O Tempo que Leva
14 Para Bailar
Notas iniciais
É difícil ser a parte fraca da relação. É só ele me tocar de leve que eu já fico vermelha. Ou estremeço. Ou me arrepio, ou me contorço, ou...
Ah, sim, isso é uma relação.
Mas enfim; sou eu quem mais se mostra afetável. Não é como se Ian fosse de alguma maneira insensível a mim, não; é só que eu parecia ser mil vezes mais sensível do que ele.
Acordei hoje de manhã, ainda meio animada com a bebedeira do dia anterior, e a primeira coisa que fiz foi arranhá-lo de leve na barriga. Ele parecia dormir serenamente, com o rosto relaxado, apenas de cueca. Sabe o que ele fez? Segurou-me o pulso com força, sem nem reagir direito ao meu toque que era uma tentativa de algo libidinoso. Na verdade foi ele quem conseguiu me afetar.
Subiu rapidamente em cima de mim, tomando meus braços e prendendo-os com garras feito algemas acima da minha cabeça. Na área em que minha barriga estava exposta pela camisa levantada, conseguia sentir o calor da pele dele.
Só isso já foi suficiente para que eu corasse violentamente. Eu tinha essa mania de ficar vermelha por bosta, sabe? E ele não: encarava-me de cima, com o rosto tranquilo, quase com um sorriso brincalhão.
Abaixou para perto, fazendo com que seus cabelos raspassem na minha testa, para sussurrar:
–O que está fazendo? – revirei os olhos. Achei que fosse óbvio.
–Nada de mais. – respondi, sem conseguir evitar o tom meio insolente – Agora me deixa sair. – pedi. Ele permaneceu no lugar, como se eu não tivesse tido nada – Ian, anda logo! – exigi.
Ele abriu um sorriso para minha expressão impaciente. Eu bufei em resposta.
Ele balançou a cabeça negativamente, fingindo uma decepção.
–Acha que pode mexer comigo enquanto durmo e que não merece nada como castigo? – falou, abaixando a boca para tocar meu queixo – Não, não, você tem que aprender uma coisa ou outra. – sussurrou, agora contra a pele do meu pescoço.
Para bailar la Bamba
Para bailar la Bamba
Se necesita
Una poca de gracia
Una poca de gracia
Comecei a sentir um frio na barriga mais intenso que o comum. Ele desceu com a boca até a região da clavícula e depois desceu até o busto, parando bem acima onde a camiseta o impedia de continuar.
De repente os dedos do meu pé se contorceram quando ele meio que beijou, meio que sugou a região.
Ah... Para... Ou não...
Segurei o arquejo que queria sair. Ele olhou para o meu rosto, agora lívido. Eu respirava mais rapidamente que o normal, e ele parecia achar graça na cena.
Não consegui reunir forças para xingá-lo.
Ele roçou o queixo de leve naquela mesma área, ainda observando minha reação. Permaneci encarando o teto firmemente.
–Não vai falar nada? – murmurou decepcionado – Talvez precise tentar algo diferente. – o tom da sua voz fez com que eu tremesse de leve.
Então ele soltou minhas mãos, e bem quando eu achei que fosse me deixar sair, segurou minha cintura com força por baixo da camiseta, deixando aquela ardência onde ele encostava.
Levantou minha camiseta até a parte mais alta das costelas, apertando as mãos enquanto fazia o caminho. Minha cabeça afundou um pouco no travesseiro.
Então finalmente soltei um gemido de prazer.
Ele começou a morder todo o caminho da costela até a barriga, e dali até a pelve, parando para abaixar só a lateral da pequena peça de roupa que separava a boca dele daquele ossinho da minha pelve. Então mordeu de leve, e pude senti-lo rir quando gemi novamente, meus dedos do pé se contorcendo no lençol.
Continuou descendo até a coxa direita, descendo com as mãos logo em seguida. Estava difícil de respirar, e percebi que eu já agarrava o lençol da cama com as mãos.
Quando achei que fosse continuar, ele subiu o caminho de volta, deitando em cima de mim, as mãos apoiadas de cada lado da minha cintura. Eu estava tão consciente dele, que não conseguia olhá-lo nos olhos.
Ele tinha parte do corpo apoiado em cima do meu, e outra parte entre as minhas pernas, que cá entre nós eu estava fazendo um esforço homérico para não envolvê-lo com elas.
Ele me observou alguns segundos, antes de encostar a boca na base do meu pescoço.
–O que quer fazer agora? – perguntou. Morrer. Posso morrer agora.
Não disse nada.
Ele deslizou a língua de leve, de onde estava até o lobo da minha orelha, prendendo-o na boca. Suspirei bem no ouvido dele. Consegui ver pela esguelha que ele abrira um sorriso.
Juntei forças de não sei de onde para colocar a mão na barriga firme dele, e fazer pressão para cima. Ele não se moveu.
–Tem certeza? – perguntou com um tom de voz duvidoso. Eu não conseguia olhá-lo nos olhos. Estava constrangida demais.
Empurrei mais uma vez, agora ele cedendo e se jogando ao meu lado na cama. Levantei o mais rápido que pude e entrei no banheiro, trancando a porta. Consegui ouvi-lo rir de leve.
–Merda! – xinguei baixinho para o espelho. Pude ouvir que ele andava pelo quarto. Já estava ali fazia cinco minutos e eram minutos de pura frustração e silêncio.
Respirei fundo e decidi tomar um banho. Entrei na ducha fria, tentando acalmar os ânimos.
Qual é Mikaela, cresça. Ele não fez nada que já não tenha feito antes. Nada que já não tenha te tirado do ar. Soltei um rugido baixo.
Ay arriba Ay arriba
Por que ele tinha de ser tão bom nisso? Por que ele tinha de ser estupidamente filho da mãe ao ponto de me provocar desse jeito, SÓ PARA VER COMO EU FICAVA. Soltei outro rugido, agora um pouco mais alto.
Sequei-me no banheiro mesmo, saindo enrolada na toalha, entrando no quarto com cautela. Ele não estava ali. Ouvi a ducha ligada vindo do banheiro do corredor. Troquei-me rapidamente no quarto, e comecei a pentear o cabelo.
Ouvi Ian sair do banheiro. Entrou no quarto apenas com uma toalha na cintura, procurando suas roupas. Ignorei enquanto arrumava o cabelo, sentada na cama, de costas para a porta. O quarto ainda estava fechado, e ele pareceu lembrar-se disso; caminhou até ficar de costas na minha frente para abrir as cortinas.
Fingi que não estava vendo-o. Ele virou para falar alguma coisa, acho, mas então parou observando minha expressão supostamente distraída. Deu de ombros e foi colocar uma roupa.
Levantei e fui para a cozinha cortar uns pedaços de fruta para comer. Logo ele apareceu feliz pelo corredor. Comi a melancia quietamente, encarando um ponto atrás da cabeça.
Depois de dez minutos assim, ele suspirou, franzindo o cenho.
–O que você tem, Mikaela? – perguntou confuso, encarando-me. Desviei os olhos da parede para ele, pensando sobre o assunto.
–Nada de mais. – respondi com o olhar vago, que ele não deixou passar despercebido.
–Você estava bem logo que acordamos. Agora parece que está remoendo alguma coisa nessa sua cabeça dura. – falou, enfiando um pedaço de pão na boca. Soltei um suspiro, sem realmente encará-lo.
–Só percebi que você... – comecei, mas não sabia bem como continuar. Ele me olhou, incentivando. Engoli em seco e falei – Que você mexe demais comigo, e eu não te afeto em nada. Você até me provoca, só pra ver minha reação. Parece tão fácil para você. – falei, e ele parecia ainda mais confuso do que antes. Revirei os olhos – Na cama, Ian!
A compreensão inundou o rosto dele, logo seguido por um sorriso de quem achava que eu estava contando uma piada. Sustentei o olhar meio frustrado para ele, dizendo que “Sim, estou falando sério, sim.”.
Ele franziu o cenho novamente.
–Mas por que isso está te incomodando? – perguntou, agora o rosto um pouco preocupado. PORQUE, RAPAZ BONITO E SENSUAL, PARECE QUE MINHA HABILIDADE SEXUAL PERTO DE VOCÊ FICA ZERADA. Dei-me por satisfeita apenas apoiar a cabeça em uma das mãos.
–Eu não sei dizer. – expliquei uns segundos depois – Você é tão... E eu não sei por que, tem horas em que eu sinto como se não soubesse fazer nada, sabe? Como se não tivesse... jeito pra isso. – tentei explicar, e ele abriu um sorriso, achando graça da situação.
–Deixa pra lá. – falei, tentando sorrir também. Ele inclinou a cabeça para o lado, de maneira compreensiva.
–Mikaela, você acha que não é sensual ou alguma coisa do tipo? – perguntou. Fiz um bico de manha em resposta. Não era bem isso.
Ele sorriu em descrença para mim. Levantou de onde estava e veio para o meu lado, girando minha cadeira. Parei de frente para ele. Seus olhos eram suaves, como se achasse adorável aquilo tudo. Mas não era!
–Mikaela, você é uma garota mais... Delicada do que parece na cama. – falou dizendo as palavras com cuidado. Franzi o cenho para ele.
–Como assim? – quis saber. Ele mordeu o lábio inferior. Então suspirou e resolveu falar.
–Você é mais doce do que atirada. – disse, com o rosto preocupado, com medo da minha reação. Contive um “EI!” de indignação.
Acenei lentamente com a cabeça.
–Entendi. – e virei a cadeira de volta para o balcão, apertando furiosamente a faca na mão.
Ele ficou ali alguns segundos, me encarando com cautela, até decidir sentar-se na minha frente novamente. Comemos no mesmo silêncio de antes, só que agora eu remoía umas reclamações na cabeça.
Como assim delicada? Desde quando sexo é coisa delicada? Pode ser romântico, e acho que sempre é, mas DELICADO? EU SOU O QUÊ, UM BIBELÔ TRANSANTE?
Terminamos de comer, tirando as coisas do balcão. Ian resolveu lavar a louça sozinho, como agradecimento pelo café-da-manhã que hoje não tinha nada de especial. Dei um sorriso amargo para ele e fui para o quarto me trocar. Já era segunda-feira novamente, e eu sentia falta de quando os fins de semana duravam mais.
Coloquei uma calça jeans confortável e uma sapatilha que não usava fazia tempo, finalizando com uma blusa de alcinha par ao dia quente lá fora. Prendi o cabelo no típico coque frouxo que sempre usava, só por preguiça de arrumá-lo. Peguei minha bolsa enquanto ele terminava de arrumar a cozinha. Cruzei com ele pelo corredor, ele correndo para o quarto para trocar de roupa também.
Sentei na sala e coloquei os fones de ouvido, deixando a lista do celular tocar. Ele saiu em poucos minutos, vestido de uma calça jeans e uma camiseta cinza.
–Vamos? – chamou, pegando a chave do carro. Levantei e o segui para fora, trancando o apartamento atrás de mim.
–Como estava sua mãe ontem? – perguntei quando entramos no elevador, colocando os óculos no rosto. Ele deu um sorriso cansado.
–Um pouco mais fraca, mas bem. – respondeu – Está com saudades de você. – adicionou. Dei um sorriso sem olhar para ele, lembrando-me de Regina.
–É por isso que estou indo vê-la. – entramos no carro e seguimos em direção ao Hospital Central, chegando rapidamente lá.
Ainda era cedo, e o médico ainda não havia passado no quarto dela. Esperamos no corredor para poder entrar no quarto de tratamento intensivo onde ela ficava. Depois de cinco minutos, o médico chegou, um homem com seus quarenta anos, de rosto simpático. Cumprimentou-nos e nos guiou para dentro do quarto.
–Dona Regina, como vai você? – perguntou ele, chamando-a. Ela virou o rosto que encarava distraidamente a televisão e viu os três novos ocupantes do quarto.
–Bem! – respondeu com um sorriso amável. Ian herdara tudo dela – Ainda melhor agora. – comentou, sorrindo em minha direção. Sorri de volta, colocando os óculos em cima da cabeça.
–Como vai você? – perguntei me aproximando, o médico agora observava os equipamentos e fazia anotações em uma prancha.
–Bem, bem. – respondeu com um sorriso cansado. Estendeu a mão para que eu pegasse, e assim fiz – Ian anda comendo direito? – perguntou com um sorriso brincalhão no rosto. O rolar de olhos dele foi quase audível.
–Está sim, ainda mais quando eu cozinho. – prometi. O sorriso dela aumentou.
O médico parou ao nosso lado, como que pedindo licença para interromper.
–Tem sentido algum enjoo, dor de cabeça ou perda de apetite, Dona Regina? – perguntou com o rosto concentrado. Ela fez que não com a cabeça, e o tal médico fez mais algumas anotações na prancheta.
Fez mais algumas perguntas e ela foi respondendo enquanto eu voltava para o lado de Ian. Estava feliz por vê-la bem. Ela parecia tão relaxada, era quase impossível dizer que estava doente. Ian passou o braço por meus ombros, lembrando-me de que eu estava levemente irritada com ele.
Mas estar tão perto e sentir o cheiro dele assim tornava difícil cultivar ódio. Ainda mais quando estávamos visitando a mãe dele, e ele não tinha culpa nenhuma dos meus “pitis” internos.
Mas ainda estava incomodada com o assunto.
O médico deixou o quarto após alguns minutos, parando para falar com Ian em seguida. Dei licença e voltei para o lado de Regina, que voltara a prestar atenção na televisão. Assistia a um seriado de época o qual eu não lembrava o nome, com um pequeno sorriso no rosto.
Ian parou logo atrás de onde eu estava sentada, observando a televisão também. Regina deu um sorriso quando um casal se reconciliou, a cena dando espaço para os comerciais.
–Acho tão bonito. – comentou, com um sorriso no rosto – É muito delicado; não todas as pessoas que são assim. – senti Ian me dar um cutucão nas costas. Segurei para não dizer um nome feio ali, na frente da mãe dele. Ao invés disso apenas sorri para ela.
Ficamos o que pareceu mais de uma hora ali conversando e assistindo a televisão, tendo de sair quando o horário de visitas terminou. Despedi-me com um abraço, saindo para esperar na porta do quarto.
Ian parou na minha frente, e eu não pude deixar de dar um sorriso mal humorado para ele.
–O que foi? – perguntou inocentemente. Comecei a caminhar em direção ao estacionamento, decidida a não me incomodar com o assunto. Era besteira.
Ouvi os passos dele me acompanhando, logo tendo visão dele ao meu lado. Abaixei os óculos de sol.
–Mikaela? – perguntou, agora confuso – Você acordou com um humor ruinzinho hoje, ein. – adicionou, fazendo-me parar para olhá-lo. Acho que se não estivesse de óculos ele teria pegado fogo. Então ele pareceu compreender, porque logo deu um sorriso. Soltei um rugido de impaciência, voltando a andar.
Parei na frente da porta do carro, esperando que ele abrisse. Entrei assim que destrancou, e ele logo em seguida.
–Mikaela, era brincadeira. – falou sem ligar o carro. Coloquei os fones de ouvido. Ele revirou os olhos, agora um pouco impaciente – Às vezes esqueço como é mais nova.
Trinquei os dentes para o comentário dele.
Deu partida e seguiu em direção a um restaurante no centro, a fim de almoçar antes de ir trabalhar.
Chegamos, comemos e partimos em silêncio, eu não tirei o óculos do rosto e os fones do ouvido em nenhum instante. Ian revirou os olhos de cinco em cinco minutos para mim. Estávamos na porta do meu prédio quando ele resolveu falar.
–Vamos nos ver hoje? – perguntou com a cabeça encostada no banco do carro, me encarando com uma expressão que não soube dizer o que era.
–Claro. – falei, pensando no assunto. Ele pareceu sorrir antes que eu dissesse: – Vamos chamar o pessoal e beber. – sugeri. Ele murchou um pouco, mas acenou.
–Vamos fazer em casa, ontem já foi na sua mesmo. – ofereceu, tentando ser simpático. Fiz que sim com a cabeça.
Ele me encarou com expectativas por uns segundos, então foi minha vez de apoiar a cabeça no encosto do banco.
–O que foi? – perguntei.
–Você está assim por causa do que falei? – perguntou, com o cenho franzido. Não respondi; ele suspirou, tirando uma mecha solta do meu cabelo do meu rosto – Não é uma coisa ruim, sabia disso?
Dei um sorriso pequeno para ele, meio cansada. Depositei um beijo leve nele e parei para olhá-lo de perto.
–Tudo bem. – falei. Abri a porta e desci do carro. Fechei-a e esperei que ele abaixasse o vidro – Bom trabalho. – desejei, fazendo-o sorrir. Entrei no prédio sentindo o gosto amargo da derrota.
Mandei mensagem para todas as garotas hoje, todas contendo a mesma notícia. “Casa do Ian, às onze e meia.” Sansa respondeu que conseguiria ir sim, só que só perto da meia noite por causa da aula na faculdade. Mandei um “ok” em resposta. Avalon e Eileen concordaram, embora Eileen tivesse reclamado do fato de ser uma segunda-feira e ter de trabalhar no dia seguinte à tarde. Pelo menos não era de manhã, oras!
Resolvi que queria deitar um pouco; olhei para o relógio e era uma e meia. Dormi um sono pesado, acordando as três em ponto. Fui para o chuveiro e me lavei; resolvi secar o cabelo para deixa-lo solto mais tarde. Ainda nas toalhas, fiz uma maquiagem mais elaborada do que estava acostumada no rosto; algo marrom e dourado leve em volta dos olhos, que acabaram realçando a cor de chocolate deles. Rímel e outras parafernalhas mais, e já estava mais arrumada do que era necessário.
Fui para o quarto já de calcinha e sutiã (um conjunto preto que eu gostava muito) para me trocar: e coloquei uma calça preta justa de cós baixo que ganhei de Sansa e que usava em poucas ocasiões (às vezes passava a ideia errada). Tudo bem; era sim uma calça de couro (sintético!) muito bonita.
Comecei a procurar o tênis que eu gostava de usar para ir trabalhar quando passei na frente do espelho. Voltei para ver o reflexo; eu ainda não estava com uma parte de cima, então olhei para o que era um sutiã a mostra deixando os meus seios empinados. Parei para pensar um pouco.
Quer saber?
Procurei uma blusa que eu havia comprado um tempo atrás, branca com um decote em “V” largo e profundo, de manga comprida. Coloquei-a e voltei para frente do espelho ver o resultado.
Eu era um pouco mais magra na época, e ela não ficava tão bonita; agora a blusa ficava justa onde deveria ficar e mostrava a região do busto e da clavícula como um vestido meio clássico. Deixei assim.
Trabalhei tranquilamente naquela noite, cozinhando no que era um restaurante com não muito movimento. Ian buzinou do lado de fora, e eu ainda estava com o avental e o chapéu quando ele entrou. Passava um pouco das onze, e eu acabara conversando com Marion sobre umas receitas e esquecido do tempo.
–Já volto, vou pegar minhas coisas. – falei, indo para a parte de trás. Ele acenou, esperando no grande salão. Tirei o avental e o chapéu, arrumando o cabelo de leve; peguei tudo e voltei.
Ian conversava com Marion sobre alguma coisa quando voltei. Parei ao lado dele, que não tinha percebido minha presença até que eu o cutucasse.
–Vamos. – falei com a jaqueta nas mãos. Ele virou para mim a fim de responder, mas não falou nada. Olhou-me dos pés à cabeça parando umas duas ou três vezes na região da “gola” da blusa.
–Onde você pensa que vai? – perguntou perplexo, fazendo o Chef rir. Ele acenou e se despediu, deixando-nos a sós.
Franzi o rosto para ele, sem entender.
–Mas como assim “Onde nós vamos?”? – perguntei – Achei que fôssemos para sua casa; já chamei as garotas e tudo mais. – expliquei. Ele ficou alguns segundos, boquiaberto, voltando a encarar meu decote. Desviou os olhos rapidamente para meu rosto.
–Mas... – ele tentou falar, meio indignado. Eu arqueei as sobrancelhas, começando a ter uma ideia do motivo acesso dele – Você não acha que está... Um pouco... demais? – perguntou enfim, soltando um pigarro. Os olhos desceram rapidamente mais uma vez para meu decote.
Abri um sorriso discreto. Dei uma volta com os braços abertos ao lado do corpo.
Bamba Bamba
Bamba Bamba
Bamba Bamba
Bamba Bamba
–Não está bom? – perguntei. “Cínica.” Foda-se.
Ele engoliu em seco, olhando o todo mais uma vez. Parou em pontos específicos do meu corpo como as coxas, o decote mais uma vez (estava começando a ficar com medo de que fosse cair) e meu rosto, fixando os olhos nos meus, e depois na minha boca. Dei um sorriso torto para ele.
Quem é delicada, mesmo?
Para bailar la Bamba
Para bailar la Bamba
Se necesita
Una poca de gracia
Una poca de gracia
Pa mi y pa ti
Ay arriba
Ay arriba
–Vamos ou não? – perguntei, agora dando um passo para mais perto dele. Ele coçou a testa de leve e então balançou a cabeça.
–Claro, vamos. – então saímos para a parte da frente do restaurante. Coloquei a jaqueta, fechando só metade, fazendo questão de atormentá-lo. Em algum lugar tive noção de que ele assistia o ritual atentamente. Coloquei o capacete e esperei que ele ficasse pronto.
Subimos na moto e partimos para a casa dele, chegando depois de alguns minutos nos quais aproveitei a sensação do ar forte no rosto. Ele parou a moto na frente no quintal, sem usar a garagem. Tirei o capacete, balançando a cabeça desajeitadamente para arrumar o cabelo, batendo de leve na parte de trás.
Acho que para Ian deve ter sido como uma daquelas cenas sexys onde a gostosona desce da moto e chacoalha até os seios junto, porque ele ficou assistindo atentamente. Estava começando a ficar entre preocupada e divertida com a situação.
–O que foi? – perguntei, dessa vez realmente querendo saber a resposta dele. Ele só acenou como quem diz que não é nada de mais, e abriu a porta para entramos.
O pessoal foi chegando aos poucos; primeiro Avalon com Eileen, seguidas por Sion. Alguns minutos depois entraram Mark e Robb pela porta, o ruivo segurando não apenas uma, mas duas garrafas de tequila. Ela tinha um problema sério de bebida.
–Estou de folga no bar hoje, e aproveitei para pegar umas bebidas. – explicou animadamente, cumprimentando-nos. Chegou perto de Eileen e estendeu uma garrafa para ela, que pegou meio sem jeito – Vamos colocar para gelar. – explicou. Ela sorriu e segui o rapaz animado pela cozinha.
Ian ajudava Sion e Avalon com a comida enquanto eu esperava sentada na sala, tomando cerveja e comendo batata frita. Mark sentou-se ao meu lado.
–Como vai? – perguntei simpaticamente. Ele sorriu para mim.
–Você está muito bem hoje. Ian ainda não desmaiou? – perguntou com um ar confidente, fazendo com que eu risse.
–Não, mas estou quase lá. – falei, fazendo-o rir de volta.
Ian parou na porta da sala, observando-nos. Olhei para Mark e comecei a rir, enquanto ele só dera um sorriso para o amigo como quem diz “Relaxa.”.
–Sai daí. – disse Ian para o amigo, que balançou a cabeça em resposta, mas fez o que ele pediu. Ele ocupou o lugar onde estava o mestiço, que acabou sentando no sofá ao lado. Este pegou uma cerveja e começou a comer distraidamente.
Ian me olhava de lado enquanto eu bebia tranquilamente um gole do néctar dos deuses. Colocou uma porção de algo parecido com nuggets e molhos na minha frente.
Inclinei-me na mesa para pegar, e então senti a mão dele fechar o zíper da minha jaqueta. Parei com o petisco a meio caminho do pote de molho, sem acreditar no que ele estava fazendo.
–O que tem de errado com você? – sussurrei encarando-o, incrédula. Ele soltou um suspiro frustrado. Então balançou a cabeça, como se percebesse a idiotice do que estava fazendo.
–Você está diferente. – falou. Minha confusão só aumentou. Ele fez um bico teimoso, lembrando-me um garoto de dez anos – Não é ruim. Na verdade está muito bom. Bom demais. – completou.
Eu tive que rir disso. Balancei a cabeça ignorando, comendo o pedaço de frango que tinha nas mãos.
Ouvimos a campainha tocar pouco depois da meia noite, quando todos já estavam sentados na sala, bebendo e conversando. Valentina e Sansa entraram, trazendo sal e limão.
–Eileen mandou uma mensagem pedindo para trazer. – falou Valentina, chacoalhando a sacola. Entraram na sala com as compras, e Robb abriu um sorriso para elas em agradecimento.
–Agora sim a noite pode começar! – anunciou felizmente. Sansa e Valentina comemoraram com ele indo até a cozinha ajudar a preparar as bebidas.
Eileen revirou os olhos, achando graça.
–Tudo bem se ele ficar eufórico. – falou Mark ao ouvido dela, fazendo-a virar-se e dar de cara com ele perto. Ela estava sentada no chão, na frente do sofá onde este estava – Não é como se ele fosse uma pessoa muita calma quando sóbrio. – completou, fazendo-a rir. Abri um sorriso para a cena.
Os três que foram para a cozinha logo chegaram com vários copos de doses, o que me fez encarar Ian como quem diz “Onde você arranjou tudo isso?”. Todos menos Sion e Mark aceitaram doses. Eu já disse que amo tequila?
Eu amo tequila.
Adoro como quando você vai bebendo doses e vai sentindo o corpo esquentar e ficar leve ao passar do tempo. Precisei tirar a jaqueta e acabei jogando-a em cima de Ian sem perceber.
Robb serviu mais uma rodada (que já devia ser a quinta talvez) e agora apenas eu, ele e Valentina estávamos tomando. Quando virei o copo senti aquela tontura agradável do álcool fazendo efeito. Avalon bateu palmas incentivando mais uma.
Dei uma risada meio escandalosa sem perceber, tirando risadas do grupo.
–Espera que eu... Preciso ir ao banheiro. – articulei lentamente. Por algum motivo Avalon achou aquilo hilário, assim como Eileen e Sansa. E Sion e Mark também. Dei de ombros e lancei um beijinho para eles, saindo para o corredor.
Acho que levei alguns minutos no banheiro, não consigo me lembrar muito bem. Parei na frente do espelho após lavar as mãos, olhando para o reflexo. Fora um pequeno rubor nas bochechas, não parecia estar nem alegre. Abri um sorriso mole e saí do banheiro.
Ian me esperava na porta.
–Vishe! – exclamei assustada. Não estava esperando ele ali. Tive que me apoiar na parede para me manter ereta.
–Acho que está bom por hoje, não é? – falou ele, arqueando as sobrancelhas. Franzi o rosto.
–Que nada! A festa só está começando, gatinho. – respondi, dando um tapinha de leve no rosto dele, saindo dali. Ele segurou meu braço, girando-me facilmente.
Bati com tudo no corpo dele.
–Ai, calma lá... – reclamei. Ele me olhou de cima como quem inspira profundamente em busca de paciência.
–Você nem consegue falar sem levar uma hora para completar uma frase. – disse ele, ainda me segurando. Mostrei a língua para ele e me soltei girando de volta para o corredor, com os braços abertos.
Cheguei na sala recepcionada por gritinhos.
–Mikaela, dança pra gente. – pediu Valentina, com um sorriso mole no rosto. Mordi o lábio sem ter certeza.
–Mas eu não sei dançar. – expliquei.
–Mas não tem problema, dança essa aqui. – falou Avalon, por algum motivo tinha um sorriso de expectativa no rosto que não consegui entender.
Algo com maracas e trombetas começou a tocar no fundo, e puxei Sansa para dançar comigo. Ela era melhor do que eu nisso. Comecei a rodar com os braços acima da cabeça, ouvindo assovios do pequeno público. Fui parar de braços abertos, mas por algum motivo perdi o equilíbrio; alguém me segurou e me endireitou.
Retomei a dança, mas o show não durou muito; Ian parado atrás de mim desligou o rádio, com o rosto severo. Vi Sion esfregar o rosto com uma mão, puxando Avalon para longe dali.
Que horas eram?
Robb dormia de boca aberta no sofá, com o rosto muito vermelho por causa da bebida.
–O que você está fazendo? – perguntei aborrecida. Poxa a festa estava tão divertida!
–Acabando com esse seu show de rebolados. – falou, aproximando o rosto. Ele parecia nervoso, mas eu não conseguia saber porquê.
Aos poucos o pessoal foi evadindo a casa, se despedindo-se na porta. Só pude ver Mark carregando Robb nos ombros, parando para dar tchau para Eileen. Ele segurou-a pela nuca e depositou um beijo demorado no rosto.
–Boa noite. – consegui ouvi-lo dizer com um sorriso no rosto. Eileen tomou três tons a mais de vermelho antes de acenar para onde estávamos e deixar o lugar com Avalon.
Então ficou tudo quieto. Sentei-me no sofá da sala, desapontada pelo súbito término da diversão.
Droga, mas por que Ian fez isso? Ele aparece com um sanito vindo do corredor, recolhendo as latas e garrafas espalhadas. Parou para chacoalhar uma garrafa vazia de tequila para mim, e depois outra que estava na metade.
Eu não lembro de termos tomado tudo isso.
Fiquei observando enquanto ele limpava tudo, em silêncio. Parecia de alguma forma frustrado.
–O que você tem? – perguntei por fim, fazendo-o parar para me encarar. Ele carregava um ar frustrado.
–Mikaela, o que é esse show que você deu? – perguntou, deixando de lado a tarefa e parando na minha frente.
Eu o olhei de baixo, ainda sentada no sofá.
–Não dei show nenhum. – respondi de maneira teimosa. O que ele queria dizer com isso?
–Não deu? – perguntou novamente, agora com as mãos no cós da calça. Ele respirou fundo, me olhando de cima a baixo.
Ele estava estressado, e juro que não sabia dizer o motivo. Mas algo nos olhos deles fez com que eu me levantasse lentamente, colocando as mãos na lateral do corpo dele. Ele ficou parado me observando.
–Não fique chateado. – falei olhando para baixo. Então coloquei as mãos por baixo da camiseta branca que ele usava, fazendo desenhos com as pontas dos dedos quando subi as mãos pelas suas costas.
Senti-o respirar fundo. Ainda me encarava sem dizer nada.
“Ciúme.” Então fitei seus olhos, procurando alguma reação. Arranhei a região entre as omoplatas dele, sentindo-o retesar-se.
Cheguei mais perto, o corpo todo encostado nele. Percebi que ele respirava um pouco mais rapidamente.
Eu não queria ser delicada. Não agora. O que eu vi nos olhos dele não era medo de me quebrar. Era desejo.
Tirei a jaqueta que ele usava, sem sentir resistência nenhum da parte dele. Subi uma mão suavemente pelo braço direito dele, alcançando sua nuca. A outra ficou parada no quadril dele. Vi alguma coisa se agitar nos olhos dele. Isso.
Guiei-o para o sofá, sentando-o na minha frente. Ele me encarava com olhos famintos, me deixando cada vez mais estimulada. Peguei suas mãos e coloquei no meu quadril, segurando-a ali. Senti ele segurar com firmeza, quase agarrar o lugar com força.
Peguei a base da blusa e tirei-a pela cabeça, jogando-a no sofá. Ele só me observava, agora os olhos levemente arregalados como se ele se contivesse. Fiquei alguns segundos de pé na frente dele, com os braços soltos, só encarando-o.
Senti uma vontade imensa de tocá-lo novamente.
Coloquei minhas mãos nos ombros dele, sentando no seu colo, ficando mais alta do que ele estava. Senti uma das mãos dele subir para o meu pescoço, e a outra descer para segurar minha coxa.
Ele tinha a visão perfeita no meu busto, então deixei que olhasse o tempo que quisesse. Senti que a respiração dele já não era mais controlada, e que suas mãos já me apertavam como se ele não conseguisse se contentar só com a visão.
Levantei o rosto dele, meus cabelos caindo pelos lados. Estava meio distante dele, mas ele quebrou a distância puxando minha coxa para baixo, fazendo com que eu sentasse por inteira no colo dele. Os olhos dele agora estavam na altura dos meus agora.
Apertei os cabelos da nuca dele, e o pressionei mais contra o sofá, me inclinando também.
–Ainda está chateado? – sussurrei, meus lábios roçando nos dele. Ele avançou para mim, mas eu o segurei no lugar. Encarei os olhos dele até que não consegui contê-lo, puxando-me com força ao seu encontro. Os lábios dele eram furiosos, famintos, e os meus igualmente insaciáveis.
Senti uma série de arrepios percorrerem meu estômago, quase como se Sapulinho brincasse de eletricista ali. Não conseguia ficar satisfeita com a distância que tinha dele, então pressionei mais e mais o corpo no dele, até que ele soltou algo entre um rugido gutural e um gemido, mordendo meus lábios.
Suspirei em resposta, sentindo que ele puxava minhas pernas para envolvê-lo. Não percebi que ele estava de pé, nem que me carregava. Agarrei-me ao pescoço dele com os braços e à cintura com as pernas.
Chegamos rapidamente ao quarto, ele me pousando sentada de leve na cama, quebrou a distância só para arrancar a camisa e jogá-la longe. Eu levantei de frente para ele, abrindo o cinto e o zíper da calça dele, puxando-a para baixo até que caísse o resto do caminho.
Ele me pegou no colo de novo, nunca satisfeito com o beijo furioso que dava. Deitou-me de costas, comigo apoiada nos cotovelos. Ele começou a abrir o zíper da minha calça, puxando-a para baixo, como se desembrulhasse o tão esperado presente de natal.
Jogou a peça ao lado da cama, parando para me olhar de cima.
Nunca tinha visto ele me olhar desse jeito. Senti meu peito descompassar um pouco quando os deles encontraram os meus. Ele se inclinou em cima de mim, cercando-me com os braços.
Deitei conforme a aproximação dele, observando sua reação.
–Não devia ter feito isso. – murmurou com a voz rouca. Um calafrio percorreu minha espinha. Brincou com o pequeno laço do meu sutiã antes de segurar minha cintura com força. Abaixou a cabeça para a base do meu pescoço, roçando os lábios ali – Mexeu comigo desse jeito... Agora vai ter que lidar comigo.
Então mordeu onde encostava com a boca. Soltei um gemido involuntário.
Nunca imaginei que fosse vê-lo desse jeito. Nunca imaginei que, na verdade, eu tivesse sim jeito.
Mas não dizer se era eu, ou ele. Talvez fossemos nós dois.
Mas de uma coisa eu tinha certeza: juntos a gente dava certo.
Para bailar la Bamba
Para bailar la Bamba
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Una poca de gracia
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