O Tempo Dos Crónidas
2 Héstia - Capítulo 2
— Acho que tem alguém lá dentro! — O Sol já começara a esfriar quando chegaram próximos a sua casa. Estavam cansados, mas não avançaram para entrar de imediato. Um silêncio estranho pairava no ar. Alice avançou alguns passos para frente do arbusto onde a família toda espreitava, ainda tementes ao acontecimento das ultimas horas. Olhavam para os quatro cantos, atentos à qualquer movimento. Pela janela na pequena casa da família, podia-se ver a movimentação das manchas coloridas de algo que pareciam crianças caminhando no interior da sala.
— Eu estou com medo mãe... E se foram mais... Daquilo? — Júnior tremeu dentro do braço ferido da mãe.
Psiu.
Raquel olhou em volta, procurando aflita pelo chamado.
Psiu.
Um garoto de roupas sujas de poeira estava não muito distante do arbusto em que a família se escondia. Raquel tentou reconhecer aquele rosto sem sucesso. Hesitando, avançou vagarosamente para a árvore em que o garoto estava trepado.
— Não entrem lá! — Disse o garoto, mordendo o suco de uma laranja.
— O que está acontecendo e quem é você? — Perguntou Raquel, confusa.
— A primeira eu não sei e a segunda não importa. As pessoas começaram a agir estranho, é tudo que sei. Sua casa foi invadida! — Explicou o garoto, o rosto sereno encarando a fruta.
— Aquilo invadiu? — Perguntou Raquel.
— Primeiro foi invadida por uma família, provavelmente procurando por refugio. Mas não demorou muito para que a porta dos fundos fosse destruída pelas... Coisas. Eles comeram todo mundo... — O garoto abaixou a voz, as imagens vindo novamente em sua mente. — Eu até os vi lambendo os ossos. Se quiserem sobreviver, podem me seguir. — Disse, saltando de cima da árvore e caindo nas folhas secas quase sem fazer barulho, como se não pesasse nem um quilo.
— E você está aqui pra nos avisar e salvar nossa vida? — Raquel perguntou, arqueando a sobrancelha de dúvida. — Há quanto tempo você está aqui e por quê?
— Sabe como é. Eu vivo por aqui e por ali. — Disse o garoto já se afastando da família para continuar seu caminho. — Na verdade vocês me encontraram aqui por coincidência. Fiquei aqui pra tentar descobrir alguma coisa. Estou quase o dia inteiro aqui, observando tudo desde que a família foi devorada... Foi tudo muito rápido.
— E o que você descobriu? — Raquel olhou rápida para dentro da casa ao ouvir um vidro partindo.
— Posso te contar no caminho... Não pretendo ficar aqui até a noite cair por completo.
— E pra onde você vai? — Raquel sentiu o desespero da dúvida. O que poderia fazer? Confiar num garoto estranho que podia saber tão pouco quanto ela para "sobreviver" ou confiar no nada?
— Tem um galpão aqui por perto. Podemos passar a noite lá, fazendo uma fogueira. Nesse galpão tem algumas ferramentas que podem nos manter seguros... Acho que cabe todo mundo.
No fundo, Alice e Júnior mantinham-se abraçado ao pai, esperando aflitos para saberem o que estava acontecendo.
— Vamos com você mas... Meu marido perdeu os óculos enquanto fugíamos dessas coisas. Levei... Uma mordida no braço e ele... Ele não consegue enxergar um palmo a frente do nariz sem os óculos.
— O que nos tornaria muito lentos... Onde estão estes óculos?
Raquel engoliu em seco, olhando para dentro da casa e vendo mais duas manchas se unirem às anteriores na janela.
— No quarto...
O garoto olhou para a mesma direção, apertando os olhos.
— Eles estão em cinco. Duas crianças...
— Crianças?
— Eu não sei o que aconteceu, nem como acontece... Eu conheço uma dessas crianças lá da Vila... Ela estava bem até hoje de manhã, me cumprimentou pela manhã quando saía para caminhar pelas florestas. Não sei como chegou aqui e nem como ficou assim. Cheguei a correr de volta à Vila, mas já era tarde demais para descobrir qualquer coisa. Os que não estão mortos, ou fugiram ou viraram canibais.
— Meu deus!
O garoto olhou em volta por um instante e pegou um pedaço de madeira suficientemente pesado. Jogou para as mãos de Raquel, que segurou sentindo a pontada de dor na mordida do braço.
— Se quer pegar este óculos, vou precisar de você. — Disse o garoto, a voz tomando uma tonalidade que lhe envelheceu cinco anos. — Preciso de uma planta da casa, você consegue desenhar?
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