O Sussurro da Academia
15 Capítulo 15: Pistas Frias e Fantasmas do Passado
DOMINGO DE MANHÃ
A noite tinha virado manhã sem que nenhum deles percebesse. Depois de saírem da biblioteca, a adrenalina da descoberta os tinha impedido de se separarem. O quarto de Shikamaru, por ser o mais próximo e o mais isolado, tornou-se seu refúgio e, por necessidade, seu centro de operações. Agora, na luz cinzenta da manhã de domingo, o quarto, que antes era um santuário de preguiça, era agora um centro de comando improvisado. A desordem ainda estava lá, mas agora tinha um propósito. A escrivaninha limpa era o centro de comando, e em cima dela, o notebook de Sakura emitia um brilho suave. O anuário estava aberto ao lado, a foto em preto e branco de Anko olhando para eles como um fantasma do passado. O ar estava pesado, com o cheiro de café requentado e uma determinação frágil.
Sakura estava inclinada sobre o teclado, seus dedos se movendo com uma rapidez e precisão que contrastavam com o cansaço visível em seu rosto. Sua tela estava dividida em múltiplas janelas: os registros de funcionários da academia, uma base de dados pública de endereços, o mapa da cidade. Ela cruzava informações, murmurando para si mesma.
Shikamaru estava sentado na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, observando o trabalho dela. Hinata estava sentada um pouco mais atrás, numa cadeira, sua postura direita, as mãos pousadas no colo, uma calma vigilante nos olhos.
Encontrei — disse Sakura de repente, sua voz quebrando o silêncio. Shikamaru e Hinata se inclinaram na sua direção. Ela apontou para a tela. — O endereço do "Dojo Mitarashi". Os registros indicam que é uma propriedade residencial e comercial. É a casa dela.Um silêncio pesado caiu sobre o quarto. Shikamaru soltou um suspiro, um som de pura exaustão e reconhecimento. — A gente já esteve lá.
Ela não quis falar com a gente — acrescentou Hinata, sua voz um sussurro, a memória da rejeição pesando em suas palavras.Sakura virou-se na cadeira para os encarar, sua expressão pragmática. — Exatamente. Ela não quis falar com vocês. Talvez ela fale comigo. De qualquer forma, é a nossa única opção. Temos que pegá-la de surpresa.
Shikamaru olhou para a Hinata, que assentiu lentamente, concordando com a lógica de Sakura. Ele suspirou, resignado.
Certo. Problemático, mas é o único movimento que temos.A decisão estava tomada. O ar no quarto mudou, a energia da pesquisa sendo substituída pela tensão da ação iminente.
Sair do dormitório e entrar na luz do dia foi como emergir de uma bolha de conspiração para o mundo real. O campus, numa manhã de domingo, estava enganadoramente pacífico. O sol da manhã aquecia o ar, e o som distante de sinos de uma igreja se misturando com as risadas de estudantes que iam para o refeitório. Mas a atmosfera entre o trio era pesada, um silêncio carregado que os isolava de toda a normalidade à sua volta. Caminhavam juntos, mas cada um estava preso no seu próprio labirinto de pensamentos.
Sakura liderava o caminho, seus passos rápidos e determinados. Sua mente estava em modo de trabalho, repassando sua estratégia de abordagem como se fosse um procedimento cirúrgico. Ok, a Anko está aterrorizada. A abordagem frontal não funcionou com o Shikamaru e a Hinata. Preciso ser diferente. Começar com empatia. Validar o medo dela. Depois, apresentar os fatos de forma calma e lógica. O símbolo. A ligação com o Sasuke. Eu não sou uma ameaça, sou uma médica tentando entender os sintomas. Preciso que ela me veja assim. Ela ensaiava suas falas, suas perguntas, tentando antecipar cada reação, cada negação.
Andando ao seu lado, um pouco atrás, Shikamaru tinha as mãos enfiadas nos bolsos, seu olhar varrendo o ambiente, não apreciando a manhã, mas procurando por ameaças. Sua mente, por outro lado, não estava no presente, mas sim jogando xadrez com o futuro, e cada cenário era uma derrota. Problemático. Abordá-la em casa é um erro tático. Estamos no território dela, sem controle sobre as variáveis. E se ela chamar a segurança do campus? E se ela nos atacar? E se isto for uma armadilha? E se o Sussurro estiver esperando que a gente faça exatamente isto? Ele se sentia um amador, movendo suas peças às cegas num tabuleiro que não conseguia ver por completo.
Hinata vinha um passo atrás dos dois, como uma sombra silenciosa. Ela estava hiper-consciente de tudo. Do calor do sol em sua pele, do som de um pássaro cantando numa árvore, e, acima de tudo, da tensão que emanava dos seus companheiros. Ela notava a tensão nos ombros de Shikamaru, a mandíbula cerrada de Sakura. E ela lutava contra o seu próprio medo, uma onda de náusea que ameaçava subir-lhe pela garganta. A memória do porão, do frio, da voz… era uma ferida que ainda estava aberta. Mas então, ela se lembrava da sua própria promessa. Eu não vou me esconder mais. A frase era um mantra, uma oração silenciosa que a mantinha colocando um pé à frente do outro.
O beat termina quando eles viram numa rua mais calma e veem o dojo ao longe. A visão do edifício de madeira escura, tão normal e ao mesmo tempo tão sinistro, fez com que os três parassem por um instante. Era o lugar da sua primeira derrota. O lugar onde sua única pista tinha se barricado. Eles trocaram um olhar silencioso, uma mistura de medo, determinação e a aceitação sombria de que estavam prestes a entrar novamente na toca do leão.
Eles atravessaram a rua, o som dos seus passos a parecerem subitamente altos demais. O dojo era uma estrutura de madeira escura, de aspeto tradicional, que parecia deslocada entre os prédios de apartamentos mais modernos. As janelas do piso térreo estavam cobertas por persianas de bambu, e as do andar de cima estavam fechadas, as cortinas corridas. O lugar tinha uma quietude, uma sensação de estar adormecido ou talvez abandonado, que era profundamente inquietante. Havia uma aura de negligência, de segredos guardados, que pairava sobre o edifício como uma poeira invisível.
É aqui — sussurrou Sakura, mais para si mesma do que para os outros.Uma pequena escada exterior de madeira, gasta pelo tempo e pela chuva, subia pela lateral do dojo até um pequeno patamar no primeiro andar, onde havia uma porta de madeira simples. A casa dela.
Merda — murmurou Shikamaru, a olhar para a escada como se fosse o caminho para a forca.Vamos acabar com isto — disse Sakura, a sua voz a soar mais corajosa do que se sentia.Ela foi a primeira a colocar o pé no primeiro degrau. A madeira rangeu sob o seu peso, um som agudo e queixoso que cortou o silêncio da manhã. Eles subiram em fila indiana, Sakura na frente, Hinata no meio e Shikamaru a fechar a retaguarda. Cada degrau era uma nova onda de tensão. Hinata sentia a madeira a vergar-se ligeiramente sob os seus pés e tinha a certeza irracional de que ia ceder, atirando-os para o chão. O seu coração batia na sua garganta. Shikamaru, por sua vez, analisava a estrutura, as saídas, a falta delas. Se alguma coisa correr mal, estamos encurralados aqui em cima. Má jogada. Sakura focava-se em controlar a sua própria respiração, em manter os seus passos firmes e regulares, a projetar uma calma que não sentia.
Chegaram ao topo. O patamar era pequeno, mal cabiam os três, forçando-os a ficarem desconfortavelmente próximos. Estavam em frente à porta. Era uma porta simples, com a tinta a descascar em alguns sítios, sem nada que indicasse o terror que poderia esconder-se do outro lado.
Eles pararam. Ninguém se mexia. Ninguém respirava. A adrenalina da caminhada deu lugar a uma hesitação gelada. Bater àquela porta era o último passo. Era o ponto de não retorno.
Shikamaru olhou para a Sakura, as suas sobrancelhas a levantarem-se numa pergunta silenciosa. Sakura olhou para a Hinata, que tinha os olhos fixos na porta, o rosto pálido. Hinata sentiu o olhar deles e virou-se, os seus olhos a encontrarem os de Sakura. Num acordo silencioso, a liderança foi passada.
Sakura virou-se para a porta. Ergueu a mão, o punho fechado. Hesitou por um batimento cardíaco, o seu próprio medo a lutar contra a sua determinação. E depois, bateu.
TOC. TOC. TOC.
O som foi seco, definitivo, a ecoar no pequeno espaço. O beat termina com o som a pairar no ar, enquanto os três prendem a respiração, à espera de uma resposta do outro lado da porta.
O som da mão de Sakura batendo na madeira pairou no ar por um longo segundo. Depois, silêncio. Eles prenderam a respiração, seus ouvidos se esforçando para captar qualquer som do interior. Nada.
Talvez não tenha ninguém — sussurrou Hinata, uma nota de esperança na sua voz.Mas então, ouviram. Um som de arrastar de pés, lento, hesitante. Seguido por um clique metálico. E outro. E mais outro. O som de múltiplos trincos sendo destrancados. A porta se abriu, mas apenas uma fresta, presa por uma corrente de segurança de metal grosso. Na escuridão do apartamento, um olho apareceu, perscrutando o corredor.
Era a Anko. Mas não a Anko que eles conheciam. A mulher que os espiava pela fresta não era a instrutora forte e confiante. Esta Anko parecia mais velha, mais cansada. Tinha olheiras profundas e arroxeadas, como contusões, e sua pele estava pálida, quase cinzenta. Seu olho único, visível na escuridão, estava injetado de sangue e cheio de uma desconfiança paranoica.
Seu olhar passou por cada um dos três, demorando-se por um instante em Shikamaru e Hinata, talvez os reconhecendo da sua visita anterior. Quando seus olhos se fixaram em Sakura, sua expressão mudou de desconfiança para um pânico absoluto. O reconhecimento de que eles tinham voltado, e que tinham trazido reforços, pareceu ser o gatilho.
Anko-sensei? — começou Sakura, sua voz cuidadosamente neutra, tentando não a assustar. — Desculpe incomodar. Nós só queríamos falar sobre um antigo aluno… Hayate Gekko.Ao ouvir o nome, o olho de Anko se arregalou. O reconhecimento deu lugar a um horror absoluto e primordial. Era o mesmo terror que tinham visto na noite anterior, mas agora, a centímetros de distância, era mil vezes mais potente.
Vão-se embora! — a voz dela foi um guincho de pânico, agudo e aterrorizado, se quebrando em desespero. — Fiquem longe de mim!Nós só queremos entender o que… — tentou Sakura, dando um passo instintivo para a frente.Vocês não sabem o que estão fazendo! — gritou Anko, sua voz ecoando no corredor. — Vão acordar o inferno! Vão matar a todos nós!E com um estrondo que fez o corredor tremer, ela bateu a porta na cara deles. A força foi tão grande que uma lufada de ar viciado do apartamento os atingiu. Imediatamente, ouviram o som da fechadura principal sendo rodada com um clique violento, seguido pelo som apressado e metálico de múltiplos trincos sendo acionados. Um. Dois. Três. Um som de barricada. O som de alguém se trancando numa prisão por vontade própria.
O som final do último trinco a ser acionado ecoou no corredor e depois… nada. Apenas um silêncio ensurdecedor, mais pesado e mais ameaçador do que o silêncio que o tinha precedido. Os três ficaram parados, a olhar para a porta de madeira fechada, as palavras de pânico de Anko ainda a ressoarem nos seus ouvidos. O choque deixou-os mudos, a processarem a explosão de terror que tinham acabado de testemunhar.
Sakura foi a primeira a mover-se. Com um som de pura frustração, ela deu um passo em frente e encostou a testa na madeira fria da porta, fechando os olhos com força. O seu plano, a sua abordagem calma e lógica, tinha sido despedaçado em menos de trinta segundos. A sua mente analítica tentava desesperadamente catalogar a reação de Anko. Não era raiva. Não era irritação. Era medo. Um medo tão absoluto e primordial que tinha transformado uma veterana de Konoha numa reclusa a tremer atrás de uma porta barricada.
O que é que pode causar tanto medo numa mulher como ela?, pensou Sakura, a madeira fria a não oferecer nenhum alívio à sua cabeça a latejar.E agora? — a voz de Hinata foi um sussurro trémulo, a quebrar o silêncio. Ela ainda estava a tremer, os seus olhos fixos na porta como se esperasse que ela explodisse.Shikamaru, que tinha permanecido em silêncio o tempo todo, encostado à parede oposta, soltou um riso. Um som curto, seco e completamente desprovido de humor. Sakura e Hinata viraram-se para ele, confusas.
"E agora?" — repetiu ele, a sua voz baixa, mas a cortar o ar. Ele desencostou-se da parede e caminhou lentamente até elas, os seus olhos escuros fixos na porta. — Agora, o problema ficou muito mais fodido.Como assim? — perguntou Sakura. — Ela não vai falar com a gente. É um beco sem saída.Não — disse Shikamaru, abanando a cabeça lentamente. — Você não está a ver. A gente veio aqui à procura de uma testemunha. Alguém que nos pudesse contar uma história do passado. Mas não foi isso que a gente encontrou.Ele parou ao lado delas, o seu olhar tão intenso que as fez recuar um passo.
A gente encontrou uma sobrevivente. E ela não está a fugir de uma memória. Ela ainda está a fugir do monstro. O que quer que tenha acontecido com o Hayate Gekko… não acabou. Está a acontecer agora.A frase pairou no ar, fria e pesada como uma lápide. A percepção atingiu-as com a força de um soco. A sua missão não era desenterrar um fantasma. Era enfrentar um predador que ainda estava à caça.
A cena termina com os três ali, parados no corredor silencioso, a sua pequena esperança esmagada e substituída por um terror muito maior e mais presente. A sua única pista não era uma chave para o passado, mas um aviso aterrorizante sobre o presente.
DOMINGO DE MANHÃ
A noite não tinha trazido sono. Tinha trazido apenas um desfile interminável de pesadelos acordados, sua mente repassando a memória do ginásio, a crueldade de suas próprias palavras para a Sakura, e a sensação fantasma do corpo de Karin contra o seu. Quando os primeiros raios de sol cinzento pintaram o céu, Sasuke já estava de pé, movido por uma energia febril que nascia do puro desespero.
Ele tinha passado as primeiras horas da manhã numa caçada infrutífera. Sua mente, se apegando a um fragmento de conversa, lembrou-se de Karin ter mencionado uma amiga, Shion, que morava perto do campus. Levou quase uma hora de pesquisa online para encontrar um possível endereço.
Agora, ele estava parado em frente a uma porta de apartamento genérica, o som de uma televisão alta vazando pela madeira. Ele bateu, com mais força do que o necessário. A porta se abriu, e uma garota loira com o rímel da noite anterior borrado embaixo dos olhos olhou para ele com irritação.
O quê? — perguntou ela, a voz rouca.A Karin. Você a viu? — a pergunta de Sasuke foi direta, sem espaço para gentilezas.Shion franziu o cenho, sua mente lutando para processar a informação através de uma névoa de ressaca. — Karin? Uzumaki? Puta merda, não falo com aquela maluca há semanas. Tenta o celular dela. — E com isso, ela bateu a porta na cara dele.
Fracasso. Outro. Ele se virou e desceu as escadas do prédio, a frustração queimando em seu estômago como ácido. Cada beco sem saída, cada porta fechada, apenas servia para alimentar a fornalha dentro dele.
Enquanto caminhava pela calçada, o sol da manhã parecendo-lhe brilhante demais, a guerra em sua cabeça recomeçou. Sua missão era clara, lógica. Respostas. Você precisa saber o que aconteceu naquela noite. Você precisa preencher a lacuna. Era a voz da razão, a voz que o impelia para a frente.
Mas havia a outra voz, o outro impulso. Um calor sujo que se espalhava pelo seu corpo ao pensar nela. Karin. A memória do cheiro dela, do toque dela. Um desejo que o enojava, mas que era inegavelmente seu. Ou era?
Como eu posso sentir isso? — pensou ele, o passo acelerando, como se pudesse fugir do seu próprio pensamento. — Eu amo a Sakura. Porra, eu a amo. Então que merda é esta?Ele era o vilão. O monstro. Sua dor não era a de uma vítima, mas a de um perpetrador sendo confrontado com sua própria escuridão. A decisão de afastar a Sakura, as palavras cruéis… talvez não tivessem sido apenas manipulação. Talvez tivessem sido ele. Sua pior parte. E essa parte queria um replay. A ideia era repugnante e excitante em igual medida, e a dualidade ameaçava rasgá-lo ao meio.
Sua caçada não era apenas por respostas. Era uma fuga de si mesmo, uma tentativa desesperada de encontrar em Karin uma justificação ou uma condenação. Ele precisava encontrá-la para saber que monstro ele realmente era. E com essa realização sombria, ele viu seu próximo e último recurso do outro lado da rua: o café de estilo gótico que ela adorava.
O café era escuro, mesmo com o sol da manhã brilhando lá fora. As paredes eram forradas com estantes de livros que iam do chão ao teto, e o ar era denso com o cheiro de café forte, de papel velho e de algo doce, talvez baunilha. Uma música melancólica e instrumental soava baixo dos alto-falantes, um som que parecia se arrastar pelo ar. Era o tipo de lugar que a Karin adorava, um refúgio pretensioso que contrastava violentamente com a energia crua e furiosa que fervia dentro de Sasuke. A quietude do lugar o forçou a engolir sua raiva, a enterrá-la debaixo de uma máscara de fria indiferença.
Ele escolheu uma mesa no canto mais escuro, uma alcova que lhe dava uma visão clara da porta de entrada sem o expor demais. Uma garçonete de ar entediado se aproximou.
Um café. Preto — disse ele, sua voz um murmúrio baixo.E a espera começou.
A xícara chegou, o vapor subindo em espirais lentas. Ele не a tocou. Seus olhos estavam fixos na porta, analisando cada pessoa que entrava, seu corpo tenso, pronto para reagir. Os primeiros trinta minutos foram os mais fáceis. Sua mente estava focada, sua raiva o alimentando com uma esperança irritada. Ela vai aparecer. Ela adora este lugar. É só uma questão de tempo.
Mas o tempo começou a passar. O sol se moveu no céu, e as sombras dentro do café mudaram de lugar, longas e lentas. O vapor do seu café desapareceu, e o líquido escuro tornou-se uma poça fria e esquecida. Sua postura, inicialmente tensa e expectante, começou a ceder. Seus ombros caíram ligeiramente, e sua irritação começou a ser corroída por algo mais pesado.
Ele observava as outras pessoas. Um casal numa mesa próxima, rindo baixo, suas mãos se tocando. Um grupo de estudantes discutindo animadamente sobre um livro. Pessoas vivendo suas vidas normais, descomplicadas. E ele se sentia como um fantasma, um observador de um mundo ao qual já não pertencia. Sua solidão era uma presença física, sentada na cadeira vazia à sua frente.
Onde é que ela está, caralho? — sua raiva inicial ainda estava lá, mas agora soava mais como o grito de uma criança perdida do que o rugido de um predador. A raiva estava lentamente se transformando em desespero. E debaixo do desespero, a auto-aversão. O que eu estou fazendo aqui? Esperando o quê? Outra oportunidade para estragar tudo? Para provar a mim mesmo que sou o monstro que eu temo ser?As horas passaram. A luz da tarde começou a entrar pelas janelas altas do café. O lugar começou a esvaziar. A música melancólica parecia agora a banda sonora do seu próprio fracasso.
A realidade assentou, fria e pesada. Ela não ia aparecer.
Ele se levantou, seus movimentos rígidos pela longa espera. Deixou algumas notas na mesa, ao lado da xícara de café intocada. Saiu do café, sua caçada oficialmente um fracasso. Estava exausto e sem mais nenhuma pista para seguir.
A luz do final da tarde atingiu Sasuke como um soco quando ele saiu do café. Depois de horas na penumbra, o brilho dourado do sol poente era agressivo, expondo sua exaustão, as olheiras escuras debaixo de seus olhos. Ele se sentiu subitamente nu, vulnerável, cada par de olhos que passava por ele na rua movimentada parecendo um julgamento.
Ele não voltou para o campus. A ideia de voltar para seu quarto vazio, ou pior, de cruzar com alguém que conhecia, era insuportável. Então, ele apenas caminhou. Sem direção, sem propósito. As ruas da cidade, que normalmente ignorava, tornaram-se um labirinto de sobrecarga sensorial. O som do trânsito era uma cacofonia que martelava sua cabeça, as vozes das pessoas um zumbido irritante, a música saindo das lojas uma agressão. Ele esbarrou num homem apressado, que o xingou, mas Sasuke nem sequer registrou. Continuou andando, vendo o mundo através de um túnel, sua mente um loop de auto-aversão.
Fracasso. Fraco. Traidor.
Seu corpo se movia por puro instinto, mas sua mente estava vazia de estratégia. A raiva tinha se esgotado. O desespero tinha se esgotado. A esperança, essa já tinha morrido há muito tempo. O que restava era apenas um vazio pesado, uma exaustão que pesava em seus ossos, em seus músculos, em sua alma. Seus ombros estavam caídos, seu olhar fixo no chão à sua frente, vendo apenas o movimento de seus próprios pés, um após o outro, sem destino.
Finalmente, a necessidade de escapar dos olhares, do movimento, do mundo, tornou-se grande demais. Ele viu um beco estreito e malcheiroso entre dois prédios e, sem pensar, virou-se e entrou nele, como um animal ferido procurando um lugar escuro para morrer. A escuridão e o silêncio do beco foram um alívio. O cheiro de lixo úmido e de urina era desagradável, mas era real. Era um refúgio da fachada de normalidade que ele já não conseguia suportar.
Suas pernas cederam. Ele não se sentou; ele desabou contra a parede de tijolos fria e áspera, deslizando por ela até o chão sujo. Ficou ali, no meio do lixo, as pernas esticadas à sua frente, a cabeça pendendo para trás contra a parede. Fechou os olhos, sua respiração saindo em arfadas irregulares.
É isso, então? — pensou ele, um riso amargo e silencioso se formando em sua garganta. — É aqui que você acaba. Sozinho num beco, cheirando a lixo. Patético.Sua raiva não era contra o mundo. Era contra si mesmo. Uma fúria impotente e auto-destrutiva pela sua própria fraqueza, pela sua própria incapacidade de controlar seus desejos, suas ações, sua vida. Estava no fundo do poço. Exausto, derrotado e completamente sozinho. E era neste estado de vulnerabilidade total que seus problemas estavam prestes a ficar muito, muito piores.
DOMINGO, FIM DE TARDE
Naruto o procurava há horas. Sua preocupação, inicialmente uma pequena brasa de irritação, tinha crescido até se tornar um incêndio de ansiedade e raiva. Ele tinha ido ao quarto de Sasuke primeiro. A porta estava destrancada, mas o quarto estava vazio, silencioso e perturbadoramente arrumado, como se ninguém vivesse ali. Tinha ido ao Ichiraku, mas o velho Teuchi apenas abanou a cabeça, dizendo que não via o Sasuke há dias. Tinha percorrido os campos de treino, gritando o nome dele até sua própria voz ficar rouca. Nada. Sasuke tinha desaparecido.
Enquanto o sol da tarde começava a descer, pintando o céu com longas pinceladas de laranja, a raiva de Naruto lutava contra o seu medo.
Aquele Teme egoísta... — pensou ele, chutando uma pedra no caminho. — Some sem dizer uma palavra, depois de tudo o que fez com a Sakura. Covarde de merda.Mas por baixo da raiva, havia uma corrente de medo frio. Sasuke não era de sumir assim. Não desde que tinha voltado para a vila. Seu isolamento era uma fortaleza, mas era uma fortaleza com rotinas. Seu desaparecimento era uma quebra no padrão. Uma anomalia.
E se aconteceu alguma coisa? — o pensamento era um sussurro indesejado, mas persistente. — E se ele não estiver apenas sendo um idiota? E se ele precisar de ajuda?Frustrado, cansado e farto de andar em círculos, ele decidiu cortar caminho por um beco para voltar ao seu dormitório e pensar num novo plano. O beco era estreito, escuro e cheirava a lixo úmido. E foi ali, no meio da sujeira e das sombras, que o encontrou.
Por um instante, pensou que era um morador de rua. Uma figura desabada perto de um contêiner de lixo, encolhida sobre si mesma. Mas depois, seu coração parou. Reconheceu o cabelo escuro, a linha dos ombros, o casaco que ele usava sempre.
Sasuke? — a voz de Naruto era uma mistura de alívio e descrença, quase um sopro.Ele se aproximou, seu coração batendo descontroladamente no peito. Era ele. Sentado no chão sujo, encostado a uma parede de tijolos, os olhos fechados, o rosto pálido e manchado de sujeira. Vê-lo assim, seu melhor amigo, seu rival, o orgulhoso Sasuke Uchiha, naquele estado de absoluta desolação, fez com que toda a raiva de Naruto se evaporasse instantaneamente.
O que restou foi apenas uma onda avassaladora de preocupação, uma dor que lhe apertou o peito. Ele deu um passo em frente, sua sombra cobrindo a figura caída do seu amigo.
Naruto agachou-se em frente a ele, o joelho a pousar no chão sujo e húmido do beco. O cheiro a lixo era forte, mas ele mal o notou. A sua atenção estava inteiramente focada na figura do seu amigo. Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou no ombro de Sasuke, abanando-o gentilmente.
Teme? — chamou ele, a sua voz agora um sussurro preocupado. — Sasuke, fala comigo. Você está ferido?Sasuke abriu os olhos lentamente, como se as pálpebras fossem feitas de chumbo. Por um longo segundo, os seus olhos escuros estavam vazios, desfocados, a olharem através do Naruto como se ele não estivesse ali. Eram como pedras polidas, sem vida. Demorou um momento para a sua mente processar o rosto preocupado à sua frente, para uma pequena faísca de reconhecimento piscar no fundo daquele vazio.
Dobe — a palavra saiu dos seus lábios, mas foi apenas um sopro, um som sem força, quase inaudível.O alívio atingiu o Naruto com força. Ele está a falar. Graças a Deus.
Teme, o que aconteceu? Você precisa de um médico? — insistiu Naruto, a sua voz ainda suave, a sua mão ainda no ombro de Sasuke.Mas o vazio voltou aos olhos de Sasuke. A pequena faísca de reconhecimento apagou-se, e ele ficou novamente a olhar para o nada, em silêncio.
E foi o silêncio que o quebrou. Não um silêncio de exaustão, mas um que parecia deliberado. Uma parede. Uma rejeição. Naruto sentiu uma pontada de mágoa, uma frustração que começou a borbulhar no seu peito.
Ele está a me ignorar?, pensou ele, a sua incredulidade a transformar-se em raiva. — Eu estou aqui, preocupado pra caralho, e ele me trata como se eu fosse um estranho. Depois de tudo... ele ainda é o mesmo egoísta de merda.A preocupação deu lugar à fúria. Ele levantou-se de um pulo, a sua sombra a cobrir completamente o Sasuke.
"Dobe"? É só isso que você tem para me dizer? — a voz de Naruto subiu, a ecoar nas paredes do beco. — O que se passa contigo, Teme?Sasuke permaneceu em silêncio, o seu olhar vazio.
Você destrói a Sakura, a rapariga que te ama mais do que tudo, e depois desaparece? Vira um fantasma? Que porra é essa, Sasuke?! — gritou Naruto, o seu controlo finalmente a quebrar-se.A falta de reação foi a gota de água. A frustração de Naruto, que tinha sido momentaneamente substituída pela preocupação, voltou com a força de uma inundação, varrendo tudo à sua frente. Sua paciência, já gasta, se desfez.
Responde-me, seu desgraçado! — gritou ele, sua voz ecoando nas paredes do beco.Num movimento rápido e explosivo, alimentado por horas de preocupação e raiva acumulada, ele agarrou o Sasuke pelos colarinhos do casaco. A força foi tanta que ergueu o corpo exausto de Sasuke do chão e o empurrou com violência contra a parede de tijolos. O impacto foi surdo e brutal. Sasuke soltou um gemido de dor, sua cabeça batendo contra os tijolos ásperos, o choque físico finalmente quebrando o nevoeiro de apatia em seus olhos. Por um instante, a surpresa substituiu o vazio.
Onde é que você esteve, hã? — Naruto gritava, seu rosto a centímetros do de Sasuke, seus olhos azuis ardendo com uma fúria justa e uma dor profunda. Seu aperto era de ferro, o sacudindo. — A gente te procurou! Eu te procurei! Você some do mapa como se não se importasse com ninguém!Você tem noção de como ela está? — continuou ele, sua voz ficando embargada pela emoção. — Você não a viu, Sasuke. Eu vi. Ela está tentando ser forte, fingindo que é só mais uma médica resolvendo um problema, mas ela está em pedaços. Por sua causa. Você ouviu? Por sua causa!Depois de tudo, Teme. Depois de tudo o que ela fez por você. Todas as vezes que ela te defendeu, que ela te esperou… é assim que você a paga? — Ele cuspiu as palavras, cada uma delas um soco. — E porquê?! Me diz! Pela Karin? Aquilo foi tão bom assim que valeu a pena destruir a única pessoa que sempre esteve do seu lado?As palavras do Naruto, a menção específica da dor da Sakura, foram como um choque elétrico para o Sasuke. Através do nevoeiro da sua própria auto-aversão, da sua culpa, do seu desejo confuso, a imagem do rosto de Sakura chorando, uma imagem que ele próprio tinha criado, atingiu-o com uma clareza brutal.
A dor dela.
A dor que ele tinha causado.
Algo dentro dele estalou. A influência pegajosa e sobrenatural do Sussurro, que tinha estado alimentando seu desejo pela Karin, distorcendo seus sentimentos, recuou por um instante, queimada pela verdade crua e ardente da dor do seu melhor amigo.
O eco das últimas palavras de Naruto — "valeu a pena destruir a única pessoa que sempre esteve do seu lado?" — pairou no ar pesado do beco. E no silêncio que se seguiu, algo no rosto de Sasuke mudou.
Não foi uma mudança grande. Foi sutil, mas sísmica. O vazio em seus olhos, a apatia que tinha sido sua máscara e sua prisão, se estilhaçou. Por um instante, foi substituído por um choque puro, como se tivesse sido acordado de um longo pesadelo. Depois, o choque deu lugar a um horror que subiu do fundo de sua alma, alargando suas pupilas. A imagem da dor de Sakura, descrita com a fúria e a mágoa crua de Naruto, não era mais uma ideia abstrata. Era uma faca se torcendo em seu peito. Era real.
Naruto viu a mudança. Viu o momento exato em que seu amigo regressou. O monstro indiferente desapareceu, e no seu lugar estava o Sasuke que ele conhecia, destroçado e se afogando em algo que era muito mais profundo do que simples raiva. Sua própria fúria, que o tinha consumido momentos antes, se dissipou, deixando para trás apenas um cansaço triste e o peso de suas próprias ações violentas. Ele afrouxou o aperto nos colarinhos de Sasuke, seus dedos se abrindo lentamente, como se de repente se desse conta de sua própria brutalidade.
Liberto, Sasuke não se moveu. Seu corpo permaneceu encostado à parede, mas sua mente estava desabando. O desejo pela Karin, a fome que o tinha impulsionado, que tinha parecido tão real e tão sua, agora parecia distante, artificial. Uma mentira. Uma febre que tinha acabado de quebrar, o deixando fraco e tremendo. A única coisa que restava, a única coisa real, era o peso esmagador e insuportável de sua culpa. A dor que ele tinha causado à Sakura.
Não fui eu, o pensamento era um sussurro desesperado em sua mente. — Mas foram as minhas mãos. A minha voz.A clareza era uma nova forma de tortura. A percepção de que sua culpa era real, mas que suas motivações podiam não ter sido inteiramente suas, era um horror que o deixava sem chão.
Ele deslizou pela parede de tijolos, suas pernas cedendo, até estar sentado novamente no chão sujo. Levou as mãos à cabeça, os dedos se enterrando em seu cabelo, como se pudesse arrancar os pensamentos, as memórias, a confusão. Sua respiração saía em arfadas curtas e ofegantes, quase soluços.
A confrontação tinha terminado. Naruto deu um passo atrás, o som do seu sapato raspando no chão parecendo um trovão no silêncio. Ele olhou para a figura encolhida do seu melhor amigo, e sua raiva foi completamente substituída por uma tristeza e uma preocupação profundas. Ele queria dizer alguma coisa, qualquer coisa. Mas as palavras não vinham. Estendeu a mão, um gesto instintivo para ajudar, mas parou a meio do caminho, a mão pairando no ar entre eles. Como é que se conserta uma coisa destas?
A cena termina com os dois ali, no beco sujo. Naruto de pé, sua mão estendida para o nada, sua fúria esgotada. E Sasuke no chão, a cabeça entre as mãos, finalmente começando a confrontar o verdadeiro monstro. A distância entre eles, embora de apenas alguns passos, parecia um abismo intransponível.
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