Notas iniciais
Boaaa leituraaa

Estava relatando para meu diário mais um dia na minha vidinha desgraçada. Acho que se alguém ler esse diário, vai achar que eu sofro de depressão profunda, porque aqui só tem tristeza e ódio escritos. E, como eu não tinha paz nesse castelo, a porta do quarto abriu.

Judith, uma garota que tinha pouco mais da minha idade e que se dizia minha amiga, surgiu com seus grandes cachos negros na minha frente. Ela tinha uma quedinha por Alexandre, sei até que eles já dormiram juntos. Apesar de ser bonitinha, essa garota era extremamente chata e falsa. Não aguentava olhar mais para ela.

– Boa tarde, alteza. Trouxe seu almoço. – Ela estendeu uma bandeja, que eu nem reparei que ela carregava.

Hum... Coloquei o dedo no lábio e analisei Judith. Ela me olhou assustada.

– Sabe, Judith. – Comecei, assustadoramente. – Eu preciso de um favorzinho seu.

– F- Favorzinho? – Ela repetiu gaguejando.

Assenti e levantei o lençol, exibindo meus pés amarrados a cama. Encarei Judith, da forma mais ameaçadora que consegui.

– Você vai me soltar. E isso não é um pedido, é uma ordem.

A bandeja nas mãos de Judith começaram a tremer, e vi ela ficar pálida. Tão boba.

– Não posso, alteza. S-Se o r-rei descobrir, ele manda cortar minha cabeça!

Eu comecei a rir. Ri tanto que doeu minha barriga. Quando parei, olhei para ela de forma irônica. Judith nem sabe – nem imagina! – O que eu sei dela.

– Você vai me soltar sim. Ou, você quer que eu diga para o rei que você – Apontei para ela – Anda esquentando os lençóis de Alexandre.

A bandeja caiu da sua mão, e ela rapidamente se abaixou para limpar o estrago que fez. Observei tudo, sorrindo satisfeita.

– A-A senhora não faria isso. Isso arruinaria o noivado de seu irmão.

– Sim, querida. Eu faria. Eu também contaria que foi você que destruiu o vestido da princesa Laura, no final do ano passado.

O estado da garota piorou, e ela ficou mais pálida do que já estava.

– C-Como a senhora sabe? – Seus olhos estavam arregalados.

Abaixei a voz, e falei em um tom misterioso.

– Eu sei de tudo... E de todos. Agora solte-me, ou contarei seus segredos para todos.

Judith se deu por vencida, e pegou uma faca. Cortou as cordas que me prendiam, suas mãos tremiam tanto, tadinha. Quando meus pés finalmente ficou livre, eu ousei coloca-los no chão. Uma dor tomou conta de mim, mas era aturável. Queria, agora almoçar com minha querida família. Queria esfregar na cara deles minha liberdade.

Dispensei Judith, que saiu tremendo um bocado. Tenho pena dela, acha que ficará com Alexandre.

Passei um remédio nas marcas em meus pés, mas como elas estavam muito evidentes, tive que usar um vestido longo para escondê-las. Não irei mostra-las, não agora. Desci as escadas com toda a glória que cabia a mim. Quando me viu, meu pai quase teve uma síncope. Ele estava conversando com August, pai de Laura.

– Alice! O que faz aqui? Está doente, precisa de repouso! – Meu pai disse, entre dentes.

Sorri e reverenciei o rei August, que retribuiu o gesto. Papai me olhava, com certeza querendo saber como me soltei de suas amarras.

– Já me sinto muito bem, papai. Eu não podia deixar de reverenciar minha futura cunhada. Onde ela está?

Papai fechou os olhos. Ódio. Como eu me sentia bem ao ver ele daquela maneira. O rei August, simpático me respondeu.

– Ela está na sala de música, junto a minha esposa, sua mãe e seu irmão.

O agradeci. Pobre rei August, mal sabe ele que é a filhinha dele. Mas, eu sei. Como sei. Fui em direção a sala de música, devagar. Meus pés ainda doíam, mas eu disfarçava bem. Uma melodia doce vinha da sala de música, e atraia qualquer um. A princesa Laura, a dissimulada, tocava piano para a sua plateia , que consistia em três pessoas. O idiota do meu irmão, a lerda da mãe dela e a sonsa da minha mãe. Todos sorriam, mas pararam assim que me viram.

– Boa tarde.. Não resisti a essa adorável canção. – Falei, tentando conter meu sarcasmo.

Laura sorriu, enquanto Alexandre fechou a cara. Mamãe bateu palmas, sem graça.

– Ainda bem que melhorou, querida. Venha, Laura está tocando músicas adoráveis para nós.

A dissimulada, digo, Laura começou a tocar de novo. Essa garota não presta, mas fazer o que né? Meu irmão também não prestava, eles faziam o casal perfeito. Enfim, sentei-me para ver a doce dissimulada Laura tocar. Porém, não passei nem cinco minutos lá, que um bilhete chegou a minha mão, por meio de um criado.

Venha a meu escritório imediatamente

Oh! Uma ordem do rei! Que medo! Revirei os olhos, e pedi desculpas me retirando da sala. O escritório do rei era no segunda andar, e eu subi as escadas me arrastando. A dor era insuportável. Meu pai, estava sentado assinando alguns papéis. Seus olhos me fuzilaram.

– Sente-se, Alice. – Ele apontou para a cadeira – Precisamos conversar.

Sentei, e comecei a olhar para o nada. Se eu disser que não estou interessada? Meu pai nem se importou com minha cara de paisagem. Começou a falar.

– Nem vou te perguntar como se soltou, vindo de você tudo é possível. O que quero saber é, o que vai fazer? Veio aqui arruinar nosso almoço?

Coloquei os pés sobre sua mesa e ele fez uma careta. Levantei um pouco o vestido, exibindo meu tornozelo todo roxo, marcado pelas cordas que me amarravam. Papai entrou em confusão.

– Isso, papai, é tudo que tenho a te dizer. – Falei docemente.

Ele passou as mãos no cabelo, nervoso. Ele me conhece, sabe do que sou capaz.

– Você se machucou. Isso, foi um acidente. – Ele afirmou.

Sorri largamente, e pela cara que ele fez, ele sabia que coisa boa, não vinha. Tirei meus pés de sua mesa.

– Acidente? E a morte de Caleb Fretcher foi acidente também?

Meu pai arregalou os olhos. Caleb Fretcher, foi um economista muito inteligente, que descobriu um rombo nas contas públicas. Caleb ameaçou contar para todos, e meu querido pai teve que dar um fim nele. Enquanto meu pai estava pálido, eu continuei falando.

– Pobre Caleb... Morreu, porque descobriu que o rei estava usando dinheiro público, para bancar a amante. Comprou apartamentos de luxos para ela, carrões, jóias. Se ele soltasse isso... Com certeza seria um escândalo! Então, você teve que dar um fim nele. Morto em um acidente de carro! Patético!

Meu pai estava para ter uma síncope, com minhas afirmações. Ele ainda duvida de mim. Quando finalmente me olhou, ele parecia vencido.

– O que você quer?

Eu apenas ri. Não queria nada, não agora. Tinha que guardar as minhas armas para a hora certa.

– Por enquanto nada. Mas, fique atento, pai. – Pisquei para ele e saí do escritório.

Saí vitoriosa. Meu pai, achou que eu era idiota. Óbvio, que eu tinha que ter algo contra todos eles. E eu tenho. Sei de todos os podres de Alexandre, mamãe e papai. Até de Laura eu sei. Por isso, papai sempre quer se livrar de mim. Mas, eu era mais forte do que eles imaginavam. Muito mais.

Notas finais
Até mais