O Ultimo Ato

5 Capitulo 5 - O Segundo Ato | Poder


Notas iniciais
"As vezes, por mais que choremos de tristeza, nunca seremos capazes de extingui-la"

— É sempre divertido assistir isso. — Dizia uma voz que ecoava dentro daquele ambiente escuro. Não podia imaginar de onde vinha. Apenas ouvia.

Eu chorava, chorava com tanta força que minha garganta doía. E nem mesmo sabia por que. Eu não me lembrava de nada que me aconteceu, apenas senti a dor da perda. Olhei para cima, a imensidão escura e pedi com firmeza; — Por favor, acabe com esse sofrimento, seja lá quem você for, me ajude!

Com um tom centrado e uma voz firme, as sombras me responderam; — Ainda não, você precisa pedir... Pedir para que eu apague de uma vez essa luz que seus olhos emanam. Quando isso acontecer, virei ajuda-lo.

Eu logo senti a presença se distanciando de mim, e com isso um forte sono me atingiu.

Meus olhos se abriram e eu estava deitado na calçada de uma movimentada avenida. Prédios enormes eu fitei com meus olhos, as pessoas olhavam para mim e eu podia jurar que a expressão deles era de nojo, mas não tinha certeza, minha visão estava embaçada e os meu par de óculos estava ao chão, próximo mim. Por algum motivo me senti surpreendido por necessitar de óculos, era como se eu nunca tivesse os usado até hoje. Me sentei e logo percebi que meu cabelo estava sujo. — Meu... Cabelo? — Murmurei enquanto apalpava meu cabelo longo, que também parecia algo que eu nunca tive. Me sentia uma outra pessoa. Estava usando vestes com um odor insuportável, o mesmo que impregnava todo o meu corpo. Levemente me levantei, o fluxo de pessoas era intenso, tão intenso que eu mal conseguia fitar o rosto de cada um que por mim passava.

Mulheres bonitas, homens bonitos... Todos muito bem vestidos e perfumados, onde eu estava e quem eu era para estar meio a todos estes? Todos que me passavam diziam coisas ofensivas, procurei ignora-los e dei meus passos em direção ao desconhecido.

Muitas cores, muito barulho. Carros por todos os lados, eu me senti totalmente deslocado, como se tivesse passado um ano inteiro de minha vida em uma ilha paradisíaca e tivesse sido lançado ao inferno. Uma tristeza incomum preenchia meu coração, era como a perda de alguém importante. Parei por um instante e vi, de longe, uma multidão de pessoas. Todas em silêncio frente a uma enorme sala com paredes de vidro. Era uma praça, e parecia uma espécie de evento ou competição. Não me interessei muito, pois estava com fome, e pedir ajuda a aquelas pessoas não seria produtivo. Pensei em caçar para comer, não sei exatamente o por que, mas era como se eu tivesse tal capacidade. — Bom, com mais ou menos fome, vou verificar o que há ali. — Disse a mim mesmo.

Me aproximei e confirmei, era uma competição de Xadrez. Homens engravatados estavam em uma espécie de fila para tentar conseguir uma vaga em um dos times mais famosos. Afirmo isso pois haviam cartazes sobre os eventos anuais por toda a parte. E na entrada ali, havia uma placa que informava que o vencedor daquele duelo ganharia uma oportunidade de ser entrevistado pelos membros do time 'PODER'. Parecia algo extremamente importante. Tentei me aproximar ainda mais, queria ver o tabuleiro, ao menos uma partida.

Quando aproximei meu rosto do vidro, eu via uma mulher firme, com um sorriso no rosto e com olhar decidido em uma partida com um rapaz de olhos fixados apenas no tabuleiro, de blusa e boné, o padrão fugia completamente dos frequentadores da área.

Em poucos movimentos ele apenas disse; — Retire-se daqui. — A mulher mal entendeu sua jogada, cerrou os dentes e se levantou. — Eu nunca me interessei por Xadrez mesmo. Jogo para idiotas. — Dizia enquanto recolhia sua bolsa e passava pela porta de vidro.

Ao que parecia, era uma tentativa grátis, e no cartaz dizia claramente que se você perder, nunca mais poderá entrar no cenário competitivo de Xadrez. Parecia ser o jogo que movia o mundo. E como eu não sabia disso? Eu não lembrava de nada até aquele dia. Bom, logo que a mulher saiu, muitos desanimaram e poucos permaneceram aos arredores da sala de vidro. Esperei alguns segundos e percebi que ninguém entraria. O rapaz que estava dentro dela, continuou olhando para a mesa, enquanto ajeitava as peças para o próximo duelo, seus olhos não podiam ser perfeitamente vistos pois seu cabelo estava a bloqueá-los. Eu me atrevi a tentar, não fazia ideia de como se jogava Xadrez, mas eu olhava para as peças e ansiava por uma vontade de move-las, de tentar fazer com que elas atravessassem o campo e derrotassem a rainha. Entrei na sala, todos logo olharam para mim e as chacotas se iniciaram. Assim que a porta se fechou, o silêncio tomou conta de todo o ambiente, percebi que o som exterior era totalmente abafado ali dentro.

— Posso me sentar? — Perguntei enquanto olhava para o rapaz, que não parecia estar preocupado com seu próximo desafiante.

— Apenas sente, serei breve. — Ele disse enquanto fixava seus olhos na rainha branca, no caso... A minha.

Me sentei e olhei para o tabuleiro, esperei que ele fizesse o primeiro movimento, estava muito nervoso. Mesmo que nada em minha vida fosse mudar, eu senti que precisava tentar e estava ali, sem uma visão de futuro ou de passado. Minhas mãos tremiam e o motivo era obscuro para mim. Ele fez um movimento com o braço e disse; — As brancas começam. — A vergonha tomou conta de mim, naquele momento todos descobriram que eu não sabia jogar Xadrez, mesmo com o som totalmente abafado pela sala, eu pude sentir as risadas e deboches.

Toquei o peão, o primeiro da esquerda... O mundo parou. Meu coração foi envolvido por um calor, meus olhos viam várias linhas se formando, era como se a peça falasse comigo, como se me dissesse o que fazer. Olhei para o rapaz a minha frente, existia uma aura verde cobrindo todo seu corpo, olhei para todos la fora, apenas uma pequena fagulha verde era vista em suas mentes, a mesma que cobria o rapaz, mas em uma quantidade extremamente inferior. Voltei ao tabuleiro e movi o peão para o local que em meus olhos era descrito. Quando soltei a peça percebi que não tremia mais, a consequência daquele movimento foi um sorriso da minha parte... Um sorriso para o nada.

O Rapaz moveu sua primeira peça, naquele momento, sua aura esmeralda se expandiu um pouco, eu quase podia toca-la. Atrevi levantar meu braço na tentativa de alcança-la. Logo o rapaz olhou diretamente para mim. Por um momento eu pude ver seus olhos com clareza, eram azuis, naquele momento retornei meu braço e tentei me concentrar. Ele voltou a olhar para o tabuleiro e deu um leve sorriso. Assim que voltei a olhar para o tabuleiro, tudo havia mudado. As linhas pegavam fogo, riscando o ambiente. Sua aura inundou o ambiente por completo, eu me sentia sufocado por algo que nem sabia do que se tratava. Linhas estatísticas se formaram e varias outras foram sendo riscadas a minha frente, ao que parecia só eu as via. A peça me indicou mais uma vez o que fazer.

Depois desse momento, passei a seguir as ordens das peças, me movia conforme tudo ia sendo indicado. Quanto mais longa se tornava a partida, mais a aura dele pulsava, quase que como um coração. Eu me divertia a cada movimento, a vontade que eu tinha era de abraçar o tabuleiro, abraçar meu adversário e as peças. Eu queria que fosse eterno.

Finalmente houve uma abertura entre a rainha dele e minha torre. Um movimento meu e ele perderia. Sua aura passou a emitir um som, em poucos momentos o som se tornou um grito estridente, ele levantou seu rosto e seus olhos azuis estavam completamente verdes, o sorriso estava estampado em sua face e ele olhava para mim como um lobo faminto olha para sua presa indefesa na floresta. Ele moveu uma peça, seu bispo. O jogo mudou-se totalmente de rumo. O grito, que a pouco estava insuportável, simplesmente desapareceu.

Eu comecei a perceber que a minha volta se formava uma aura verde também, ela estava intensamente perceptível em meus braços e minhas mãos, aos poucos ela caminhou até a ponta dos meus dedos dos pés. Me senti em uma piscina imaginária. Tudo fluía da cabeça aos pés. Minhas jogadas eram sucessivamente ofensivas, quando cada uma era efetuada, eu podia ver cortes sendo desferidos até o rapaz que estava a minha frente. Aos poucos fui recuperando a vantagem e ao fim... — Xeque-Mate. — Ele disse. — É quando você faz uma jogada irreversível ao oponente, e foi claramente o que você fez. Mesmo sem nunca ter jogado Xadrez. Você está com a PODER.

Ele se levantou e sua aura verde foi suprida e se tornou um pequeno ponto no centro de sua testa, como a dos demais que nos assistiam. Assim que me levantei, a minha também seguiu este padrão.

— Siga-me. — Disse o rapaz.

Todos ali se surpreenderam, claramente foi percebido que eu superei qualquer expectativa que tinham, se é que tinham algo assim a meu favor. Entrei em um carro preto com o rapaz e antes mesmo que eu fechasse a porta, ele disse; — Sou Anthony, e você?

Eu não sabia quem era. Permaneci calado. Fechei a porta e ele não insistiu na questão. As luzes internas foram acesas e ele deu uma ordem a seu chofer.

— Meu cheiro não te incomoda? — Arrisquei a pergunta.

— O cheiro da sua aura ou das suas vestes? Por que a resposta seria 'sim' para ambas as situações. Você se mostrou muito capaz, não gosto de pessoas muito boas perto de mim, me ofusca, sabe?

Eu ficaria muito nervoso e receoso, mas quando ele terminou sua frase, deu uma risada. Foi tão aconchegante, foi tão familiar. Dali em diante, ele me explicou como funcionaria a partir do momento em questão. Não foi uma conversa muito longa, afinal chegamos ao lugar de destino rapidamente.

Logo que saímos, ele me encaminhou até o elevador e disse para espera-lo no quinto andar, que ele me levaria até meu quarto. Na porta do Elevador tinha uma mulher, gorda e com uma cara ameaçadora, era uma espécie de acompanhante de elevador de acordo com minha dedução. Quando entramos ela nem perguntou meu andar, aperto o quinto e eu me posicionei frente aos botões, não queria ficar perto dela, me assustava.

Quando passamos o primeiro andar, esbarrei no painel de andares e pressionei o terceiro por acidente. Ela gritou "NÃO" em um tom absurdamente grave, quando chegamos até o segundo andar, ela me fez sair, me empurrou para fora do elevador e pediu para esperar o próximo. O elevador do lado abriu as portas assim que as portas do anterior se fecharam. No elevador tinha uma mulher alta, muito alta. Porém era magra e o olhar ameaçador permanecia. Ela disse "Sobe" e eu simplesmente entrei. Pressionou o botão do quinto andar, e mais uma vez sem eu dizer para onde iria. Ela me afastou do painel de botões e quando passamos pelo terceiro andar, ela fez uma breve expressão de alívio. Não entendi o que estava acontecendo e o que tinha no terceiro andar, mas não me importei tanto, apenas queria que acontecesse um duelo novamente.

Quando cheguei até o quinto andar, saí do elevador e Anthony já estava me esperando, com mais um amigo. Ambos sorriram e, sem dizer nada, caminhamos até a porta do quarto que seria o meu.

— Bem Vindo aos seus aposentos, Sem nome! Quero logo saber seu nome ou irei bolar um apelido, 'tá' bem ? — Disse Anthony enquanto sorria.

— Eu queria tanto ter visto a sua cara, Anthony, você perdendo não é algo que se vê todos os dias! — Disse o rapaz loiro que estava nos acompanhando, logo ele olhou para mim e continuou com as palavras. — Eu sou Bryan! Até então o superior do Anthony! Sou eu quem irá entrevista-lo, mas isso só amanhã pela manhã, ok? Estou ansioso para ver sua melodia de jogador.

Eu não entendi o que diziam, mas estava com fome e com sede! — Antes que peça algo, tem um telefone na estante ao lado da sua cama, pode pega-lo e pedir o que quiser na recepção que logo virão trazer pra você. — Disse Bryan enquanto ajeitava sua gravata.

— Você adivinhou! Eu estou morrendo de fome! — Afirmei.

Todos rimos e em seguida se despediram e fiquei sozinho, Bryan deixou comigo a chave do quarto. Fechei a porta e tranquei-a por dentro. — Wooooh, que lugar bonito! Se a Tarja estivesse aqui... Oi? Eu hein! Falando sozinho, e ainda nomes estranhos! Eu devo realmente estar com fome. Ah! O que vou pedir? Será que tem cardápio? Melhor eu aproveitar por que como diz o ditado, 'alegria de pobre dura pouco'! E eu vou é me esbanjar. — Dizia sozinho enquanto passeava pelo enorme quarto que deixaram em meus cuidados. Banheiro, sala, cama enorme e uma televisão estavam todos me esperando! — Vou tomar um banho primeiro, estou cheirando a meia velha! Ah! Que delicia de lugar! — Continuava falando sozinho enquanto apreciava o ambiente.

Tomei um banho quente de banheira e me prendi ao telefone enquanto pedia tortas, pizzas, bolos e os pratos mais exóticos que a cozinha podia me proporcionar. Em menos de meia hora me trouxeram tudo, a moça que trouxe a comida estranhou o fato de eu estar completamente nu, mas logo fechei a porta e imaginei que ficaria tudo bem. Eu comi como se a comida do mundo fosse acabar. Logo que acabei, voltei ao banheiro para me limpar e vesti uma roupa que encontrei no armário. Adormeci bem rápido.

No dia seguinte acordei me sentindo muito bem, meus cabelos longos dançavam sobre meus ombros e minha vergonha havia desaparecido por completo. Só que... — Meu Deus. Que sensação é essa... Eu 'tô' em trabalho de parto? Preciso usar o banheiro com urgência! — Disse enquanto corria para o banheiro em desespero.

— Ei, sem nome! Já está pronto? — Alguém... Anthony falava enquanto batia na porta.

— Anthony... Eu... Não sei se vou sobreviver! Faça qualquer coisa, mas não entre aqui! — Eu disse enquanto passava por um problema intestinal.

— Ok, eu espero aqui fora... Meu Deus, você 'tá' bem? Que cheiro de gente morta é esse?

Notas finais
Comentem por favor.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.