O Tempo Dos Crónidas

1 Héstia (parte I) - Capitulo 1


Notas iniciais
Apenas um introdutório, vou postando a historia conforme a inspiração, então ela pode demorar um pouco entre um capítulo e outro. Espero que não seja motivo para desmotivar ninguèm quanto à leitura.

— Meus óculos! Eu derrubei meus óculos!

João era cego sem seus graus. Assim que sentiu as pernas dos óculos escorregarem e caírem, jogou-se ao chão, tateando para encontrá-los. Raquel, sua mulher, que percebera alguns passos a frente que o marido tinha parado de correr, voltou para ajudá-lo, encontrando os óculos já pisoteado pelos pés do próprio dono.

— Por favor, nós temos que continuar.

Raquel usou a força que não tinha para colocar o braço do marido em volta de seus ombros e correr desesperadamente ao encontro dos seus filhos, que haviam parado mais à frente.

— Ei! Não falei pra ninguém parar, corram!

Não precisou olhar para trás para saber que precisaria correr com mais forças que antes. Os grunhidos que vinham detrás eram alto suficientes para que Raquel conseguisse sentir previamente as mãos das criaturas lhe puxando a roupa para tentar mais uma mordida.

Era pra ser um fim de semana calmo no campo. Tinham ido ao vilarejo próximo à sua casa para comprar comida. Reviu alguns amigos que tinham feito no último verão e estavam retornando calmamente ao fim da tarde com as sacolas nas mãos, respirando o ar que só encontravam naqueles bosques e que tanto lhes faziam falta na cidade. Foi próximo à sua casa que viu o corpo de um homem ferido e tentou ajudá-lo, recebendo em troca da ajuda uma mordida tão forte que lhe arrancara um pedaço de carne do braço direito. O pai tentou até discutir com aquele homem cujo rosto provavelmente fora desfigurado por alguma doença de pele terrível, enquanto o sangue de sua mulher escorria pela boca do homem que tinha agora uma expressão de alívio por ter matado um pouco da fome que lhe acompanhara por dias. Mas quando viu que o homem estava em companhia de um grupo grande que saia por detrás das árvores, atraídos pelo cheiro do sangue e com os mesmos rostos horrendamente desfigurados e olhos cheios de fome, desistiu de trocar quaisquer palavra e João e sua família não precisaram de conversa para saberem que a ordem era correr.

— Acho que os despistamos. — Raquel enfim pôde parar de correr quando os grunhidos se afastaram tanto que o único som que ouviam novamente era o cantar dos colibris. Soltou o corpo do marido e sentou-se, encostando-se numa árvore para descansar os ombros e poder, finalmente, olhar para o ferimento em seu braço.

— Você está bem mamãe? — Os olhos assustados do pequeno Júnior quase não conseguiam encarar o ferimento. A ferida era profunda demais até para uma criança de sete anos que vivia se machucando em suas molecagens.

— Estou bem, meu filho. — A mãe respondeu, tentando acalmar o filho.

— Enrola isso, mãe. Estanca esse sangue! — Alice, a filha de quinze anos, retirou um lenço branco do bolso, amarrando no braço da mãe. — Temos rápido que limpar essa ferida, ou vai infeccionar.

— O que era isso, meu deus? — João estava em choque.

— Eu não sei, mas estamos próximos a nossa casa. Estaremos seguros lá e podemos ligar para a polícia.

— Não enxergo um palmo à frente do nariz. — Disse João, desesperado.

— Seus óculos extra estão na minha mala. Eu sabia que você iria esquecer. Vamos pra casa! Acredito que, depois disso, as férias de campo acabaram. — Disse Raquel, levantando-se para pegar o marido novamente pelos ombros e conduzir os filhos.