O Sussurro da Academia

16 Capítulo 16: Depois do Não


Temari tirou os sapatos no hall e deixou que o piso frio apagasse um pouco do calor que tinha ficado em seu rosto. O cheiro de desinfetante subia do corredor como quem tenta organizar uma memória. O elevador parou no segundo andar por quase um minuto; quando a porta abriu, não havia ninguém.

"Ótimo", pensou, "até o prédio gosta de suspense."

Entrou no quarto sem acender a luz. A janela deixava os faróis dos carros passarem em cortes brancos na parede. O porta-retratos com a foto da turma da calourada continuava virado para baixo desde a tarde. Ela pegou a caneca, cheirou o resto de café frio, fez careta e levou-a até a pia.

Água correndo, mãos firmes, mente em greve.

— Tá tudo certo — Temari disse para si mesma, enxugando a caneca com o pano de prato —. Sem drama. Só... não hoje.

O celular vibrou em cima da mesa. Um "chegou bem?" de Ino. Ela digitou "sim" e apagou. Digitou "depois te ligo" e apagou de novo. No fim, mandou só um coração amarelo e jogou o celular de volta na mesa como quem devolve uma coisa que morde.

O corpo queria deitar, mas a cabeça ficava em pé no meio do quarto. A lembrança não vinha inteira; vinha em estilhaços: a estufa embaçada, a frase no lugar errado, o silêncio do Shikamaru que soou como barulho.

As máquinas alinhadas formavam uma pequena orquestra de água e metal. O chão tinha manchas circulares mais escuras sob cada uma, mapas de vazamentos antigos. Temari abasteceu uma lavadora com lençóis e uma toalha que cheirava à semana que passou. Jogou sabão, amaciante e duas moedas. A tampa fechou com um clique que soou definitivo demais para o tamanho da tarefa.

Uma garota baixinha entrou esbaforida, cesta no quadril.

— Tá funcionando a 6? — a garota perguntou, apontando.

— Tá, mas ela... — Temari apontou com o queixo —, às vezes decide renascer no meio do ciclo.

— Renascer?

— Abre, vomita água quente, faz um barulho... e volta a funcionar.

— Credo — a garota riu, sem graça. — Obrigada.

Temari assentiu e voltou a encarar a lavadora. O mostrador digital piscou "35:00" e, logo depois, "32:00", como se tivesse perdido três minutos num suspiro. Ela segurou o impulso de bater no painel até o número obedecer. Preferiu respirar. O barulho da máquina embalou o pensamento até o pensamento perder a forma.

Pegou o celular, abriu o bloco de notas e escreveu: "Eu fiquei com raiva porque me senti idiota." Apagou. "Eu não sou segunda opção." Apagou. "Transparência, respeito, tempo." Salvou como "coisas pra dizer sem raiva". Voltaria ao rascunho quando as palavras coubessem no bolso e não no peito. Programou um alarme para o fim do ciclo e guardou o celular.

Vestindo o moletom largo e com o cabelo preso num elástico que já tinha desistido do trabalho, Temari caminhou até a máquina de venda automática do corredor da lavanderia. O ar cheirava a cloro e a migalhas de biscoito. A luz fria fazia todo mundo parecer um pouco fantasma.

— Boa noite, Temari — a zeladora, Dona Marly, varrendo devagar, perguntou sem pergunta —. E a moça do riso alto?

— A Ino? Tá... ótima. — Temari sorriu só com um lado da boca.

— Você tá com olho de quem tá com sono e pensando muito. Essas duas coisas brigam — disse a mulher, encostando o cabo da vassoura na parede.

— Eu desligo a cabeça quando a máquina aceita minha moeda — Temari levantou o pacote de bolacha, que desceu no espiral até cair. — Viu? Milagre doméstico.

— Bebe água também — disse Dona Marly. — Senão a bolacha vira pedra no estômago.

Temari brindou com a garrafinha e subiu de volta pro quarto, levando a frase como se fosse um remédio vagabundo que funcionava.

O alarme vibrou na cabeceira. Temari desceu de novo, retirou as peças da lavadora e passou os lençóis e a toalha para a secadora, programando 45 minutos. Subiu outra vez; o cesto ficou encostado no quarto, à espera da recolha.

Hinata estava sentada no chão, costas na cama, caderno de botânica aberto no colo. Tinha copiado pela terceira vez o mesmo esquema de raízes pivotantes. O traço ficava bom, mas a cabeça se perdia, visitando outros lugares. A caneta riscou uma linha além da margem e ela riu sozinha, um riso meio frustrado, meio alívio.

O abajur de mesa tinha uma lâmpada que às vezes piscava. Hoje, resolveu piscar toda vez que Hinata pensava no corredor da estufa. A mente quebrava a cena em microcortes: o vidro suando por dentro, o barulho do aquecedor, a frase "não devia ter vindo" repetida em dois timbres — o dele e o dela.

— Eu sei — ela disse para o nada, só para ocupar o ar.

Lembrar não doía só por causa da cena. Doía porque ela reconhecia a velha equação: quando a tristeza apertava, procurava um lugar com vidro e planta, um corpo em silêncio que coubesse ao lado e não pedisse nada. O Shikamaru coube fácil demais. Isso era lindo e perigoso no mesmo grau.

O celular descansava com a tela virada para baixo. A vibração que veio foi como um segundo coração na madeira.

Ligação de: Shikamaru.

Ela respirou fundo, uma, duas, três vezes, do jeito que a terapeuta ensinou ("como quem enche o peito de casa"). Atendeu no quarto toque, não para fazer charme, mas porque precisou de três toques para decidir ser corajosa.

— Alô — Hinata, a voz pequena, mas limpa; o abajur piscou e parou.

— Oi — Shikamaru, rouco de vento —. Eu... não tô ligando pra te jogar um peso.

Silêncio breve. O tipo de silêncio que anda na ponta do pé.

— Tudo bem — ela disse —. A gente não precisa nomear nada agora.

— Eu queria dizer que... hoje eu falhei do jeito mais burro — ele disse; encostou o rosto no casaco, olhos fechados —. E que te puxar pra perto foi injusto. Com você. Com todo mundo.

O relógio da torre, visto de onde ele estava, parecia às vezes voltar um passo antes de seguir.

— Eu me puxei sozinha também — ela respondeu; a unha passeou de leve pela lombada do caderno —. Eu sei onde eu me meto quando quero sentir menos. Você só tava... ali.

— Eu tô aqui — ele disse; e o "aqui" não tinha GPS —. Não pra repetir nada. Só... pra ouvir se você quiser dizer alguma coisa que ninguém aguenta ouvir.

Hinata pensou em falar do cansaço velho, do medo de ser farol para toda tristeza no raio de dez quarteirões. Pensou e não falou. Guardou para um lugar com janela.

— Hoje eu queria só dormir — ela disse; um sorriso que ele não viu, mas ouviu na forma da frase.

— Tá certo — ele; dedos no botão do isqueiro que he não acendeu —. Obrigado por atender.

— Obrigada por ligar.

Quando a chamada terminou, o celular ficou teimoso por três respirações a mais antes de seguir viagem. Atrasado, mas presente.

Do outro lado do campus, no seu próprio quarto, Temari sentiu o celular vibrar sobre a cama, mas não olhou. A essa hora da noite, uma notificação era apenas mais um ruído no silêncio que ela tentava cultivar. O campus tinha o costume irritante de virar espelho nos horários errados, e ela não estava com humor para reflexos.

Ela hesitou só o tempo suficiente pra confirmar que ainda tinha dignidade. Pegou o celular e abriu a conversa com Shikamaru:

— Você tá aí? — Temari, sem emoji.

Demorou um minuto. Depois, outro.

— Tô — Shikamaru.

Mais um minuto. O miado do mesmo gato do pátio. Os passos de alguém no corredor. Um riso longo vindo do fim do andar, como garrafa abrindo.

— Temos um problema de comunicação — Temari. A frase era fria, corporativa. O dedo bateu em "enviar" como quem anexa um termo de serviço.

— Eu quero. Não agora. Eu tô confuso, e confusão em cima de você é desrespeito — Shikamaru.

Ela encostou as costas na porta. O tecido grosso do moletom fez um som abafado contra a madeira. Aquela resposta era, irritantemente, a coisa mais adulta que ele tinha dito em semanas. E ainda assim doía numa região do corpo que não tinha nome.

— Três coisas — Temari: — transparência, respeito e tempo. Se faltar uma, não tem conversa.

— Eu entendi — Shikamaru.

— Amanhã, às 20h, no café do pátio. E sem desculpa pronta.

— Eu apareço. Sem desculpa.

Temari jogou o celular na cama com um gesto definitivo. Foi até a janela. O vidro tinha um círculo de embaçado onde a respiração parou. Ela desenhou um traço vertical com o indicador e o traço evaporou em segundos. "Amanhã eu penso", repetiu. O corpo acreditou um pouco.

A fome, que ela tinha ignorado, deu um sinal. Na sua própria cozinha, abriu a geladeira, o motor fazendo um ronco baixo, quase um suspiro. Passou os olhos pelos poucos potes na prateleira, pegou um iogurte com seu nome escrito com caneta permanente e abriu com o canto da unha. O rasgo do selo de alumínio foi seco e curto.

Comeu de pé, ali mesmo, a colher batendo suavemente no plástico. O silêncio do apartamento era um peso. Cada som parecia amplificado: o zumbido da geladeira, o trânsito distante lá fora, sua própria respiração. A solidão era uma visita indesejada que tinha se instalado no sofá.

Foi quando o alarme do celular vibrou, lembrando-a da secadora. Um alívio. Uma tarefa. Uma desculpa para sair daquele silêncio.

Com o cesto de roupa vazio na mão, ela desceu. O cheiro de amaciante no corredor da lavanderia era quase terapêutico. Dobrou os lençóis ainda quentes, a mente focada no movimento repetitivo.

De volta à portaria, esperando o elevador, encontrou Dona Marly, que passava um pano no balcão, num trabalho lento e metódico.

— Você vai querer aquilo lá? — perguntou a zeladora, sem rodeios.

— O quê?

— O horário. Você vai querer que ele chegue.

Temari apertou o cesto de roupa contra o corpo. A pergunta, vinda de alguém de fora, tornou a situação terrivelmente real.

— Se ele não chegar, a gente economiza tempo. Se ele chegar com desculpa, a gente economiza respeito. Se ele chegar sem desculpa, a gente gasta o resto do que sobrar e vê no que dá — Temari, com frieza ensaiada.

— Gosto — Marly sorriu com os olhos —. Água, moça. A pedra no estômago.

— Tô na terceira garrafinha — Temari ergueu a mão livre, como um troféu imaginário.

— Então dorme. Amanhã você pensa.

— Tô tentando desde às dez — Temari riu pequeno. O elevador chegou. — Boa noite, Dona Marly.

Entrou na cabine. Levou o riso no bolso e o cheiro de roupa limpa nas mãos.

Hinata apagou o abajur e o quarto ficou azul de estacionamento. A chama fria dos postes recortava os contornos dos livros. O caderno de botânica permaneceu aberto, a raiz pivotante apontando pra baixo como um lembrete: ir fundo dá trabalho.

O sono não vinha inteiro. Vinha em ondas que batiam e voltavam. Na cabeça, as falas da ligação faziam ninho. "Eu tô aqui." "Hoje eu queria só dormir." Duas frases tão simples que parecia absurdo ninguém ter dito antes.

Ela abriu o bloco de notas do celular. Escreveu: "coisas que não vou dizer em voz alta agora". A lista ganhou três itens:

"Queria que ele tivesse ficado."

"Tenho medo de virar hábito na dor dos outros."

"Não quero ser ponte. Quero ser destino."

Apagou o item 1, não por vergonha, mas por economia de esperança. Era um desejo inútil, um beco sem saída para o coração. Melhor não gastar energia ali. Guardou os outros dois como quem guarda tesoura num estojo: melhor saber onde estão.

Shikamaru caminhou até a quadra porque o barulho de bola quicando na memória às vezes arrumava os pensamentos. Não tinha ninguém jogando, só eco antigo. As arquibancadas metálicas guardavam frio. Ele sentou no primeiro degrau e deixou o corpo inclinar, cotovelos nos joelhos, mãos cruzadas.

No bolso, o isqueiro. Ele girava a tampinha, fechava, abria. A cada clique, lembrava uma frase que disse errado. Um professor tinha explicado uma vez que a gente confunde arrependimento com vontade de controlar o passado. Ele riu de si: "Controlar passado, Shikamaru, boa sorte."

O painel do placar eletrônico, desligado, ainda mostrava fantasmas de números quando a luz do corredor batia. Por um instante, ele jurou ter visto "00:07" no lugar onde deveria estar vazio. Piscou, sumiu.

— Beleza — ele disse —. Tudo que eu não resolvo ganha número.

A porta lateral fez um som de metal e vento. Ninguém entrou. Ou entrou e não fez questão de existir. Ele decidiu existir de teimosia. Levantou, bateu o pó imaginário da calça e foi embora com passos contados. O mundo inteiro parecia pedir recibo das coisas hoje.

A cama ficou grande demais com uma pessoa só. Temari deitou de lado, segurando a borda do cobertor com a mão direita como quem segura no corrimão. Abriu uma conversa com Ino e escreveu: "se eu te ligar agora você me xinga?"

Ino respondeu em vinte segundos: "— Só se você merecer. Liga."

Temari não ligou. Escreveu: "— Amanhã te conto. Hoje eu decidi dormir."

Ino mandou três corações amarelos e a foto de um gato deitado de barriga pra cima. A legenda dizia: "exemplo a ser seguido". Temari riu, mas o sono não veio. O silêncio do apartamento era um peso. Cansada de encarar o teto, ela desceu um lance de escada porque precisava de ar mais frio que o do quarto. O concreto guardava calor, mas a noite fazia um trabalho honesto. Sentou no degrau, joelhos juntos, cotovelos apoiados, mão espalmada no próprio rosto.

— Tá aberta? — uma voz feminina, baixa.

Ino, cabelo preso de qualquer jeito, moletom gigante, duas canecas de chá que fumegavam como se tivessem pressa. Ela desceu até um degrau acima e ofereceu uma caneca sem falar muito.

— É de camomila com mel. Não é poção mágica, mas engana — Ino.

— Silêncio com presença resolve — Temari, aceitando a caneca.

Elas ficaram um tempo sem medir o tempo. O relógio da torre não vazava ali. O vapor subia da bebida como se desenhasse uma guarda para as palavras.

— Você quer que eu fale mal de alguém específico ou quer silêncio? — Ino, com humor de ponta fina.

— Hoje, silêncio. Amanhã, talvez eu alugue seu veneno — Temari.

Ino sorriu com os olhos e encostou o ombro no corrimão. Depois de alguns goles, estalou a língua, procurando o jeito certo de dizer sem empurrar.

— Lembra quando você me fez reescrever aquele e-mail vinte vezes até a raiva virar gramática? — Ino.

— Lembro. — Temari soprou o chá. — Eu faço isso com as coisas até ficar com a cara da calma.

— Então hoje a gente só ferve água. Amanhã você escreve. — Ino pousou a caneca ao lado. — Amiga, obrigada. Agora não me sinto mais tão sozinha. Vou tentar dormir.

— Se a cabeça inventar festa, bate na minha porta. Eu tô no 218 — disse Ino, fazendo um toque leve no ombro dela antes de subir. Temari ficou mais dois goles ali, sentindo o corpo concordar, e voltou para o seu quarto. O fundo das pálpebras tinha o mesmo desenho dos faróis na parede. A mente abriu uma janela pequena para uma lembrança boa: o primeiro café com Shikamaru, o jeito como ele segurou o sachê de açúcar como se fosse uma prova de matemática. Riu de novo, dessa vez com uma pontada. Mudou de lado. A cabeça deixou de fazer lista e virou borrão.

Sasuke parou no meio da passarela porque o vento ali fazia um corredor que limpava a cabeça. O isqueiro virou, fechou, virou, fechou na mão dele com um claque baixo que lembrava um metrônomo. Ele olhou para o prédio espelhado do laboratório e viu a própria figura recortada: casaco escuro, ombros de quem não quer entregar o peso para ninguém.

O celular vibrou. Tela acesa. Número salvo como "K."

A mensagem: *"Descobri como a gente pode revisitar o que aconteceu. De um jeito seguro. Campus, amanhã. Se você aparecer, eu explico."*

Ele deixou a tela acesa até a luz apagar sozinha.

Ele leu a mensagem de novo. Repetir. De um jeito seguro. A oferta era uma porta de saída fácil para a confusão, mas o rosto de Sakura apareceu em sua mente, não o acusando, mas o lembrando do que ele tinha quebrado. *Não com ela*, pensou, a lealdade um fantasma doloroso. *Não agora.* Apertou o isqueiro até o metal morder sua pele.

O vento trouxe um cheiro seco, tipo giz. A passarela, por um segundo, pareceu mais comprida do que era. Ele guardou o isqueiro, guardou o celular, guardou a frase. E caminhou.

Atrás dele, o relógio da torre pensou em atrasar, mudou de ideia e ficou mudo.

Naruto travou a bike no paraciclo e sentou no banco só pra ver o vapor da própria respiração. Tinha acabado de sair do turno na lanchonete do portão, o avental cheirando a óleo que se recusa a ir embora. Mandou mensagem pra Hinata: "— Cheguei. Tu tá acordada?"

"— Tô, mas quase dormindo."

"— Quer que eu suba pra dar boa noite na porta?"

Demorou. "— Hoje não. Amanhã."

Naruto coçou a testa com o nó do avental. Ele sabia ler entrelinhas e, às vezes, escolhia não ler para respeitar o texto. "— Então tá. Amanhã. Dorme."

Guardou o celular no bolso canguru, olhou pro céu e decidiu que nuvem à noite tem cara de animal que não existe. Levantou. Passou pela portaria e acenou pro vigilante, que respondeu com um aceno do tamanho da preguiça do mundo.

Hinata finalmente pegou no sono. O sonho veio em tons de vidro: ela atravessava a estufa e, no fim do corredor de plantas, a porta dava para a sala de casa de quando era criança. A janela tinha cortina de renda, a bancada tinha cheiro de bolo pronto, e a mãe ria com os olhos, não com a boca. Hinata caminhava, mas o piso deslizava como esteira. A cada passo, o relógio de parede recuava três minutos e dizia "quase".

Ela acordou sem sobressalto, como quem chega ao fim da escada. Bebeu um gole de água. O barulho da rua fez o papel de música. Encostou o copo na testa. Voltou a deitar. Antes de dormir de novo, pensou: *"eu não sou só o que eu aguento"*. Guardou a frase como quem guarda lenha seca.

Shikamaru parou numa vaga de carga e descarga atrás do ginásio porque ninguém para ali de noite e porque a vaga parece sempre reservar lugar pra um pensamento. Encostou na parede e sentiu a textura áspera pedir pele mais grossa. Digitou uma mensagem que não enviou: "eu vou merecer você quando parar de tentar merecer tudo". Riu da filosofia barata e guardou o celular.

Uma brisa trouxe um papel leve que grudou no tênis dele. Era um panfleto velho do show de um veterano no semestre passado. No verso, alguém tinha desenhado um símbolo com três riscos que se cruzavam numa ponta — pareciam três pesos brancos pendendo de um fio escuro. Por um instante, o papel pareceu estranhamente frio ao toque, uma frieza que não vinha da noite. A tinta do desenho parecia mais escura que o normal, quase como se estivesse úmida. Ele virou o papel, amassou devagar, jogou no lixo.

— Não hoje — disse para o papel, para o símbolo, para a mania de puxar fios quando a roupa já está desfiando.

Sasuke voltou por hábito. Às vezes a gente escolhe o mesmo lugar para ver se o lugar escolhe a gente de volta. Encostou no corrimão. O metal roubou calor dos braços.

Abriu a mensagem da Karin e deixou o texto dilatar até virar ideia. O "revisitar de um jeito seguro" implicava método. Lugar certo, hora certa, palavras certas. Ele conhecia truques de persistência; o problema é que persistência, quando aplicada no lugar errado, só cava túneis mais fundos.

Uma risada veio da rua lá embaixo. Dois estudantes atravessavam com uma caixa de pizza. Um deles falou "e se a gente fingir que não aconteceu?", e a frase subiu como alerta errado na caixa de som.

Sasuke fechou os olhos, não para negar, mas para guardar força.

*Amanhã*, ele escolheu. Uma palavra que servia de tampa, por enquanto.

Temari deitou de barriga pra cima e encarou o próprio teto como quem encara uma planilha ruim. O item "dormir" foi cumprido com atraso. Puxou o cobertor até o queixo, deixou os pés de fora para o corpo não confundir.

*Transparência, respeito, tempo*, ela repetiu, dessa vez como oração.

O sono veio primeiro em preto e branco, depois em cores. No sonho, ela estava numa sala com janelas de ônibus e as cadeiras eram plantas em vasos de barro. Shikamaru entrava com um bilhete amassado no bolso, e Ino vinha logo atrás dele, equilibrando três xícaras de café que não derramavam nunca. A torre do relógio cabia inteira na janela, e, do lado de fora, a mãe dela falava: "acorda quando fizer sentido". Temari acordou sem susto, desejou que o sonho fosse instrução e virou do outro lado. Dormiu de novo, inteiro, como quem desliga um equipamento sem culpa.

Hinata acordou com sede e uma calma desconhecida encostada no ombro. Bebeu água. A cabeça fez aquela pergunta besta — *"e se?"* — e, com alguma disciplina, ela respondeu: "depois". Costumava doer dizer "depois", mas hoje coube.

Ela pôs o celular no modo avião. Sorriu da infantilidade estratégica. Se o mundo resolvesse cair, que caísse sem pedir opinião. Deitou de lado, abraçou o travesseiro. Imaginou a raiz pivotante atravessando camadas de terra até encontrar água fria. O corpo acreditou na imagem, e o sono veio com ela.

O vigilante noturno, Seu Abel, deu duas batidas leves no vidro da guarita e saiu para fumar. O isqueiro quis apagar duas vezes, acendeu na terceira. Ele puxou o primeiro trago e olhou para o relógio. Por um capricho antigo, conferiu a hora no celular. Diferença de três minutos.

— Deve ser o vento — ele falou, e o vento fingiu que não ouviu.

Um papel velho, parecido com o que Shikamaru tinha amassado, prendeu no portão. Abel foi tirar. Três riscos brancos se cruzando numa ponta, o resto manchado. Ele girou o papel para ver se o desenho tinha começo. Não tinha. Jogou fora com a eficiência de quem já varreu pista de aeroporto. Não percebeu que, por um instante, o ponteiro grande da torre preferiu ficar imóvel, como cachorro fingindo de morto.

Naruto dormia sentado, cabeça encostada no corrimão, como quem parou só por um segundo e o corpo decidiu que era suficiente. A mochila servia de travesseiro resignado. O celular piscou no bolso com uma notificação do iFood. Ele não acordou. O campus, às vezes, era gentil com quem trabalha até tarde.

O céu começou a perder o breu daquele jeito lento que engana quem quer milagre. As janelas de alguns quartos acenderam como pontos de mapa dizendo "tem vida aqui". O gato branco atravessou de novo o gramado, agora carregando algo que podia ser um pedaço de pão roubado. A máquina 6 da lavanderia renasceu no meio do ciclo e ninguém viu. O relógio da torre, de mau humor, atrasou dois minutos para não perder o costume.

Ninguém investigou nada. Ninguém acendeu vela, espalhou sal, desenhou círculo. Teve gente que dormiu, teve gente que não. Às vezes, sobreviver a uma noite já é o bastante. O resto, a manhã seguinte resolve ou complica.

O banco de cimento acumulava um frio disciplinado. Shikamaru passou por ele e voltou dois passos, como quem percebe que esqueceu algo que nunca carregou. Sentou, abriu o bloco de notas do celular e começou uma carta que não tinha destinatário declarado: "se eu continuasse falando só depois de pensar, eu ia calar até secar." Parou. Riu do tom de grande frase. "Eu preciso aprender a falar no meio do pensamento e aceitar que vai sair torto." Salvou sem título. O arquivo ficou com o nome automático de "sem título 3".

A ponteira do abajur fez um ângulo de estrela no teto quando ela encostou o braço. A lembrança do café com Shikamaru se alongou sozinha: ele mexendo o açúcar com a colher sem encostar nas laterais da xícara, como se não quisesse acordar o líquido; o jeito que ele ouviu a história da cicatriz no tornozelo — queda boba na infância — como se fosse um capítulo da tese. *"Você* tem um jeito de estudar as pessoas sem que elas sintam o microscópio." Ele tinha respondido: *"eu tento olhar como quem segura, não como quem aponta."*

Shikamaru foi até a máquina que vendia café ruim e escolheu o capuccino morno que vinha com espuma de ar. Apertou o botão e viu o copo cair, torto, endireitar, receber o jato. Ao lado da máquina, um mural de avisos tinha sobreposições de cartazes como anéis de árvore. Havia um pequeno post-it amarelo escrito: "lembre-se de beber água." Ele pegou o post-it e colou no celular. Bebeu o capuccino morno como se fosse um castigo justo.

Sasuke encostou a cabeça no vidro da sala de observação e, por um instante, se viu um ano atrás, sentado onde a Karin gostava de sentar — cadeira virada ao contrário, braços cruzados no encosto. Ela tinha explicado algo sobre "reencenação contextual" num tom que era meio aula, meio pedido. *"Se* você repetir o ambiente, o corpo tenta completar a frase *que ficou no meio"*, ela disse. *"Mas isso às vezes solta bicho preso."* Ele tinha respondido com ironia: *"então* é *só abrir a jaula e torcer pro bicho gostar da paisagem."*

Shikamaru bateu duas vezes e entrou sem esperar resposta porque era assim desde o primeiro semestre. Choji estava acordado, meio sentado, assistindo a um vídeo de gente cortando legumes com velocidade obscena.

— Você perdeu o miolo da noite, irmão — Choji, sem tirar os olhos da tela.

— O miolo me perdeu — Shikamaru jogou o corpo na poltrona.

— Quer dividir as batatinhas? — Choji ergueu o saco como quem oferece trégua.

— Quero dividir a culpa — Shikamaru.

— Essa não tem cebola frita. Passo. — Choji desligou a TV. — Fala.

Shikamaru soltou o ar de uma vez, um som cansado que parecia carregar o peso de todas as decisões erradas da noite. Ele passou a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer arranhar a pele. — *Aonde eu começo?* — pensou. — *É tudo um nó.*

— Eu pisei na bola — ele disse, finalmente, a voz baixa, as palavras difíceis de sair. — Com a Temari. Ela me deu o não que eu merecia. Eu não fui claro, não fui justo. E a Hinata... — Ele fez uma pausa, engolindo em seco. A imagem do rosto magoado dela na estufa voltou com força. — Eu a usei como um escudo, Choji. E depois a afastei. Eu a puxei para o meu caos e depois a culpei por estar lá. Eu liguei pra tentar consertar, mas... não sei se consertei ou se só joguei mais peso em cima dela.

Choji coçou o queixo, pensou devagar, o que era sua melhor qualidade.

— Você quer o quê agora? — Choji.

— Ética — Shikamaru.

— E como é o gosto?

— Amargo no começo. Depois parece água.

— Então bebe água. E dorme aqui hoje. Eu ponho o despertador pro seu café de amanhã.

Shikamaru aceitou como se fosse um tratado de paz. Deitou no colchão extra que morava dobrado debaixo da cama de Choji. O travesseiro cheirava a sabão de coco. O corpo entendeu o recado e cedeu mais uns milímetros.

— Mano — Choji, no scuro —, cê tá só pensando ou já tá pensando com a cara?

— Pensando com a cara.

— Então amanhã você pensa com a boca. E com a orelha.

— Beleza. Obrigado.

— A gente cobra com batata. Dorme.

Shikamaru fechou os olhos e, pela primeira vez na noite, não tentou resolver nada.

Sakura escreveu, apagou, escreveu: "você tá bem?" Apagou. "tô aqui." Apagou. "se for amanhã, é amanhã." Deixou o campo limpo, trancou o celular e encostou a testa na janela. A superfície fria devolveu a imagem de uma mulher que cansou de falar o que o outro não quer ouvir e aprendeu a ficar perto sem perder a voz. Ela sorriu de leve pra si mesma, por gostar de quem viu no vidro.

Seu Abel recolheu dois sacos de lixo e se espreguiçou como quem renegocia contrato com as próprias costas. O rádio chiou uma música antiga. Ele cantarolou um refrão que servia para qualquer coisa: "tudo que é pesado a gente descarrega e pega de novo de manhã". Olhou pro relógio, pensou em ajustar, decidiu que amanhã lembraria. Nunca lembrava.

Hinata sonhou que entrava num ônibus vazio e escolhia sentar de costas pro motorista, como se quisesse ver de onde veio. A paisagem era o campus, mas os postes tinham folhas. A cada esquina, alguém conhecido entrava, sentava dois bancos atrás e dizia o nome de uma coisa que perdeu. Quando a vez dela chegou, ela disse "eu perdi a vontade de avisar quando dói." O cobrador respondeu "achei". Entregou um papel dobrado em quatro com a palavra "limite". Ela guardou no bolso. Acordou com a impressão de que o bolso ainda estava pesado.

Dona Marly empurrava o carrinho de limpeza com a majestade de quem comanda um barco. Viu um copo de capuccino abandonado na máquina azul e uma fileira de migalhas levando até o elevador. *"Universitários são pombos com carteira de estudante"*, ela pensou, sem maldade. Pegou o copo, jogou fora, limpou os botões com um pano que deixava cheiro de laranja. O painel apitou. Por um segundo, os números do relógio digital do corredor recuaram três minutos. Marly suspirou. *"Relógio* velho *é igual joelho — quando resmunga, é porque o tempo vai mudar."*

Shikamaru acordou achando que tinha perdido um compromisso. Procurou com a mão o celular no chão. Abriu o bloco "sem título 3" e digitou: "amanhã, café do pátio. eu vou dizer sem cálculo. e ouvir como se fosse prova oral. sem colar. sem planilha." Fechou o bloco. Respirou. Voltou a dormir, dessa vez sem brigar com o travesseiro.

Sasuke, ainda acordado, parou no meio do vão e abriu uma nova conversa com a Karin: "— Amanhã, passarela. Eu ouço." Apagou "Eu ouço". Enviou apenas: "— Amanhã, passarela." O duplo tique veio sem drama. Ele guardou o celular com a sensação exata de quem guardou uma chave que não sabe de qual porta é, mas sabe que vai descobrir tentando. O vento diminuiu. O campus respirou junto.

Temari acordou de um sonho em que ela entrava num café e todos os copos tinham nomes escritos a marcador, menos o dela. Alguém — uma atendente sem rosto — entregava a ela um copo em branco e uma caneta preta. "Escreve você", dizia. Temari abriu os olhos, olhou pro teto e sentiu um músculo que ela não sabia que era músculo relaxar. Pegou o celular e escreveu no bloco de notas: "Amanhã eu penso. Mas amanhã eu também falo." Deixou o celular com a tela voltada pra baixo. Fechou os olhos. O corpo, por fim, entendeu a instrução.

Antes do sol resolver o que era manhã, o campus respirou como bicho grande que não quer acordar ainda. Dona Marly cruzou com Seu Abel perto da máquina azul. "O digital do corredor pulou de novo", ela disse. "O meu na guarita tá três minutos atrasado", ele respondeu. "Desde ontem." Trocaram um olhar que dizia que o tempo no campus estava doente. O gato branco passou carregando o que parecia um fiapo de pão e parou ao lado deles, como se conferisse presença. Abel disse que alguns pesos a gente só muda de mão; Marly respondeu que mudar de mão já é descanso. Voltaram ao trabalho sem prometer nada. No alto, o ponteiro grande da torre escolheu seguir em frente, como quem lembra que o tempo anda mesmo quando a gente ficaria parado.



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