Enquanto estava inconsciente, Diana sonhava com Raquel. Lembranças de quando eram crianças e brincavam, lembranças de quando Diana defendia a irmã de outras crianças, que caçoavam da inocência de Raquel, lembranças de seus pais.

A imagem de Raquel tomou foco na mente de Diana. Sua irmã, já em seus dezenove anos, correndo desesperada em direção a ela, em meio a um cenário estranho, uma floresta escura e cheia de espinhais. Por trás dela se erguia uma espécie de sombra, numa intensidade tamanha que podia ser vista na escuridão da floresta, que se expandiu até absorver Raquel.

Um grande rosto se projetou na sombra, sorrindo. Era o homem encapuzado que levara Raquel, o sacerdote.

Diana ouviu a voz de Raquel, dizendo algo muito baixo. Ela não pôde compreender de começo, mas depois de um tempo a voz aumentou.

“Por que você não me ajudou? ” Raquel fitava a irmã. Seu rosto não expressava mais medo ou desespero, mas ódio. Seus olhos ardiam ódio.

Diana tentava dizer algo, mas sua voz não saía. Ela estava se sentindo péssima por aquilo. Ela estava desesperada.

O rosto do sacerdote abriu a boca, como se fosse uma cobra, e avançou. Quando Diana estava sendo engolida, tudo se tornou trevas.

Diana levantou assustada. Seu coração batia acelerado e ela estava suando muito.

Olhou ao redor e viu que estava deitada em uma cama, num quarto simples.

− Você está na hospedaria, se é essa sua dúvida.

Ela se virou para quem disse isso e viu uma mulher encostada na janela, olhando para ela. Ela tinha em torno de trinta anos, cabelos negros amarrados num rabo de cavalo e usava um vestido simples marrom.

Do lado de fora o sol já estava no alto.

− O que houve? − A garota perguntou.

− Aquele rapaz forte te trouxe aqui e me pagou para cuidar de você. Esteve inconsciente por dois dias.

− Dois dias?! E Raquel? E a minha irmã?

− Não sabemos de outra garota. Dos bandidos, o único que sobreviveu tentou escapar, mas o rapaz o dominou e o amarrou antes de trazer você aqui. Eles estão na oficina do ferreiro... dá para ouvir daqui...

Diana ia perguntar do que a mulher estava falando, quando também ouviu os gritos de dor. As duas se olharam, mas nada disseram.

Então sua irmã ainda estava em perigo. Não, poderia ser pior, pois já se passaram dois dias. Sua irmã já poderia estar morta agora. Ao pensar nisso, o desespero e a sensação de vazio dentro de si aumentaram.

Ela abaixou a cabeça e a apoiou nas mãos, chorando em desespero. Mesmo depois de tudo que passara, ela não conseguia encontrar paz. Estava fadada a sofrer.

Então alguém abriu a porta, fazendo um ruído fino e prolongado por causa das dobradiças.

Um rapaz entrou no quarto. Diana se lembrou de tê-lo visto antes de desmaiar. Foi ele quem a salvara.

− Hum, finalmente acordou. Prazer, sou Eduardo. Eu descobri onde está a outra garota. Ela é sua irmã, não?

− Sim − disse Diana.

Ela também se apresentou. Eduardo continuou.

− Ele me contou o que aconteceu e o que os sacerdotes querem fazer com sua irmã. Parece que eles querem usá-la como sacrifício em um ritual para uma deusa serpente. Uma tal de Ouja.

Diana estava horrorizada. Raquel era tudo que lhe sobrara de sua família, de sua própria humanidade, mas o que ela podia fazer para salvar sua irmã? Mesmo que sempre fosse a mais forte, aquilo era mais do que ela poderia suportar.

Ela se encolheu ainda mais na cama, a sensação de vazio tomando cada vez mais espaço, dominando cada vez mais seu coração...

− Devo levar um tempo para encontrar o tal do templo, mas pode ficar tranquila. Vou trazer sua irmã de volta.

Ao ouvir isso, Diana levantou a cabeça para o rapaz. Ele sorria. Era um sorriso puro, tranquilo, como se aquilo que ele dissera fosse comum em sua vida.

− O quê?

− Eu disse que vou trazer sua irmã de volta.

− O quê? Mas... por quê? Eduardo ainda sorria.

− Bom... Digamos que eu sei como você está se sentindo e quero acabar com isso.

Diana retribuiu o sorriso.

− Onde esses sacerdotes estão? − Ela perguntou.

− Eles têm um templo, uma espécie de torre, há algumas horas daqui, e como você passou bastante tempo desacordada, talvez... – Eduardo não terminou, pois notou que Diana entendeu o que queria dizer quando ela abaixou a cabeça, ocultando dele seu rosto.

A garota passou alguns minutos naquela posição, sem dizer nada. Eduardo respeitou o silêncio e foi para perto da janela, olhar

a cidade.

− Me ajude novamente. Me ajude a salvar minha irmã − Diana levantou a cabeça e olhava nos olhos dele. Eduardo percebeu que todo o desespero havia sumido, dando lugar a uma coragem fora do comum, tamanho era o amor da garota pela irmã.

Eduardo riu. Sabia que Diana iria atrás da irmã com ou sem sua ajuda, então, para manter a agitação que já era comum em sua vida, resolveu ajuda-la uma vez mais.

− Pode deixar, nós vamos trazer sua irmã de volta.

. . .

Algum tempo depois, os dois já estavam saindo da cidade. Eduardo tinha sua cimitarra embainhada na cintura e trazia cordas em uma bolsa no ombro. Diana, que havia amarrado os cabelos em um “rabo de cavalo”, nada trazia consigo.

Eduardo perguntou se Diana podia leva-lo ao lugar onde se encontrou com os bandidos. Ela o levou até lá. Chegando no local, Eduardo parou para examinar.

− Por que viemos até aqui? − Diana perguntou.

Ele nada respondeu. Olhando ao redor, ele viu uma árvore de tronco grosso e copa alta.

− Espere aqui – ele disse, indo até a árvore. Ele deixou suas coisas no pé da árvore e começou a subida. Escalando com a facilidade de um animal, Eduardo rapidamente chegou ao topo. O sol feriu os olhos de Diana quando ela tentou olhar para cima.

− O que você está fazendo? − perguntou Diana, mas não obteve resposta. Já era a segunda vez que ele a ignorava, e isso estava começando a irritá-la.

Alguns instantes depois Eduardo desceu. Pegando de volta seus pertences, ele disse:

− O templo fica a sudeste daqui, no meio da floresta. Não pude ver muita coisa, graças à densidade da floresta, mas não acho que teremos problemas para chegar lá.

Ele começou a andar para dentro da floresta, mas Diana o parou, correndo até ele e o segurando pelo ombro.

− Espere, tem algo que precisamos conversar. Eduardo a olhou confuso.

− O que?

− Quando eu te pedi me ajudasse a salvar Raquel foi porque eu sei que sozinha eu não vou conseguir. Mas não é por isso que vou deixar você fazer tudo sozinho. Não sou uma donzela indefesa. Não me trate assim.

Naquele quarto da pousada, Diana decidiu que faria de tudo para ter sua irmã de volta. Não poderia ficar dependendo de Eduardo para tudo.

O guerreiro começou a rir.

− O que foi? − ela perguntou irritada.

− Na verdade, eu não te acho uma “donzela indefesa”. É preciso muita força para tomar a decisão que você tomou. E eu só não estou acostumado a interagir com as pessoas. Sabe, eu cresci no meio do mato com um mestre que me fazia sair sozinho para caçar, lutar contra bandidos e criaturas da floresta. Nós não éramos muito de conversar. Se eu não falo muito com você, é por costume. Agora, acho melhor nos apressarmos.

A moça não estava preparada para uma resposta dessas. Ficou alguns instantes, parada, pensando no que o rapaz disse e ficando envergonhada por ter uma atitude tão egoísta. Não percebeu que Eduardo já estava seguindo pela floresta até ele a chamar.

A caminhada deles pela floresta durou cerca de oito horas. O sol já estava começando a descer quando eles enfim puderam avistar a construção cercada por árvores.

O templo, construído com enormes placas esmeraldas, se misturava à cor da vegetação, mas se destacava quando refletia a luz do sol. Era construído como uma torre, com janelas que indicavam ter mais de dez andares, segundo Eduardo. Ocupava quase o mesmo espaço que uma cidade. Era uma amálgama de beleza e mistério.

O terreno ao redor do templo tinha várias tochas fincadas de forma circunférica, e vários homens de mantos verde esmeralda com capuzes que lhes cobriam os rostos, os sacerdotes, perambulavam por todos os lugares. Parados na entrada, haviam dois guardas, um de cada lado dos grandes portões de madeira que estavam abertos. E mais sacerdotes estavam entrando e saindo pelos portões.

Diana, sem tirar os olhos da torre, perguntou num sussurro:

− Como vamos entrar ali?

− Ainda estou pensando − respondeu Eduardo. Ele duvidava que houvesse outra entrada além do grande portão − Por enquanto, vamos observar.

Diana bufou.

− Não gosto dessa ideia.

− Você tem alguma melhor?

Ela ia replicar, mas desistiu, bufando novamente.

Algum tempo depois, quando o sol já se pondo, ouviu-se o soar de um gongo. O som se repetiu por mais duas vezes. Os sacerdotes começaram a entrar na torre. Depois de um tempo todos já estavam lá dentro e os portões foram fechados.

Eduardo aguardou alguns instantes a mais onde estava e. percebendo que não havia perigo, se levantou.

− Vamos.

Os dois se aproximaram vagarosamente da torre e Eduardo a examinou. Realmente os portões eram a única entrada, mas as janelas dos andares superiores estavam abertas, só que ficavam a, pelo menos, dez metros do chão.

− Vamos ter que usar as janelas – ele disse a Diana, que estava ao seu lado – mas vamos ter que usar algo como gancho.

Diana, então, começou a procurar ao redor, buscando algo que pudesse usar. Sem muita opção, ela parou para encarar o guerreiro. Foi aí que ela reparou em algo.

− Podemos usar sua espada − ela disse, apontando para a cimitarra na cintura de Eduardo.

− Pelo visto é nossa única opção − Eduardo disse. De frente para a janela, ele retirou a corda da bolsa e amarrou uma de suas

pontas na espada. Ele a girou rápido e a lançou, puxando levemente a corda para o lado. O lançamento foi certeiro e a cimitarra passou pela janela, ficado presa na quina.

Ele testou a corda para ver se a espada se soltaria com a tensão e começou a subir.

Diana balançou a cabeça, em desaprovação. ‘‘Primeiro as damas...”, ela pensou.

Eduardo chegou rapidamente à janela, mas não entrou de primeira. Ele olhou por alguns instantes de soslaio e depois pulou para dentro.

Sem esperar muito, Diana começou a subir. Os pés se apoiavam na parede e as mãos iam levando o corpo para cima. Ela teve que usar toda sua força para subir.

Quando ela finalmente chegou até a janela, Eduardo apareceu, seu rosto respingado de sangue, oferecendo ajuda. Diana segurou seus braços e ele a puxou para dentro.

Ela estava prestes a reclamar com Eduardo, mas olhou para o cômodo. Haviam três guardas caídos no chão. Um, perto da janela, tinha um corte profundo nas costas, o outro estava degolado e o último estava de barriga para cima, com sangue jorrando pela boca e por um corte no peito.

Diana reparou que estava abraçando Eduardo, que a encarava com uma expressão confusa, e ela tratou de se afastar, sem jeito. Ela viu uma espada média encostada no canto, próxima à janela, manchada de sangue.

Pegando novamente a cimitarra, Eduardo andou até a porta da sala. Eles estavam no que deveria ser a sala da guarda, pois só haviam algumas cadeiras, uma mesa com uma vela em cima e

algumas espadas penduradas verticalmente na parede paralela à janela.

O guerreiro nada precisou dizer para Diana saber que deveria evitar fazer barulho. Na porta, Eduardo olhou para os lados e depois acenou para que Diana o seguisse.

Saindo da Sala, Diana pôde ver o interior da torre com mais clareza. O corredor circular onde estava tinha um enorme vão no meio. Chegando perto, ela viu que o buraco seguia infinitamente para baixo, passando do nível onde era a entrada e continuando. O fundo não podia ser visto, porque tudo abaixo de onde estavam estava coberto pela escuridão.

Ao lado do vão havia uma escadaria, que seguia até o topo da torre. O casal começou a subir pelas escadas. Eduardo fez um sinal que Diana entendeu como um pedido de silêncio. Ela percebeu que poderia pôr suas vidas em risco se eles fossem descobertos.

A subida pela escadaria foi feita quase às cegas, porque a iluminação era muito precária. A única fonte de luz era o brilho da lua, que vinha pela abertura no topo da torre e era refletido pelos blocos de esmeralda das paredes.

Eles levaram horas subindo aquelas escadas. Em cada andar que passavam Diana temia encontrar guardas, mas pelo visto, só haviam os da entrada e do primeiro andar, pois todos os andares seguintes estavam vazios.

A partir de certo ponto, com a lua já aparecendo por cima da abertura no topo, eles começaram a ouvir o som de vozes. Era como uma prece, mas num idioma que Diana nunca ouvira. Ela olhou para Eduardo e, pelas suas expressões, também não sabia o que estava sendo dito.

Em um determinado andar, pouco tempo depois de terem começado a ouvir o som das preces, Eduardo parou e resolveu

vasculhar as salas. Diana não entendeu o porquê daquilo, até que o rapaz apareceu com dois mantos verdes, os mantos que os sacerdotes usavam.

− É melhor nos disfarçarmos.

Depois de vestidos, os dois continuaram a subir. Diana já estava ficando cansada.