O Trono de Uthar
3 A Floresta Encantada
Notas iniciais
Pela lua, eram quatro da manhã quando consegui ver a “Floresta Encantada” — Local onde Fel trabalhava. Eu estava guiando Lancaster por de cima das casas da vila do lado de fora das muralhas do palácio, para evitar a atenção das autoridades. Os telhados eram todos próximos, o quê facilitou nossa locomoção. Havia começado a chover logo após abandonarmos os limites da vila interior, e estávamos em nossa terceira parada para nos esconder da chuva — correr por telhados molhados com vento forte e baixa visibilidade não é a mais brilhante das ideias.
Essa ultima parada foi recebida com varias queixas por parte de Lancaster, pois estávamos a uma rua de distancia da Floresta. Mas era, de todas as paradas, a mais necessária. Veja bem, se você tivesse um estabelecimento com boa clientela e boa reputação, você certamente não quer ver um assassino conhecido entrando pela porta da frente. E a Floresta era conhecida por atrair a atenção de muitos guardas, precisávamos tomar cuidado dobrado.
A Floresta Encantada era uma taberna reconhecida por ter suas camas aquecidas, se um preço justo for pago. A estrutura era uma casa de dois andares, de madeira, e tinha varias janelas no andar de cima. Entre ela e o edifício a esquerda, havia um pequeno beco.
Diante a porta da floresta haviam duas formas femininas, que estavam conversando, protegidas da chuva por uma especie de varanda.
Após me certificar de que elas eram as únicas pessoas que poderiam nos ver, comecei a descer, ajudando Lancaster a descer e se manter nas sombras. Ela havia aprendido rápido, e a ajuda que eu prestava atualmente era apenas uma desculpa para mante-la próxima a mim.
Comecei a andar lentamente, seguido de perto por Lancaster, tentando ouvir as vozes abafadas pela chuva.
–...chama K? — Disse a pessoa que estava de costas para mim, cuja voz se assemelhava a de Fel.
–Sim, esse é o meu nome. Pensando bem, agora pode me chamar de Liz — Concluiu a que eu podia ver a face, com um sorriso. Ela era baixa, seus cabelos tinham a cor de uma mistura entre castanho e vermelho e seus olhos eram verdes como duas pequenas esmeraldas. Por que tantos olhos verdes em tão pouco período de tempo?
–E você é nova na cidade… Com esse seu charme, com certeza terei um trabalho especial para você… — Fel disse, meio que para si mesma.
Entrei na varanda e disse, não muito alto:
–Fel?
Ela parou seus pensamentos, e se virou em nossa direção.
–Bast? Foi no inferno e voltou? E trouxe a Lady Lancaster ainda por cima! — Disse enquanto fazia uma reverencia formal para Lancaster.
–Lady?
–Amélia, da casa Lancaster. Herdeira do trono do antigo reino de Caine, recentemente destruído por Boric, e anexado a Uthar. Aprisionada pelo exercito real. Meus pêsames, Lady Amélia.
Olhei para Lancaster ao meu lado, que colocava o manto molhado num gancho na parede. Mesmo trajando roupas de prisioneira, ainda tinha a elegância de uma princesa. Como fui tão distraído?
–Prefiro não falar sobre meu passado — Lancaster anotou, com um sorriso levemente incomodado.
Decidi mudar o rumo da conversa.
–Falemos então do presente. Fel, faria a gentileza de me dizer quem é a garota? — Apontei para a garota que se intitulava “Liz”.
–Essa é K, uma nova amiga. — Fel disse, com um sorriso que me dizia que precisava me contar outras noticias — K, esse é o Bast. Já te contei sobre ele, não?
–Sim, contou. É um prazer conhece-lo pessoalmente, Bast.
–Igualmente. — Respondi, apesar de nunca ter ouvido falar dela na vida.
Fiz um movimento para tirar meu manto, mas percebi o uniforme dos assassinos por baixo dele, e estanquei o movimento.
–Não teríamos algum lugar com mais… privacidade? Para resolvermos os assuntos referentes a retirada de Lancaster da cadeia? Espero que eu não tenha envenenado dois guardas para que você pudesse me dar uma aula de historia, Fel.
Vi Amélia me lançar um olhar curto de raiva com o canto dos olhos, como se dissesse: “Quão historia eu seria se te acertasse um soco na cara?”
–Bem, me sigam vocês. Todos, incluindo você Liz.
Passou pela minha cabeça que a K não seria uma empregada comum da Floresta. Considerando que ela sabia minha identidade, provavelmente Fel a via como alguem importante na campanha.
Nós a seguimos para dentro do saguão principal da taberna. As poucas pessoas presentes estavam entretidas demais para prestar atenção em nossa curta passagem.
Fel nos guiou até uma porta atrás do balcão, onde deveria ser a despensa.
Dentro da despensa, ela destrancou uma nova porta que nos levava a seu quarto particular.
O quarto tinha isolamento acústico, uma grande mesa de madeira nobre e uma cama de casal. Suas paredes eram todas de pedra, e a temperatura era sempre mantida baixa. A Iluminação ambiente sempre lembrava a madrugada.
Não era exatamente um quarto lotado de coisas, mas todos seus itens eram de altíssima qualidade.
Fel fez sinal para que sentássemos, e tirou alguns mapas de cima da mesa deixando apenas o mapa do reino — o que deu um ar de conselho de guerra ao que parecia ser um encontro no bordel da tia Feluriana. Sinceramente, não tinha certeza se ela estava nos levando a serio até ver o tanto de anotações em sua mesa.
Puxei uma cadeira para Lancaster, antes de perceber o que estava fazendo. Fel soltou um risinho meio escondido, como uma criança. Liz pareceu estar pensando em outras coisas nesse momento.
Feluriana deu um longo suspiro, e começou a falar seria:
–Tudo bem, vou direto ao ponto. Bast, a pessoa que você resgatou é talvez a mais perigosa e importante das inimigas de seu pai. Se tivermos o apoio do povo dela, temos grande parte do território
em nossas mãos. — Ela começou a circular no mapa as áreas sob influencia da casa Lancaster. — Nossa amiga aqui, K, nasceu em território estrangeiro. É uma excelente mentirosa, ladra excepcionalmente boa e o melhor de tudo: Se parece muito com uma funcionaria novata contratada pelo castelo. Será nossos olhos e ouvidos. Sua missão será se aproximar das princesas, e nos relatar toda e qualquer coisa que ouvir.
Ela olhou para mim e Lancaster e disse:
–Espero que vocês já tenham percebido que vão obrigatoriamente dividir a liderança dessa batalha.
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