Notas iniciais
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Capítulo XVIII

Levou quase três dias até que Luciano voltasse ao seu humor normal. O brasileiro mantinha-se quieto e pensativo, e sempre fugia quando Afonso tentava entender certas coisas, “Não presta falar nisso” ele dizia sempre, forçando um sorriso que deixava Afonso triste e com uma imensa vontade de lhe mimar. Nunca imaginara ver o mais jovem tão abatido.

Passou-se mais um mês, e Luciano trabalhava cada vez mais: ajudava na floricultura durante o dia e cantava invejavelmente no bar algumas noites. O trabalho que devia durar até três da manhã às vezes se estendia até as seis horas, e o moreno, exausto, chegava em casa no mesmo momento que Afonso se encaminhava para o banho.

Numa destas ocasiões, Afonso pediu para que o brasileiro tomasse o desjejum consigo, o que Luciano aceitou de bom grado. Aquilo alegrou o português, que tentou não demorar no banho.

Quando terminou de lutar contra seu cabelo, Afonso voltou para a sala... porém Luciano havia sido vencido pelo cansaço, e dormia sentado no sofá.

Afonso deu um meio sorriso e sentou-se do lado do moreno, acarinhando-lhe a bochecha.

Luciano apresentava uma aparência abatida: estava um pouco pálido e com olheiras, porém Afonso sabia que era apenas trabalho demais. Era incrível como o brasileiro se esforçava e não reclamava de ter que trabalhar, fazendo isso com um sorriso lindo no rosto.

Teve pena de acordá-lo, mas também não queria sair de perto dele. Acomodou o mais jovem no sofá e se deitou em seus braços, dizendo a si mesmo que dormiria por cinco minutinhos.

E foi assim que eles dormiram juntos pela terceira vez.

Quando Luciano despertou, ficou sem saber o que fazer com o português adormecido em seus braços, e optou por fingir ainda dormir e esperar que Afonso despertasse. Eles só abriram a floricultura às três da tarde.

O brasileiro notou que durante todo esse tempo, Afonso foi-se tornando numa mãe-galinha.
Pode até parecer chato dito assim mas Luciano gostava da atenção que Afonso lhe dava.
Para seu alívio, o português deixara de insistir em tentar perceber o que se passava consigo. Ele agradecia a preocupação mas era algo de que realmente não queria falar. O facto do lusitano ter respeitado isso fez-lo gostar ainda mais dele.
Ao princípio o português fazia coisas mais subtis como deixar chocolate no bolso do seu avental ou encher a banheira de propósito para que quando Luciano chegasse a casa pudesse relaxar um pouco.
Depressa a preocupação de Afonso aumentou tanto ao ponto de uma vez o ter levado literalmente ao colo até à cama para impedir que o brasileiro adormecesse à mesa enquanto jantava.
Luciano gostava imenso de mimo e atenção, não ia negar isso, e agora estava num patamar onde nem sequer tinha de pedir por isso uma vez que o português sempre que podia ou tinha tempo se sentava ao seu lado para lhe fazer cafuné ou simplesmente aconchega-lo num abraço até que adormecesse.
Essas coisas deixavam o coração de Luciano um pouco mais leve, mas, mesmo assim, nada seria o suficiente para lhe tirar o peso que crescia dia após dia enquanto aguardava notícias do avô.

– Podias ter-me acordado! – o português, que agora corria pela floricultura a procura das flores e vasos para os arranjos, censurou.

Luciano, que trabalhava num ramo mais simples – mesmo que gostasse de aprender, ainda não tinha a habilidade de Afonso –, sorriu e deu de ombros.

– Você estava fofo nos meus braços. Seria um crime acordá-lo.

O português corou e quase que bateu contra a porta por distracção. Tudo por causa do simples “meus braços”.
Luciano riu um pouco ao vê-lo vermelho e achou adorável. Mas essa era mesmo a verdade. Afonso abraçava-se nele como koala e simplesmente não soltava mais.
O que Afonso não sabia era que o moreno tinha aproveitado que ele estava a dormir para lhe poder soltar e mexer no cabelo sem ouvir reclamações, assim como podia observar melhor as feições calmas do europeu.

– P-parvo. – o português resmungou, e Luciano riu outra vez.

– Chefinho?

Quando Afonso encarou o mais jovem, este lhe piscou o olho e lançou um beijinho, o que aumentou o acanhamento do europeu, que corou ainda mais e desviou o olhar.

Maldito coração aos pulos.

~※~

– S-senhor Hansen?

O jovem canadense se encolheu todo quando Hansen, com seu eterno mau humor, lhe encarou. Matthew ajeitou os óculos de maneira nervosa e riu acanhado, as bochechas se tingindo de rosa.

– A-A senhorita Bella... – o cenho do holandês se franziu, e Matthew estremeceu de medo. Hansen era mais assustador que Ivan! – E-ela... E-está tudo bem com ela?

A preocupação de Matthew tinha fundamentos: desde o dia em que passara mal na floricultura, a belga estava um pouco estranha. Passava quase o dia todo no quarto, dormindo, e comia uma quantidade elevada – e nada saudável – de comida.

Hansen também estava preocupado com a saúde de sua irmãzinha, porém agora era raro vê-la desperta sem que esta estivesse comendo ou abatida.

– Está. – foi a resposta curta e grossa do mais velho, insatisfatória, porém definitiva, ao canadense.

– O-oh... – o rapaz forçou um sorriso – O-obrigado, senhor Hansen. – ele curvou-se rapidamente e deu um jeito de deixar a cozinha, onde o holandês terminava de lavar a louça do almoço.

Bella não descera do quarto até então.

Suspirando, Hansen preparou uma bandeja para Bella e subiu as escadas, entrando no quarto da irmã sem grandes cerimônias.

– Bella?

A belga, que se encontrava num estado de semiconsciência por culpa do sono, ergueu o rosto do travesseiro e sorriu ao irmão, esfregando as pálpebras semicerradas com o dorso da mão direita.

– Bom dia, irmãozão...

– Bom dia. – ele respondeu e sentou-se na beira da cama, pousando o tabuleiro num lugar seguro para não virasse comida nenhuma – Como te sentes?
Esticou e beijou-lhe a testa. A sua preocupação aumentava mais a cada dia, ainda para mais depois do canadiano ter reparado que ela não estava bem.
– Normal. Com um pouco de sono. – sorriu e beijou-lhe a bochecha.

Hansen não conseguiu esconder um suspiro preocupado, e Bella sentou-se na cama.

– O que houve, Hans?

O holandês abriu os braços para que a mais jovem se acomodasse junto a si. Quando a loira se sentou em seu colo, Hansen beijou-lhe a testa novamente:

– Bella, estás a sentir-te bem?

– Como assim, Hans? – ele sorriu perante o apelido. Contanto que ela usasse só entre quatro paredes não era assim tão ruim – Estou normal...

– Andas pálida, cansada... ganhaste um pouco de peso... – ele baixou o tom de voz ao mencionar que a loira havia engordado.

– H-hei! – Bella corou e fez beiço, afastando o rosto do peito de Hansen – E-eu estou bem!

Hansen suspirou outra vez, beijando-lhe os lábios para acalmá-la.

– Aquele irmão do americano também está preocupado... – murmurou.

– Quem?

– Aquele dos óculos que não é o Alfred.

Bella balançou a cabeça. De quem Hansen falava?

– Só... promete que vais no médico? Pode ser anemia...

Ela suspirou, mas concordou.

– Eu peço para a Nina levar-me... Mas agora deixa-me dormir...

– Come alguma coisa antes, precisas de--
Ela cortou-o, colocando um dedo nos seus lábios para que ele se calasse:

– Por favor... Eu como qualquer coisa quando acordar mais tarde...
Hansen não insistiu mais. Abraçou-a e aconchegou-a no seu peito.

– Ok, ok...

Bella sorriu e se aninhou nos braços de Hansen, não demorando muito para voltar a adormecer.

O holandês, preocupado com ela, manteve-se ao seu lado até não poder mais, tendo de voltar às suas responsabilidades na pensão.

~※~

Michelle olhava para o seu telemóvel pela milésima vez, pensando se deveria ou não telefonar a Luciano.
Desde aquele fatidico acontecimento nunca mais o tinha visto e bem... tinha saudades dele. Durante horas tinha procurado ganhar coragem para o convidar para sair mas parecia que ela se desvanecia sempre no último momento.
Decidida de uma vez por todas, respirou fundo e telefonou a Luciano.

Quando ouviu a primeira chamada, entretanto, a morena enrubesceu até as orelhas e balançou a cabeça para os lados, desistindo da chamada. No que estava pensando? Michelle estava apaixonada por Luciano desde pouco depois do Ano-Novo, e o término com Sebas-- Martin, apenas lhe deu a oportunidade de se aproximar do brasileiro... Mas havia Afonso.

Suspirou, baixando a cabeça e trazendo o celular junto ao peito. Sabia da paixão de Luciano por seu chefe português, o que deixava a moça se moendo de ciúmes. Mas de nada adiantava ela ignorar a existência do sul-americano só porque o queria de outra forma.

– Não sejas parva, Michelle--

Sua frase foi interrompida pela melodia “Quem de Nós Dois”, toque especial de Luciano. Para si, aquela música definia o que sentia pelo brasileiro.

O nome “Luci” piscou na tela por algum tempo, e Michelle só voltou a respirar quando apareceu a frase “1 Chamada Perdida”. Quando Luciano ligou para si mais uma vez, Michelle jogou o aparelho na cama, nervosa. Ainda não tinha coragem de falar com Luciano.

~※~

Luciano suspirou pela milésima vez ao ver-se ignorado por Michelle. Acreditava que sua amiga iria perdoá-lo pelo que quer que fosse, e sentiu-se chateado quando ela não atendeu nenhuma de suas dez chamadas.

Afastando o aparelho da orelha, terminou sua cerveja e pegou seu violão.

– Boa noite, seu Miguel! Até amanhã.

O senhor risonho – e completamente bêbado – lhe acenou e Luciano deixou o bar, sorrindo ao notar o quão estrelado estava o céu. Caminhou até a casa de Afonso e usou a chave extra para abrir a porta.

Não foi com muita surpresa que o brasileiro encontrou seu chefe adormecido no sofá. Afonso vez ou outra acabava por adormecer enquanto lia, e não foram poucas as vezes que Luciano o levara para a cama.

Deixando seus pertences sobre a mesa de centro, Luciano tomou o pequeno português nos braços e o ergueu, encaminhando-se até o quarto do mais velho. Deitando-o na cama, encontrou a dificuldade de sempre: Afonso o agarrava com convicção, e só após dez minutos o brasileiro conseguiu acomodar o menor e deixar o quarto.

Tomou uma ducha e seguiu para seu confortável – e quentinho – sofá, cobrindo-se com um lençol fino – podia fazer o calor que fosse, Luciano só conseguia dormir com um lençol sobre si – antes de adormecer.

Durante a madrugada, entretanto, Luciano despertou com alguém o chamando:

– Luci?

Ainda meio adormecido, Luciano sentiu uma baforada quente em seu rosto, e enrubesceu até a raiz de seus cabelos ao notar Afonso com o rosto quase colado em si.

– C-chefinho? – ele afastou-se bruscamente, sentando-se no sofá – O-o que houve?

Afonso chamou-o novamente, as mãos seguindo até a barra da camisa branca que usava... A camisa de Luciano!

– Luci~ – o europeu apresentava uma expressão distinta, os olhos brilhantes e o rosto levemente rubro.

Afonso deu um passo para frente e colocou o joelho direito do lado da perna esquerda do brasileiro, que engoliu em seco.

– C-Chef--

– Luci... – o mais velho se inclinou para frente e mordiscou o lóbulo direito de Luciano, que gemeu baixinho – Luci, eu não aguento mais...

Acanhado, e levemente excitado, Luciano piscou os olhos:

– N-não aguenta mais o que?

O ronrono do mais velho fê-lo fechar os olhos:

– Resistir... Faz-me teu...

– C-chefi--
Respirou fundo quando o português se sentou sobre o seu colo e começou a morder-lhe o pescoço, tão lentamente...
Colocou as mãos sobre a cintura dele e acarinhou-lhe as pernas, provocando um suspiro mais profundo ao outro. A mão de Afonso explorava-lhe o peito e foi descendo até chegar ao cós das calças.

– Chefinho... N-não acha que é uma má i--

O europeu sorriu contra a pele quente e acanelada de Luciano, movendo convidativamente seus quadris sobre o colo – que já apresentava um volume considerável – dele. O gesto arrancou um gemido rouco de Luciano, que cedeu e puxou Afonso para um beijo apaixonado e necessitado, suspirando ao sentir o menor corresponder ao desejo.

Luciano subiu suas mãos a procura da roupa íntima de Afonso, apartando o beijo com outro gemido ao notar uma coisa:

– V-você só está usando essa camisa?

Afonso sorriu, ainda movendo os quadris.

– A tua camisa, Luci...

O moreno não conseguiu segurar um riso, e voltou a beijar o europeu. Se Afonso também o desejava, ele não seria idiota o bastante para interromper aquilo.

Girou seu corpo e deitou delicadamente Afonso no sofá, suspirando quando o português abriu as pernas e o acomodou entre elas, gemendo seu nome baixinho enquanto tinha as coxas acariciadas.

– Ah, Luci... F-faz-me teu, Luci...

Os pedidos, os gemidos... Luciano adorava como Afonso chamava por si enquanto excitado, e ele provocou-lhe o pescoço com deleite.

– Luci... Luci...

Luciano mordeu-lhe o ombro direito, arrancando mais gemidos de Afonso. A voz do menor, porém, passou a ficar baixa, e o calor do corpo dele, longe...

– Luci!

O brasileiro exclamou um “ah” antes de despertar, demorando a situar-se. Ao seu lado, olhando-o de forma curiosa, Afonso o chamava:

– Luci, já é tarde... Prometeste ajudar-me com os arranjos. – o português fez um sutil biquinho e ajeitou a postura, cruzando os braços – Estavas a ter um pesadelo? Estás suado e resmungavas alguma coisa.

Luciano piscou os olhos algumas vezes até estar completamente desperto. Encarou Afonso e puxou-se para cima, sentando-se no sofá... e sentindo o lençol deslizar sobre alguma coisa.

– C-chefinho! – o brasileiro praticamente berrara o apelido, fazendo Afonso se afastar um passo – A-ah... – maldição! Ele havia tido outro sonho erótico com Afonso... só não imaginava que fosse ter um na casa do português – E-eu preciso de um banho! E-está tão quente, né? – ele riu nervoso, puxando o lençol todo para si, cobrindo sua ereção e andando apressado para o banheiro – E-eu já volto!

O português observou-o até ele se fechar na casa de banho e deu de ombros, indo aproveitar enquanto esperava para arrumar o seu quarto.
Mal trancou a porta da casa de banho, Luciano encostou as costas a ela e respirou fundo. Tinha o coração e as hormonas aos saltos...
Tapou os olhos com uma mão e tentou acalmar-se. Mas era difícil sobretudo quando ainda tinha a imagem de Afonso demasiado nítida na sua cabeça. E a voz... Sobretudo a voz dele.
O brasileiro tentou acalmar os ânimos, mas ele não parecia querer esquecer a imagem do mais velho sobre si. Era excitante demais!
Luciano soltou um gemido, deixando que a água gelada caísse sobre seu corpo quente, imaginando que assim conseguiria se livrar do incômodo entre as pernas...
Não adiantou.
Mordendo o lábio inferior com força, Luciano levou a mão direita até sua intimidade, deslizando-a pela extensão enrijecida.

Sentia-se um completo depravado por pensar em Afonso daquela maneira mas era demasiado tarde para se sentir culpado.
Questionava-se agora como teria sido se o português tivesse continuado com a 'bricadeira' e lhe tivesse de facto enfiado as mãos pelas calças.
Ou como seria se fosse o português a fazer-lhe aquilo que ele estava a fazer a si mesmo. Quem sabe, talvez algo mais, uma vez que se lembrava perfeitamente da forma com que o lusitano lhe tinha roubado o tic-tac... Só com a língua.
A imaginação de Luciano continuou a trabalhar, e agora ele imaginava claramente Afonso consigo, o corpo molhado e quente junto ao seu.
“Faz-me teu, Luci.” ainda ecoava por seus pensamentos, e foi ao lembrar-se do timbre de voz que o europeu lhe pedia isso que Luciano ejaculou.
Arfando e arrependido de seu momento de depravação, o brasileiro terminou de se acalmar e saiu do banho. Então, percebeu que em sua aflição e não ser descoberto, esqueceu-se de suas roupas, o que fê-lo bater com a mão na testa.
Seu idiota...
Suspirou e enrolou a toalha no corpo ainda úmido, saindo cautelosamente do banheiro. Afonso estava distraído na cozinha, e Luciano aproveitou-se disso para ir até sua mala.
Foi nessa hora que seu celular vibrou, e a curiosidade falou mais alto que sua timidez.
Chefinho! Afonso ouviu o chamado contente e logo sentiu-se abraçado por trás, acabando por deixar os talheres que lavava caírem novamente na pia. Chefinho! A Michelle voltou a falar comigo! Ela me convidou para sair hoje!

O português corou até ás orelhas mal sentiu as suas costas ficarem um pouco húmidas por causa do moreno ainda estar molhado.
Já o ia corrigir, que o seu nome não era “chefinho”, mas uma onda de ciúmes enorme e irracional invadiu-o.
Era tão idiota aquilo...
Olhou pelo ombro para o conseguir encarar:

– Entendo. sorriu Fico feliz por vocês, espero que resolvam as coisas.
Não deixava de ser uma verdade. Por muito que lhe custasse, ele no fundo só queria a felicidade de Luciano.

Luciano não entendeu bem o que Afonso queria dizer com aquilo, mas estava tão contente de poder falar com Michelle mais uma vez que nem ligou.
Obrigado!
O europeu baixou o olhar e, desejando tirar aquele aperto no peito, implicou:
Podias, pelo menos, por umas calças.
Luciano riu, ainda abraçando Afonso.
Não era para mim me sentir em casa?
Sim, mas comporta-te! corou ao sentir o peito de Luciano mover-se junto com a respiração.
Pois fique sabendo que estou me comportando... Eu costumo andar sem nada em casa.

Afonso pôs a cabeça para trás, encostando-a no peito do moreno para o conseguir encarar ao contrário.
Levantou uma sobrancelha e disse sarcasticamente:

– Eu também mas é quando não está mais ninguém a ver.
O brasileiro pestanejou várias vezes digerindo a informação... Até se lembrar que tinha sonhado que português não tinha nada por baixo da sua camisa.

Luciano enrubesceu e sentiu seu baixo-ventre latejar novamente, afastando-se de Afonso.
A-ah... Tá certo... E-eu vou me vestir.

O português encarou-o confuso por ele ter corado por mais que achasse adorável e acenou com a cabeça.

– Ok. E despacha-te, parvinho. Estamos atrasados.
Afonso apenas viu Luciano mostrar a língua antes de sumir. O brasileiro se vestiu e, ao voltar a cozinha, foi questionado:
Não vais tomar o pequeno-almoço?
Estou sem fome.

Afonso ficou a encará-lo como se tivesse visto uma aparição.
Quem és tu e o que fizeste ao meu Luciano? Não tens fome? Mesmo?

Luciano corou um pouco ao ouvir Afonso dizer “meu Luciano”, e o brasileiro pode sentir seu coração bater mais rápido.
M-mesmo... ele desviou o olhar ao mesmo tempo que sua barriga roncou de fome.

Afonso suspirou:

– Aham, mesmo. virou costas e foi ao armário, tirando de lá uma enorme fatia de bolo de chocolate Mesmo, mesmo?
O moreno piscou e sua barriga roncou novamente, fazendo-o suspirar.
Andou em direção ao português e lhe beijou a testa.
Detesto quando você tem razão...

O baixinho corou um pouco por causa do carinho mas sorriu e colocou o bolo em frente da boca dele.

– Habitua-te. É uma coisa que tenho sempre.

O mais jovem piscou e abriu a boca, deixando que Afonso lhe desse bolo na boca.

O lusitano encarou-o com uma expressão engraçada e partiu um bocadinho do bolo, metendo-lhe na boca para ele ser mais fácil de comer.
Como sujou os dedos com a cobertura de chocolate, passou o bolo para a mão limpa e lambeu-os.
O brasileiro, claro, observou tudo. Achava fofo, e de certa forma excitante, como Afonso lambia os dedos sempre que os sujava com doce. Havia um brilho no olhar do mais velho, e Luciano sentia-se cada vez mais desconfortável ao sentir a atenção do europeu sobre si.

– Tá, eu estou satisfeito. – ele limpou a boca e tomou um copo da água, tudo muito apressado – Vou pegar minha carteira e já podemos ir, ok?

– Aham. murmurou quando acabou o chocolate e foi lavar as mãos Estou à tua espera lá fora.
Depois de secar as mãos, vestiu o casaco e ficou à espera.

Quando Luciano retornou, os dois caminharam até a floricultura.
Passaram as primeiras horas da manhã preparando arranjos para uma festa de noivado.

O sossego, no entanto, foi quebrado. Quando o sininho da floricultura tocou e Afonso olhou para cima, deparou-se com ninguém mais nem ninguém menos que o seu pai.
Franziu o sobrolho e rosnou baixinho, aguardando que fosse ele a falar.
Boa tarde... Eu vinha saber qual foi a resposta do António.

Luciano estranhou as feições de Afonso, e, por instinto, pôs-se ao lado dele para protegê-lo.
Ele não quer te ver.

O homem suspirou e colocou as mãos nos bolsos, não se dando sequer ao trabalho de fingir surpresa com aquela resposta.
Eu compreendo... Mas eu gostava de ver o meu filho novamente...
Talvez com pena ou por masoquismo, uma vez que aquelas palavras magoavam Afonso, o português foi à Staff Room e regressou com um passe-partout de madeira onde dentro tinha uma fotografia de António, Lovina, Sofia, Marisa e até o próprio Afonso.
Entregou-a e o homem segurou-a, as suas mãos tremendo um pouco pela emoção de finalmente ver as suas netas.

Luciano permaneceu quieto. Se não havia sido apresentado, não iria se intrometer, mas estava curioso para entender o que se passava.
Posso ficar com ela?

Afonso acenou que sim e os olhos do senhor humedeceram, não demorando tempo em retirar a fotografia do passe-partout.
Obrigado...
Não me agradeça. No lugar disso, apenas não volte mais cá.

Ele balançou a cabeça, e Afonso estremeceu ao perceber que seu pai dobrou a foto para cortá-lo da imagem.
Certo.
Sem nem se despedir, deixou a floricultura.
Luciano, então, perguntou:
Você está bem? Quem era aquele poço de simpatia?

Afonso ficou a observar a porta, que já tinha sido fechada.
Tentou responder a Luciano, mas tudo o que conseguia fazer era abrir e fechar a boca como um peixinho.
Agarrou a barra da sua camisola, num gesto quase infantil, e olhou para baixo, tentando não soluçar.

– Chefinho! Luciano chamou baixinho e envolveu o menor num abraço apertado, trazendo-o para si O que houve?!

Afonso não conseguia falar, agora os seus soluços faziam-no dar quase pequenos saltos e custava respirar.
Agarrou-se com força à camisola de Luciano e escondeu o rosto no seu peito.

Luciano não entendia o que estava acontecendo, porém sabia que devia abraçar Afonso com força, deixando que ele se escondesse e lhe afagando os cabelos.
Shhh... Eu estou aqui, Afonso...

Aquilo acalmou-o um pouco e fê-lo relaxar os músculos ainda que minimamente. Sentia-se pessimamente, com uma vontade enorme de desaparecer por causa da rejeição e indiferença do seu pai.

O mais jovem suspirou. Não era a primeira vez que via o português triste, mas Afonso nunca havia chorado na sua frente. Aquilo o preocupava.

– Vai passar... – ele murmurou e beijou o topo da cabeça de Afonso – Quer conversar sobre isso? Explicar o que está acontecendo? – Afonso balançou a cabeça para os lados, apertando o abraço – Entendo... Quer voltar para casa? Eu posso ficar com você até a hora de ir pro bar...

O mais velho tornou a abanar a cabeça e Luciano suspirou:

– Vá, Afonso... Não gosto de ver você assim...
O português ficou no abraço por mais uns momentos e depois afastou-se, esfregando os olhos.

– O-Obrigado... Eu vou só... beber água.
Luciano limpou-lhe a bochecha com o polegar e acarinhou-lhe o braço antes de o deixar ir. Suspirou tristonho, porque odiava ver Afonso naquele estado, e ao olhar para baixo viu um pedaço da fotografia que o homem tinha cortado.

O brasileiro engoliu em seco ao ver o tímido, mas sorridente, português cortado da imagem original. Parte do ombro de Lovina estava naquele pedaço rasgado, e Luciano, aos poucos, entendia o que se passava.

Ao ouvir que Afonso voltava, enfiou a imagem do europeu na carteira e fingiu não saber de nada.

– Está um pouco mais calmo? – questionou enquanto voltava a abrir os braços, convidando o mais velho para outro abraço.

Os olhos vermelhos e inchados, mais claros por ter estado a chorar, do português faziam o coração de Luciano apertar.
Afonso deu dois passos em frente e abraçou-o novamente.

Luciano suspirou e colocou a mão na parte posterior da cabeça de Afonso, mantendo-a contra seu peito. Quem era aquele homem que fizera Afonso chorar?

– Vem, vamos para casa...

– A-as flores...

– Calma, é para amanhã pela noite. Eu venho bem cedo ajudar você, tá? – tentou manter o tom de voz alegre – Você precisa descansar... eu faço brigadeiro pra gente.

Afonso concordou com a cabeça e afastou-se para ir fechar as portas todas.
Quando chegaram lá fora, Luciano agarrou na mão de Afonso, uma vez que não o podia abraçar ao caminhar é claro.
E apesar de surpreso, o lusitano agarrou-a com força.

Ao chegarem na casa do português, Luciano fez todas as vontades dele: fez uma panela de brigadeiro, assou biscoitos de baunilha, preparou chocolate quente... tudo o que Afonso gostava. O europeu não comia muito, o que preocupava Luciano, mas o brasileiro não largava Afonso.

Mais perto de anoitecer, os dois estavam no sofá, a televisão desligada e a sala em silêncio. Afonso sentava para um lado e Luciano para o outro, porém o mais jovem logo puxou o menor para perto de si.

– Quer mais alguma coisa? Sei fazer um bolo de cenoura muito bom.

Afonso sorriu um pouco e suspirou. Ele estava imensamente grato pela atenção que Luciano lhe dava mas não queria ser um fardo para ele...
Encostou a sua cabeça no ombro dele.

– Eu não quero nada...Obrigado. Vou ficar obeso por tua culpa.

Luciano riu e implicou:

– Ganhar uns quilos vai te fazer bem. – disse enquanto apertava a barriga magra de Afonso.

O português deu um guincho e encolheu-a:

– C-Cócegas é truque baixo, Luci!

Ele sorriu:

– Não gosto de ver você triste...

O português suspirou mais uma vez:

– Isto já passa... E hey... Não tinhas um encontro hoje? Devias ir preparar-te.

Luciano piscou.

– Não é um encontro... Nós só vamos conversar antes do meu trabalho. – fez biquinho e depois sorriu – Não quer ir comigo? Acho que você precisa beber um pouco.
Afonso abanou com a cabeça:

– Obrigado mas não. Dói-me a cabeça.
Não deixava de ser verdade mas também não queria “fazer de vela” ao casal.
– Ah, então deixa eu fazer um chá antes de ir. – sorriu e se levantou, deitando a cabeça de Afonso no seu travesseiro – Já volto.

Luciano seguiu para a cozinha e preparou um chá de camomila. Ele não entendia muito sobre chás, mas sabia que sua mãe sempre tomava um daquele sabor quando estava triste ou nervosa. Talvez aquilo acalmasse um pouco os ânimos de Afonso.

Ao voltar para a sala, deixou a xícara sobre a mesa de centro e se acocorou na frente de Afonso.

– Eu vou pro bar agora, tá? Vou deixar o celular ligado e você pode me ligar a hora que quiser, ok?

Acenou com a cabeça:

– Não te preocupes, não será preciso nada.
O brasileiro inclinou-se para a frente e beijou-lhe a testa, a vontade de ficar com ele aumentando mais ainda.
– Mesmo assim.

Afonso fechou os olhos. Se realmente tivesse coragem, pediria para Luciano ficar consigo.

Para sempre.

– Vá lá... Tens de trabalhar. – deu um meio sorriso, e Luciano se afastou.

– Qualquer coisa, liga. – ele sorriu e pegou sua jaqueta – Eu volto mais cedo hoje, tá? Para ficar com você. – dizendo isso, deixou a casa.

O português abriu os olhos quando a porta bateu, o seu coração batendo forte por causa daquele comentário.
Mas Luciano nunca ficaria consigo... Era como o seu o próprio pai tinha dito anos antes: “Tu vais acabar sozinho porque ninguém quer uma pessoa com tu.”.
Suspirou tristemente e rebolou para o lado até ficar de barriga para baixo e esconder o rosto na almofada.

~※~

Michelle estava ansiosa naquela noite. Depois de tempos tentando reunir coragem para falar com Luciano, agora ela repensava em suas decisões. Não tivera coragem de ligar ao brasileiro, mas seu coração saltou de alegria quando recebeu a sms dele de resposta: “Michelle! É claro que eu quero ver você :D Nada me faria mais feliz!”.

Tinha perdido imenso tempo em se arranjar para aquela noite.
Os seus cabelos normalmente lisos e apanhados em dois tótos, estavam agora encaracolados aos cachos e apesar das suas roupas serem simples e discretas, tinha um corar grande e bonito que lhe dava uma aparência ainda mais exótica.
Por ter chegado cedo demais, esperou pelo brasileiro à porta do bar.

Em alguns minutos, Michelle pode reconhecer o brasileiro andando em sua direção. Ele, como sempre, estava se vestindo de maneira simples, mas estava ainda mais bonito ao ver da moça. Quando Luciano a reconheceu, sorriu e se apressou até a amiga, parando na sua frente.

– Michelle! – ele a abraçou carinhosamente, o perfume adocicado dela ficando na sua roupa – Que saudade. Você está linda!

Ela sorriu timidamente e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha:

– Obrigada. – levantou o rosto e sorriu – Tu também estás um espanto!

Luciano erubesceu um pouco e riu, oferecendo o braço para a amiga.

– Vamos. Vou mostrar o lugar onde trabalho.

Os dois entraram no bar, e logo Michelle percebeu que Luciano era bem conhecido entre os funcionários: todos os cumprimentavam calorosamente, e mal eles se sentaram, um garçom veio lhes servir.

Michelle pediu uma marguerita, enquanto Luciano preferiu uma caipirinha. Ele quem ensinara o barman a preparar uma decente.

Após uns momentos em silêncio, Michelle pigarreou para chamar a atenção de Luciano:

– Hum... Então... Como tens estado?

O brasileiro baixou seu copo e lambeu os lábios, tirando os resquícios de bebida.

– Normal, eu acho. – sorriu – E você? Continua trabalhando na Agência?

Michelle bufou e bebericou a marguerita, dando de ombros:

– Não. Eu não aguentaria conviver com o Sebas-- Martin depois daquilo tudo.

– Entendo...

– Mas... – Luciano a encarou – Sabe? Se me perguntassem, eu diria que não foi tão ruim tudo aquilo. Doeu, quero fazer picadinho dele e jogar para os tubarões, mas aquilo fez-me ter coragem para mudar daquele emprego idiota e ir atrás de um que eu gostasse. – ela sorriu para o maior – Agora eu trabalho com desing de roupas, como eu sempre quis.

O brasileiro sorriu e acarinhou sua mão:

– Fico feliz por você, Mi. – ela corou de leve e, delicadamente, puxou sua mão para perto do corpo – Como dizem na minha terra: “há males que vem para bem”. Você vai se sair bem.
– S-Sim, eu sei desse ditado. – sorriu acanhada e deu mais um gole – E tu Luciano, que tens feito?
O brasileiro suspirou:

– Eu... Eu agora vivo com meu chefinho, por enquanto e...Continuo trabalhando na floricultura...

Michelle sentiu uma pontada de ciúmes e baixou o olhar para sua bebida.

– E... como vocês estão?

A resposta demorou a vir, e Luciano sorriu de canto.

– Somos só amigos. – Michelle sentiu o coração aquecer, e suas bochechas corarem. Ela pensou em se declarar para o brasileiro naquele momento, porém Luciano se ergueu – Michelle, preciso trabalhar... Você espera até meu intervalo?

A morena suspirou e sorriu um pouco. Gostaria de ficar com ele mais tempo mas compreendia que ele tinha de ir.
– Claro. Mal posso esperar por te ouvir cantar novamente!

O moreno sorriu, subindo ao palco e ajeitando seu violão.

Então ele começou a cantar.

~※~

Afonso resmungou quando a campainha soou. Não desejava ver ninguém – além de Luciano – naquele momento, e apenas convenceu-se a se levantar quando percebeu que, quem quer que estivesse em sua porta, não desistiria de falar consigo assim tão facilmente.

Ergueu-se do sofá e ajeitou o cabelo, caminhando sem muita pressa, mas razoavelmente irritado, até a porta.

– Já vai, já vai. – resmungou quando a campainha soou pela décima segunda vez, e piscou ao ver quem era – Arthur? Aconteceu algo?

O inglês ajeitou seu cabelo e sorriu de canto, sarcástico.

– O que te aconteceu, Afonso? Estás com uma cara péssima.

Ele deu um passo ao lado e deixou-o entrar.

– Problemas com o meu pai, o de sempre.
– Entendo.
O inglês sentou-se no sofá individual e tirou o seu casaco, logo sendo acompanhado por Afonso que se sentou no sofá onde estava anteriormente.
– Agora vives na sala? – o loiro perguntou, apontando para um montinho de cobertores.
– Nãh, é o Luci que fica aqui.

Diferente da última vez, Arthur não disse nada a respeito do brasileiro viver com Afonso, porém Luciano dormir no sofá significava uma coisa: eles, pelo menos por enquanto, não haviam ido para a cama.

– Que estás a fazer cá, Arthur? – o português não estava com o melhor dos humores, mas Arthur apenas riu.

– Estou precisando de companhia. Vamos para um bar?

Afonso soltou um gemido de insatisfação, trazendo os pés para cima do sofá.

– Não estou com cabeça para isso.

Arthur sorriu de canto:

– Ora, vamos lá, Afonso. Sabes como uma boa bebida nos faz esquecer de tudo.

– Eu... Eu não tenho vontade.
Arthur suspirou mas não desistiu e passou para o sofá maior, sentando-se ao lado do português, o seu braço logo se pousando dobre a cintura dele.

– Vá lá Afonso...

Afonso sentiu seu corpo aquecer, assim como suas bochechas corarem. Ele não sentia por Arthur o mesmo calor que por Luciano, eram coisas diferentes, mas sabia que o inglês mexia consigo de alguma forma.

Ele concordar foi apenas mais uma prova disso.

– E-eu só vou trocar de roupa. – murmurou e se apressou para ir até seu quarto, deixando um sorridente e malicioso inglês em seu sofá.

Luciano fez intervalo depois de cantar quatro canções e regressou ao seu lugar junto a Michelle que lhe sorriu abertamente, de tal como encantada com a voz do brasileiro que os seus olhos até brilhavam.
– Foi tão lindo, Luci!

O braseiro sorriu acanhado, não concordando com os elogios de Michelle. Ela, entretanto, continuou a bajulá-lo, inflando um pouco o seu ego.
– Tens a voz de um anjo, Luci!
Luciano corou e riu:
– Não exagere, Michelle...
Michelle sorriu, e logo Miguel pediu licença por “atrapalhar o casal”, deixando ambos acanhados.
Explicou que havia um casal a comemorar aniversário de casamento, e pediu uma canção romântica... De preferência em inglês, já que o casal era estadunidense e mal entendia "obrigado".
– Tá, eu tenho uma idéia do que cantar. – sorriu e bebeu mais um pouco.

– Tens? E qual é a música? – Michelle perguntou, pestanejando os olhos com curiosidade e o brasileiro apenas lhe piscou o olho antes de sorrir e comentar:

– Surpresa~

Michelle fez biquinho, mas sorriu.
Luciano terminou sua bebida e voltou para o palco.
– Soube que um casal aqui está de aniversário~ – o pessoal do bar bateu palmas.
– Luci? – Afonso, que chegava no bar com Arthur, reconheceu a voz do brasileiro.
– Senhor e senhora – leu um papel – Wayne... Podem levantar a mão, por favor?

Duas pessoas levantaram a mão no fundo do bar e Luciano sorriu-lhes, perguntando quantos anos de casados faziam.
Arthur resmungou alguma coisa. Tinha-se completamente esquecido que o brasileiro trabalhavam ali mas bem... Agora era tarde demais.
Sentaram-se ambos numa mesa e Arthur de imediato arrastou a cadeira para perto de Afonso... Demasiado perto.
– Arthur? Onde está o Francis?

O inglês chamou o garçom e pediu um uísque para si e outro para Afonso, que sequer pode protestar. Enquanto bebia, resmungou.

– O sapo está trabalhando, como sempre.

Afonso rolou os olhos e voltou a encarar o palco, onde o brasileiro tentava conversar com o casal, uns erros de inglês bem descarados... Mas sua simpatia valia a péssima estrutura das frases.

– Bem... Como hoje é uma noite especial, gostaria de uma companhia especial para a música do casal Wayne. – sorriu para Michelle, que corou – Michelle, você pode me acompanhar?

O inglês não gostou nada da expressão de Afonso.
Ele era seu amigo e não gostava de o ver triste, era certo, mas vê-lo ficar assim tão tristonho por causa do brasileiro era algo que não agradava ao britânico.
Pela primeira vez Afonso via Michelle, enquanto ela subia acanhada para junto de Luciano. Era muito bonita e de aparência delicada e por isso o português não se admirava nada que o mais novo se tivesse apaixonado por ela.

Afonso percebeu que Luciano sussurrou algo para Michelle enquanto ajeitava o microfone para ela, e a moça sorriu. Ela tinha um sorriso tão jovial e bonito quanto Luciano...

Luciano pôs-se ao lado de Michelle e iniciou a canção, seu inglês melhorando consideravelmente.

“Why do birds suddenly appear”

Então Michelle, tímida, prosseguiu:

“Every time you are near?”

– Arthur...?
O inglês pousou a cabeça no ombro dele para o ouvir melhor:

– O que foi?
Depois de um suspiro quase inaudível Afonso murmurou:

– Eu quero ir embora.

Arthur piscou e sorriu de canto. Estava sendo um canalha, mas sentia ciúmes da relação de Afonso com aquele brasileiro, e aquela estava sendo uma ótima oportunidade de separá-los.

– Certo, só tome seu uísque.

O português mordeu o lábio inferior, os olhos ainda fixos nos jovem a cantar.

“Why do stars fall down from the sky

Every time you walk by?

Just like me, they long to be

Close to you”

O casal de aniversário se divertia, assim como o restante do público. Luciano cantava bem e, embora Michelle não fosse tão afinada quanto o moreno, eles tinham uma certa harmonia. Eram um casal perfeito.

“On the day that you were born

The angels got together

And decided to create a dream come true

So they sprinkled moon-dust

In your hair of gold

And starlight in your eyes of blue”

Afonso apertou o copo de uísque em suas mãos, sentindo os olhos umedecerem.

Tudo piorou quando, ao término da canção, os jovem foram ovacionados e um coro de “Beija! Beija!” fez-se presente. Os amigos enrubesceram, sorrindo acanhados para a plateia, porém Michelle viu ali uma ótima oportunidade de se declarar. Reunindo toda a coragem que as margueritas lhe deram, Michelle dependurou-se no pescoço de Luciano e lhe beijou.

Talvez porque os lábios de Michelle eram macios, talvez porque estava carente e sensível pelos acontecimentos recentes, Luciano suspirou e puxou Michelle para si pela cintura, retribuindo o beijo, o que fez boa parte do bar gritar de alegria.

O português nem chegou a beber o whisky. Levantou-se e discretamente saiu.
Arthur deu um estalido com a língua e foi a correr atrás dele, agarrando-lhe o braço.

– Onde vais?
– Embora...
O inglês começou a levá-lo para o carro.

– Vem, eu dou-te boleia.
Afonso não disse uma única palavra durante o caminho todo de regresso e isso irritou Arthur, pois mal estacionou o carro em frente à porta dele o encarou:

– Afonso... O que foi? Tu não gostas mesmo daquele brasileiro, pois não?

O português balançou a cabeça em negação, o rosto voltado para a janela. Ele lutava contra as lágrimas, uma vez que não havia motivos para ele estar triste: Luciano nunca gostaria de si, e ele já sabia que o brasileiro estava apaixonado por outra.

Então, por quê doía tanto?

Demorou quase dez minutos para se controlar e acalmar um pouco. Para juntar a isso ainda havia o facto que lhe pesava na consciência estar ai com Arthur sem Francis saber.
E isso teria de terminar.
O seu coração estava numa tal confusão que ele tinha começado a decidir que não ia lutar nem por Arthur nem por Luciano.
Não se admirou que o inglês o tivesse levado até porta de casa e entrado. Também não se admirou que, mal a porta fechou, foi pressionado contra a parede. Os lábios quentes do loiro foram parar ao seu pescoço, enchendo-o de chupões grandes e vermelhos.
Porém, Afonso não se conseguia sentir bem com isso.
– Arthur... Pára.
– Por quê? – o outro murmurou baixo junto à sua jugular.
Delicadamente, o lusitano afastou-o de si após espalmar as mãos sobre o peito dele:

– Temos de acabar com isto. Arthur... Pensa no Francis.
Com um suspiro irritado, ele respeitou-o e cruzou os braços, dando dois passos atrás.

– Já fizemos isso antes, o que muda agora? O brasileiro?

Afonso encolheu-se, a culpa pesando. Embora gostasse de Francis e se detestasse sempre que cedia a Arthur, eles estavam há um bom tempo naquela traição horrenda. E, também... Ele se lembrava da expressão de desgosto de Luciano sempre que alguma coisa acontecia entre si e o inglês, e aquilo o magoava ainda mais.

– Não... Nós só...

Arthur sorriu de canto. Não era a primeira vez que Afonso se fazia de difícil, mas ele sempre conseguia o que queria.

– Vá lá, Afonso. – o inglês voltou a se aproximar de Afonso, que baixou o rosto – Francis nunca soube, e não vai saber. – acariciou a pele perto da base da orelha de Afonso, um local supersensível. Claro que o português suspirou e estremeceu, e Arthur se aproveitou disso – E o brasileiro já está encaminhado. Aquela era uma bela rapariga, formam um belo casal. – Afonso fechou os olhos, e o loiro sorriu outra vez, beijando-lhe o queixo – Nós só temos um ao outro...

Abanou com a cabeça em resposta e saiu de perto dele, refugiando-se no outro lado da sala.

– Não... Arthur. Isso não é verdade. Tu tens o Francis e é com ele que deves estar. Por favor, pára de insistir.
– Afon--
– Eu não vou mudar de ideias.

Arthur franziu o cenho, irritado com tudo aquilo.

– Não me digas que estás apaixonado pelo negro.

Afonso também torceu as sobrancelhas, cheio de tudo aquilo:

– Chega! Para de tratar o Luci assim!

– Tratar como? Como o negro incompetente que ele é? – o português piscou – És um inútil masoquista, Afonso. Vai para a cama comigo mesmo sabendo que estou com o Francis e agora estás a te rastejar pelo brasileiro.

Afonso não teve reacção. Ficou simplesmente a encará-lo, empalidecendo cada vez mais e mais.
O inglês sorriu maliciosamente:

– Quem cala consente, não é? Até mais. – rodou nos seus calcanhares e saiu, batendo com a porta da entrada.

Na rua, acabou por se encontrar com Luciano, que voltava do bar.

Após o beijo entre ele e Michelle, o brasileiro afastou a amiga, pedindo-lhe desculpas. Eles conversaram e Luciano deixou claro que gostava dela apenas como uma amiga, e reforçou que gostava de Afonso. Michelle entendeu, mas não conseguiu esconder sua tristeza. Ela despediu-se de Luciano com um aceno rápido de cabeça, mas não deixou claro se eles voltariam a se ver durante a semana.

Aquilo destroçou Luciano.

Ao ver Arthur chegando em seu carro, Luciano pensou que havia acontecido as piores coisas: Arthur estava traindo Francis mais uma vez... e que havia levado Afonso para a cama.

– O que faz aqui? – o brasileiro já chegou acusando, as mãos fechadas em punho.

Claro que Arthur se aproveitou da situação:

– O de sempre, puto. – sorriu malicioso, ajeitando as calças como se elas estivessem desarrumadas – Vim ficar com o Afonso.

– E-está mentindo...

Arthur riu malicioso e piscou-lhe o olho:

– Aproveita que pode ser que aquele masoquista ainda abra as pernas para ti também.
Antes que Luciano tivesse tempo de dizer alguma coisa, entrou no carro e arrancou, não dando sinceramente a mínima para o que o brasileiro pensava de si.
Já na cozinha, Afonso tentava escalar o balcão para chegar aos seus calmantes, mas tremia tanto e a sua visão estava desfocada por lágrimas, que escorregava sempre para o chão.
Tentou agarrar-se na maçaneta do armário, mas a porta abriu sem querer e caiu um copo, que se partiu sobre o balcão e ele escorregou outra vez, cortando a mão com os vidros.

Luciano hesitou ao entrar na casa de Afonso. Ele tremia de raiva, assim como sentia os olhos úmidos, e cogitou desistir de encarar a realidade. Afonso nunca seria seu, e ele gostava de Arthur a ponto de se humilhar pelo inglês e trair um bom amigo como Francis.

– Isso é nojento... – ele murmurou para si mesmo antes de abrir a porta.

Ele desistia... desistia de tudo.

Entrou na casa no mesmo instante que o copo caiu e Afonso se cortou, o barulho do vidro se partindo chamando a atenção do brasileiro, que correu até a cozinha.

– Afonso?

O português estremeceu com a voz de Luciano e isso fez-lo chorar mais ainda e tentar desesperadamente subir ao balcão, sem se importar com os cortes que agora sangravam.

Luciano piscou e, sem pensar, correu em socorro ao português.

– O que você fez?!

Ele não sabia o que fazer: se por um lado queria ajudar Afonso e ficar com ele, por outro estava realmente magoado com tudo aquilo. Desejava conseguir ser rude com o mais velho, dizer o que sentia e xingá-lo por ir para a cama com Arthur outra vez – o pescoço marcado dele deixava claro o que havia acontecido.

Mas não conseguiu...

– Venha, precisamos limpar isso...

– N-Não... – soluçou e tentou afastar-se.
Arthur tinha razão, o seu pai tinha razão... Ele era um inútil e nem mesmo Luciano o queria. Era patético.
Por que é que alguém quereria uma pessoa como ele? Não fazia sentido.
Sentia-se mais leve por ter “terminado” com Arthur, mas aquilo ainda lhe doía.

– Afonso – para onde havia ido o “chefinho”? – nós temos que limpar isso.

Afonso debateu-se entre os braços de Luciano. Não queria que ele o tocasse, não queria que ele sentisse pena de si. Aquilo já era humilhante demais.

– Afonso, nós--

– Não! – Afonso soluçou outra vez e empurrou Luciano pelo rosto, acabando por sujá-lo de sangue – Deixa-me!

Sentia nojo de si próprio e começou a arranhar o próprio pescoço, como se isso lhe fosse tirar aqueles chupões horríveis e indesejados.
– D-Deixa-me... – soluçou baixo e encolheu-se.

Luciano baixou o rosto e se levantou, afastando-se de Afonso. Ao ver-se sozinho na cozinha, o português chorou ainda mais. Agora sim estava por si só.

Ele, entretanto, não ouviu a porta da frente bater, porém estava tão magoado e ocupado chorando, que não ouviu quando Luciano voltou a se acocorar ao seu lado, evitando contato visual consigo.

– Eu preparei a banheira.

– Não vai sair. – ele murmurou e afastou as mãos do seu pescoço que agora estava ensanguentado por causa das mãos mas que tinha arranhões feitos pelas suas unhas – N-Não é preciso, eu... – abraçou os joelhos e escondeu o rosto – N-Não te queria sujar, desculpa.

Sentiu seu corpo sendo envolvido, e ergueu ao rosto quando percebeu que Luciano o estava pegando no colo.

– Você precisa de um banho.

O calor de Luciano mexeu consigo novamente e ele escondeu o rosto com os braços, não tendo coragem nem força para se opor.
Os nervos faziam-no tremer como se tivesse frio e mesmo tentando controlar os soluços... não conseguia.

Luciano só o soltou quando entrou no banheiro, deixando Afonso sentado no vaso sanitário. Colocou sais de banho na banheira para formar espuma e deixou uma toalha limpa ao alcanço do mais velho.

– Tome um banho, sim? – murmurou e se afastou, dando total privacidade ao europeu.

Seguiu para a sala e suspirou, limpando o sangue de Afonso com o dorso da mão direita. Foi até o telefone e discou o número de Antônio – que ele apenas sabia porque estava na memória do aparelho. Explicou por cima o que havia acontecido ao português e o irmão caçula deste garantiu sua presença em dez minutos... tempo o suficiente para que Luciano arrumasse sua mala... e fosse embora.

Quando António chegou, não esperava sinceramente ver toda aquela confusão.
Foi difícil convencer Afonso a aceitar ajuda mas o espanhol já tinha muita práctica em fazer o seu irmão teimoso mudar de ideias.
Depois de lhe ter cuidado das feridas e o ajudado a limpar-se, tirou-o da água e enroscou-o numa toalha, caminhando para o quarto.
– Onde-- Onde está o Luci?

Antônio mordeu o lábio inferior quando ouviu a pergunta. Desejava que seu irmão não a fizesse, porém sabia que ela era inevitável: havia algo entre eles, e até mesmo o espanhol conseguia ver isso.
– Quando eu cheguei, ele já não estava...

Pousou o português com cuidado sobre a cama e deitou-se junto dele, tapando ambos com o edredon.
T inha avisado Lovina que ficaria com o seu irmão durante a noite e no dia seguinte, pois era a sua folga e ele não queria deixa-lo sozinho. Não depois de Luciano ter dito no telefonema que apareceu um homem na Colubris. Ele sabia bem quem era esse homem.
Afonso agarrou-se na camisola dele:

– Onde é que é foi?

O mais jovem o abraçou de forma protetora. Sabia o quão sensível seu irmão era.
– Eu não sei... Ele ligou lá para casa, preocupado contigo, mas não estava cá... – tentou acalmá-lo – Ele deve ter ficado assustado e já volta...

Assustado... Para Afonso não fazia sentido. O mais provável era ele ter chegado à mesma conclusão de Arthur e se ter afastado de si por nojo.
Escondeu o rosto no peito do irmão e soluçou:

– Ele não volta...

Antônio não sabia o que fazer, apertou o abraço e garantiu:
– Vai ver ele só quis te dar privacidade... Amanhã tu já vais ver ele...

Abanou com a cabeça. Ele não viria... Afonso nem sabia se o queria ver também.Talvez fosse doloroso demais.
Vendo o seu irmão tão frágil, António não conseguiu sossegar enquanto ele não adormeceu, horas mais tarde.