem nossas economias.

Infelizmente eu ouvia de tudo pelos corredores, e sinceramente... Tarja também. Mas ela sempre ao final do dia subia em seu pedestal e dizia palavras lindas as pessoas lá em baixo. Eu sempre me emocionava com o que ela dizia. Tarja nasceu para aquilo e não haverá ninguém que mudará meu pensamento. "Quero que a Tarja seja eterna!", pensava toda vez em que ela me acordava brava, cheia de arranhões e depois abraçava bem forte meus tigres. Ela me fazia cafuné. Tarja já me afogou e já me deixou em sérios apuros, mas cada vez que eu ficava a beira da morte, ela estava ao meu lado, ela esperava que eu visse a lição a aprender. Aos poucos passei a aderir sua inteligência, meus passos se tornaram mais leves, quase dez meses haviam se passado e o tempo, injusto, parecia voar ao lado dela.

— Rana, hoje você vai aprender o dom da magia. — Disse Tarja em uma manhã comum, segurando um cesto enquanto montava em Eron.

Fomos para fora, para o pátio olímpico. Era uma pista enorme que se estendia a mais de três quilômetros. Ela me trouxe para o inicio e disse com clareza; — Quero que você salte e vá até aquela bandeira.

Eu dei uma gargalhada e com isso olhei novamente pra ela, a bandeira mal podia ser vista de onde estávamos, ela queria que eu me teleportasse. Tarja sorria e não parecia estar brincando (o que era bem incomum), ela fez uma posição estranha, era como se ela se posicionasse como um gato. Logo Eron se aproximou e fez a mesma pose, Bacca e Muna também faziam o mesmo, de longe. Então percebi que era coisa séria. Que Ela estava me ensinando algum tipo de habilidade especial. Me posicionei como ela e os tigres.

— Não quero que você impulsione seu corpo. Quero que você impulsione sua mente. Quem vai saltar não é o Rana, é a mente dele. Ok? — Afirmou Tarja com o dom da didática.

Eu me joguei para frente e fui de cara para o chão. Tarja não se aguentou. Eu nunca vi ela rir tanto, o pior é que juro que se meus tigres soubesse rir, eles estariam rindo, por que a cara que fizeram depois do meu maravilhoso salto para o solo foi tão cômica que eu ignorei a vergonha e acabei rindo.

O que não tínhamos visto, é que aos poucos fora se formando uma platéia aos arredores da Pista Olímpica. Todos vieram ver o Campeão que Tarja estava a moldar. E o que viram foi um idiota tentando se matar. Tarja bem que viu e ouviu comentários que fariam qualquer um chorar, mas ela continuava rindo. E quando recuperou seu fôlego, jurei que a veria abatida. Mas ela gritou em alto e bom som; — Eu não devia te chamar de Rana, agora não faz sentindo nenhum! Acho que vou te chamar de Avestruz. Parecia que você queria apenas ouvir minha gargalhada. Nossa, olha a cara do Eron de decepção, ele mal acredita que esse magnânimo foi quem venceu a poderosa mãe dele.

"E eu ainda me preocupando com essa vaca" foi o que pensei assim que Tarja terminou de pronunciar para Deus e ao mundo que eu fracassei. As pessoas ainda olhavam com olhos de julgamento para mim, eu nem liguei. Apenas me posicionei novamente para uma outra tentativa.

— Lembra da Bastet, Avestruz? Lembra daqueles olhos antes de saltarem até você? Traga-os de DENTRO. As garras, as patas, o corpo... A mente, Rana.

As palavras dela foram tudo, me posicionei mais uma vez, fechei meus olhos e me lembrei daquela criatura majestosa. Seus olhos profundos, seu pelo sob o vento forte e sua pose de caça sobre as pedras. Abri meus olhos, e com eles eu não via apenas a bandeira com extrema clareza, eu ouvia os mais minuciosos sons, eu sentia cheiros e podia até mesmo reconhecer cada palavra de sussurros muito distantes. Eu saltei. Desapareci com o vento e a bandeira foi se tornando cada vez mais próxima, e em uma tentativa eu a agarrei. Eu poderia dizer que usei uma habilidade de tigre, mas era mentira. Por um momento eu posso jurar, eu me tornei um. Todos aos arredores se calaram e de longe eu ouvi uma senhora bater palmas. Logo todo o panteão estava me aplaudindo, ergui a bandeira e meus três amigos vieram me receber, Eron, o maior dos três, já tão grande quanto um cavalo, me empurrou até o lombo de Muna, e voltei em suas costas.

Tarja sorria um sorriso largo, ergueu sua lança e permaneceu ali, até que eu descesse de Muna. Assim que me apoiei no solo ela me abraçou, seus cabelos em dreads me envolveram e eu me senti amado, me senti protegido e capaz de proteger, meu abraço de volta foi tão forte quanto o dela. Eu pude sentir uma gota de lágrima cair em minhas costas mas não quis mostrar que percebi. Apenas aproveitei daquele momento.

Dois meses eram os necessários para o fim do prazo dado pelo acordo com os Dhura. Nesse tempo Tarja me ensinou a utilizar minha habilidade. Eu tinha reflexos de gatos, força de ursos e eu conseguia até mesmo prever movimentos como uma serpente. Me tornei um exímio predador, e pela primeira vez Tarja me levou até ao pedestal no fim de uma tarde e disse; — Fale para o meu povo, fale para o seu povo. Fale, meu filho.

Eu fiz um breve discurso de o quanto eu admirava Tarja, de quanto ela me foi uma luz e falei também que aquela cidade se tornou minha casa. Meus tigres Bramavam um som maravilhoso enquanto eu dizia, Tarja apreciava minha voz ao vento enquanto todos os preparativos para a grande batalha se faziam necessários.

Então o Grande Dia surgiu. Eu caminhei até a enorme arena, era como um Coliseu. Por um momento tive uma pequena imagem de uma bolha enorme se formando em minha mente, era como se aquele Coliseu me lembrasse de alguém, por algum motivo eu só pude associar tudo isso a terceira porta do corredor. Mas não me deixei abalar, abri um sorriso e caminhei até a arena com meus Tigres.

Lá estavam milhares de pessoas em um lado e uma imensidão de Dhuras de diversos tamanhos do outro lado. E no centro havia um senhor, alguém muito estranho. Ele não tinha rosto, usava uma cartola e um belo paletó. Seus olhos eram avermelhados e afiados. Parecia ser o anfitrião da batalha. Tarja estava sentada em um trono bem lá no alto.

Não esperaram muito para começar. Peguei uma pequena espada e um escudo ornamentado, dei o comando a meus tigres para se prepararem. Ah! Não tive problema em usa-los em batalha, já que a garota carregava uma espécie de cachorro com ela em baixo de sua saia. Não entendi bem o sentido daquilo, mas ela tinha olhos negros, nada mais estranho. O anfitrião apenas deu a ordem de inicio, não foram nada festivos, foi algo extremamente seco e sem emoção. Assim que ele permitiu que iniciássemos a batalha, olhou diretamente para Tarja, e eu ouvi uma risada dentro de mim, algo sombrio... Minhas pernas fraquejaram por um instante, mas tentei me focar na garota.

Ela vestia um bonito vestido azul e seu cachorro não parecia ser muito grande, eu não sabia ao certo, pois ele escondia seu corpo em baixo do vestido dela. A garota logo tomou a palavra.

— Meu nome é Cila. Lamento não poder deixar você sair daqui. As coisas vão esquentar lá fora. Aqui dentro só ficará mais frio.

Aquilo foi como uma flechada em meu peito. Eron não esperou meu comando e partiu para o ataque. Durante sua trajetória eu não pude deixar de fitar Tarja lá do alto, sendo atacada por vários dos seus fiéis. Homens a chicoteavam, uma luz forte se formou ao seu redor, seus cavaleiros surgiram! MORTOS! Eles não estavam vivos quando ela os chamou. Com as habilidades do tigre, eu pude ouvir "Rana... Por favor... Mostre seu valor!" e em seguida, o homem que eu achava ser meu anfitrião a segurou pelo tronco e a jogou do outro lado do Coliseu, onde estavam a tropa de Dhura. Nesse instante Eron chegou bem perto de Cila, foi quando outros três cães surgiram. Meus olhos cheios de lágrima me permitiram ver, eram serpentes com cabeça de cães, Cila era um monstro!

— Eron! Droga... Muna, Bacca... Ajudem seu irmão! — Foi a ordem que dei a eles enquanto me preparava para saltar.

Em um único salto eu me aproximei de Tarja, que estava totalmente machucada, muitos Dhura estavam mutilando seus dedos, um outro ousou estupra-la enquanto ela ainda respirava, minhas mãos se tornaram furiosas garras de Dragão! Eu tremia, era como o mover de placas tectônicas. Eu queria acabar com tudo, foi quando ele surgiu. O anfitrião, aquela Sombra... Sombra... Enquanto eu ainda estava a caminho da minha investida para salvar Tarja, ele me empurrou de volta para trás, eu não podia voar, eu apenas... Chorei enquanto me afastava dela. Vendo seu olho direito sendo banhado pelo próprio sangue. Foi a pior cena que eu pude presenciar. Quando enfim me estabilizei no chão, meus três Tigres estavam mortos! Cila havia matado todos os três. o corpo de Muna estava sendo digerido por uma das cabeças de seus cães. Eu me movi até ela, foi quando tudo desapareceu. Fiquei preso em um mundo escuro, onde não existia chão e tampouco céu. Os olhos avermelhados dele eram facilmente identificados, mas eu apenas me ajoelhei e comecei a ouvir em minha mente as gargalhadas, os tapas e empurrões da Tarja, eu vi ela gritar, chorar, me ensinar tanta coisa... Aquele abraço... "Tarja... Eu te amo, por favor..." Foi só o que eu disse a mim mesmo. Nunca quis tanto alguém de volta, ela era meu sol... Minha vida... "Tarja, Tarja... Tarja! "

— Que delicia, chore, chore mais! Quero ouvir seu sofrimento. — Uma voz familiar ecoava por todos os cantos, parecia vir de dentro da minha cabeça. Mas eu não conseguia dar lugar a ela, Tarja estavam em todos os lugares. Minha... Minha Tarja.

Notas finais
Luto. Por favor... Comentem!