O Tigre e o Dragão
3 Capítulo 3 - Preparando uma surpresa
Notas iniciais
– Acordada tão cedo? Caiu da cama?
Heloise virou o rosto para a porta, sorrindo largo quando seus olhos pousaram na figura do avô.
– Milagres acontecem. — retribuiu com um beijo no rosto o carinho que o avô fizera em seus cabelos, dando espaço para ele sentar ao seu lado — Tudo bem com as uvas?
– Sim, apesar de Otávio comer grande parte da plantação — riu, servindo o café fumegante em uma xícara que William lhe alcançava — É um bom rapaz, um excelente ajudante, mas acho que tem um buraco negro no estômago.
– Vai mantê-lo? — Helena o encarava, séria, abandonando a atenção que dava para as panelas no fogão.
– Relaxe, minha velha — o rosto enrrugado se abriu em um sorriso enquanto assoprava o café — Não estou reclamando dele. Claro que vou mantê-lo. Época de colheita. Não posso perder mais nenhum empregado, ou esse ano os vinhos não ficarão prontos.
– Mas você precisa disciplina aquele rapaz.
– Quando ele ficar com dor de barriga eu digo alguma coisa — riu, sendo acompanhando pelos netos — sua mãe já saiu com Sofia?
– Já sim — William respondeu, esticando o açúcar para o avô — Faz um tempo já. Foi levar ela no shopping. Acho que vão assistir algum filme, coisa assim.
– Conseguiremos arrumar tudo a tempo? — Akira ficou sério pela primeira vez, encarando a mulher. E foi a vez de Helena sorrir.
– Claro, tudo planejado — a mulher apontou para a geladeira, atrás do marido.
Akira percebeu um papel pregado por alguns imãs no eletrodoméstico, reconhecendo a caligrafia caprichosa da mulher. No papel estavam escritos todos os nomes de todos os membros da família (com exceção de Kaori e Sofia), com as respectivas tarefas que todos teriam que cumprir.
– Você poderia planejar uma invasão em uma guerra considerando o jeito que planeja o aniversário de seis anos da própria neta. — riu, arrancando um sorriso de canto de Helena — Já tem tudo para as luzes?
– Yep. — Heloise sorriu, mergulhando uma bolacha no café enquanto respondia o avó — Todos os fios e resistores. E lâmpadas. Só aplicar no jardim e arrumar nas tomadas.
– Isso tudo ajuda quando começar a faculdade?
– Talvez. — sorriu, orgulhosa de seus conhecimentos. Descobrira a Engenharia Elétrica quando entrou no ensino médio e, mesmo começando o terceiro ano ainda, lia muita coisa sobre o assunto.
– E você? — Akira voltou-se para William, que estava empilhando panquecas em um prato — Ansioso?
– Um pouco. — sorriu de canto. O rapaz acabara de ser aprovado para o curso de Medicina Veterinária e as aulas começariam em um mês.
– Pronto para o trote? — o avô sorriu, arrancando uma careta do neto — Quando sua mãe entrou para a faculdade levamos dois dias para conseguir tirar a tinta do cabelo e das roupas dela.
– Nesse caso, pintá-lo seria um favor para a humanidade. — Heloise ficou séria, encarando o primo — Você sabe, tentar consertar um rascunho mal-feito com cor talvez ajude.
– Verdade — o garoto ponderou, encarando Heloise — Já decidiu quando você vai tentar?
– É o melhor que consegue responder?
– Hoje não. — Helena encarou os dois — Hoje não. Ouviram? Não quero saber de brigas no aniversário da minha princesinha.
– Quem começou foi ela.
– "Quem começou foi ela" — Heloise debochou, imitando a voz de William — Realmente, você não é bom de respostas.
– E você se acha muito engraçada.
– A virtude vem pra poucos — deu de ombros, arrancando um sorriso do avô — Já cogitou que você pode ter suco de limão no lugar de sangue pra ser tão azedo?
– Espera só, vou cuspir no seu café.
– Aí já é partir pra ignorância. — ela sorriu, observando a cara fechada do primo.
– Yuu, menos. — Akira deu tapinhas no ombro da neta — Depois eu faço um ringue de boxe pra vocês dois.
– É sério? — William o encarou, atônito — O senhor ainda dá corda pra ela?
– Foi engraçado, ue.
– Você também crie juízo, Akira — Helena o fitou, séria — Você é o avô. A figura de respeito. Não deve incentivar a discórdia entre esses dois. E francamente, vocês não conseguem parar nem um dia? Nem por Sofia?
– Só estava tentando animar o dia — Heloise deu de ombros — Não é minha culpa se algumas pessoas levantam com o pé esquerdo.
– Tio Sérgio vem? — William ignorou o comentário da prima, dirigindo-se ao avó. Sérgio Aoki era o irmão mais velho de Helena, o único irmão vivo que restava, de um total de três rapazes. Helena era a única moça entre eles.
– Vem sim. — Akira sorriu — Perguntou se podia chegar mais cedo com as crianças.
– E você disse o que?
– Que podia. — riu, olhando para a mulher — Você reclamaria de mais braços para ajudar?
– Não, mas isso leva a uma redistribuição de tarefas. — ponderou, pensativa — Quais dos netos vão vir com ele?
– Todos.
– Amanda vem? — William voltou-se para o avó, sem perceber que Heloise o encarava.
– Você não ouviu ele dizer quem todos estão vindo? — resmungou, de cara fechada.
– Não tô falando com você.
– Vem sim. Mas não acho que ela seja de grande ajuda. — sorriu — Aquela garota se pudesse levitaria, com nojo de andar pisando no chão.
– Ela só não gosta do campo. — William deu de ombros — Ela é da cidade, é compreensível.
– O dia que ela machucar um dos seus gatos quero só ver você defender. — Heloise rebateu, ainda de cara fechada.
William iria responder, não fosse mais uma reclamação de Helena para que os dois parassem de brigar. O rapaz ainda encarou a prima por uns instantes, contrariado, mas voltou aos seus afazeres. Heloise bufou, voltando a atenção para o prato. Akira tentava não sorrir, tomando seu café.
Amanda Aoki era tudo o que Heloise mais detestava em uma garota. Fútil, mimada e falsa. Já na visão de seus primos não havia nada de errado com a moça. Jessica adorava conversar com ela sobre moda e mesmo Andressa, que não possuia nada em comum com Amanda, era amiga da moça. Davi e Amanda participaram da mesma companhia de teatro no Ensino Fundamental e viviam recomendando filmes e peças de teatro um para o outro. Seu irmão e William estudavam na mesma sala que ela e quase sempre saíam juntos. O único que poderia conversar com Heloise falando mal (ocasionalmente) de Amanda era Paulo Henrique, que não tolerava quando a garota ficava se insinuando para seu pai.
Apesar de nunca ter visto nada além de amizade entre Amanda e William, os ciúmes de Heloise não permitiam que ela ignorasse qualquer sentimento de raiva ao ver William falando sobre qualquer outra garota. Tinha até mesmo ciúmes de Jéssica e de Andressa. Sabia que Amanda viria para a festa de aniversário de Sofia, mas somente a pergunta de William sobre a presença da garota fora suficiente para fazê-la perder a vontade de fazer qualquer coisa além de sentir raiva. Olhou de relance, e rapidamente, para as costas do primo, que estava de volta com a atenção no fogão.
Se ao menos ele conseguisse se irritar com Amanda em algum momento...! Não era possível que suportasse totalmente o jeito 'não-me-toque' da garota. Seu tio-avô Sérgio era ainda mais sério que sua avó, mas mesmo assim era um homem agradável. Nenhum dos dois filhos tinha o nariz empinado de Amanda, nem mesmo a mãe da moça. Seu irmão, Arthur, era uma das pessoas que Heloise mais gostava de conversar, era um nerd que lembrava muito seu tio Hiroshi. Os primos de Amanda, Bernardo e João Pedro, não pareciam em nada com ela.
Amanda Aoki era a pedrinha no sapato de Heloise naquele dia.
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