O Triângulo Psíquico
2 A Ordem
Depois de sair do banheiro do andar de baixo, pois não achava uma boa ideia ter de subir e descer escadas numa cadeira de rodas, vi Bryan em uma das poltronas vermelhas da minha avó, que ficavam viradas para a janela. Ele pareceu perceber a minha presença , mesmo que não me desse o luxo d euma troca de olhares. Então, principiou:
– Desde que a minha mãe me contou tudo, eu dediquei a minha vida a te encontrar, depois a te proteger, praticamente morei naquele hospital e você vem e me fala o seu pensamento egoísta?
– Obrigada, mas não pode me obrigar a aceitar esse poder.
– Ele está em você, não há nada que você possa fazer.
– Posso fingir que eu sou normal e seguir em frente.
– Esse poder te manteve viva.
– Eu não tenho certeza se isso é algo bom. — virei a cadeira de rodas, deixando bem claro que n]ao estava pronta para aquele tipo de discussão.
– Você já pode andar. — o garoto de declarou. — Nos recuperamos mais rápido que os humanos, ou seja, você já pode andar sem dificuldade.
Olhei para ele, mas o rapaz ainda não me encarava. Ou eu era muito previsível ou ele conhecia muito bem os poderes dos quais falava tanto. Conseguia sentir a magoa dele me atravessar. Ele sequer podia suportar olhar-me nos olhos.
Apoiando os braços na cadeira me levantei sem nenhum esforço. Era como se eu nunca tivesse precisado estar ali. Tentei mais um contato visual com Bryan, mas tudo que ele fazia era encarar a janela. Decidi não me preocupar com isso. Em pouco tempo, ele estaria fora da minha vida.
Fui direto para o quarto que costumava ser meu quando visitava a vovó. EU basicamente passei minha infância inteira ali. Fiquei feliz ao ver que tudo parecia do mesmo jeito, Os posters de blink 182 colados na porta, o velho armário marrom, a cama que ficava entre 2 janelas grandes que proporcionavam uma boa iluminação, e a porta do banheiro que era do lado de algumas estantes, lotadas de livros, na parede.
Era bom estar em um lugar familiar, pra variar. Quase me senti feliz. Eu estava usando meu pijama favorito, que Bryan havia conseguido de alguma forma. Uma camisa azul muito folgada e shorts listrados. O cheiro forte de madeira conservada me invadiu o olfato. Aquele momenyo parecia o mais perto que eu teria de estar feliz dali adiante.
Um ruído vindo da janela mais distante de mim me puxou de volta à Terra, como a gravidade fazia.
– Bryan, é você? — ousei perguntar, porém não houve resposta.
Resolvi ignorar aquele bipe que se tornava mais irritante a cada segundo. Joguei minha maça sobre a cama, querendo descobrir o que mais Bryan colocara ali, quando o vidro da janela explodiu em estilhaços, fazendo com que eu me atirasse ao chão em busca de proteção, usando as mãos para cobrir a cabeça.
Me encolhi ao lado da cama, quase me enfiando debaixo dela. Saltos finos começaram a soar na madeira velha. Lentos, assombrosos. E de repente, eles pararam. Não precisava ser muito inteligente para perceber que, seja lá quem fosse, estava bem perto de mim.
– Annabeth? — a voz soou vinda de cima. — Oh, querida! O que está fazendo ai no chão?
Levantei os olhos para encontrar uma mulher magra e muito alta, usando uma roupa preta feita de couro que escondia quase toda a extensão do seu corpo, com exceção do rosto e do decote expressivo. Os longos cabelos ruivos caiam sobre os seios em ondas perfeitas. Me admirava muito que ela soubesse meu nome, pois podia jurar que nunca vira aquela mulher antes.
– Quem é você? — me levantei, tentando me recompor.
Ela ignorou completamente a minha pergunta, e deu alguns passos, enquanto estudava cada canto do meu corpo com os olhos.
– Me disseram para ter cuidado com você, pois era uma garota muito poderosa. Mas olhe que situação irônica, a primeira imagem que tive de você foi uma coitada desprotegida atirada no chão prestes a implorar pela própria vida como uma covarde.
O tom dela estava me irritando. Ela me lembrava uma aranha peçonhenta. Uma mulher detestável. Engoli seco.
– Por que não fala logo o que quer e vai embora? — esperava soar mais confiante do que realmente estava, porém falhei.
– Mas assim não teria graça. — a raiva crescia dentro de mim a cada palavra dela. — Ah, por que você não chama o Bryan? Ele ia adorar participar dessa reunião. Espera! Acabo de me lembrar que ele está amarrado pelos meus seguidores da Ordem. — podia jurar que uma gota de veneno havia escorrido do canto de sua boca.
Paralisei. A ideia de que Bryan estava em perigo e eu estava em u perigo muito maior me fez querer desaparecer.
Olhei a porta do quarto, estava aberta. Uma distância pequena me separa da possível fuga inconfiável. Uma distância ainda menor me separava da viúva negra prestes a atacar. Sem calcular mais nada, saí correndo porta à fora.
Ouvi os saltos dispararem logo atrás de mim. Meu cérebro se esforçava para mandar os comandos aos músculos. Corra! Corra! Quando finalmente alcancei a escada, duas mãos se pressionaram nas minhas costas, me empurrando para uma queda violenta escada baixo.
Meu corpo finalmente parou de rodar no fim da escada. Me recuperei depressa e continuei com a corrida. Eu não deixaria que a minha captura fosse tão fácil quando ela esperava. Alcancei a cozinha e me joguei sobre o balcão até o outro lado, desejando que qualquer barreira estivesse entre mim e aquela mulher.
Logo, ela chegou à cozinha. Seu rosto enrijecido estava corado e o queixo semicerrado com um ódio visível. Ficamos em silêncio, como uma pausa caridosa que ele me oferecera antes de atentar contra a minha existência. E de repente, a mulher resolveu falar:
– Vou garantir que dessa vez o maldito poder do seu pai não seja repassado.
Meu coração martelava o peito desesperadamente.
– O que você quer dizer com isso?
– Minha família vem tentando extinguir a sua há tempos. Vocês ameaçam a nossa existência na terra. Achei que ao matar ser tinha concluído o nosso objetivo, isso até eu descobrir a filha que ele conseguiu esconder esse tempo todo.
Meu cérebro tinha sérias dificuldades para assimilar todas as terríveis coisas que aquela mulher dizia. Por que ela tinha que aparecer assim e pisotear os pedaços que restavam de mim? O sangue pulsava forte contra os meus ouvidos.
– Você matou meu pai? — balbuciei.
Mesmo que tudo estivesse muito claro, eu ainda precisava ouvir. Precisava que ela dissesse, confirmasse suas insinuações. Os lábios dela se esticaram no sorriso mais cruel que eu já havia visto, e com orgulho, disse:
– Pode apostar, querida.
Ela representava um buraco imenso na minha vida. Aquela mulher era a única culpada por todos os natais vazios, por todos os feriados dolorosos, por todo o tempo especulando quem teria sido meu pai. Ela havia arrancado de mim, facilmente, a pessoa que mais me amou no mundo.
A cada pensamento sobre o meu pai, o sangue em minhas veias se tornava mais quente. Fervente. Achei que ia evaporar. Eu só queria justiça. Queria que ela pagasse por tudo. Queria que ela sofresse aquela ferida aberta e incuravél em mim.
Fui tomada por uma cólera instantânea. Meus punhos estavam fechados, como se algo em mim ainda quisesse ter o autocontrole.
– Sua vadia! — berrei em sua direção e ela parecia estar se divertindo com toda aquela cena.
Vi o corpo dela se bater para trás como um impacto, depois de andar até o corredor, ela levitou e o corpo foi jogado contra a parede, ela estava sufocando e grunhindo de agonia. Foi quando eu percebi que eu estava fazendo aquilo, era o que eu queria que acontecesse no fundo da minha alma. Respirei fundo. Ela caiu, despencando no chão.
– a mulher tentava recuperar o ar, tossindo e esfregando a mão sobre a garganta. Eles estavam certos sobre o seu poder. — disse com esforço. -
– Saia da minha frente! — corri até a porta. — Bryan? Bryan?
Ele estava amarrado dentro do carro e dois homens do lado de fora. A rua estava escura, já não era mais hora de haver pessoas passando ali.
– Soltem ele! — berrei. -
– Onde está Mérlia ? -um dos caras perguntou. -
– Deve estar tentando recuperar o ar, soltem-o eu não estou brincando.
– Eu vou buscar Mérlia. — ele se aproximou da casa. -
– Não! — levantei a mão direita e o empurrei, fiz ele bater no carro. — Soltem ele.
– Solte-o Dário. — Mérlia saiu da casa. -
– Mas senhora... -ele contrariou, porém ela interrompeu. -
– Estamos em desvantagem Dário, não se preocupe, voltaremos.
Os seguidores o largaram no chão e praticamente saltaram dentro do carro, saíram em disparada, me atirei no chão ao lado de Bryan.
– Você está bem ? — desamarrei as cordas da mão dele. -
– Você usou o seu poder? — fiquei calada. — Usou, não foi ?
– Sim. — falei sem ânimo. -
– E como foi? — ele sorriu. — Qual a sensação?
– Eu não sei. — gaguejei. -
– Annabeth, como foi? — ele insistiu. -
– Bryan, foi bom ok? Eu senti no controle, eu não fiquei com medo, eu confiei em mim, mas o que importa é que eu não me reconheci e nos estamos sendo caçados. — desabafei. -
– Annabeth. — ele falou mais alto do que eu. — Vamos fazer diferente agora tá?
– Vamos entrar?
Depois de se acalmar, eu e Bryan fomos pra cozinha fazer algo para comer.
– Huum, essas são as melhores panquecas do mundo. — dei um garfada. — Você tem o dom.
– Herdei os dotes culinários da minha mãe. — falou se sentando. — Então como é ter 18 anos?
– Eu não sei, nenhuma garota de 18 anos deve ter a vida assim.
– É verdade.
Quando terminei subi as escadas e voltei para o quarto, que ainda tinha cacos de vidro, comecei a apanhar alguns para tentar amenizar a bagunça.
– Ai! — falei alto. -
– Annabeth? O que houve? — Bryan surgiu do nada no quarto. -
– Eu só cortei o dedo.
– Ah. -ele segurou minha mão. — Fica aqui, vou fazer um curativo. -
Ele saiu do quarto, sentei na cama, apertando o dedo, tentando estancar o sangue.
– Pronto.
– Você é bem rápido. — ele pegou meu dedo. — Espera! — puxei a mão. -Vai doer?
– Quantos anos você tem mesmo?
– 15 na idade mental. — ele riu. -
– Certo, vou ter cuidado ok? — sorri. -
Fiquei concentrada no rosto de Bryan, para não olhar o sangue, enquanto ele limpava o meu dedo indicador da mão.
– Vai ficar me encarando assim? — ele se manteve olhando para o meu dedo. -
– Estou tentando não olhar para baixo.
– Já estou terminando, — enfaixou o meu dedo. -
– Terminou? — continuei olhando pra cima. -
– Sim. Agora tente não quebrar janelas, assustar pessoas ou cortar o dedo e apenas durma. — ele se levantou. -
– Eu atraio problemas, o que posso fazer? — ele sorriu. -
Procurei na bolsa uma roupa para dormir. Uma pedrinha atravessou a minha janela quebrada, outra veio logo em seguida, fui até a janela lentamente preparada para qualquer coisa, e uma pedrinha atingiu a minha cabeça.
–Ai! — pus a mão na testa . -Justin ?
– Desculpa, eu queria te chamar. — ele falou. -
– Por quê?
– Queria de dar boa noite, pra você dormir bem e acordar amanhã.
– Não quero dormir, tenho medo de não acordar.
– Tudo bem, você vai acordar tá? — acenei positivamente. O telefone dele tocou. — Tenho que ir, se cuida!
– Você também. — sorri, e vi ele sumir pela rua. -
Fale com o autor