O Sussurro da Academia

12 CAPÍTULO 12: DISSONÂNCIA E FRAGMENTOS


SÁBADO DE MANHÃ

A luz que se infiltrava pelas persianas do quarto não era a luz suave e promissora de um novo dia. Era uma luz cinzenta, anémica, a cor de água suja que se acumula no asfalto depois de uma tempestade. Iluminava sem aquecer, revelando a desordem do ambiente com uma clareza quase cruel. Sakura acordou lentamente, não de um pulo, mas como se estivesse emergindo de um líquido espesso e escuro. O sono não tinha sido um refúgio. Tinha sido apenas uma ausência, um vácuo que agora era preenchido pela realidade.

O seu corpo protestou primeiro. A cabeça latejava num ritmo surdo, uma bigorna batendo contra o seu crânio. A boca estava seca, com um gosto pastoso que era uma mistura desagradável de salgadinhos, do doce enjoativo de refrigerante e do travo amargo do vinho barato que Ino tinha insistido em trazer. Pegou no celular na mesa de cabeceira. O relógio na tela marcava 09:15. Abriu os olhos, a visão focando lentamente no rescaldo da noite anterior. O seu quarto, o seu santuário de ordem e controlo, parecia ter sido saqueado. Embalagens de batatas fritas amassadas jaziam no tapete, o pote de sorvete de chocolate com menta estava abandonado, duas colheres enfiadas na massa derretida como bandeiras numa terra conquistada. O seu notebook, pousado de qualquer maneira sobre a colcha, exibia a imagem congelada de um casal a sorrir sob uma chuva falsa, um momento de felicidade fabricada que, naquela manhã, parecia um insulto.

A imagem desencadeou uma memória.

[FLASHBACK INÍCIO] — Testa, a gente não vai te deixar sozinha nem a pau, a voz de Ino, firme e sem espaço para argumentos, ecoou na sua mente. Ela tinha irrompido pela porta do quarto horas antes, na noite anterior, encontrando uma Sakura encolhida na cama, um casulo de miséria silenciosa. Trazia consigo o arsenal de emergência para corações partidos: sorvete, vinho e uma coleção de filmes onde o amor era simples e o vilão era sempre punido. Hinata tinha chegado logo depois, mais silenciosa, mas a sua presença era um bálsamo, os seus olhos dizendo tudo o que a sua boca tímida não conseguia.

— Ele é um canalha, Sakura. Simples assim, Ino tinha declarado, enquanto abria o vinho com um floreio. — Não tem explicação. Homens são idiotas. Especialmente os Uchihas. [FLASHBACK FIM]

Elas tinham passado horas ali. Tinham fofocado, tinham amaldiçoado o nome de Sasuke, tinham rido das piadas idiotas do filme. Tinha sido um curativo, uma solidariedade barulhenta que a tinha anestesiado. Mas agora, no silêncio da manhã, a anestesia tinha passado.

Ela empurrou o edredom, os seus movimentos lentos, pesados. Um dos seus pés descalços pousou em algo pegajoso no chão de madeira. Refrigerante. Xingou baixo, um "merda" abafado pelo silêncio. Arrastou-se para fora da cama, sentindo cada músculo do seu corpo pesado, como se estivesse carregando um luto físico. Precisava de café. Precisava de uma rotina, de um ritual, de qualquer coisa que a fizesse sentir que o mundo ainda tinha regras.

Na pequena cozinha do seu apartamento, o silêncio era ainda mais opressivo. As amigas tinham ido embora de madrugada, cada uma para o seu próprio quarto no dormitório, deixando-a sozinha com os destroços da noite. Ela abriu o armário, pegou na sua xícara preferida – uma que Sasuke lhe tinha oferecido, com uma piada sobre a cor ser tão escandalosa como a do seu cabelo – e quase a deixou cair. Pousou-a na bancada com mais força do que o necessário, o som da cerâmica batendo na pedra ecoando como um tiro. Pegou outra. Uma branca, anónima.

O ritual de fazer café era automático. A água enchendo o depósito, o som do filtro de papel sendo colocado no lugar, o cheiro rico e amargo dos grãos enchendo o ar. Eram ações mundanas, familiares. Mas a sua mente não estava ali. Estava a quilómetros de distância, presa num ginásio de kendo.

Apoiou-se na bancada, observando a água escura pingar lentamente para o jarro de vidro, e a memória atingiu-a. Não como um pensamento, mas como uma onda, um tsunami de dor que a deixou sem ar. A voz dele, desprovida de qualquer emoção, cortando o ar como uma lâmina de gelo.

Foi um erro.Puta merda… — ela sussurrou para a cozinha vazia, a voz falhando. — Eu não acredito que ele disse aquilo.

Apertou a borda da bancada com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O seu coração batia descontroladamente no peito, uma mistura de pânico e raiva.

Um momento de fraqueza que eu não vou cometer de novo.Que filho da puta! — disse ela, mais alto desta vez, a raiva borbulhando. — Como é que ele teve a coragem? Depois de tudo o que a gente… não. Não pode ser.

A negação era uma muralha erguendo-se à volta do seu coração ferido. Ela pegou na xícara de café quente, o calor espalhando-se pelas suas mãos frias, uma sensação de ancoragem.

É o suficiente, Sakura, a sua própria voz racional disse-lhe, o tom cansado, pragmático. — Ele foi um filho da puta. Fim da história. Aceita e segue em frente. Não há mais nada para analisar.

Mas então, uma outra voz, um sussurro no fundo da sua mente, uma sensação mais do que um pensamento, discordou. — Não. Não foi só isso.

Claro que foi só isso, a razão retorquiu, impaciente. — O que mais poderia ser? Você está criando desculpas para não ter que lidar com a humilhação.A performance foi fraca, insistiu o sussurro. — A crueldade não tinha convicção. Faltava a raiva, faltava o desprezo genuíno. Era... oco. Alguma coisa está errada.

[FLASHBACK INÍCIO] Um flashback invadiu a sua mente sem ser convidado. Duas semanas atrás. Todos os seis, espremidos numa mesa do Ichiraku, a rir tão alto que as outras pessoas olhavam. Naruto a roubar a comida do prato de Sasuke, Hinata a corar com uma piada de Kiba, Temari a revirar os olhos para uma teoria preguiçosa de Shikamaru. Tinha sido fácil. Leve. Normal. [FLASHBACK FIM]

A sua mente contrastou essa imagem com flashes dos últimos dias. A palidez de Shikamaru na noite em que falou da sombra. O olhar aterrorizado de Hinata no corredor, antes de se fechar para todos. A forma como os dois agora andavam juntos, a cochichar, excluindo o resto do mundo. A raiva desproporcional de Naruto e Temari, uma dor tão grande por algo que eles nem sequer viram.

Isso é loucura, a sua voz racional gritou, desesperada para retomar o controlo. — Você está criando uma teoria da conspiração para não ter que lidar com a realidade. A realidade é simples: as pessoas mudam. Relacionamentos acabam. O Shikamaru e a Hinata se aproximaram, e você e o Sasuke se afastaram. Fim. Cada um está seguindo em frente, Sakura. Você deveria fazer o mesmo.Não, o sussurro respondeu, e desta vez não era uma sugestão, era uma certeza fria. — Isto não é 'seguir em frente'. Isto é... uma doença. Uma praga. Você não vê? A forma como eles olham uns para os outros, a desconfiança, o medo... Não é normal. A dor que você sente não é a dor de um coração partido. É a dor de algo que foi arrancado à força. Algo está errado. E você sabe disso.

A médica dentro dela, a analista, estava acordando. A dor era insuportável, mas a dissonância, a sensação de que as peças não se encaixavam, era ainda mais forte. Ela voltou para o seu quarto, pegou na xícara de café e sentou-se em frente ao notebook. A dor não ia a lado nenhum. Mas talvez, apenas talvez, houvesse uma explicação. E se houvesse uma explicação, ela iria encontrá-la.

Fechou a janela da comédia romântica com um clique irritado e abriu o navegador. Os seus dedos voaram sobre o teclado, a necessidade de encontrar um padrão, uma resposta, consumindo tudo o resto.

“Perda de memória súbita após evento traumático.”

Dezenas de artigos. Amnésia dissociativa. Fuga dissociativa. Leu os sintomas, a sua mente processando a informação clinicamente. Não se encaixava.

“Alterações de personalidade súbitas.”

Transtorno de personalidade limítrofe. Transtorno bipolar. Esquizofrenia. Não. Nada batia certo.

Ela passou as mãos pelo cabelo, puxando os fios com força, a frustração crescendo no seu peito. Estava sendo ridícula.

Esgotada, encostou-se na cadeira. A lógica tinha falhado. Foi nesse momento de derrota que a imagem do símbolo lhe veio à mente. Pegou no celular, os dedos tremendo um pouco, e abriu a galeria. Lá estava ele. Um círculo, com três vírgulas girando para dentro. A sua única pista tangível no meio de toda aquela loucura.

Ok, vamos lá. Última tentativa, pensou, sentindo-se uma completa idiota. Voltou para o notebook.“Símbolo círculo três vírgulas Konoha.”

Resultados absurdos. Lojas de tatuagem. Logotipos de empresas. Lixo.

“Símbolos antigos Academia Konoha.”

Brasões de famílias de samurais, símbolos de templos. Nada parecido.

“Maldições de manipulação mental.”

Ela fechou os olhos com força, sentindo uma onda de auto-aversão. O que é que ela estava fazendo? Aquela era a sua última esperança, a sua única pista concreta, e também não deu em nada.

Fechou o notebook com um estrondo, o som ecoando no quarto silencioso. O gesto foi violento, final. A lógica tinha falhado. O absurdo tinha falhado. Tudo tinha falhado.

E ali ficou ela. De pé, no meio do seu quarto, uma ilha de imobilidade no meio da desordem da noite anterior. O brilho do seu celular, pousado sobre a cama, era a única luz real no ambiente, a tela iluminando a foto do símbolo – a sua única e inútil pista. A dor no seu peito não tinha diminuído; era uma presença constante, pesada. Mas agora, a essa dor, juntava-se uma nova e terrível sensação, fria e cortante como vidro partido: a de estar completamente e irremediavelmente sozinha num mistério que nem sequer sabia se era real. Olhou para o relógio digital na sua mesa de cabeceira. 11:30. Tinha passado mais de duas horas presa naquele ciclo de dor e pesquisa inútil, e não estava mais perto de uma resposta do que quando acordou.

O quarto de Temari era uma fortaleza de ordem. Os livros em sua estante estavam alinhados por altura e tema com uma precisão militar, sua cama estava feita sem um único vinco, e nem um grão de poeira ousava assentar na superfície de sua escrivaninha. Era um ambiente que refletia sua mente: disciplinada, controlada, implacável. Mas naquela manhã, a ordem era uma mentira. Era uma armadura frágil tentando conter um caos de fúria e mágoa que ameaçava arrebentar pelas costuras.

Ela estava sentada à escrivaninha, o mesmo livro de Relações Internacionais aberto na mesma página há mais de uma hora. As palavras, normalmente tão claras e lógicas, dançavam à sua frente, uma mancha de texto sem sentido. Sua mente não estava ali. Estava na noite anterior, repassando sua conversa com o Shikamaru. O silêncio dele. Tinha sido essa a pior parte. Não as desculpas esfarrapadas, não as mentiras. O silêncio. A recusa em sequer lhe dar a dignidade de uma explicação. Tinha sido um insulto.

Desgraçado, pensou ela, o maxilar se cerrando. — Preguiçoso de merda.

A raiva era quente e familiar, um refúgio. Mas por baixo dela, havia algo mais frio e muito mais assustador: a dor. A dor de ter sido trocada, de ter sido excluída. Ela era Temari, uma mulher que nunca tinha precisado de ninguém. E agora, sentia-se como uma idiota humilhada. Era insuportável. Decidiu que ia aguentar sozinha. O orgulho era a única coisa que lhe restava.

No seu apartamento, do outro lado do campus, Naruto vivia o oposto do silêncio contido de Temari. Sua frustração era uma energia inquieta, que o fazia andar de um lado para o outro em sua sala de estar bagunçada. A louça suja de dois dias se empilhava na pia, e uma embalagem de ramen vazia estava caída no chão. Ele não conseguia ficar parado. A rejeição da Hinata, o seu "Me deixe em paz!", ecoava em sua cabeça.

O que eu fiz de errado?, perguntava-se pela milésima vez, passando as mãos pelo cabelo. — Eu só queria ajudar.

Ele não era do tipo que sofria em silêncio. Precisava agir, de falar, de gritar. A incerteza estava o comendo por dentro. Pegou o celular, o polegar pairando sobre a conversa com a Hinata, uma vontade imensa de mandar outra mensagem, de exigir uma explicação. Mas sabia que não ia adiantar. Ela tinha sido clara. Ele pensou em Shikamaru, seu melhor amigo, agora um estranho. Sentiu uma onda de raiva e traição. Estava sozinho nisso.

Ou talvez não.

Sua mente lembrou-se da expressão de fúria no rosto de Temari nos últimos dias. Ela também estava sendo excluída. Ela entenderia. Impulsionado pela necessidade de encontrar um aliado, um espelho para sua própria raiva, ele abriu a conversa com ela.

O texto foi direto. "Café?"

O celular de Temari vibrou sobre sua escrivaninha perfeitamente arrumada, o som uma intrusão violenta em seu silêncio controlado. Ela olhou para a tela. Naruto. Seu primeiro instinto foi ignorar. O orgulho gritou para não mostrar fraqueza, para não admitir que precisava de alguém. Mas depois, ela reconsiderou. Ele não era "alguém". Ele era o outro ferido. O único que talvez entendesse a profundidade de sua raiva. Não seria um pedido de ajuda. Seria uma reunião de guerra.

Sua resposta foi tão seca como a sua mensagem. "Ok. Em 10."

Ela pousou o celular na mesa e levantou-se. Dez minutos. Era o tempo de que precisava para se preparar para a batalha. Entrou no banheiro e abriu a torneira da água fria. Juntou as mãos em concha e atirou a água gelada ao rosto, uma, duas, três vezes. O choque térmico foi um alívio bem-vindo, uma forma de abafar o fogo que lhe ardia por dentro e de apagar qualquer vestígio de inchaço nos olhos. Encarou o seu reflexo no espelho. A expressão era dura, os olhos verdes focados, impenetráveis.

Não vou parecer uma coitada, pensou, a sua voz interna fria e determinada. — Não vou dar esse gosto a ninguém.

Com movimentos rápidos e eficientes, passou uma escova pelo cabelo, prendeu-o no seu coque de sempre, e trocou a camisola de pijama por uma camiseta preta e limpa. Cada ação era deliberada, uma forma de reconstruir a sua armadura. Ao pegar nas chaves para sair, ela já não era a mulher ferida a remoer a sua dor. Era a guerreira a caminho de uma reunião estratégica.

O café do campus estava lotado, o som de conversas e risadas ricocheteando nas paredes. Naruto e Temari estavam sentados numa mesa no canto, uma ilha de silêncio sombrio no meio de um oceano de normalidade barulhenta. Ele olhava para o fundo de sua xícara de café vazia, como se esperasse que ela lhe desse uma resposta. Ela olhava pela janela, seu rosto uma máscara de fria indiferença.

Eu não entendo, Temari — disse Naruto finalmente, sua voz arrastada, desprovida de sua energia habitual. — O que deu neles? A Hinata mal olha na minha cara.O Shikamaru é a mesma coisa — respondeu Temari, sem o olhar. Sua voz era fria, mas por baixo, havia uma vibração de dor contida. — Virou um fantasma. E quando fala, mente.Mas… e a gente? — a pergunta de Naruto era quase uma súplica, sua frustração dando lugar a uma vulnerabilidade crua. — O que a gente faz? A gente só… deixa pra lá? Finge que não aconteceu e espera que eles voltem ao normal?"Deixar pra lá"? — Temari virou-se para ele, e pela primeira vez, sua armadura de indiferença rachou, revelando a fúria por baixo. — Naruto, ele mentiu na minha cara. Ele me tratou como se eu fosse uma idiota, como se a nossa… como se o que a gente tinha não fosse nada. Não tem como "deixar pra lá" uma coisa dessas.Eu sei… — a voz de Naruto baixou, a raiva dele se dissipando, dando lugar a uma tristeza profunda. — Com a Hinata, é diferente. Não é raiva, é… dói. Dói pra caralho. Ela parece assustada. E eu não sei com o quê. E isso me mata, porque eu queria ajudar, mas ela não deixa.O que a gente devia fazer era confrontar os dois — disse Temari, sua voz dura, pragmática. — Encurralar eles e exigir uma resposta. Uma resposta de verdade, desta vez.E adiantaria? — Naruto suspirou, um som pesado, derrotado. — Eles iam mentir de novo. Ou só… fugir. Como estão fazendo agora. A gente ia parecer os loucos ciumentos.

Temari recostou-se na cadeira, sua própria fúria esbarrando no muro de lógica deprimente de Naruto. Ele tinha razão. Ela odiava que ele tivesse razão.

Então não sei, Naruto — admitiu ela, a voz cansada. — Não sei o que a gente faz. A gente fica aqui, esperando que eles decidam voltar a ser as pessoas que a gente conhecia?

A pergunta ficou pairando no ar entre eles, sem resposta. Estavam presos num limbo de dor e desconfiança.

Levantaram-se e saíram do café, a caminhada pelo campus tão silenciosa como o encontro. O ar estava frio, e o céu continuava cinzento. Perto da biblioteca, passaram por um grupo de amigos – Kiba, Shino e Tenten – que riam alto de alguma piada.

E aí, Naruto! Sumido, hein? — gritou Kiba, acenando. — Vai ter racha na quadra mais tarde, cola lá!

Naruto conseguiu forçar um sorriso e um aceno fraco, sem parar de andar. — Fechou! — mentiu ele, a sua voz soando oca até para os seus próprios ouvidos.

Temari nem sequer olhou na direção deles. O som daquela alegria fácil, daquela normalidade da qual eles faziam parte até poucos dias atrás, agora parecia vir de outro planeta. O contraste tornou a sua própria miséria ainda mais nítida, mais isolante.

Continuaram a andar em silêncio. Foi então que a viram.

À distância, perto do edifício de Letras, uma figura pequena e solitária caminhava de cabeça baixa. Hinata. Naruto parou, o corpo enrijecendo. Por um instante, sentiu uma pontada de pura preocupação.

Mas antes que o sentimento pudesse criar raízes, outra figura surgiu de um caminho lateral, caminhando diretamente na direção dela. Shikamaru.

Naruto e Temari congelaram, escondidos pela sombra de um grande carvalho. De longe, eles observaram a cena se desenrolar como uma peça de teatro silenciosa e devastadora. Shikamaru alcançou Hinata. Ela parou, erguendo o rosto para ele. Mesmo à distância, eles podiam ver a intensidade da conversa. Não era um encontro casual. Ele falava, sua postura focada, protetora. Ela ouvia, seu corpo virado inteiramente para ele, como se ele fosse sua única âncora.

Filhos da puta, pensou Naruto, a preocupação evaporando, substituída por uma raiva gelada que lhe subiu pela garganta. — Bem na nossa frente.

Temari não disse nada. Apenas observou, seu rosto uma máscara de pedra. Mas por dentro, cada pedaço do seu coração partido parecia se transformar em gelo. Era a prova. A prova final, irrefutável, de que tinha sido trocada.

Eles viram Shikamaru e Hinata se afastarem juntos, suas cabeças próximas, compartilhando um segredo do qual eles nunca fariam parte.

Eles trocaram um olhar. Um acordo silencioso de que sua dor era justificada, de que sua raiva era legítima. Não precisavam de mais palavras.

Chegaram a uma bifurcação nos caminhos do campus. O caminho da esquerda levava ao dormitório de Naruto; o da direita, ao de Temari. Eles pararam.

A gente se fala — disse Naruto, as palavras saindo sem convicção.

Temari apenas assentiu, um movimento de cabeça curto e brusco.

E, sem mais uma palavra, cada um virou-se e seguiu seu caminho, de volta para sua própria solidão. Naruto olhou para o celular. 11:45.

A manhã inteira perdida, pensou ele, frustrado. — E eu me sinto ainda pior do que antes.

SÁBADO À TARDE

O relógio na mesa de cabeceira de Sakura marcava 13:00. Tinha passado uma hora e meia desde que ela tinha fechado o notebook com um estrondo. Uma hora e meia em que ela tinha andado de um lado para o outro no espaço confinado do seu quarto, como um animal enjaulado. A adrenalina da sua investigação falhada tinha-se dissipado, deixando para trás apenas um resíduo amargo de desespero e a dor constante no seu peito, uma brasa que se recusava a apagar.

Ela parou em frente à janela, olhando para o campus lá em baixo sem realmente ver. Via estudantes passando em grupos, rindo, as suas vidas continuando numa trajetória normal e descomplicada que, naquele momento, parecia pertencer a outro universo. Estava sozinha. Completamente. A sua mente racional tinha-a chamado de louca. A sua intuição mostrava-lhe um abismo sem fundo.

Pegou no celular, os dedos passando distraidamente pela tela. Abriu a foto do símbolo. Olhou para ele. Um desenho. Apenas um desenho estúpido.

Apaga, a sua voz racional ordenou, o tom exausto. — Apaga a foto, apaga a dor. Esquece. Ele é um canalha. Fim.

Mas ela não conseguia. A sensação de que havia algo mais, algo terrivelmente errado, era como uma coceira debaixo da pele, um incômodo que não a deixava em paz. E ela não conseguia resolvê-lo sozinha.

Precisava de ajuda. Uma ajuda humana, real.

A sua lista de opções era pateticamente curta. Hinata estava muito assustada, perdida no seu próprio nevoeiro de medo. Naruto e Temari estavam zangados, imersos na sua própria dor e na sua certeza sobre a "traição", e ela sabia que não era a pessoa certa para os procurar. Só restava uma pessoa. A sua âncora no mundo da lógica e da razão social.

Com um suspiro que parecia carregar o peso do mundo, ela abriu a conversa com a Ino. Os seus dedos hesitaram sobre o teclado. Pedir ajuda era admitir fraqueza. Pior, era admitir que a sua dor a estava fazendo pensar em coisas… estranhas. Engoliu o orgulho.

“Preciso de falar com você. Café no campus?”

A resposta foi quase imediata. “Claro, testa! 5 minutos.”

O café do campus estava barulhento, cheio de vida. O som de xícaras batendo, o vapor subindo das máquinas de café expresso, o zumbido de dezenas de conversas acontecendo ao mesmo tempo. Para Sakura, o ambiente era uma agressão aos seus nervos em frangalhos. Cada risada parecia alta demais, cada conversa uma intromissão. Ela sentou-se numa mesa no canto, o mais longe possível do movimento, e esperou.

Ino chegou como um furacão de perfume caro e energia, o seu cabelo loiro balançando perfeitamente, um sorriso nos lábios. Ela parecia pertencer àquele mundo de normalidade barulhenta.

Então, qual é a emergência? — perguntou Ino, sentando-se e roubando um gole do café de Sakura antes mesmo de pedir o seu. O seu tom era brincalhão, mas os seus olhos azuis analisavam a amiga com uma preocupação genuína. — Você está com uma cara péssima. Pior do que ontem à noite.

Sakura tentou forçar um sorriso, mas o resultado foi apenas uma careta cansada. Ela mexeu no seu café com uma colher, o pequeno som metálico a única coisa a preencher o silêncio enquanto ela lutava para encontrar as palavras certas.

Ino, eu sei que vai parecer loucura, mas… — começou ela, a voz baixa, quase um sussurro. — Eu não acho que o término com o Sasuke tenha sido… normal.

Ino ergueu uma sobrancelha, o divertimento desaparecendo do seu rosto, dando lugar a uma atenção focada.

O comportamento dele… estava errado — continuou Sakura, o olhar fixo no vórtice escuro que criava na sua xícara. — Não era ele. Tinha alguma coisa… oca. Fria. Como se ele estivesse seguindo um guião.

Ino suspirou, um som longo e cansado. Ela recostou-se na cadeira, cruzando os braços.

Sakura, a gente já falou sobre isso ontem. Eu sei que dói, mas…Não, não é isso — cortou Sakura, a voz um pouco mais firme. — Não estou falando da dor. Estou falando dos factos. Não faz sentido.

Ino descruzou os braços e inclinou-se sobre a mesa, o seu olhar suavizando-se. — Testa, deixa eu te contar uma história. Lembra do Sai? Aquele desgraçado antes do Gaara?

Sakura assentiu, uma memória amarga vindo à tona.

Lembra de como ele me tratava? De como ele sumia por dias e depois aparecia com uma desculpa esfarrapada? — Ino continuou, a voz agora séria. — E lembra do que eu fazia? Eu criava as desculpas mais elaboradas do mundo. "Ah, ele deve estar com problemas de família." "Ele está stressado com o trabalho." "Ele não me ligou porque o celular deve ter acabado a bateria." Eu criei mil realidades alternativas para não ter que encarar a verdade simples: ele era um escroto e não se importava comigo. Eu fazia de tudo para justificar o injustificável, porque aceitar a verdade era admitir que eu tinha sido uma idiota.

Sakura ficou em silêncio, a história de Ino atingindo-a com uma precisão desconfortável. Ela lembrava-se perfeitamente. Lembrava-se das noites que passou consolando uma Ino chorando, ouvindo as mesmas desculpas, sentindo a mesma frustração.

O que você está passando agora… é a mesma coisa — disse Ino, a voz gentil. — Você está tentando encontrar uma explicação complicada porque a simples é dolorosa demais.Você tem razão — admitiu Sakura, a voz baixa, derrotada. — É a mesma coisa. Eu só preciso aceitar.

Houve uma pausa. Sakura bebeu um gole do seu café, agora frio. Parecia que a conversa tinha chegado ao seu fim lógico. Mas então, ela ergueu o olhar, e havia uma intensidade nos seus olhos verdes que fez Ino se endireitar na cadeira.

Mas Ino… e se não for? — a pergunta pairou no ar, carregada de um peso estranho. — Eu sei que é loucura. Eu sei. Mas a sensação que eu tenho… é de que não é normal. É quase… sobrenatural.

Ino encarou-a, os seus olhos azuis perscrutando o rosto da amiga. Ela não riu. Não revirou os olhos. Viu a convicção aterrorizada nos olhos de Sakura. E ela não acreditava em fantasmas, mas acreditava na sua amiga.

Ok… — disse Ino, lentamente, escolhendo as palavras com cuidado. — Loucura ou não, essa ideia está te comendo por dentro. E não vai parar até você ter uma resposta.Mas é ridículo…Não importa se é ridículo — Ino interrompeu, a sua voz ganhando uma força protetora. — Se é real para você, então é um problema real. E só há uma coisa a fazer: descubra. Vá até o fim dessa teoria. Se for só coisa da sua cabeça, você vai provar isso a si mesma e vai conseguir a paz que precisa para seguir em frente. E se não for… bem, a gente descobre o que faz depois. Mas você precisa de uma resposta para tirar isso do coração.

As palavras de Ino não ofereceram uma solução, mas ofereceram algo muito mais importante: validação. Permissão.

Sakura sentiu um nó se desfazer no seu peito. Ela já não se sentia louca. Sentia-se… numa missão.

Você tem razão — disse Sakura, e pela primeira vez naquela tarde, um vislumbre de determinação brilhou nos seus olhos. — Eu preciso de uma resposta.

O caminho de volta para o seu quarto foi diferente. Os sons do campus já não eram uma agressão, mas um ruído de fundo distante. Ela estava no seu próprio mundo, um mundo que agora tinha um propósito. A dor do término não tinha desaparecido, mas agora estava acompanhada por uma determinação fria que a impulsionava para a frente. O seu quarto, antes uma cela de desespero, era agora um quartel-general.

Ela sentou-se na sua cama, o silêncio focado. A conversa com Ino tinha-lhe dado a clareza de que precisava. Não importava se era loucura. Importava que era a sua loucura, e ela precisava de a entender. Não por ele. Por ela. Para poder ter paz.

Pegou no celular. Já não havia mais ninguém a quem recorrer no mundo da lógica. Era hora de entrar no mundo dos segredos. Com uma determinação fria, nascida de uma estranha e nova coragem, ela abriu uma nova mensagem.

Destinatário: Shikamaru Nara.

Texto: "Precisamos conversar."

Ela clicou em "enviar" com um sentimento de que tinha acabado de cruzar uma linha sem retorno.

SÁBADO, FIM DE TARDE

A manhã de sábado de Sasuke tinha sido uma névoa de violência controlada. Desde as oito, ele tinha estado no ginásio de kendo, atacando o boneco de treino com uma fúria fria e metódica, tentando exorcisar os seus demónios através da exaustão. Mas a dor física não tinha adiantado. Agora, no meio da tarde, com os músculos ardendo e o corpo coberto de suor seco, ele estava sentado, e o vazio era ainda maior do que antes.

O ginásio estava silencioso como um túmulo. O sol baixo projetava longas barras de luz dourada através das janelas altas, pintando o chão de madeira polida com o padrão de uma jaula. No centro exato dessa jaula de luz e sombra, Sasuke estava sentado. Não na posição formal de meditação, but de pernas cruzadas, a postura desleixada, derrotada. Sua armadura de treino, o bōgu, estava desmontada e pousada ao seu lado como as peças de um soldado caído. À sua frente, pousada sobre os joelhos, estava sua espada de bambu, a shinai.

Ele não estava segurando a espada. Apenas olhava para ela, seus dedos traçando distraidamente o grão da madeira, sentindo as pequenas imperfeições onde o bambu tinha sido atado. Cada toque era uma faísca, cada veio da madeira um caminho que o levava de volta a um tempo que parecia pertencer a outra vida.

[FLASHBACK INÍCIO] O mesmo ginásio, meses antes. O ar cheirava a verniz e ao perfume floral suave de Sakura. Ela estava à sua frente, tentando segurar a shinai da forma desajeitada como ele lhe tinha ensinado, a testa franzida em concentração, a ponta da língua presa entre os dentes.

— Assim? — ela perguntou, o corpo oscilando, quase perdendo o equilíbrio.

Ele não respondeu com palavras. Aproximou-se por trás dela, seu corpo envolvendo o dela. Suas mãos cobriram as dela na espada. Ele sentiu o calor da pele dela, a forma como seus dedos se encolheram com o toque súbito. Seu peito roçou nas costas dela enquanto ele corrigia sua postura, seu queixo quase tocando no ombro dela. O cheiro do seu cabelo, uma mistura de shampoo e algo doce que era só dela, encheu-lhe os pulmões.

— O peso tem de vir dos pés, não dos braços — sussurrou ele, sua voz baixa perto do ouvido dela.

Ela riu, um som cristalino e genuíno que ecoou no ginásio silencioso, vibrando dentro dele. — Fácil para você dizer, você não tem a coordenação de um flamingo bêbado.

Ele sorriu, um sorriso que lhe chegou aos olhos, e por um instante, no silêncio daquele ginásio, com o calor do corpo dela contra o seu, tudo pareceu simples. Perfeito. [FLASHBACK FIM]

De volta ao presente, o silêncio já não era pacífico. Era um vazio que ecoava. O calor da memória foi substituído pelo frio do chão de madeira que lhe subia pelas pernas. O som da risada dela foi substituído por um zumbido em seus ouvidos. Ele tinha destruído aquilo. Tinha pegado naquela memória, naquela leveza, e a tinha queimado até restarem apenas cinzas.

Idiota, a palavra chicoteou na sua mente, cheia de um veneno auto-infligido. — Você é um idiota fraco e patético. Um covarde.

Um frio súbito percorreu o ginásio, um arrepio gelado que não tinha nada a ver com a temperatura e que o fez enrijecer. Ele olhou em volta. Não havia nada. Apenas as sombras se alongando. Então, ouviu. Um som. Um sussurro indistinto, como uma exalação na borda da sua audição.

Vento, disse sua mente lógica.

Mas não soava como o vento. Soava… intencional. Ele abanou a cabeça, tentando afastar a sensação de inquietação. Sua dor, sua culpa, deviam estar pregando-lhe peças, criando fantasmas onde só havia vazio. Mas a inquietação permaneceu. E com ela, uma nova clareza. Ficar ali remoendo era inútil. Ele precisava de respostas. Levantou-se, sua decisão tomada. Iria procurar a Karin.

Shikamaru, por outro lado, tinha passado a manhã inteira evitando o mundo. Faltou às aulas, ignorou as mensagens no grupo dos amigos e ficou deitado em sua cama olhando para o teto, a mente correndo em círculos, analisando cada erro, cada consequência. Cansado da sua própria cabeça, ele tinha procurado o silêncio da estufa abandonada no início da tarde. Mas a tarde tinha sido ainda mais complicada. Ele a tinha chamado para a estufa para se desculpar, para tentar consertar as coisas, e tudo tinha saído do controlo.

Agora, no fim da tarde, ele estava sozinho. Hinata tinha acabado de sair, deixando para trás um silêncio ainda mais pesado do que o que existia antes. Ele estava sentado no banco de ferro velho, o tabuleiro de shogi no seu colo. As peças – o rei, a rainha, os generais, os peões – estavam espalhadas, uma representação perfeita do massacre que tinha acontecido no seu mundo.

Sua mente não conseguia focar-se na estratégia. Estava presa no que tinha acabado de acontecer ali, naquela mesma estufa.

Por que eu fiz aquilo?, a pergunta ecoava na sua cabeça, uma e outra vez. — Foi uma atitude totalmente errada.

Ele não conseguia entender o seu próprio impulso. Um homem de lógica, movido por algo que ele não conseguia nomear. E agora, o peso da consequência era esmagador. A imagem do rosto de Temari, frio e magoado, invadiu a sua mente. A culpa era uma sensação física, uma náusea que lhe revirava o estômago. Ele não só tinha mentido para ela, tinha-a afastado. E agora… agora tinha feito aquilo com a Hinata. Sentia-se um traidor. O pior tipo de traidor.

E como se a culpa e a confusão não bastassem, havia o medo. Um medo frio e racional que se sobrepunha a tudo. Na conversa deles, Hinata tinha-lhe contado. A mensagem. A foto. O número que não existia. A mesma entidade que o tinha assombrado tinha ido atrás dela. E tinha-a atacado no seu ponto mais fraco. Ele agora sabia, sem sombra de dúvida, que ela era um alvo. E ele, na sua tentativa de a proteger, talvez a tivesse colocado em ainda mais perigo.

Com uma lentidão metódica, quase ritualística, ele começou a pegar as peças do tabuleiro, uma a uma. Cada peça era um peso na sua mão. Sua mão, normalmente tão firme, tremia ligeiramente. Ele pegou no rei. Colocou-o na sua posição inicial. Pegou num peão. Tentou colocá-lo no lugar, mas seus dedos desajeitados esbarraram noutra peça, derrubando-a.

Inútil, pensou ele, a frustração se misturando com uma onda de desespero. — Você perdeu o jogo antes mesmo de ele começar.

Enquanto ele olhava para o tabuleiro, para sua tentativa patética de consertar o caos, o celular no banco ao seu lado vibrou. O som foi agudo, uma navalha cortando o silêncio pesado da estufa.

Ele parou o que estava fazendo. Por um momento, não se moveu. Outra mensagem. Outro problema. Outra complicação que ele não tinha a certeza de conseguir enfrentar. Com um movimento lento e cansado, ele pegou no aparelho.

A tela iluminou-se. Uma notificação de mensagem. Seu olhar percorreu o nome do remetente, e suas sobrancelhas se franziram em confusão.

Sakura Haruno.

E debaixo do nome, o texto.

"Precisamos conversar."

A última imagem do capítulo é um close-up do rosto de Shikamaru. A exaustão e a resignação em seu olhar dão lugar a uma surpresa confusa, e depois, a uma nova e profunda onda de apreensão. Sua mente de estratega, que pensava conhecer todas as peças no tabuleiro, acabava de ser confrontada com uma variável completamente nova e inesperada.

O que é que ela poderia querer?