O Sussurro da Academia
13 CAPÍTULO 13: VARIÁVEIS INESPERADAS
SÁBADO, FIM DE TARDE
O som da vibração do celular no banco de ferro velho foi uma navalha a cortar o silêncio pesado da estufa. Shikamaru olhou para o aparelho como se fosse uma serpente. Outro problema. Outra complicação. Com um movimento lento e cansado, ele pegou nele. A tela iluminou-se. Sakura Haruno. E debaixo do nome, o texto. "Precisamos conversar."
Sua mente estratégica, já sobrecarregada com a culpa por Temari, a confusão pelo que acontecera com Hinata e o medo pelo Sussurro, tentou processar esta nova e inesperada variável. Sakura? Que porra é que ela podia querer? A sua primeira reação foi o cansaço. Uma vontade imensa de ignorar. Mas a sua segunda reação, a do jogador de shogi, foi a curiosidade. Uma peça nova tinha acabado de entrar no tabuleiro. Uma peça que ele não tinha previsto. E ele precisava de saber porquê.
O seu polegar pairou sobre o teclado. A resposta foi curta, pragmática. "Onde?"
A resposta dela foi imediata. "Na porta do seu dormitório."
Shikamaru suspirou, um som pesado que pareceu carregar todo o peso da tarde. Ela já estava lá. Problemático. Ele levantou-se, os músculos protestando, e caminhou para fora da estufa.
A caminhada até ao seu dormitório foi longa. O sol começava a descer no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e roxo. A sua mente percorria cenários, tentando antecipar a jogada dela. Cenário um: ela sabe sobre mim e a Temari. Improvável. A Sakura não se meteria. Cenário dois: ela sabe sobre mim e a Hinata. Mais improvável ainda. Ninguém sabe. Cenário três: tem a ver com o Sasuke. A sua mente agarrou-se a esta última possibilidade. A implosão do relacionamento deles foi pública e feia. Mas como é que isso me envolve? Nenhuma das opções parecia justificar a urgência na sua mensagem.
Quando chegou ao seu andar, viu-a. Estava parada no final do corredor, de costas para ele, olhando pela janela para o campus que mergulhava na noite. Mesmo de longe, ele conseguia ver a tensão na sua postura. Seus ombros estavam rígidos, os braços cruzados firmemente contra o peito. Ela não estava ali para uma conversa casual. Estava ali para uma guerra.
Sakura — chamou ele, sua voz soando mais rouca do que esperava.Ela virou-se de um pulo, os olhos verdes arregalados. Havia olheiras escuras debaixo deles, e uma palidez no seu rosto que ele não se lembrava de ter visto antes. Ela parecia tão exausta como ele se sentia.
Shikamaru — a voz dela era firme, mas ele conseguia detetar um tremor subjacente.Ele chegou à sua porta, o som das chaves tilintando anormalmente alto no corredor silencioso. Abriu-a. O quarto estava uma bagunça, um caos de livros, roupas e xícaras de café vazias que espelhava perfeitamente o seu estado mental. Por um momento, sentiu uma pontada de vergonha. Depois, lembrou-se de que não se importava.
Entra — disse ele, dando um passo para o lado.Ela entrou, e o silêncio que se instalou foi imediato e pesado. Os olhos dela percorreram a desordem com uma rapidez analítica, não com julgamento, mas como se estivesse a recolher dados, a avaliar o seu estado de espírito através do caos do seu ambiente. Ele fechou a porta, o clique da fechadura soando definitivo, e encostou-se nela, cruzando os braços. Uma barreira. Ela permaneceu de pé no meio do quarto, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo, recusando-se a sentar, recusando-se a mostrar conforto. Era uma guerra fria de olhares, dois analistas a medirem-se, a tentarem ler a estratégia um do outro antes de a primeira peça ser movida.
O que é que você quer, Sakura? — perguntou ele, o tom cansado, desconfiado.Eu sei que você e a Hinata estão escondendo alguma coisa — ela foi direta ao ponto, sua voz nervosa mas determinada. — E eu acho que tem a ver com o comportamento estranho do Sasuke.A frase atingiu Shikamaru como um soco de ar frio. Sasuke. De todas as variáveis que tinha considerado, esta era a que menos esperava. Sua mente, já trabalhando em modo de crise, tentou processar a implicação. Como é que ela podia saber? O que é que ela sabia?
Não sei do que você está falando — a negação foi automática, um reflexo. Sua primeira regra: proteger o segredo. Proteger a Hinata.Não minta para mim, Shikamaru — a voz dela ganhou uma força inesperada, cortando sua fachada de cansaço. — Eu não sou a Temari. Não vou aceitar o seu silêncio. Eu sei que há alguma coisa errada. E não estou falando de um caso. — Ela fez uma pausa, seus olhos verdes o perscrutando. — Estou falando de algo… mais.Ela deu um passo na sua direção. — O Sasuke. Ele não é ele mesmo. A frieza dele, a crueldade… não faz sentido. Eu passei a manhã inteira a tentar encontrar uma explicação lógica, uma doença, qualquer coisa. E não encontrei nada.
Shikamaru observava-a, seu cérebro analisando cada palavra, cada microexpressão. Ela não estava acusando. Estava… investigando. E parecia genuinamente assustada. Isto era mau. Muito mau.
E o que é que isso tem a ver comigo? — perguntou ele, sua voz ainda cautelosa, testando-a.Porque você também não é você mesmo. E a Hinata também não. E tudo começou na mesma altura. — Ela parou, respirou fundo, como se estivesse reunindo coragem para o xeque-mate. — E por causa disto.Ela pegou no celular, abriu a galeria e virou a tela para ele.
Na tela, brilhando na penumbra do quarto, estava a foto do símbolo.
O choque foi tão grande que Shikamaru sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. Ele recuou um passo instintivamente, os olhos fixos na imagem. O selo. O selo Kurama. Como? Onde? Sua mente, seu maior trunfo, estava em branco. Todas as suas estratégias, todos os seus muros de proteção, tinham acabado de se desmoronar com um único clique. Sua expressão de tédio controlado desfez-se, revelando o pânico puro por baixo.
Onde… — sua voz era um sussurro. — Onde é que você encontrou isso?Na porta do ginásio de kendo — respondeu ela, sua voz agora mais suave, vendo o choque genuíno no rosto dele. — Estava gravado na madeira. Shikamaru… o que é isto?Sua mente de estratega entrou em ação, tentando desesperadamente encontrar uma saída. A negação era a primeira linha de defesa.
É só um rabisco, Sakura — disse ele, forçando um tom de desdém, gesticulando com a mão como se afastasse uma mosca. — Provavelmente de algum clube de estudantes. Por que você acha isso relevante?Porque a sua reação te entregou — ela retorquiu, sem hesitar, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Você ficou branco como um fantasma. Não é só um rabisco e você sabe disso.Merda, pensou ele. — As pessoas mudam, Sakura. Relacionamentos acabam. O Sasuke e você terminaram. Eu e a Temari…Não me venha com essa conversa de merda! — ela cortou-o, a voz subindo, a frustração a transbordar. — Isso não é "pessoas mudando". Isso é uma praga. Todos vocês, ao mesmo tempo. A sua estranheza, a da Hinata, a do Sasuke. Não é uma coincidência.Ele ficou em silêncio, encarando-a, o cérebro a mil. Ela era teimosa. E inteligente. A negação não ia funcionar. Era hora de mudar de tática.
E o que você acha que é, então? — perguntou ele, a voz agora calma, desafiando-a, testando os limites da sua teoria. — Fantasmas? Maldições?Eu não sei! — a frustração dela era palpável, ela gesticulou com as mãos no ar. — É por isso que eu vim aqui! Porque de todos nós, você é o único que pensaria nisso. Você é o único que veria as peças. E eu sei que você viu.Ele suspirou, um som longo e resignado, passando a mão pelo rosto, um gesto de pura exaustão. Ela tinha-o encurralado. Continuar a mentir só a tornaria mais determinada, e talvez mais imprudente. E se ela começasse a investigar sozinha… isso era um risco que ele não podia correr.
Senta-se — disse ele, finalmente desencostando-se da porta e apontando para a única cadeira que não estava coberta de roupa. — Isto vai ser problemático pra caralho.Ele começou a falar. E enquanto falava, a memória do porão voltou, vívida e sensorial. — O lugar cheirava a mofo e a tempo parado, Sakura. Um cheiro húmido que se agarrava à sua garganta. E o frio… não era um frio normal. Era um frio que entrava nos ossos, que não vinha de nenhuma corrente de ar. E os sussurros… não era como ouvir uma voz. Era como ter um pensamento que não era seu, uma voz que usava as suas próprias memórias, os seus piores medos, para te destruir por dentro.
Sakura ouvia, o seu rosto passando de confusão para choque, e depois para um horror pálido e silencioso. Sua mente de médica lutava para processar o que estava ouvindo, para encaixar aquela narrativa de fantasmas e maldições na sua visão de mundo. Cada palavra dele era uma peça de um puzzle impossível se encaixando no lugar.
Como assim um espírito? — interrompeu ela, sua voz uma mistura de incredulidade e fascínio científico. — Isso não é possível.Eu também achava que não — respondeu Shikamaru, sua voz amarga. — Até o ter ouvido sussurrar os meus piores pesadelos no meu ouvido, num porão escuro.E o que é que ele vos disse? — a pergunta dela era afiada, a de um médico interrogando um paciente.Shikamaru hesitou, a mão passando pelo cabelo. Lembrou-se das palavras que a entidade tinha atirado a Hinata, do seu trauma. — Coisas pessoais. Ele… ele sabe as nossas fraquezas. E usa-as contra nós.
E o Sasuke? Por que é que ele seria um alvo?Não sei — mentiu Shikamaru. Mas na sua cabeça, uma nova e terrível teoria começava a se formar. A vulnerabilidade. O Sussurro atacava os mais vulneráveis. E quem estava mais vulnerável nos últimos tempos do que o Sasuke, com a sua dor e o seu isolamento?Um espírito… — sussurrou ela quando ele terminou sua história, o corpo a tremer ligeiramente. — Assombrando a academia. E manipulando as pessoas.Parece que sim — confirmou Shikamaru, sentindo-se exausto só de dizer as palavras em voz alta.Foi nesse momento, no auge da tensão, que ouviram uma batida suave na porta.
Ambos congelaram, os olhares se cruzando em pânico. Shikamaru levantou-se lentamente e foi até à porta. Quando a abriu, Hinata estava ali.
Ela tinha vindo procurá-lo, preocupada depois do que acontecera na estufa. Mas ao ver a Sakura ali, no meio do quarto bagunçado de Shikamaru, ela parou, os seus olhos se arregalando. O seu pânico era palpável; ela agarrou os próprios braços, o corpo encolhendo-se, um gesto de auto-proteção. O que é que ela está a fazer aqui?, a sua mente gritou. Será que ele lhe contou? Sobre nós? Sobre o que aconteceu? A Temari, o Naruto… agora a Sakura? Todos sabem? Todos me odeiam?
Desculpem… eu… — gaguejou ela, pronta para se virar e fugir, seu pior medo – o de estar incomodando, o de ser a outra – se confirmando.Hinata, espera — a voz de Sakura foi surpreendentemente calma, quase clínica. A médica tinha assumido o controlo. Ela viu o pânico no rosto de Hinata, a forma como ela estava chegando à conclusão errada, e soube que precisava de agir. — Entra. Por favor.Hinata hesitou, olhando de uma Sakura estranhamente calma para um Shikamaru mortalmente sério. Entrou, mas ficou perto da porta, pronta para escapar. Houve um momento de confronto silencioso entre as duas, a dor e a suspeita de Hinata colidindo com a determinação analítica de Sakura.
Nós sabemos — disse Sakura, sua voz suave, mas sem deixar espaço para dúvidas. — O Shikamaru me contou. Sobre o porão. Sobre o Hayate Gekko.O queixo de Hinata tremeu, seus olhos se enchendo de lágrimas. O alívio de não ser sobre um caso foi tão avassalador como o medo de o segredo ter sido partilhado. Ela olhou para o Shikamaru, uma pergunta silenciosa nos olhos.
Shikamaru, vendo que o segredo tinha explodido de vez, interveio. — A Sakura também está nisto. Ela encontrou o selo. — Ele fez uma pausa, sua voz se tornando mais grave. — E ela acha que o que quer que seja esta coisa… foi o que afetou o Sasuke.
A menção de Sasuke fez Hinata erguer o olhar para a Sakura, uma nova compreensão surgindo. Já não era sobre um caso. Era sobre algo muito maior.
A cena terminou com os três ali, no meio do quarto caótico de Shikamaru. O silêncio que se instalou não era de desconfiança, mas de uma nova e assustadora realidade partilhada. Já não eram dois segredos, duas investigações paralelas. Eram um trio. Uma nova, fraturada e aterrorizada aliança, forjada no medo e na necessidade.
A pergunta pairava no ar entre eles, pesada e inevitável:
O que fazemos agora?
Fale com o autor