O Tigre e o Dragão
2 Capítulo 2 - A Família
Notas iniciais
A família era grande e relativamente unida. Não que não possuíssem seus atritos, as típicas discordâncias entre parentes, mas, devido a uma tradição ancestral típica do oriente, nada saía do controle do casal Helena e Akira Saito, que ocupava o topo daquela curiosa família mescla de brasileiros com imigrantes japoneses.
Helena nascera no Brasil, filha de pais brasileiros e neta de japoneses. Foi educada ao modo oriental, sempre muito discreta e determinada. Não sofria dos típicos problemas de adolescentes, que não conseguem controlar suas emoções e agem de forma contraditória em determinados momentos da vida. Helena era centrada, possuia suas metas e objetivos fixos na cabeça, e cada passo era milimetricamente planejado para alcançar seus planos.
Cursava Direito quando conheceu Akira Saito. O rapaz tinha vinte anos, dois a mais que ela, quando chegou na pequena pensão dos pais da moça. Era já adulto, mas suas atitudes pareciam de meninos de quinze anos. Akira era extrovertido. brincalhão e, decididamente, despreocupado. Chegara ao Brasil sem saber mais do que vinte palavras da língua portuguesa. "Onde é o banheiro?" e "Estou com fome" eram as construções mais elaboradas que o rapaz conseguia fazer.
Não que tivesse profunda antipatia por ele, mas Helena não conseguia evitar torcer o nariz para o jovem rapaz. Ele nem ao menos sabia a correspondência das moedas dos dois países, pior: nem ao menos prestara atenção no fato de que o dinheiro japonês não serviria para o comércio no Brasil. Ele viera do Japão em um navio de carga, com a ajuda de um amigo que já morava no país há muito tempo. Do porto viera diretamente em um caminhão de batatas para a cidade. O amigo agricultor o deixará na pensão do casal que sabia ter origem japonesa. Não poderia ser babá de Akira.
E o que o próprio Akira viera fazer no Brasil? Nem ele mesmo sabia. Mas órfão de pai e mãe, vivendo com tios que não o suportavam, não via mais muita utilidade em permanecer no Japão. E no Brasil? Ali "deixaria rolar", veria o emprego que conseguiria e levaria a vida adiante. Não tinha nenhum plano, nenhuma meta. Mas isso não tirava seu sono. Helena o achava estranho, displicente demais para um japonês. Seus pais e avós sempre valorizaram muito a diligência e a responsabilidade, e desde pequena ouvira ser essa a característica do seu povo ancestral. Aquele rapaz parecia uma peça fora do lugar.
Talvez a diferença de personalidades entre os dois fosse o motivo pelo constante interesse que começaram a possuir um pelo outro. Akira decididamente interessado na moça responsável e estudiosa, fazendo de tudo para atrair a atenção dela. Mas o interesse de Helena não era guiado por um aspecto romântico, o que chamava sua atenção era como o outro tocava a vida de maneira tão desleixada e nem ao menos se preocupava com isso. Akira fazia de tudo para conversar com ela, fazer coisas engraçadas que a fizessem sorrir. Mas Helena era preocupada demais para se deixar levar por esse tipo de coisa. Mas foi justamente por começar a passar tranquilidade para ela, por mostrar outro lado da vida, que Akira acabou conquistando o coração da moça.
Os pais dela foram contra a união dos dois, então fizeram algo impensado, mas arquitetado pela própria Helena. A convivência com Akira a fazia se preocupar excessivamente com o futuro dos dois, mas a irresponsabilidade dele não mais a afastava, agora fazia com que ela quisesse ficar perto dele e ajudá-lo.Fora por isso que decidira engravidar dele. Em face disso, a sombra da vergonha faria com que seus pais aceitassem o casamento dos dois. E então nasceu Noriko, a primogênita dois dois.
Helena, por mais que tivesse nascido no Brasil, considerava-se japonesa. Não que não gostasse das terras tupiniquins, mas identifica-se mais com a cultura e os valores do Japão. Ao passo que Akira, japonês de nascimento, amava o Brasil como se o país fosse sua terra natal. Helena, irredutível, queria nomes japoneses para os filhos, e como sabia que a última palavra era posse da mulher, não fez objeções. Quando Noriko completou um ano, Helena engravidou de Yuuji. Dois anos depois, Kaori. Um ano depois, Hiroshi. E quando Hiroshi completava um ano, nasceu Takeshi, o último filho do casal.
Os cinco filhos eram o orgulho do casal. E como criá-los exigia esforço e Helena não poderia suportar uma vida sem planejamento, conduziu a família para uma mudança para o interior, onde poderia criar melhor os filhos longe das tentações e perigos da cidade grande. E seria na cidade do interior como palco que a família de Helena e Akira Saito se expandiria com novas adições, de genros, noras e netos.
Noriko Saito era mistura perfeita do pai e da mãe. Era centrada como a mãe, mas não deixava que a preocupação tirasse seu sono, o que era sua herança do pai. Desde pequena fora determinada, cuidando dos irmãos quando os pais trabalhavam. Ter esse tipo de responsabilidade desde cedo a fez diligente e protetora. Sua determinação poderia levá-la ao caminho que quisesse, como dizia a mãe, e foi na carreira de bombeiro que melhor se encaixou.
Foi quando cursava o curso preparatório que conheceu seu futuro esposo. Kenji Matsubara era estudante de História, que funcionava no prédio ao lado ao do curso dos bombeiros. Era filho de japoneses, mas nascido no Brasil. Seus pais moravam no Norte do país, dedicados ao extrativismo. Kenji era reservado, tímido e praticamente invisível. Não fosse uma brincadeira maldosa de colegas de curso, que o jogaram em uma piscina quando sabiam que o rapaz não sabia nada, jamais teria conhecido Noriko.
Ela o fazia corar de vergonha e as reações dele a divertiam. Era o tipo de rapaz que nunca sequer tocara na mão de uma moça antes. E conviver com Noriko o deixava constrangido. Convivência essa que ele teria evitado, encerrando o contato com a moça no momento em que ela o salvara da piscina. Mas seu melhor amigo começara a namorar a irmã dela. E então Kenji era arrastado para a presença da moça.
Quando se casaram, os pais de Noriko sabiam que tinham tomado a decisão certa. Eles dois eram um casal que, a primeira vista, não combinavam, da mesma maneira como Helena e Akira não combinavam aos olhares dos pais da moça. Mas depois de terem que armar contra os pais para poderem casar, Helena e Akira não se sentiam no direito de impedir a união de sua primogênita. Foi com alegria que receberam seu primeiro neto, Hugo Akira Matsubara. A avó Helena gostaria de manter a tradição de nomes japoneses, mas como era já a quarta geração da família fora do Japão (contando a partir dos pais de Helena), perceberam que seria bom a adoção de nomes em português, para facilitar a vida das crianças que cresceriam em solo brasileiro. Então, adotaram ambos os nomes.
Hugo era um rapaz calado como o pai, tímido obcecado por planejamento, como a avó. Totalmente ao contrário da irmã. Heloise Yuu Matsubara nasceu dois anos após Hugo. O xodó do pai, a garota lembrava muito o avô Akira. Extrovertida, um imã para problemas, nenhum senso de hierarquia. Tocava guitarra, desejava cursar Engenharia Elétrica e vivia na companhia de Hana, sua pitbull que ganhara aos dez anos de idade. Aos dezessete anos, Heloise era o terror daquela família.
Yuuji, o segundo filho do casal, era o único dos filhos homens casado. Casou-se com Claudia, brasileira com nenhuma ancestralidade oriental. Os dois tiveram três filhos. Jessica Naomi Saito, nascida um mês após Hugo, Davi Takanori Saito, um ano mais novo e Andressa Midori Saito, dois anos mais nova que o irmão. Seus filhos eram bastante diferentes entre si. Jessica era a cópia da avó Helena, muito centrada e objetiva, queria cursar Direito. Davi e Andressa eram a dor de cabeça do pai. O rapaz por querer ser pintor, a caçula por não querer saber de nada além de ser jogadora de futebol. E como Yuuji também era a réplica de Helena, lidar com isso era um desafio.
Kaori, a segunda mulher filha do casal Saito, se apaixonara por Shinji Watanabe desde o dia que cruzara com ele no auditório da universidade. Como a cidade possuía vários japoneses e descendentes, encontrar falantes da língua japonesa não era algo incomum. Mas o que fascinara Kaori, estudante de letras, foi a determinação de Shinji, então estudante de jornalismo, de difundir a maior quantidade possível de informações em seu projeto de jornal voltado para a comunidade nipônica da região. Começando como parceiros de projeto, os dois acabaram se apaixonando.
Como era a filha mulher mais nova, Akira não permitia que os ciúmes deixassem a filha sair sozinha com o rapaz. Por isso Noriko, em quem o pai mais confiava, sempre andava com os dois. Shinji, na intenção de poder ter mais privacidade com a namorada, começara a levar junto seu colega de quarto, Kenji.
O casal teve dois filhos. William Aoi Watanabe, que possuía uma diferença de seis meses dos primos mais velhos, Hugo e Jessica. O rapaz era obcecado por gatos, recolhendo os felinos da rua em profusão, para desespero do pai. Era magricela, o que o fazia sentir vergonha de usar roupas de banho em público. Gostava de cozinhar e de crianças, principalmente depois de ganhar uma irmã quando já tinha treze anos. Sofia Hiromi Watanabe era a caçula dos netos, que fora anunciada com surpresa para a família, afinal Kaori já possuía 40 anos quando engravidou da menina. A garotinha adorava a prima, Heloise, para desgosto do irmão.
Os filhos mais novos de Helena e Akira era solteirões. Hiroshi, já com 45 anos, era a versão crescida de um nerd. Muito responsável e trabalhador, ainda morava com os pais, em um quarto nos fundos da casa, onde dividia espaço com seus eletrônicos e miniaturas de bonecos. Achava que não tinha sorte com mulheres. Takeshi, de 44, pelo contrário, fazia muito sucesso entre as mulheres, tanto que engravidara uma. Paulo Henrique fora deixado na soleira da porta da casa da família, fruto do relacionamento de Takeshi com uma jovem que não tinha intenção de criar o garoto. O menino já viera acompanhado de uma bolsa de roupas, mamadeira e um nome (em português, para desgosto da avó). Helena e Akira decidiram ajudar o rapaz a criar o filho, que tinha a idade próxima a de Andressa.
Akira deixou as sandálias sujas de terra na soleira da porta, para evitar sujar o chão recém encerado e tomar uma bronca da mulher. Já podia ouvir passos no andar de cima da casa, e a conversa entre o filho Yuuji e Shinji na sala, acompanhados do barulho de um treino de Fórmula 1 que era transmitido na televisão. Adorava a casa cheia com a família, o que só acontecia em épocas muito especiais, quando os filhos viam com os cônjuges e as crianças para passar dias no interior com os avós, ainda que as cidades onde morassem ficassem apenas a uma ou duas hora de distância dali.
Caminhando para a cozinha, podia sentir o cheiro do café da manhã sendo preparado. Helena deveria estar acordada a muito tempo, preparando a refeição da família. Escutou a voz de William, que como gostava de cozinhar deveria estar ajudando a avó, como de costume. A presença do neto ali fez Akira sorrir travesso. Caminhou lentamente para espiar o cômodo e garantir que não fosse visto. Como pensara, ela estava ali.
Heloise tomava uma xícara de café, com um sorriso arteiro no rosto. William a encarava com receio, como se esperasse alfinetadas. Akira alargou o sorriso. Era fato para toda a família que os primos se detestavam, desde pequenos. As brigas mais frequentes naquela casa envolviam os dois. Insultos e apelidos maldosos sempre tinham espaço, diariamente, entre os dois. Noriko e Kaori sempre foram irmãs muito unidas, assim como a amizade entre Kenji e Shinji. Mas, ninguém sabia porquê, seus filhos não se suportavam (apesar de William e Hugo serem melhores amigos).
Mas ele sabia a verdade. Porque, ao ver William dedicando-se ao café, Akira lembrava de Helena, que sempre estava a postos na cozinha quando acordava na pensão, tomando de conta das refeições dos vários hospedes com maestria. E quando olhava para Heloise, com o ar debochado e bagunceiro, lembrava de si mesmo, de como sempre tentava chamar a atenção de Helena com piadas e contos engraçados. A neta poderia ter escolhido um método diferente, mas ele sabia o que havia ali, ainda que aquilo fosse de desconhecimento do resto da família.
Ele sabia que Heloise gostava do primo.
Fale com o autor