O Triângulo Psíquico
1 Despertada
Notas iniciais
Cap 1 – Despertada
Quando eu acordei, estava muito confusa, e apesar de não saber exatamente quantos dias havia passado naquele quarto de hospital ainda me sentia cansada, como se tivesse trabalhado por horas. Olhei em volta buscando reconhecer formas e cores. Tudo parecia terrivelmente diferente do que costumava ser. Meu estomago se contraiu, ameaçando empurrar algum tipo de comida sólida praticamente inexistente. Respirei fundo e com a visão ainda conturbada, reparei alguém sentado em um sofá perto da janela, do meu lado direito
– Quem é você? – mal senti as palavras saírem.
– Hey, bem vinda de volta! –o rapaz falou com entusiasmo.
Ele tinha uma pele dourada, cabelos castanhos e desordenados. Seu queixo quadrado parecia nunca poder relaxar e a boca fina me recebia com um sorriso avermelhado.
– Onde está a minha mãe? — balbuciei. A presença daquele estranho observador era inquietante.
– Eu irei responder todas as suas perguntas, mas antes teremos que sair daqui.
– Não vou a lugar nenhum com você. — retruquei.
– Oh! – bufou. – Terei mesmo que responder primeiro suas perguntas, não é?
Balancei a cabeça positivamente.
Reparei ele respirar fundo, como se buscasse as melhores e mais certas palavras. Passou a mão nos cabelos escuros que caiam sobre a testa, os afastando dos olhos verde claro.
– Meu nome é Bryan Cooper, eu sou o seu mentor, sou responsável por te proteger e cuidar de você.
– Que diabos você está dizendo? – questionei, completamente confusa.
– Meio que salvei sua vida.
– Você não estava lá no dia que o meu carro derrapou naquela colina!
– Queria poder ter salvado você naquele momento, mas eu realmente não estava lá e sinto muito por isso... –ele baixou a cabeça, como se prestasse algum tipo de luto que eu não podia compreender.
– Você quer saber? Só está me deixando mais confusa do que de fato já estou então me faça um favor: Vá embora! — apontei para porta.
– Mania estranha que os humanos têm de falar uma coisa pensando em outra. Eu não entendo porque me manda ir embora se sua mente grita para que eu fique e te ajude.
– Como você...? Humanos? – me sentei melhor na cama, sem relaxar as expressões confusas nem por um instante.
– Estamos conectados! Sei muitas coisas sobre você, posso entrar e sair da sua mente a hora que eu quiser.
– Ok, agora você me assustou de verdade. Vá embora já! – nem sequer tentei disfarçar a minha cara provavelmente aterrorizada. Eu só queria que aquele garota, seja lá quem fosse, desaparecesse do meu quarto, e da minha vida para sempre. Eu tinha certeza que queria isso. Quase certeza.
– Vai ficar mesmo falando uma coisa e pensando outra?
– Apenas vá! –exaltei a voz.
– Annabeth, se eu for, quem vai ficar com você?
– O que fez com a minha família?
– O que eu fiz? – ele riu ironicamente. – Sua família se mudou para a Costa, porque a Maggie não se adaptou ao clima instável daqui.
– Eles me deixaram aqui? – ele abaixou a cabeça em resposta. – Ah, que ótimo! – joguei a cabeça no travesseiro, tentando conter as lágrimas quentes que surgiam nos meus olhos.
Me senti péssima, como se um buraco houvesse sido aberto no meio peito e ainda estivesse ardendo em carne viva. Era exatamente assim que as pessoas abandonadas se sentiam. Exatamente assim.
Me senti abandonada e sozinha. Eu queria sumir ou voltar no tempo e não acreditar no que houve. O tempo de Saint Ville era de fato instável e minha irmã mais nova, Maggie tinha vários problemas respiratórios que podiam preencher uma lista, porém, eu não acreditava que isso era um motivo plausível para a minha mãe se mudar com Dom, o meu padastro. Minha mãe não podia ter feito isso.
Tentei me confortar com o fato de que a minha familia havia me deixado um mentor, segurança, babá ou qualquer coisa assim.
– Onde está o Justin? – pausei e completei. – Meu namorado.
– Ah, ele! Bem, ele ficou aqui uns seis meses, mas depois resolveu viver, atualmente ele está noivo e na faculdade.
– Faculdade? – me sentei na cama novamente. – Com 17 anos na faculdade? –pensei, soltando uma risada. E de repente, eu não estava achando mais engraçado.– Espera, seis meses? Bryan, quanto tempo eu passei aqui? –prendi minha respiração por alguns segundos.
Bryan hesitou. Parecia uma bomba relógio prestes a explodir. Eu podia ouvir meus próprios batimentos claramente. Aliás, muito claramente. Ele me olhou de uma forma fúnebre, fazendo com que meus cabelos se arrepiassem.
– Três anos. — falou tão baixo, que torci para ter ouvido mal.
– O quê?
– Três anos. — repetiu com mais convicção.
– Está brincando comigo?
Bryan se virou, indo em direção à uma mesa de centro no canto do quarto. Ele pegou um objeto que não consegui identificar de imediato e veio até mim. O rapaz hesitou. Não parecia uma piada, mas eu torci para que fosse. Torci para que fosse apenas uma piada cruel.
– Annabeth, tente ficar calma. — o garoto instruiu, seriamente. Assim que suas palavras morreram no ar, ele me estendeu um pequeno espelho.
Seja uma piada. Seja uma piada. Seja uma piada.
Rolei meus olhos em direção ao espelho e senti me coração parar. Os movimentos eram os mesmos, as lágrimas que desciam pelos olhos eram apenas um reflexo, mas eu estava diferente. Não irreconhecível, porém ainda diferente. Parecia... Uma mulher.
Toquei meu rosto devagar, como se fosse levar um tapa por tocar o rosto de outra pessoa. Então, era assim que eu me pareceria alguns anos depois.
Soltei um suspiro alto de surpresa e levei as mãos ao rosto, pois tinha certeza de que estava chorando. Senti uma figurativo tapa na cara. A vida. A vida estava me socando tão forte que eu sentia que ia vomitar.
– Mas está tudo bem agora! – ele tentou me acalmar.
– Não, não está! – minha voz ganhou drama. – Tudo que eu tinha foi embora. – ele ia falar algo, entretanto minhas palavras o calaram. – O quê? Ainda tem algo para me dizer? Espera, me deixa adivinhar, a América mudou de presidente?
– Eu posso te contar o resto no carro, mas temos mesmo que ir embora.
– Para onde? – limpei o rosto. O meu rosto.
– Lugar seguro. – ele pegou minhas coisas que estavam espelhadas pelos quarto e jogou dentro de uma mochila.
– Por que não estamos seguros? – acompanhei com o olhar ele andando para lá e para cá no quarto.
– Você faz muitas perguntas! – ele pegou uma camisa preta, um casaco e uma calça e jogou na cama. Troque de roupa!
– Odeio que me diga o que fazer. – falei baixo, quase resmungando como uma velha, enquanto me preparava para levantar da cama.
– No momento, você não tem opção. – sorriu de uma forma maldosa e continuou a juntar alguns pertences espalhados pelo quarto.
Eu não queria ir à lugar algum com ele, porém Bryan estava certo, que opção eu tinha? Eu não tinha nenhuma, nem nada e nem ninguém. Só aquele cara estranho que eu nem sabia direito quem era, mas que de certa forma me passava uma confiança esquisita, como se nos conhecêssemos há tempo.
Bufei e fui ao banheiro, ainda tentando retomar o controle das pernas. Cada passo era mais difícil que o outro. Apoiei-me nas paredes até chegar ao banheiro. Pela quantidade de tempo que eu havia passado no coma eu nem devia estar conseguindo ficar de pé. Mesmo que ainda me sentisse fraca, algo me dizia que eu não deveria estar firme sobre os membros. Sentada na privada, tentei vestir a roupa. Depois de alguns longos minutos saí do banheiro.
– Vem, senta aqui! – Bryan indicou o assento numa cadeira de rodas, que ele havia conseguido sei lá onde.
– Eu quero andar, passei muito tempo deitada.. — foi minha resposta.
– Sério, para de ser tão teimosa, não estou te dizendo o que fazer, apenas estou tentando fazer o que é melhor pra você.
Cruzei os braços e não contrariei. Sentei na cadeira. Bryan jogou mais uns objetos na bolsa e colocou no meu colo. Quem era ele para saber o que era ou não bom apra mim? Saí do quarto, ainda um pouco assustada com as mudanças correntes. Afinal o que poderia ter mudado em Saint Ville em três anos?
O corredor do hospital, para o emu alivio, parecia normal. Algumas pessoas conversando, algumas pessoas na recepção, algumas pessoas sendo socorridas. Mas nenhuma daquelas pessoas nos fez nenhuma pergunta, sequer nos encarou por muito tempo. O relógio da recepção marcava 6:00 pm. Já estava para escurecer.
Bryan e eu finalmente saímos do prédio para encontrar o sol escondido por entre nuvens branquíssimas. Respirei fundo algumas vezes, inalando aquela brisa fria maravilhosa e admirando algo tão simples como o pôr do sol. Um aperto surgiu no meu peito. Eu quase havia esquecido a magnitude daquela cena.
Um carro cinza e moderno demais para o meu gosto, já nos esperava na entrada, pronto para que saíssemos correndo dali, o que me fez pensar que aquele garoto poderia estar me sequestrando.
– Só um minutinho! – ele abriu a porta do carro e veio me pegar na cadeira.
– Você está me sequestrando? — inqueri.
Bryan hesitou me olhando confuso, porém sorrindo, estudando meu rosto e provavelmente tentando entender se aquela pergunta era mesmo para valer. Permaneci atônita.
–- Ah, me desculpe. Não faço o tipo de sequestrador que informa as suas vitimas que é um sequestro enquanto elas ainda podem fugir. — ele riu, mas eu mantive minhas expressões congeladas. — Ok, vou tirar você dai. — o garoto tentou uma aproximação outra vez.
– Eu posso levantar, sabia? – segurei as mãos no braço da cadeira, deixando bem claro que se saísse dali n~´ao seria com a ajuda daquele desconhecido.
– E eu acho que prefiro você desacordada, sabia?. –ele usou o mesmo tom que eu havia usado. — Muito bem, teimosa. Se levanta, então.
Coloquei força nos braços, mas a cadeira se mexia toda vez que eu tentava levantar. Fiz cara feia. Bryan me olhou com um sorriso idiota no rosto. Eu quis ter a capacidade de socá-lo bem no estomago.
– Acho que vou te esperar no carro. – A voz dele era ironicamente irritante. Ele me deu as costas, mas mesmo assim ainda podia ver o seu sorriso convencido.
– Bryan! – eu estava com raiva de mim mesma, só que ficara bem claro que sem a ajuda dele, ficaria ali por um bom tempo. – Me ajude a sair daqui. — ele ergueu as sobrancelhas, esperando que eu acrescentasse algo. Aquele garoto já estava me tirando do sério. Revirei os olhos, totalmente irritada. — Por favor. — disse entredentes.
– Sabia que você era um garota de boas maneiras. – falou rindo.
Fiquei quieta por um tempo, enquanto atravessávamos o viaduto principal, e descíamos até o bairro Classe B da cidade. As mesmas praças se enchiam de crianças, como eu mesma já fora uma delas. As mesmas lanchonetes aumentavam o índice de obesidade mórbida. Os mesmo senhores liam jornais. As mesmas pessoas caminhavam com seus respectivos animais de estimação. A cidade estava praticamente do mesmo jeito, a não ser por uma nova loja de jóias chamada GOLD’S, que fora construída num cruzamento qualquer.
– Gostaria de aproveitá-la! – disse, encarando a loja.
– Acho que podemos dormir na cidade hoje.
– Está falando sério? – me animei um pouco, querendo desesperadamente me sentir uma garota bromal comprando joias numa loja qualquer da cidade.
– É! A sua avó está viajando, podemos ficar na casa dela.
– Parece que todo mundo me deixou mesmo. –joguei a cabeça para trás de uma forma infantil. Afinal, eu tinha 15 anos mentais. Ninguém podai exigir que eu crescesse três anos do nada.
– Na verdade, ela viajou ontem, com uma amiga. Ela perdeu a memória de vez, nem lembra que você se mudou para cá e por isso não te visitava mais.
– Talvez seja melhor assim, ela não suportaria me ver desse jeito.
– Ok! Vamos para casa da vovó então. – ele virou o carro em uma rua, cortando caminho. Bryan claramente estava familiarizado com o destino.
A casa da vovó não era muito longe dali. Eu e ela morávamos na mesma rua. Nós éramos bastante próximas. Na verdade, eu passava mais tempo na casa dela do que na minha própria casa. Meu peito encheu de felicidade ao ver as luzes da rua acesas, crianças brincando, onde passei 15 anos, até o acidente acontecer. Bryan me colocou de volta na cadeira em um piscar de olhos. Ele não era tão musculoso, mas parecia forte.
– Vai arrombar a porta? — quis saber.
– Eu tenho uma copia da chave das pessoas mais próximas a você. – ele subiu a cadeira na calçada. — Ou pelo menos das que eram.
– Você não tem vida? Só vive a minha? Você assusta.
– É basicamente isso. –ele pegou um molho de chaves do bolso, e escolheu a que encaixava perfeitamente na fechadura.
Estávamos prestes a entrar na casa, quando ouvi um grito chamando meu nome no fim da rua, Alguém vinha correndo em nossa direção.
Bryan me ajudou a levantar da cadeira e então me virei. Justin vinha correndo em minha direção. Levei algum tempo para reconhece-lo, mas o fiz. Era ele. Eu o reconheceria mesmo depois de 45 anos.
– Anna? – ele tomou fôlego, enquanto se apoiava nos próprios joelhos trémulos. — É você mesmo?
– Justin! – nos abraçamos com força, ao mesmo tempo tentando dizer mil coisas e apenas murmurando meias palavras.
– Quando você acordou? – ele afastou alguns fios de cabelo rebeldes que caiam sobre meus olhos.
Suas bochechas estavam rosadas por causa da corrida. A pele dele permanecia tão branca e o cabelo, mais negro que o céu de mil noites, continuava espetado. Era como encarar um espectro assombroso do meu próprio passado.
– Hoje! Justin...
Bryan me interrompeu.
– Annabeth, eu espero você lá dentro. – foi tudo que disse, antes de basicamente bater a porta em nossa cara.
Olhei de volta para Justin, o estudando cuidadosamente. Ainda era o mesmo Justin, entretanto não o meu Justin. Ele era um homem.
– Eu soube que você ficou noivo.
Ele pareceu pensar, e acabou gaguejando nas primeiras tentativas de falar alguma coisa.
– Passei muito ao seu lado naquele hospital. Aliás, mais tempo do que era saudável para mim. A minha mãe... Bom, ela começou a ficar preocupada comigo e decidiu se mudar para o Canadá. — o garoto deu de ombros, como se auqilo pudesse justificar nossas vidas complexas. — Eu não podia ir embora. Isso significaria deixar você. Significaria deixar tudo que eu vivi morrer aqui. Então, entrei para a faculdade e comecei a namorar. Era isso, ou partir.
Levei alguns segundos para organizar tudo em minha mente.
– Você está... Noivo para não se mudar?
– Acho que sim. — ele respondeu num tom absolutamente comum, como quem responde sim para "Você acha tintura de cabelo prejudicial ao cérebro?"
– Pensei que tivesse me abandonado.
– Quem te disse isso? — ele franziu o cenho. — Eu nunca abandonaria você.
– Justin, talvez as coisas estejam melhores assim. – tomei força para continuar falando. – Sabe, você irá casar, ter um carreira promissora e tudo continua bem. Quero dizer, caramba! Você tem uma vida paralela a minha agora.
– Não sei o que te falaram e nem quem falou, mas não teve uma semana em que eu não fui visitar você. Fique bastante preocupado com você, Anna. Sabe que eu não te deixaria, você me conhece! – Justin deu um passo á frente em minha direção.
– Justin, hoje foi um dia difícil, — disse, enquanto erguia a mão para impedi-lo de se aproximar. — estou tentando colocar na memória tudo o que aconteceu em 3 anos. Me deixa arrumar tudo isso.
Eu estava irritada. Muito irritada para falar a verdade. Toda a minha vida se resumia agora a ruínas de um passado distante e Bryan não estava ajudando me fazerdo sentir completamente abandonada. Tudo podia ser uma grande invenção dele.
Respirei fundo. O emu rosto três anos mais velho não podai ser uma invenção de Bryan.
– Eu sei que é difícil, mas estou com você para tudo. -ele sorriu. Tudo aprecia muito simples para ele.
Mesmo que a minha mão estivesse ali para impedir nossa aproximação, Justin venceu a barreira e me abraçou com mais delicadeza que da vez anterior.
– Tudo bem. Agora, será que pode em ajudar a voltar para essa cadeira? Estou ficando cansada.
Sentei na cadeira de rodas com a ajuda do meu ex namorado e abri a porta com um pouquinho de esforço, convencendo Justin de que podia cuidar do resto. O garoto se inclinou até minha testa e a beijou antes de sair e fechar a porta.
Bryan não parecia estar por perto, então, fui forçada a gritar seu nome, até que ele apareceu no último degrau da escada. O rapaz desceu as escadas, completamente calado, de forma que até seus passos eram silenciosos.
– Por que me disse aquelas coisas sobre o Justin? — falei irritada.
Eu simplesmente odiava o fato de que o mundo adorava me dar uma rasteira a cada cinco minutos.
– Eu disse o que eu vi. Posso entrar na sua mente, não na dele.
– Não me disse que ele ia me visitar.
– Provavelmente ele ia no dia que eu saia para resolver algumas coisas.
Serrei os olhos para Bryan, eu sabia que ele estava mentindo, queria saber a verdade. Pelo menos, uma parte da verdade que mais parecia um iceberg.
"Não sou eu quem está mentindo aqui."
Escutei claramente a voz de Bryan, mas estivera olhando para ele o tempo inteiro e podia garantir que ele não havia mexido um músculo do rosto rígido.
– O quê? — ele questionou a minha expressão de duvida. — Que cara é essa? Espera, você leu meus pensamentos. Sim, você fez isso. — o garoto começou a soar irritado.
– Acho que sim. — falei, ainda assustada demais para encará-lo.
– Pare! Saia da minha mente, agora mesmo.
– Ora essa! Parece que finalmente ganhei uma vantagem sobre Bryan Cooper. O que aconteceu com aquela história de "direitos iguais? Já morreu para esse ano? — olhei feio para ele e estufei o peito, confiante. — Ou você me fala tudo ou eu leio a sua mente. A escolha é sua.
– Ok, ok! Mas pare com isso. — ele me olhou esperando respostas.
– Tudo bem. — dei de ombros em concordância.
– Eu te disse que estamos conectados, lembra? — balancei a cabeça para cima e para baixo. — Nossa conexão está inteiramente ligada aos nossos poderes e como nos foi concebido. Seu pai tinha poderes psíquicos, assim como a minha mãe. Eles se conheceram e se apaixonaram... — eu o interrompi.
– Espera ai! Não sei se fico mais confusa com o fato de você saber quem era meu pai, por mencionar poderes psíquicos ou por você dizer que ele e a sua mãe se amavam.
– Me deixa terminar? — revirei os olhos em resposta. — A Ordem não permitiria de modo algum que eles ficassem juntos, pois tinham planos de ter filhos, e uma criança nascida de 2 sobrenaturais iria ser mais forte do que eles e até mesmo do Conselho superior.
– O que é A Ordem? Conselho superior? Sobrenaturais? Você está usando drogas ou o quê?
– A Ordem é um grupo formado por dezenas de humanos que são contra a nossa normal existência e convivência entre eles. Nos consideram aberrações, afrontas ao Deus deles. Então, como eu dizia, nossos pais tiveram de se separar para sua própria segurança e tempos depois se casaram com outras pessoas, mas não por amor e sim para gerar seus filhos e repassar o poder, como se espera que todo psíquico faça.
"Infelizmente, nossos pais achavam que A Ordem os deixaria em paz após as medidas que tomaram, entretanto estavam mortalmente errados. Parece que eles estão particularmente interessados nos nossos poderes."
– Defina poderes.
Não pude deixar de me prender aquele termo. Estávamos bem ali no meio da casa familiar da minha avó. Depois de tantos absurdos que eu ouvira desde que acordara, há menos de quatro horas, as coisas que Bryan dizia nem pareciam tão chocante, mesmo assim, difíceis de serem assimiladas.
– Coisas como isso. — Bryan ergueu a mão esquerda para frente. Ele tinha toda a minha atenção naquele momento e sabia disso.
– O que você está fazendo? — não pude conter minha curiosidade. Havia uma pequena parte de mim que transformara a imagem de Bryan Cooper em lunático assombroso que estava tentando em deixar maluca.
– Espera! — ele se concentrou outra vez.-
Quanto mais eu tentava enxergar as coisas, mais me sentia cega. Tudo que eu conseguia fazer era ficar mais confusa. Enfim, esperei o garoto se concentrar ou sei lá o que, esperei o desconhecido confiável fazer o que tinha que fazer.
As veias da testa dele estavam visíveis. Ele parecia um guerreiro prestes a entrar em batalha. Era como se nada no mundo pudesse ficar em seu caminho. De repente, ele agitou a mão no ar e num piscar de olhos, o controle da televisão surgiu em sua mão. Tão simples, tão rápido. Eu fiquei paralisada. Era dificil decifrar o significado de toda aquela merda atirada no ventilador.
Minha mente começou a correr pelas linha do passado. Ver Bryan agir daquela forma me trouxe um dejavú distante. Eu sabia exatamente do que se tratava. Era a resposta para os pequenos buracos sem fundo da minha vida. Os porquês das coisas. Porque as coisas aconteciam como eu queria, porque eu me sentia fora de órbita.
Bryan me lembrava eu mesma antes de começar a negar as coisas estranhas que me acontecia e me esforçar ao máximo para ser uma criança normal. Eu não queria que isso acontecesse de novo. Eu havia levado um tempo considerável para que as pessoas me aceitassem. Não ia virar uma esquisita de repente.
– Co-como você fez isso? -gaguejei.
– Poderes sobrenaturais. — ele se entusiasmou a falar. — Levitar objetos, visões futuras, teletransportação, ler mentes, são infinitas coisas que sobrenaturais podem fazer. Você também é uma, Annabeth. Eu sei que você tme um poder incrível.
– Você só pode estar brincando. — cruzei os braços. — Se essa cena toda foi um convite para participar do seu mundo de maluco, minha resposta é: Não, obrigada.
– O que quer dizer com isso? — ele franziu o cenho, tão confuso quanto eu andava parecendo.
– De acordo com toda essa loucura que você falou, quero dizer, se isso for real, foi o que matou nosso pais. Não estou nada a fim de fazer parte de algo que pode me matar ou, quase isso. — fiz uma referencia oculta ao meu coma.
– Não pode estar falando sério. Não... não está surpresa com o poder?
– Na verdade isso só explica coisas que eu achava estranho no passado, coisas que eu podia fazer, porém a minha resposta ainda é a mesma: Não!
– É diferente agora, eu e você somos mais poderosos, juntos nós podemos derrotar A Ordem e... — o interrompi.
– Na-não! Você pode destruir a tal Ordem, eu vou viver uma vida normal e comum, ou pelo menos tentar. — o corrigi.
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